segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

O esqueleto cantante e os beijos à porta

      Há qualquer coisa de extraordinário no espaço confinado de um autocarro, com cinquenta pessoas (mais coisa, menos coisa), com cinquenta histórias (mais coisa, menos coisa) diferentes. Para um solitário, que escreve, é importante ver pessoas, seja no autocarro, no metro, nas ruas... tomar parte nesses banhos de realidade concreta diária, como espectador atento da realidade humana, afastando-me da contemplação solitária imanente da minha vida. De outro modo, sobre o que escreveria? Sobre a beleza das folhas que caem, ou da brisa gélida e elegante que molda o inverno?... Pois sim, isso é belo. Mas só há um tanto sobre o que se pode escrever acerca de folhas caídas ou brisas gélidas. Depois esgota-se. E, além disso, que posso eu escrever que acrescente novidade a odes preciosas já escritas, sobre folhas caídas ou brisas de inverno, quando tantos, com tanta mestria, já o escreveram. Poderia certamente reinventá-lo, pois escrever também é isso. Mas só há um tanto sobre o que pode ser escrito acerca dessas coisas. Não... Preciso da paleta humana. Desses banhos de realidade concreta que me fazem pensar e humildemente esperar que as palavras queiram ser escritas. Portanto, não há melhor maneira do que meter-me pelas ruas fora, mais ainda nesta época de correrias desatentas, mas naturais, porque reflexo do mais puro alheamento do humano, ou simplesmente entrar num autocarro ou no metro.
Atrás de mim uma rapariga lamentava-se ao telefone, numa típica crise do fim da adolescência, falando como se estivesse sozinha com a amiga interlocutora com quem desabafava, no recato duma sala ou dum quarto, dos desamores frustados de uma investida de um “amigo” que, depois de uma noite de copos sugeriu saírem da discoteca para irem para outra zona de bares e que, cá fora, a tentou beijar. Ela não quis. Parece que ainda estava magoada doutra experiência atrasada. E voltou a fugir para a discoteca, gorando as expectativas do amigo, a quem ela insistia em dar o nome, ante aquele auditório de cinquenta pessoas, mais coisa, menos coisa. Claro, talvez nem todos estivessem atentos ou sequer interessados. Olhei em redor: nas imediações do meu assento, que era o auditório mais próximo desta conversa, todos olhavam compenetradamente para o ecrán do smartphone. Uns bancos mais à frente, viam um filme no portátil. Todos perfeitamente alheados. Lembrei-me imediatamente do “Pensatório”, do Harry Potter, onde as pessoas mergulham (literalmente) nas suas memórias (ou de outros, desde que metidas em convenientes frasquinhos), deixando para trás – mesmo que por momentos – a realidade concreta. A seguir, outra chamada, para comentar o episódio de choro na aula duma colega, a braços com um luto. Percebi perfeitamente. Há assuntos que, num processo de luto, despoletam marés de emoções. A professora também se comoveu, ela própria em luto. Rapidamente tudo chorava e se descontrolou a aula, que acabou mais cedo. Depois disto, o mesmo episódio da discoteca e da tentativa de beijos do amigo, que ela acabou por encontrar no dia seguinte e fez de conta que não viu. Foi melhor assim. “Não estás bem a sentir, estou mesmo mal”. Se pela noitada, pela ressaca e falta de dormir, se pelo beijo frustrado (que ela queria mas não queria), acabei por não perceber. Mais tarde, nova conversa, com a amiga enlutada,
“então, como estás?”

“Claro... E já não vais sair, ficas por casa? Pois, fazes bem”. Novamente a história do amigo e do beijo. “Mas se precisares da alguma coisa liga, sim?”
No espaço duma viagem, a história da noitada, da tentativa de beijo do amigo, da sua fuga de volta para a aparente segurança na discoteca e as aulas do dia seguinte foi contada e recontada. Como se estivesse sozinha com a(s) interlocutora(s) no espaço recatado dum quarto ou duma sala, ou até duma discreta mesa de café onde se pode falar sossegadamente... Também há qualquer coisa de extraordinário no espaço duma mesa de café, como se houvesse ali uma pequena redoma que nos encerra num mundo. E foi natural, como se não estivessem ali cinquenta pessoas, mais coisa, menos coisa. Como se estivesse sozinha. Ou então, talvez estivesse, apenas com os meus indiscretos ouvidos, e todos os outros mergulhados nas suas redomas de ecrán brilhante.
