segunda-feira, 17 de abril de 2017

Fátima, Torremolinos e as claques de futebol

Ando algo arredado da escrita. Não propositadamente. Apenas porque é assim, pelo menos comigo. Nunca fui capaz de escrever por atacado ou porque tem de ser. Admiro a disciplina de quem o faz e consegue fazer quase livros à la carte. A mim, a escrita nunca me veio por horários nem por calendário. Isto acontece-me assim, mesmo que assunto não falte, como é o caso... Tanta coisa a acontecer, em tantos campos e vertentes... Tanta coisa a despertar a vontade de escrever... Talvez porque a minha vida não dependa disso (com o sucesso monetário do que escrevo, já teria morrido de fome!) ou então, melhor, porque me sinto mais instrumento das palavras do que autor delas. Vão surgindo, devagar, suscitadas por qualquer coisa, boa ou má, e vão ficando, pairando até, à espera que possam tomar forma real, objectiva, e eu as possa escrever, num exercício subjectivo e objectivo ao mesmo tempo. Uma visão delas, que vão fazendo a sua aparição, ante o meu esforço intelectual e de raciocínio de as escrever.
Vem isto a propósito do artigo do Expresso, em entrevista ao Doutor Anselmo Borges, insigne filósofo e pensador, e que também é padre. Nela acaba por, de forma desempoeirada, questionar a compreensão comum do fenómeno de Fátima. A conversa vinha a propósito da crítica, melhor, do espírito crítico (ou falta dele) e da forma como a Igreja (em maiúsculas porque estou a referir-me à instituição) lida mal com ele. É precisamente o espírito crítico (e não a falta de fé) que lhe permite fazer a distinção extraordinária entre a aparição (objectiva) de Maria em Fátima e a visão (subjectiva) que os pastorinhos tiveram em Fátima, ou seja, a forma como vivenciaram uma experiência pessoal de fé. Assim, é perfeitamente possível “ser um bom católico e não acreditar em Fátima, porque não é um dogma”. Permito-me citar a entrevista do Expresso (16/04/1017), para dizer isto: não se nega o fenómeno de Fátima, note-se, põe-se em causa a objectividade da aparição em contraponto com o que poderá ter sido uma vivência pessoal (uma visão) de fé daquelas crianças, no contexto e nos paradigmas da época.
Nada para mim poderia fazer mais sentido. Talvez porque, eu próprio, fui depurando a minha forma de crer em Deus (fé) de roupagens, religiosidades, preconceitos, ideias feitas e, porventura, controladas, apenas para tentar chegar a um conceito de Deus com o qual me sinta confortável, depois de ter passado (e passar) dificuldades na vida nas quais Deus não teve, absolutamente, nenhum papel. Percebi que, por mais que rezasse, ou pedisse, ou firmemente acreditasse e me abstivesse de determinadas coisas ou comportamentos, nada mudaria. As coisas aconteceriam exactamente como tinham que acontecer; os problemas estariam aí para resolver; as dificuldades não desapareceriam; as pessoas de que gosto e me fazem falta, foram morrendo à mesma. A religião responde-me que nada disso era suposto ter acontecido de outra forma; o que mudaria com as minhas preces fervorosas seria o não sentir-me sozinho. Deus estaria comigo, caminharia comigo, partilhando o meu sofrimento e tornando-o suportável. Durante um tempo, isso bastou. Foi deixando de bastar, à medida que se sucediam (e sucedem), uns após outros, episódios tristes, de sofrimento, de perda, de dificuldades, de desemprego... De muitas vezes, procurei ajuda na oração. De nenhumas tive resposta. Percebi (fui percebendo), que não é Deus que está errado. Sou eu. Eu é que precisei de depurar o meu conceito de Deus; a forma como ele se poderá expressar na minha vida e a maneira como eu hei-de relacionar-me com ele. Hoje temos uma relação de mútuo respeito. Ele faz a vida dele; eu a minha. Não duvido em nada da sua existência. Mas não mudo a minha, por causa disso. Esta depuração, trabalho em contínuo aperfeiçoamento, sempre mutante com as circunstâncias da vida, a reflexão, o espírito crítico e teológico (sim, também tenho!), o contexto do mundo em que vivemos, permite-me este conceito de Deus com que me sinto confortável e no qual a religião ocupa um lugar verdadeiramente marginal. Nem eu estou inteiramente certo e todos os outros errados; nem os outros certos e eu errado. Também aqui há uma subjectividade própria de uma vivência pessoal.
Tenho já dito que escrever é expôr-se, em alguma medida. O texto de hoje é claramente uma exposição, íntima, revelando um pedaço do turbilhão em que o meu raciocínio se move. Neste caos, há sentido para mim. Há, no entanto, alguma segurança neste expôr-me, porque o número de pessoas que lerá é francamente irrelevante e, para os que lêem, o que lhes importa é o gosto por ler o que eu escrevo e nada podia ser mais circunstancial do que a minha experiência pessoal.
As redes sociais, sobre as quais me debrucei à tão pouco tempo (veja-se, por exemplo, o texto do dia dos namorados) são pródigas e rápidas nos comentários. Tenho lido coisas absolutamente incríveis sobre a entrevista do Doutor Anselmo Borges, também padre. Atrevo-me a dizer que a maioria desses comentários provém de pessoas que não passaram além do título ou, então, passando, não entenderam nada do que leram. E isso é triste. É verdade que os espíritos críticos, dotados de muita inteligência, nem sempre são compreendidos. Normalmente não o são. Seja porque escrevem ou falam com categorias semânticas e de raciocínio pouco usuais para o dia-a-dia, seja porque o seu pensamento e a forma como o expressam requer que, ao ler, se utilize realmente a inteligência. Enfim, a liberdade de opinião é algo bonito e desejável, mesmo que seja de pessoas que têm tanta dificuldade em lidar com o espírito crítico e em aceitar uma opinião diversa ou abrir o seu pensamento e o seu raciocínio à novidade e à diferença. É exactamente isto que o Papa Francisco tem feito e é exactamente por isto que o seu discurso é pouco aceite e tem tanta dificuldade em entrar numa certa parte do catolicismo moderno, e não apenas na Igreja institucional. É uma pena ver que há cristãos leigos que continuam com as janelas encerradas ao mundo, um bocadinho à maneira do espírito anti-moderno do século XIX e do Papa Pio IX... E é também exactamente por isto que o Papa Francisco tem tanta aceitação fora da Igreja. A mudança está aí. Somos seres resistentes à mudança, por natureza. Mas ela acontece, apesar disso. Adaptarmos-nos a ela ou não é o desafio. A forma como escolhermos, definirá as pessoas que queremos ser.