Fiquei a pensar como seria a vida daquela estudante universitária e como espelhará a vida de todos os estudantes universitários. Fiquei a pensar como se pode viver a vida tão despreocupadamente, sem ter noção do real e concreto valor das coisas, reduzindo o final da adolescência, o início da idade adulta e a experiência da faculdade a noitadas, copos e tentativas de beijos. E em como, a seguir a isso se vai para as aulas... Depois considerei que nós, adultos, vivemos a nossa vida igualmente despreocupados, olhando para “pensatórios” de alheamento da realidade concreta. Jamais entenderei a necessidade de noitadas e copos. Ainda menos o considerar-se isso divertimento. Mas também não consigo entender completamente a necessidade de constantemente nos alhearmos da realidade e deixarmos os nossos smartphones governar a nossa vida.
Se bem que, às vezes, é necessário um tanto de alheamento. Como de folhas caídas e brisas gélidas.
Apesar da proximidade do Natal, o sol nas ruas é agradável. Quase que se podem dispensar os casacos pesadões, as luvas, cachecóis e gorros. Pelo menos durante o dia. Passeando despreocupadamente, atento nas pessoas, em correria, sempre, nas decorações de natal, nas montras, na música nas ruas... Que bom o anonimato de passear despreocupadamente nas ruas cheias e , apesar disso, sem ninguém conhecido. Este pequeno conforto que só cidades grandes podem dar. Fui passando de rua em rua, admirando mais as decorações que as gentes, até deparar com os habituais grupos que se juntam em torno dos artistas de rua. Alguém fazia pinturas estranhas com sprays de cheiros também estranhos e combinações ainda mais esquisitas. Sentado no chão, uma roda de admiradores ia crescendo à medida que as pessoas passavam, muitas apenas curiosas, como eu, outras ficando um bocadinho, na admiração daquela arte de manchas psicadélicas, mais coisa, menos coisa. Não faço ideia se isso se iria traduzir em dinheiro na caixa despreocupadamente pousada ao lado, mas garantidamente debaixo de olho. Mais abaixo, uma figura envolta num lençol azul petróleo pairava no ar, sem nada de aparente que a sustentasse, para deleite dos passeantes. Noutra rua, um performer, já de certa idade, dava vida a um esqueleto cantante, que abria e fechava as mandíbulas ao som duma música barulhenta, encetando uma dança desengonçada, tal qual a sua própria condição de esqueleto, ainda que animado por cordéis.
A necessidade duma cadeira aliou-se à vontade duma bebida quente, o que me fez entrar numa cafeteria, de conceito demasiado americano para conseguirmos compreender tudo aquilo que se elenca nos preçários. Ainda assim, um espaço razoavelmente agradável, onde estar sozinho não parece estranho a ninguém, porque ninguém sequer repara, e se estivermos dispostos a abstrair-nos do corropio circundante. Um chocolate quente com uma nota de avelãs, desfigurado por natas de uma lata, que já não consegui impedir a tempo, e que o fez ficar enjoativo. Embora me tenha perguntado, e eu tenha dito um mecânico “sim”, antes mesmo de perceber exactamente o que me perguntava, por tão absorto na observação do ritual que aquela cafetaria implica.
“Obrigado... já chega”,
disse eu,
ante a surpresa do funcionário, que ainda mal tinha esguichado a lata. Os guardanapos muito bem arrumados numa mesa à parte; noutro compartimento, finas espátulas de madeira para se agitarem as bebidas... E ali toda a gente vem, enquanto se aguarda que nos chamem pelo nome – uma americanice possidónia que toda a gente parece achar normal – e nos entreguem copos com os nossos nomes escritos. É fácil ver quem são os solitários, os desajustados, os turistas, os nacionais, os geeks, os nerds, os populares, com um séquito de admiradores que se inebriam da luz que deles se desprende... Ali, todos os nichos entram, sem se misturarem, ainda no estrito cumprimento daquele ritual. Como noutros sítios, naturalmente. Mas ali tudo se faz num hino de louvor à marca, presente em todos os cantos e em todas as coisas, auto-elogiando-se a si própria em pequenos textos e constatação de feitos, num verdadeiro culto de si mesma: prémios disto e daquilo; metas alcançadas; x milhões de tal; x percentagem de reciclagem; tantas árvores salvas...
Lá fora a música de natal continuava ininterrupta. Levantou-se um vento gelado, próprio do fim dos dias no inverno. O esqueleto cantante já tinha desaparecido. A multidão nas ruas era mais fluída à medida que o sol desaparecia e ficava frio. As decorações de natal impuseram também o seu ritual próprio de festa. Há qualquer coisa de igualmente extraordinário nas decorações de natal e no seu ritual.
Na viagem de regresso, entretive-me no deslumbramento duma figura extraordinária. Não sei se o era, realmente, ou se simplesmente a mim me parecia que fosse, na solidão que escolhi para viver. A solidão também ela pode ser extraordinária, sobretudo quando se escolhe e não é imposta. Da rapariga dos beijos roubados, nem rasto. Esse encontro fortuito, porventura irrepetível, foi revelador dum universo paralelo ao meu, e que eu jamais entenderei ou pertencerei. É de igual modo extraordinário como as nossas escolhas de vida definem o nosso próprio universo e moldam a nossa existência, mais coisa, menos coisa. Apercebemo-nos disso em pormenores pequenos, que se estivermos desatentos, não damos por eles. Surgem em pequenas redomas extraordinárias da existência.
Acordei desse torpor para voltar ao conforto da vida que me é familiar. Enfim em casa, sem auditórios indiscretos. Mesmo que seja o do confinamento dum autocarro, ou duma pequena mesinha de café. Lá fora o vento é gélido e as folhas das árvores, já quase nuas, são sopradas com certa inclemência, própria do tempo. Está bem assim, tudo no seu tempo. O frio, o gelo, as folhas caídas, os beijos roubados à porta duma discoteca.
Feliz Natal.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

O estranho caso dum buraco no chão ou a política de casos

Diz-se da avestruz que quando se assusta ou pressente perigo enterra a cabeça na areia. Parece, no entanto, que isto não é verdade, mas é daqui que vem a expressão que todos associamos a um certo acto de cobardia ante as dificuldades ou, então, a um fazer-de-conta que passa se eu fizer de conta que não vejo.
Há buracos, contudo, que são muito maiores do que as cabeças ou que é impossível não ver. Tal como há buracos que o não são. Quem nunca ouviu falar das impressionantes ilusões de óptica pintadas no chão, que quase parece que vamos cair num precipício quando, afinal, é apenas tinta? Porventura terá sido este o caso do incauto visitante, na exposição de Anish Kapoor, em Serralves que, apreciando a obra, caiu no buraco. Uma verdadeira “descida para o limbo”, assim se chama a peça que o visitante admirava e nela caiu.
Confesso que a minha relação com a arte contemporânea é difícil. Custa-me muito apreciá-la, talvez por ser mais dado aos grandes mestres do Renascimento e do Barroco. Talvez por não compreender o génio artístico (o que é muito provável. Não compreendo mesmo). Suponho que até os grandes mestres, na sua época, foram incompreendidos. Provavelmente, daqui a centos de anos, a arte hoje contemporânea será reverenciada por muitos e não apenas por um restrito grupo de eleitos que se deleita na contemplação de buracos no chão, ou outras peças de igual gabarito. Lembro-me de estar uma vez no Reijksmuseum de Amesterdão, no último piso dedicado à arte contemporânea e estar muita gente de roda duma vitrina que não tinha nada, apenas os contornos de qualquer coisa. Uma dúzia de asiáticos comentava e tirava fotos. Parecia que estavam a apreciar maravilhados os contornos de qualquer coisa e isso era um epíteto da contemporaneidade. Aproximei-me mais, na tentativa de encontrar, eu próprio, qualquer satisfação na fruição do que lá estaria (nada, para mim). Levantando os olhos para fora da vitrina, na parede, estava uma pequena placa, onde se lia: “Peça retirada para estudo”. Ninguém pareceu notá-la. Eu sorri, os asiáticos, que entretanto tinham atraído mais uns quantos turistas à vitrina, continuaram a tirar fotos, e eu prossegui na minha visita. A arte está nos olhos de quem vê, portanto. Um bocadinho como as polémicas, ou os buracos no chão. Para uns uma ilusão sendo verdade, para outros uma verdade sendo ilusão. Uns empolgando-os; outros desprezando-os.