A propósito da liberdade de opinião não poderia ficar de fora desta reflexão o fenómeno das claques do futebol, de que tanto se tem falado, por causa do mau-gosto na escolha das frases com que vituperam nos jogos. É bem sabido, entre os que me conhecem, que eu não gosto de futebol. Isso dá-me uma certa capacidade de ver além das rivalidades e olhar para o futebol como aquilo que ele realmente é: um jogo. De emoções, de rivalidades, de milhões de euros, envolvido num sub-mundo, mais ou menos delinquente e quase marginal, de apostas, de drogas, de negócios por baixo da mesa, trocas de influências, insultos, galhardetes, pressões... a coordenar uma parte significativa disto as claques, legalizadas ou não, dirigidas por indivíduos na sua maior parte com cadastro, sem qualquer outra ocupação profissional. Fazem ainda parte desta “machina” enxames de comentadores e fazedores de opinião, em todos os canais, que vão difundindo determinadas ideias em detrimento de outras; veiculando certas formas de estar, pensar e agir e construindo verdadeiras correntes de opinião. O terreno fértil para tudo isto: uma massa adepta socialmente transversal e culturalmente multiforme, com uma característica comum: o amor pelo seu clube e o ódio pelo outros. A escolha das palavras não é ao acaso. Amor e ódio. Eis o que define o fenómeno do futebol, no meu entendimento. Um fenómeno sócio-cultural, julgo que mal estudado pela sociologia e pela psicologia, em muitos casos assumindo uma forma de relação com os adeptos que ronda a experiência religiosa, quase vivencial... Um jogo cercado por um autêntico polvo. No cerne de tudo isto duas coisas: as somas inimagináveis de dinheiro que movimentam esta máquina e que a máquina faz movimentar e, num núcleo mais pequenino, os jogadores, figuras semi-heróicas ou endeusadas, pagas a peso de ouro, literalmente. Poderá ser uma visão redutora; para um adepto convicto, será por certo uma visão horrífica, mas para mim, muito evidente, tentando ser tão imparcial quanto as circunstancias que tecem a minha visão sobre o assunto permitem. É certo que este fascínio pelo jogo, mormente pelo jogo de rivalidades, tem acompanhado a humanidade ao longo da História. Escuso-me de exemplos, deixando-os para um estudioso mais abalizado. Muito gostaria de ler um tratado académico sobe o assunto... É certo também que o poder político, épocas fora, tem aproveitado esse gosto peculiar da humanidade, servindo-se dele, acicatando-o por vezes, alimentando-os por outras, colhendo dele grandes dividendos. A nossa época, contudo, porventura por ter sido esvaziada da maior parte das referências ancestrais, está esfomeada de coisas que lhe deêm sentido e respostas e caminhos... De coisas que possam canalizar a dicotomia do amor/ódio, que a Igreja, em tempos idos, controlou, mas cujo papel há muito está esquecido.
Ora, não há coisa que mexa mais com as emoções do que um desafio de futebol. Para os adeptos, evidentemente, e que são, atreveria a dizer-me, a larga maioria das pessoas. Há, portanto, um vasto campo de oportunidades para o jogo. As últimas décadas parecem ter sido fecundas na forma como os múltiplos vectores que controlam o polvo que rodeia o jogo têm oferecido aos adeptos verdadeiras experiências de satisfação pessoal, conquistando-os, quase sem esforço, para alimentar a enormíssima “machina” do jogo, colhendo, entre outros, os frutos do seu amor/ódio. É aqui, neste campo, que entram as claques, recolhendo, sobretudo esse ódio, exacerbando-o ao ponto do ridículo e, mais do que isso, do irracional. Só isso explica as letras (se se pode chamar letras) daqueles urros que vão soltando nos jogos, verdadeiros gritos de ódio, e que a mim me lembram os relatos feitos pelos escritores antigos do que seriam os gritos de desafio entre forças antes dos combates, insultando-se mutuamente, procurando a desestabilização e a quebra do moral, provocando no outro lado, as mesmas invectivas ou piores. O fenómeno, trazido à escala do que hoje assistimos, é exactamente o que se passa. Insultos, verdadeiramente ofensivos, sem qualquer barreira moral ou ética, visando a provocação gratuita e até, quem sabe, a violência. A uns, respondem outros, numa escalada irracional mas, porventura, bem pensada e com um objectivo perverso por detrás. Abre-se aqui campo para a discussão na violência no mundo do futebol, verbal e física, uma outra vertente que acompanha este jogo. Ganha, assim, não a melhor equipa, mas a equipa mais bem preparada psicologicamente para aguentar este jogo e aquela que tiver a melhor máquina a abrir-lhe caminho. Para mim, este ano, isso é muito evidente. Há uma equipa que vai em primeiro e outra que lhe quer passar à frente. Usa, para tanto, todos os artifícios, sendo que o que passa no jogo de futebol propriamente dito é o menos importante, uma vez que, como já sabem muito bem, o estado de alma dos jogadores, pressionados por múltiplas forças e condicionados por diversas vertentes deste jogo, nomeadamente pelo trabalho das claques e dos fazedores de opinião, é que ditará o resultado: a derrota virá se forem capazes de desestabilizar suficientemente o adversário em campo e instilar neles a incapacidade para ganhar ou o sentimento de inferioridade. Isto, mais que a qualidade técnica e táctica, é que, hoje, determina o jogo, sobretudo, nas fases finais dos campeonatos, onde tudo parece valer. Tenho acompanhado, por exemplo, a estratégia de um outro clube, completamente arredado da possibilidade de ganhar o campeonato mas que nutre pelo clube que vai à frente um autêntico ódio irracional, que ultrapassa qualquer rivalidade desportiva que a razão possa compreender: a estratégia tornou-se a desestabilização daquele adversário por todos os meios possíveis, fazendo uso inclusivé de ferramentas ridículas, levantando questões que sabe, muito bem e à partida que não vão ter prosseguimento, mas aventando-os e tentando provocar um contínuo clima de polémica, na expectativa da quebra psicológica do adversário. Se acontecer, será para este clube, a derradeira vitória: a humilhação do adversário, quebrando a sua psiqué e provando ter uma “machina” mais eficaz. Há muito que o futebol dos dias de hoje se deixou de jogar nos campos.
Poderíamos pensar, eu no meu bom-senso pensaria, que os clubes quereriam demarcar-se desta realidade. O facto é que, não só não se demarcam como fazem vista grossa, facilitando estas realidades oficial ou oficiosamente. A questão não está em saber se as claques devem estar ou não legalizadas. A discussão deve ser que tipo de futebol queremos e se as claques, quaisquer que sejam e da forma como se organizam, têm lugar num futebol limpo... Dificilmente veremos esta discussão. Ganhar tornou-se o único objectivo, competir é quase irrelevante. Para ganhar, far-se-á o que for preciso.
Vamos assistindo, mais ou menos, impotentes, a este clima crispado, que perpassa todo o mundo, neste momento um pouco à deriva, tudo na expectativa do que pode acontecer, dependendo do que o senhor Trump decidir fazer. Percebeu, não sem uma boa dose de “espírito americano”, que as suas falhas como Presidente ponderado e para quem os seus concidadãos e o resto do mundo olham, podem ser colmatadas (ou, pelo menos, esbatidas) pela força, desviando o olhar para a panela de pressão que é o mundo. Mostrou, simplesmente, que não tem medo de utilizar as armas e a força que tem. Pode concordar-se ou não. Não consigo ainda, neste momento, perceber os efeitos que esta posição traz. Será, porventura, este o maior perigo dos populismos vazios: fazer coisas aparentemente justificadas, que talvez outros gostassem de fazer mas não têm coragem para fazer ou não podem, sem conseguirmos perceber onde é que esses actos de aparente justificação nos podem levar. Além disso, dogma número um do populismo, quando as coisas não correm como se promete ou não se consegue cumprir o que se prometeu (provavelmente por ser inverosímil ou porque os outros não percebem a grandeza do pensamento populista e colocam entraves que se olham como absurdos), nada melhor do que criar um outra questão onde a superioridade do que somos ou de quem somos basta para se afirmar, sem mais força de argumentos.
Uma última palavra para o hotel em Torremolinos e a questão dos finalistas. Não me alongarei. Tome-se um grupo de adolescentes em idade de se emanciparem; retirem-se do seu ambiente e da supervisão das figuras a que estão habituados e que têm como autoridade; lancem-se num ambiente propício, sem este entrave, com bebida e drogas à descrição e com a ideia já pré-feita de que, naquela viagem, tudo é possível. Juntem-se outros factores essenciais desta questão, como sejam as agências de viagens e o seu papel; as eleições das associações de estudantes ou das comissões de finalistas; o factor económico das centenas de milhares de euros que estes eventos geram... O que se espera? Um grupo de peregrinos?... Todos nós já vimos, melhor ou pior, imagens destas “viagens” na televisão... Eu, que tenho a desdita de viver num local que tem um dos maiores festivais de verão, já vi ao vivo coisas indescritíveis... Deito-me, apenas, a indagar: rituais de emancipação?... Diversão?... Limites?... “Viagens” de finalistas?...
Também aqui há muito terreno fértil para se discutir e reflectir. E também aqui, dificilmente, veremos esta reflexão feita.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Sobre o amor e outras coisas

        O Dia dos Namorados é daquelas datas que nos entraram na vida mercê do marketing, de influência estrangeira ou por força das omnipresentes e omnipotentes redes sociais. Celebram-se os namorados, lembrando, parece, a figura do bispo Valentim, que no século III desafiou o édito do imperador Cláudio proibindo os casamentos, como forma de forçar os solteiros a alistar-se no exército. Ou, então, celebrando outro Valentim qualquer, que parece não haver falta deles por esses séculos fora. Ainda assim, não obstante tão ilustres inícios, nunca foi uma coisa de muita expressão (para mim, pelo menos), celebrar o dia dos namorados e apelar ao Cupido (uma referência para os menos religiosos e dados aos mitos), não fosse a enorme pressão do marketing, fustigando com publicidade e promoções os consumidores, verdadeiras vítimas do Cupido, tal qual acontece noutras datas. Vivemos num tempo em que dificilmente haverá dia no calendário que não seja dia de qualquer coisa. Na verdade, todos são dias de qualquer coisa. São únicos e irrepetíveis, muitas vezes negligenciados e tantas outras vividos no desespero único de que aquele dia acabe, sem nos apercebermos que jamais voltaremos a ter a experiência daquele dia.
Compreendo o esforço do marketing. Deveras que compreendo. Vender tornou-se o paradigma do nosso tempo. Tudo é visto em função do ganho/perda. O que não compreendo é a alucinação colectiva que parece tomar conta das pessoas, como se o dia disto ou daquilo fosse a coisa mais importante do mundo. Na verdade, parece-me pouco que o namoro se celebre só um dia. Ou a saúde, as árvores, o ambiente, a água, a mãe, o pai, os avós... Que se escolha só um dia para ser do não-fumador... Claro, as datas surgirão para se chamar a atenção para determinadas ocasiões ou problemas... Certo. Mas o amor, que os namorados celebram, não é de todos os dias? Talvez devesse ser. Porque o amor é que funda e dá sentido às coisas, esteja-se ou não apaixonado, viva-se ou não um namoro. O melhor tratado que conheço sobre o amor resume-se numa frase de Agostinho de Hipona: Ama e faz o que quiseres. Simples assim.
Ando a aprender sobre o amor há muito tempo. Sobre ele têm escrito, ao longo do tempo, tão longe como a própria História, filósofos, teólogos, sociólogos, psicólogos, poetas, romancistas... Todos errados. E todos certos. Mas não passam (nem poderiam) de muletas, bengalas pequenas sobre as quais podemos apoiar-nos para fazer o nosso próprio caminho. Porque o amor não pode ensinar-se. Cada um ou aprende o amor por si próprio, ou não ama. Não se ama com palavras de outros. Deixem, portanto, de lado as citações fofinhas, os cartõezinhos medíocres, os postaisinhos pindéricos e amem. O amor, mais do que dizer-se, faz-se, cada um o seu e a seu modo, no seu tempo e na sua vida, seja num cheiro, numa palavra dita ou no silêncio de conversas caladas, ditas entre olhares cúmplices... Ama-se a saber esperar, a ser feliz hoje se a pessoa amada vier amanhã, na delícia da expectativa, como “O Principezinho”... Ama-se a pessoa toda inteira, como ela é, sem querermos mudar nela nada que a desvirtue... Ama-se quando se anseia pelo cheiro do cigarro mesmo quando não se fuma e se detesta o cheiro... Ama-se quando no silêncio, sem palavras, dois seres estão todos, inteiros, um com o outro, mesmo quando longe. Não se ama sem primeiro se aprender a estar sozinho, perdendo o medo da solidão. Não se ama sem primeiro perceber que amar dói, muitas vezes.
Para nada disto as citações piegas nos alertam. Ama, e faz o que quiseres. Ama todos os dias. Amanhã não poderás amar como hoje.
Feliz Dia dos Namorados.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

O Benfica, a Padaria e o senhor Trump na era dos comentadores

    Hoje as parangonas e as notícias de abertura do telejornal (meia-hora! vi eu,) tinham que ver com a derrota do Benfica. As redes sociais, esse grande veículo de tudo e todos, sem crivos, contenções de alguma espécie ou comum bom-senso, verdadeiros baluartes tanto da liberdade de expressão como da mais absoluta falta de respeito mútuo, empolgaram a coisa a níveis de absurdo, com manifestações exuberantes dos adeptos de clubes rivais, mesmo daqueles desde há muito afastados da competição, como se fossem eles próprios já vencedores, apenas e só pela derrota daquele clube. Nada de espantar, portanto, visto que o futebol é jogo de paixões. Jogo verdadeira e propriamente, porquanto se move e se alimenta numa teia de emoções, conversações e confabulações que têm em vista o ganho de muitos milhões, numa realidade de contraste gritante com a dos seus comuns adeptos. Ilusão de massas, servindo-se delas para fazer negócio à custa das exacerbadas emoções e devoções dos adeptos mais vivaços e doentios, alimentando verdadeiros ódios irracionais e viscerais contra adeptos de clubes rivais, tirando das derrotas destes mais prazer (ás vezes quase orgásmico) do que das conquistas do próprio clube. Estas são, muito resumidamente, as razões pelas quais jamais conseguirei entender o futebol e o considero uma excelente ferramenta de distração das massas. Muitos políticos o perceberam e, alguns, aplicaram-no com mestria, tornando-o parte duma famosa tríade dos três ff, noutros tempos... Mas adiante.
    Preocupa-me que o futebol seja mais distração, desviando a atenção para o acessório, para deixar escapar ou tapar em cortinas de gritos irracionais os verdadeiros problemas. Felizmente para nós, criaturas pouco dadas à análise do quotidiano, temos miríades de comentadores, de todos os quadrantes e de todos os campos possíveis e imaginários, para nos iluminar e esclarecer as mentes, verdadeiros protectores do cidadão despreocupado que, tendo que fazer alguma coisa pela vida para receber o ordenadito ao fim do mês, não se pode dar ao luxo de passar dias a fio a comentar assuntos, tentar fazer escola deles, influenciar opiniões e comentar os comentários que entretanto lhes fazem a eles próprios. Haja, pois, respeito, por estes verdadeiros servidores da causa pública, tal o seu empenho em esclarecer-nos a todas as horas e a qualquer pretexto, sobre tudo e qualquer coisa. Devia até, acho, ser considerada profissão e ser-lhes atribuído subsídio do erário público, tal o seu indispensável papel, mormente para aquelas pessoas que, tendo acabado o seu tacho, perdão, a sua colaboração ou comissão em determinado lugar ou cargo, se veêm agora investidos do poder e da capacidade de comentar. Não tardará a que nos substituam também na capacidade de pensar... Assistimos a uma autêntica ditadura dos comentadores, muito a par com a das redes sociais (e financeira, com as agências de rating, mas isso são outros quinhentos), em que se formam reais correntes de opinião, pelas quais é bom tom afinar e sem as quais não se chega a lado nenhum. Há sempre algum comentador que tece um pequeno comentário ou achega para corrigir este ou aquele comportamento do político ou do governante tal que, até está a fazer muito bem e desempenha muito bem o seu papel, mas seria melhor se... E os políticos ou governantes lã vão moderando isto ou aquilo para ver se calha bem... Governa-se a bel-prazer das opiniões e com o intuito do que melhor parece. Um bocadinho ao estilo daquele senhor eurodeputado que opina que o Presidente da República exagera no apoio ao Governo e portanto deve moderar-se... Ou outro fulano que acha que o Presidente da República excede as suas funções... Ou outro ainda que comenta que o Presidente deve fazer assim ou assado. Eu não sei. Nunca fui Presidente da República. E, portanto, o que eu acho ou deixo de achar não é mais que a minha opinião e não me passaria pela cabeça pôr-me a mandar recados ao homem sobre o que ele deve ou não deve fazer... Mas isto sou eu, que me lembro de na escola me terem falado dum tipo chamado Wittgenstein que achava que do que não se pode falar não há senão que calar... Ou qualquer coisa assim do género. Quanto mais não seja, por boa educação. Coisa que vai faltando... Apetece perguntar: Vossa Exª já foi Presidente da República? Foi eleito para o ser? Ah, não... Então... É que senão passamos todos a vida a discutir coisas de lana caprina. Ou então a arranjar polémicas novas como esta agora da Padaria Portuguesa e do Daniel Oliveira.
     Só ontem é que me dei conta desta questão que abalou os fundamentos laborais deste país e incendiou, claro está, as redes sociais, despoletando muito mais opiniões verrinosas do que a derrota do Benfica. Já li a opinião da Porteira, daquela página soberba da Criada Mal-Criada, que para mim é opinião de valor e consulto sempre nestas questões de tão difícil discernimento. Depois dei-me ao trabalho de ir ver a entrevista do homem, ler o comentário do Daniel Oliveira e ler a entrevista no Expresso. Ficou-me da escola esta mania de ir às fontes em vez de me segurar nos comentários. Enfim, como diz um amigo, o que me vale é ter a quarta classe... Não concordo com o homem, não senhor. Nalgum do conteúdo e muito menos na forma como desfia as sua posições. Confesso-me até amedrontado com a ideologia de pensamento por detrás daquelas opiniões. Para mim, seria impensável defender que a “flexibilidade” como ele a entende traria salários maiores. Que trabalhar 60 horas em vez de 40 (desde que as pessoas o quisessem, ressalva sempre) traria benefícios às pessoas, que levariam mais dinheiro para casa. Que a “rigidez” laboral (as regras que definem o trabalho) são um entrave à progressão das pessoas (colaboradores) e das empresas (achei curioso que se refira à sua empresa como “organização”) e que muitos dos seus colaboradores já têm outros part-time ou mesmo full-time (?) e que prefeririam ter um horário mais alargado na própria empresa, em vez da empresa ter custos muitos elevados com horas extraordinárias... Confrontado com a pergunta com a eficácia do trabalho em termos de produtividade em tantas horas seguidas, entende que o estudo da OIT que defende que o trabalho semanal com mais de 50 horas não é saudável, refere que essa é uma abordagem empírica, tal como é a sua (admite) ao achar que as pessoas são capazes de trabalhar mais de 40 semanais. Obviamente que são. São e, não raro, é o que acontece. Isto não quer dizer, contudo, que seja desejável. Em nenhum momento se fala de salário justo ou da justeza da remuneração auferida. Nunca se questiona porque razão as pessoas estão dispostas a trabalhar as tais 60 horas ou a ter outros trabalhos. Pois bem, no meu empirismo não é porque querem; estão dispostas porque precisam. Ou seja: o que ganham no seu trabalho a full-time não é suficiente para viverem. A solução, parece-me, não é trabalhar mais horas mas sim receber melhor, de uma forma mais justa e adequada. Nunca se fala em momento algum do que estender as horas de trabalho legalmente faria às outras dimensões do humano. Que lugar teria a família, a vida social e privada, o divertimento, o lazer, o cultivo pessoal?... Nada disso é, sequer, aflorado. Uma opinião focada em dois polos: o crescimento da organização/produtividade e a necessidade de flexibilidade. Ainda assim, isso mesmo. Uma opinião. A sua. Tem direito a ela. E aqui está o problema. Não se pode pedir ao gerente da Padaria os seus pontos de vista sobre o assunto e depois arrasar o homem sem mais. Claro que a sua opinião seria a do empregador! Outra coisa não seria de esperar. Não há opiniões assépticas, desprovidas da circunstância de cada um. O homem é sempre ele e a sua circunstância. Claro que a sua opinião atenta apenas em determinados pontos de vista (os do seu interesse e da sua visão). Claro que o seu argumentário é fácil de desmontar. Claro que tem vícios (alguns graves). Claro que temos de parar de andar com esta coisa da produtividade para justificar os salários baixos... Ou alguém acredita que o salário mínimo ou seja o que for perto disso motiva alguém a produzir mais?... Além disso, quando se atenta em estudos e artigos e tabelas e estatísticas, parece que, por cá, não se trabalha menos horas ou dias que nos outros países... produz-se menos. Porque será? Será de se ganhar pouco?... SERÁ?... Pois, não sei. Tal como nunca fui Presidente da República, nunca fui economista. Mas que a mim me parece que pagar ás pessoas um salário adequado ás suas necessidades as vai motivar a produzir mais, isso parece.
     Mas pronto, o homem tem direito à sua opinião, tanto mais que lhe perguntaram. Não concordo, não senhor... E talvez não tenha sido a melhor estratégia comprar uma briga entre comentadores... E as coisas que diz das pessoas que leêm o Daniel Oliveira... Se a isso juntarmos outros pequenos comentários que faz sobre a forma como as pessoas gastam o seu dinheiro... Bom. Fica o conselho: mesmo quando temos razão (nunca se está completamente errado ou certo, não é verdade?), não devemos dizer tudo o que nos vem à cabeça. Além disso, a Padaria não deve ser o paraíso laboral que parece transparecer da entrevista, ou então, doutro modo, seria dificílimo que houvessem vagas por preencher e não é o caso. Pelo menos, nos sites de procura de emprego, lá aparecem... Tínhamos aqui pano para mangas se quiséssemos continuar a esmiuçar a entrevista e o pensamento do gerente da Padaria, que diz de si ser padeiro.
     O que nos vale nesta panóplia complexa do nosso pequeno mundo, é o senhor Trump, esse sim um verdadeiro patriota. Ele e o bibelôt que arranjou a servir de primeira-dama. Se alguém tem dúvidas quanto ao papel da criatura na vida e acção daquele senhor, basta ver as imagens e verificar o à vontade com que a senhora se movimenta... Enfim... trumpices. Veremos o que dá. Pior do que a Padaria não há-de ser. Bom, como também não sou comentador, já me calo, que a conversa vai longa. Ah, para acabar: esta é a minha opinião. Quem gosta, gosta, quem não gosta, está servido, à boa maneira dum croissant ou de um pãozinho com manteiga, tudo com muita flexibilidade e produtividade.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

2016 e o Olimpo

    O final de ano é propício a balanços, tal qual como cada fim de ciclo. Temos necessidade disso, quase que estamos programados para isso. E bem. A oportunidade de ver o caminho feito e por onde se andou, para poder afinar qualquer coisa que esteja fora de rota.
    Os anos não são apenas só maus ou somente bons, como tudo na vida. Para mim, que veiculo a importância do cinzento, ante a dicotomia ditatórica do preto e branco (real e figurado), seria impossível não pensar assim. Não consigo dizer se o ano que termina foi bom ou mau, apesar da série impressionante de votos de pesar por tantas pessoas famosas que deixaram de viver em 2016. Parece que o ano se resume às pessoas que morreram e ao seu papel na forma como o mundo vive, como se não estivéssemos todos à espera, cada um, do seu tempo e do seu precipício (querido Cesariny!). A morte lamenta-se, naturalmente. Muito mais quando vivemos num tempo de ídolos artificiais, onde se projecta nesses poucos os anseios e as vidas de perfeição a que os muitos outros aspiram. Um bocadinho como os deuses do Olimpo grego, ou do panteão romano. Não difere muito da plêiade de deuses, semi-deuses e heróis míticos da Antiguidade. Serviram o seu propósito, tal como os famosos modernos da nossa sociedade servem o seu.
    Para mim, também não foi especialmente fácil o 2016, não foi, não senhor... Foi de lutas, de muitos apertos, de lágrimas algumas, risos outro tanto, e também de algumas conquistas. Foi o ano de sentir a ajuda de alguns verdadeiros amigos, de concretizar o sonho de salvar a casa dos meus avós, graças a isso... Foi o ano de chegar aos quarenta, de ver a barba embranquecer, de ver o corpo moldar-se à meia idade, de me sentir maduro e a navegar na tempestade, não já à vista, mas de leme na mão, como que a meio duma viagem que teima em não ser fácil... Mas venho de tantas tempestades, que aprendi a gostar da chuva. Houve alegrias, e houve sobretudo problemas, problemas, problemas... Houve a capacidade de os afrontar e procurar soluções. Houve enganos, atropelos, desilusões...
    Estou, portanto, no cômputo geral, grato. Ao meu irmão, primeiro, e aos meus amigos por fazerem parte do pequeno mundo em que me mexo. Agradecido igualmente às pessoas com quem me cruzei: às que me ajudaram, pelo bem que me fizeram; às que me prejudicaram ou enganaram, pelo mal que me causaram e pela lição daí saída. É impossível que o nosso ano, este ou outro qualquer, não seja tocado por coisas boas e coisas más, por pessoas que nos querem bem e outras que não sabem o que isso é. É assim.
    Não sei dizer se 2016 foi bom ou mau. Não foi bom, com certeza. Não foi apenas mau, evidentemente. Possamos, pois, encontrar sempre o nosso tempo, mesmo que tenhamos que esperar por ele. E que 2017 seja, pelo menos, fecundo de encontros. Possamos prosseguir serenos, um dia de cada vez, procurando ser tão felizes quanto possível, desviando-nos dos obstáculos que teimarão em deitar por terra as esperanças que se renovam sempre no início de cada ano.
    Feliz Ano de 2017!

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Bizarrias de Halloween

    Dentre as tarefas domésticas que mais me aborrecem conta-se fazer a cama. Desde logo pela sua inutilidade, visto que é necessário fazê-la para a desfazer, todos os dias. Naturalmente, nada se compara a uma caminha bem feita, com os lençóis muitos esticadinhos. Mas que é aborrecido, lá isso é. Faz-me pensar na inutilidade de tantas coisas que nos habituámos a fazer diariamente. Na forma como nos fomos tornando reféns de coisas que não fazem absolutamente falta nenhuma. É verdade que não é o caso do fazer da cama. Serve um propósito, uma utilidade. Mas muitas outras coisas não. Veja-se, por exemplo, certos fenómenos de popularidade... Só há dias ouvi falar duma criatura chamada Maria Leal. Quem me conhece sabe que estou sempre alheado dos fenómenos televisivos, uma vez que o que me interessa ver na TV raramente atinge picos de popularidade. Assim, fenómenos como a dita senhora, passam-me quase sempre ao lado, como este passaria, não fosse alguém comentar qualquer coisa do género “ainda é pior que a Maria Leal”... Lá me inteirei de quem é e do que faz. Ninguém me soube explicar ao certo donde apareceu. Mas a internet ajudou. Rapidamente me apercebi que o meio donde apareceu dificilmente seria mais esclarecedor. Fiquei a saber que teria sido namorada dum fulano que esteve num reality-show da TVI, que entretanto já estava com outra ou queria estar... Qualquer coisa do género. O primeiro pensamento que me ocorreu, enquanto me inteirava da história e conhecia os protagonistas da história, foi considerar o fraco gosto do fulano... Entre uma e outra, enfim. Mas bom, gostos não se discutem. Fiquei esclarecido. Não admira que não fizesse a mais pálida ideia de quem era a bizarra celebridade. Vi uns vídeos no Youtube e as palhaçadas habituas num programa mais ou menos histérico do Goucha e sua partener e chegou-me para perceber. Aliás, a referida estação de televisão tem sido profícua em brindar-nos com uma panóplia de celebridades instantâneas verdadeiramente de arrepiar. O que se adequa, visto termos chegado ao Halloween. Ainda um dia gostava de ler um estudo antropológico (sério) sobre o impacto destes programas na sociedade e na forma como, ao que parece, muito são do agrado de tanta gente. Só isso, a mim, já me admira, quanto mais os programas e os participantes em si.
    O Halloween é aquela festividade anual que não existia quando eu era criança. Ou melhor, existia, evidentemente. Eu é que não fazia disso ideia. Nem eu nem a maior parte das pessoas da pacata terra onde cresci. Aí, celebravam-se os Santos. Nunca cá se falou de abóboras iluminadas e desfiles de máscaras fora de época. Ia-se de casa em casa, com uma bolsa, pedir os santinhos, ou o bolinho... E era isto. As mães e avós iam ao cemitério tratar das sepulturas dos mortos, carregá-las de flores e ia-se misturando Santos e Fiéis defuntos como se fossem uma só coisa. Halloween é que nem vê-lo. Uma vez mais, a TV e, talvez melhor, a internet trouxeram-nos esta moda anglófona. O marketing comercial fez o resto. De tal modo que hoje o que se celebra é o Halloween. Por mim, tudo bem, até porque, na origem é também uma festa relativa aos mortos... Parece que vem do tempo dos druidas, com rituais bizarros e sacrifícios de crianças, muito distante das gostosuras ou travessuras de hoje. Mas não se sabe ao certo, como tudo aquilo que é longínquo no tempo e as tradições e poderes posteriores instituídos se esforçam por apagar. Os romanos terão posto fim aos sacrifícios, o cristianismo sacralizou os rituais e as origens perderam-se. Ganharam as crianças, que têm assim dois carnavais, muitas abóboras iluminadas e montes de doces para se deliciarem. O Halloween celebra hoje o bizarro, e explora os mitos e crenças de outrora, exacerbando-os e dando-lhe roupagens mais pitorescas. Não me espantaria ver numa festa qualquer da TV alusiva ao Halloween a participação da Maria Leal, celebrando a sua própria bizarria. Obviamente, apesar de tudo o que se diz dela e do gozo incendiado nas redes sociais, o certo é que os vídeos têm milhões de visualizações e os seus patrocinadores (há-de havê-los, que a criatura não caiu do espaço) vão tirando dividendos disso. Consigo ver nisto uma certa estratégia, um bocado “trumpesca”: vão dizendo mal de mim, desde que digam... E resulta, ao que parece. Quem me poderia convencer que o senhor Trump poderia alguma vez ser Presidente dos EUA? E, no entanto, ele aí está... Claro, ainda não foram as eleições, não ganhou nada ainda... Provavelmente (espero!) não ganhará. Mas o susto... Esse já ninguém nos tira. Ouço e leio comentários sobre o “como foi possível” que alguém como o dito senhor chegasse até aqui, quase tudo a arrepelar os cabelos, mas pronto, ele lá vai prosseguindo na sua bizarria incendiária e populista, colhendo dividendos duma sociedade cansada, esgotada e vazia. É o vazio, e a subsequente indiferença, que permite que cada vez mais as sociedades vão entrando em falência nos seus modelos... Que cresçam fenómenos como a Maria Leal ou o senhor Trump. Uma porque diverte, o outro porque atiça. E, na surdina, há uns poucos que, sabendo disto, vão levando a água ao seu moinho, depauperando carteiras e consciências, retirando direitos e restringindo liberdades. Tudo em nome de uma certa estabilidade e do manter de um modelo sócio-económico-político sem respostas e perverso.
    Consola-me saber que a Maria Leal anda aí só para nós, que o senhor Trump continuará a apalpar as meninas e a dizer barbaridades ocas e perigosas e que as crianças continuarão felizes a pedir doces à luz de abóboras iluminadas em vez de serem queimadas em fogueiras. Valha-nos isso, ao menos. Tudo me parece inútil. Tal como fazer a cama. Mas, pelo menos, fazendo a cama, sei que terei os lençóis direitinhos... Quem boa cama faz... Happy Halloween! E feliz Dia de Santos.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Chuva, rostos e exoplanetas

Saí para a rua apesar da chuva. Apetecia-me ver gente. Gente. Apressados, para cima e para baixo. Uma nuvem de guarda-chuvas, impermeáveis, corta-ventos. Tudo em passo ligeiro. Também me apressei, porque não tinha guarda-chuva. Entrei no metro. Na minha carruagem estavam quatro raparigas e um rapaz, com três gerberas na mão, galhofando. Não sei porque razão levavam as flores. Um grupo de alunos em praxes entrou de penico azul na cabeça, saudando “A Matemática deseja-lhe boa viagem”, e em cada paragem “A Matemática deseja-lhe um resto de bom dia”. À frente, uma senhora ria-se. Quando saí, o grupo das flores ainda ficou na galhofa... “Deseja-lhe um resto de bom dia”...
Na rua, apenas os locais parecem incomodados com o aguaceiro. Por todo o lado turistas passam descontraidamente, mapas nas mãos, máquinas fotográficas e olhares boquiabertos para aqui ou para acolá. Um sorriso, um dedo a apontar, também eles de impermeáveis de cores berrantes e chapéus na cabeça ou guarda-chuvas, prosseguindo o seu périplo. Sorri para mim mesmo: é assim que parecemos aos olhos dos outros?
A mim apetecia-me a luz da cidade, a bater nas gentes, nas ruas, nos turistas e nos guarda-chuvas... Finalmente, lá acabaram por vir uns raios de sol, num breve período sem água. Iluminou-se a rua e senti-me bem, apesar de andar na cidade. O ar acabado de lavar pela chuva encheu-me os pulmões.
Subitamente, no infindável conjunto de rostos em permanente movimento pelas ruas, caras conhecidas do facebook ou doutras aplicações. Qual a possibilidade disto, pensei. Cumprimentei com um sorriso, ante uma cara estupefacta. Não me reconheceram. Não admira. Não nos conhecemos, nem sei nada deles, a não ser toda a sua vida exposta nas redes sociais, acompanhando as suas partilhas. Sinto-me desta maneira ou daquela; estou aqui ou acolá; a fazer isto ou aquilo... E eu vou acompanhando aquilo, fazendo scroll-down, scroll-down, scroll-down, numa leitura de fotonovela moderna, acabando por conhecer a vida das pessoas, sem as conhecer. Sei delas nada, a não ser tudo. Que coisa esquisita. Mas percebi que este reconhecimento não é mútuo, perante o espanto do meu cumprimento ou acenar de cabeça, e remeti-me novamente ao silêncio contemplativo da luz nas ruas e nos chapéus-de-chuva. Para essas caras eu sou um perfeito desconhecido. A solidão da minha vida estende-se também às redes sociais.
Depois disto fui ver a minha rede de “amigos”. Nada mal, para um solitário, pensei. Quando publico qualquer coisa há sempre uns likes, poucos é verdade, o que atribuo ao facto dos meus interesses serem peculiares e certamente muito diferentes dos da maioria das pessoas. Ainda assim, lá vão aparecendo alguns, seja quando desabafo qualquer coisa ou quando publico um texto qualquer no blog, sendo que desses poucos me pergunto quantos, realmente, lerão o que escrevo e se esses likes não serão apenas automatizações de simpatia vazia. Mas se não ligam nenhuma às coisas que gosto e digo, para que raio me seguem, pergunto-me eu?
Refugiei-me numa livraria, pequeno santuário, até porque, entretanto, começou novamente a pingar e me aborreci com as caras que só eu reconheço. Qual é a possibilidade disto acontecer, hã?, voltei a perguntar-me, enquanto o olhar deambulava pelas capas nos escaparates. Fugi rapidamente para uma secção onde pudesse haver algo que me interessasse. Acariciei dois ou três volumes, li umas sinopses e voltei assim reconfortado para à rua. Comprar nem pensar, porque não tenho dinheiro. Tenho de me contentar só a ver. À saída, mais uma cara conhecida – mas que é isto? - a quem nem pó, nada de cumprimentos, e o olhar esbarrou-me num dos best-sellers actuais. Serviu para me irritar. Como é possível alguém que nem escreve assim tão bem vender tantos livros e eu nada! Oh, como eu queria poder viver da escrita. Quase me apetece chamar por Deus, como se ele me resolvesse alguma coisa. Não é um talento. Não tenho talento nenhum. Tenho é paciência para escrever, para deixar que as palavras que volteiam na minha mente levem tempo a quererem ser escritas. Mas viver disso?... Como?
Anda lá, publica o livro. Tens tanto jeito... - a pior coisa se pode dizer a um escritor é que tem jeito. Muito incentivo. Vai correr bem. E eu lá fui. Mendigar para arranjar o dinheiro necessário. Decidi-me por um ebook. Bravo, bravo! Parabéns. Que bom, que bom! Tão contente por ti que estamos. Like, like, like. Mas intimamente, uma tristeza, contrastante com o sol a iluminar as ruas: um exemplar vendido. Um. Apenas um. Uma carta simpática do editor, a dizer que, lamentavelmente, não há lugar a pagar-me nada e, abaixo, uma tabela de excel com resumo de vendas: uma linha. Um exemplar vendido. Bravo, bravo! Parabéns ao fiel leitor que tem um exemplar único. Fosse ele de papel, e eu assinaria a dedicatória: para o meu mais fiel e único leitor. E aquele fulano, abre a boca e vende 10 edições com livros de caca. Inveja, pois. E pena. Leiam, leiam enormidades criaturas ocas. Leiam. À conta de tanto ler, pode ser que aprendam. Há esperança. Muito obrigado a tanto incentivo.
 Sabes, gostava tanto de ler o teu livro... E eu lá vou dizendo: deixa estar que te mando um exemplar. Assim como assim, ninguém o compra. Automatizações de simpatia... “Deseja-lhe um resto de bom dia”... Não sei que mais posso fazer para poder viver da escrita. Nas ruas tanta gente... Reparei então que a infelicidade nos rostos condizia com a minha, por entre impermeáveis e raios de sol, havia quem risse, bem disposto, a falar ao telemóvel. Outros, sem olhar para onde iam, escreviam mensagens ou iam “chateando”. Outros, olhos nos chão ou olhos cravados em coisa nenhuma, distantes. Aqui e ali, uns sapatos pouco cuidados ou roupa gasta contrastava com os bem vestidos da roupa da moda, tudo muito estilizado, calças slim ou skinny ou outras que não consigo padronizar, botas ou sapatos a condizer, impermeável ou corta-vento de bom gosto e penteados actualíssimos. Tudo muito urban chiq. Senti-me deslocado. E cansado.
Enfiei-me no autocarro. Entrou também uma cigana com uma filha. Acabou-se o sossego, pensei. E não me enganei. Pegou no telemóvel e fez chamadas atrás de chamadas, pedindo a uns, cobrando a outros, voltando a chamar os primeiros, prometendo a outros ainda, com a filha a anuir e a dar opinião naquilo tudo. Em cada conversa, uma mentira e uma versão ligeiramente diferente da anterior. Um jogo de espelhos e enganos. Naqueles telefonemas, passou de mão em mão mais dinheiro do que eu ganhei no último ano a trabalhar. Tudo através das mãos dela. Pensei que deviam dar um cargo de gestão qualquer àquela mulher. Ou chamá-la para negociar com os nossos “parceiros”... Não deve haver expressão mais hipócrita do que chamar “parceiros” a credores e profissionais da dívida dos países. Outro telefonema e fiquei a saber que trazia umas coisas para vender. A filha também, que entretanto pegou no telefone e foi desfiando a quantidade de sapatos de fulana; as blusas de beltrana, o telemóvel de citrano... Mas ela nada. Tinha medo. Só umas coisitas para ela. Desta vez, nem os ténis, porque não havia o número dela, ante o olhar embevecido e algo orgulhoso da mãe, que lhe dizia que até sábado haveria de haver o número que ela queria. Há qualquer coisa de extraordinário no confinamento forçado de um autocarro, em que as pessoas tratam dos seus assuntos privados como se mais ninguém estivesse a ouvir. Fiquei com a certeza que a problemática associada aos ciganos não se vai resolver. Nem a xenofobia. Pode atenuar-se. Resolver-se não. E nem sequer lhes convém: vivendo num sistema social no qual não se integram mas do qual beneficiam e reivindicam direitos, sem nenhum compromisso pelos deveres e obrigações associados. Para eles, “os brancos” são um imenso mar de oportunidades de negócio. Uma sociedade paralela na qual se movem com mestria. A razão pela qual nada disto desaparecerá é porque até esta simples opinião minha contém, ela própria, algo de xenófobo.
A conversa entristeceu-me ainda mais, ao mesmo tempo que me mostrou duas coisas: o patético da minha vida e o cansaço de uma vida de nadas.
 Tenho saudades de Lisboa. Tantas saudades. E de uma vida. Tenho saudades de uma vida.
Cheguei cansado. As ruas escuras vazias, só de casas e luz de candeeiros, despidas de qualquer agitação. Enchi os pulmões do ar quase bento de tão lavado. O coaxar das rãs encheu-me os ouvidos, apagando por completo a balbúrdia das gentes, dos impermeáveis e dos guarda-chuvas.
 “A Matemática deseja-lhe um resto de bom dia”.
Se houver um like, apenas um, seja de alguém que realmente leu. Leu e percebeu a solidão de um escritor. Não sei se quero likes de automatizações simpáticas. Nem sequer sei se quero continuar a encontrar caras conhecidas de redes sociais ou outras aplicações. A ironia é que vou continuar a tê-las, porque ninguém lê patavina do escrevo. Seria a minha sina, se acreditasse nela ou fosse fadista.
Entretanto, a NASA anunciou que se encontraram mais de 1200 exoplanetas e que alguns poderão ter vida. O maior achado da história, li ontem em qualquer notícia. Talvez seja. Pela minha parte, vou continuar a escrever e descrever as idiossincrasias que tecem este mundo. É o único que conheço. Ainda que hoje esteja algo desiludido com ele. Não com o mundo, como é óbvio. Com o meu mundo. A infinidade de mundos dentro do mundo também deveria espantar os cientistas da NASA. Fico a desejar que não percam a capacidade de se admirar com o que está à frente dos olhos. Quando se olha muito para longe, pode perder-se a capacidade de ver o que está perto.
Entretanto, lá fora continua a chover. Talvez seja bom para as gerberas. De sede, não hão-de morrer.
Tantas saudades de Lisboa. E de uma vida.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Da ingratidão e outras coisas

Deveria, talvez, agradecer a todas aquelas criaturas que, passando pela minha vida, a fizeram negra. Deveria mesmo. Aos que me magoaram; aos que me traíram; àqueles que me enganaram; aos que se aproveitaram da minha boa vontade; aos que estendi a mão uma e outra vez e me voltaram costas quando já não era preciso ou então quando eu próprio precisei duma mão. Aos que perdoei para voltar a ser enganado novamente. Aos que fingiram ser meus amigos. Aos que fingiram gostar de mim, sei lá com que propósito. Deveria, certamente, agradecer a todas essas criaturas. Sim, o meu muito obrigado. Foi graças a todos vós que me tornei a pessoa que sou hoje. Continuo, talvez ainda, demasiado crente na bondade do género humano. Terei de dar razão ao senhor Hobbes que, por ser inglês, como comentou certa vez um amigo, nunca se fiou muito nessa conversa dos franceses acerca da bondade natural do homem. Este comentário faz-me sempre rir. Por eu próprio, muito embora não em demasia, também crer qualquer coisa na bondade natural do homem. Ao menos, pela esperança no género humano. Homo homini lupus. Apesar dessa minha ainda pequena crença, quase já só uma centelha, sou hoje muito mais cauteloso, desconfiado e cínico, quanto às intenções dos outros. Muito obrigado pelo vosso excelso contributo.
Claro, há um reverso desta moeda. É a natureza das coisas. Há sempre um reverso. Tornei-me igualmente frio, insensível (não tanto) e mordaz. Profundamente pragmático. O preço que pago, diariamente, por este status quo é estar sozinho. E com gosto. Obviamente que há uma parte pessoal, só minha, a contribuir para isto. Somos sempre nós e a nossa circunstância (meu Deus, que saudades da boa Filosofia). E eu não sou excepção. Vós, a circunstância (ou parte dela). Eu, a minha parte. Ambos fizémo-nos a mim próprio.
Estar sozinho é, já o disse muitas vezes, uma escolha (consciente e muito pensada) e um privilégio. Tenho a subida honra de estar comigo próprio e não impingir o tamanho do meu Ego a mais ninguém. Porventura, seria penoso para os circunstanceantes. Tornei o meu Eu uma fortaleza. Não é fácil afrontar-se a isso. Assim, sigo sozinho, moldado por traições, desilusões, desapontamentos, quebras de confiança, ingratidão (ah, tanta!) e também, ainda, por sonhos, aspirações e desejos que me pro-jectam.
Sou Eu. Eu e a minha circustância. Perdoarão os meus reduzidíssimos leitores, a matiz tão profundamente filosófica de hoje. Anima-me, contudo, saber que o número de pessoas que lerá estas palavras é tão pouca, que muito poucos consternará. Lamento, mas é assim. Seria um Leviathan, propriamente, não fosse enfiar este meu Eu num espartilho de bom-senso e usos e costumes e padrões e convenções sociais e legais mais ou menos estabelecidas. Pois ainda bem que os há. Seríamos todos uns monstros de proporções animalescas não fosse assim. Eu em confronto perene, bellum omnium contra omnes. Talvez por isso me pergunte: se Eu, moldado por tanta desilusão provocada por tanto safardana que me tem passado na vida, sou capaz da contenção própria do viver em sociedade, uns com os outros (goste-se ou não), como não são os outros submetidos a estes jugos tão imponentes? Como pode aceitar-se a violência gratuita e malvada entre adolescentes, no que agora se chama bullying?...
Há tanta coisa que eu poderia descrever agora... E há tanta coisa que eu queria ver metida nestas cintas sociais que nos permitem viver em sociedade. Mas falo só nesta. Se agora, que ainda sois tão pequeninos, e em que tudo vos é entregue em bandeja de prata, tudo facilidades na vida, sem qualquer espécie de contrariedade, ocupais o vosso bendito tempo a humilhar os outros, a molestá-los e a violentá-los, quando mais tarde vos aparecerem pela frente as criaturas que vos hão-de fazer a vida num inferno, que fareis? Matá-los todos? Pois sim. Talvez seja.
E depois?
Homo homini lupus.
Obrigado aos ingratos pela inspiração por estas palavrinhas.
Obrigado aos pacientes, que foram gentis o suficiente para me lerem hoje.