Nem todos os buracos no chão são de desprezar, note-se. Em Tolkien, por exemplo, “num buraco no chão vivia um hobbit”. E daí nasceu uma obra-prima, conhecida de todos. Tal como o de Serralves, amado por muitos, menosprezado por alguns. A ninguém, contudo, é indiferente. Os buracos verdadeiros tendem a não deixar as pessoas indiferentes. Mesmo que sejam reais só literariamente.
De facto, a arte de empolgar coisas parece estar na moda. Enquanto em Serralves se cai em buracos, julgando-os ilusórios, pelo país fora espreitam oportunistas da ilusão. Coisa triste haver pessoas cuja estratégia de vida é a ilusão. Como, por exemplo, o fazer-se de conta que se é importante ou que se tem muito a dizer ou se detém todas as soluções... Claro, todos temos certas soluções, certas coisas importantes a dizer, certo peso ou importância. Cada um no seu espaço relativo. No seu mundo, se quisermos. E, claro, todos vemos e apontamos com muito mais facilidade o que está mal. Apontar o dedo é muito fácil. Tanto mais fácil quanto não nos comprometemos ou fazemos de conta que nada daquilo é connosco. Meros espectadores, como a ver buracos pintados no chão. Esta atitude é tanto mais grave quanto maior é o grau de responsabilidade da pessoa na sociedade. Cria-se aqui um ciclo nefasto: alguém pretende ser importante, apontando o dedo aos defeitos, todos e qualquer um, mesmo aqueles que são apenas aparências de erro, mas nunca apresentando soluções que vão além do senso comum ou daquilo que é fácil. Pretende-se ganhar importância à custa dos problemas alheios, fazendo com eles um jogo triste, ao mesmo tempo que se desresponsabiliza e demarca completamente, como se vivendo noutra realidade e dando a sim mesmo, perante os outros, uma aparência de saber fazer melhor, mesmo que isso não seja verdade. Chama-se a isto populismo. Poder-se-á defini-lo com outras palavras, naturalmente. Mas na sua essência, é isto. E é perigoso. Muito perigoso. Joga com as fragilidades das pessoas; aproveita os desaires alheios; empolga todo e qualquer deslize dos adversários, mesmo aqueles que não têm nenhum significado ou se vêem a provar falsos; agita as massas e toma como suas causas que sabe, à partida serem impossíveis ou pouco viáveis, mesmo que anteriormente tenho sido absolutamente contra elas... E tudo para subir à conta dos outros, disfarçando a sua própria incapacidade, canalizando ao seu redor o desencanto alheio e moldando a opinião dos outros a seu proveito, muitas vezes sem qualquer estratégia para fazer melhor. Transportemos isto para a política e facilmente se percebe o perigo. E, no entanto, isto acontece a olhos vistos, disfarçadamente, impondo-se como um discurso sério. Acontece no presente do nosso País, à escala nacional e à escala local. Quantos Presidentes de Câmara (com maior ou menor mérito, diga-se) contam com uma oposição deste tipo nas suas terras? Estranhamente, uma parte significativa das pessoas considera esta forma de actuar válida. Pior, muitos políticos (ao nível nacional e local) fazem desta forma de actuar a sua própria estratégia quando, na verdade, não é estratégia nenhuma! Uma política de casos, sem quaisquer soluções que não seja apenas o desgaste para forçar as pessoas ao desagrado. A arte da ilusão posta em prática. É fácil. Há muita gente a servir-se de buracos pintados no chão e a prometer às pessoas que vão cair neles, sabendo que, de verdade, são apenas tinta no chão. Contudo, convém sempre saber onde está a realidade e a ilusão, sobretudo no que toca a votos e a estratégias políticas. Não vá o feitiço voltar-se contra o feiticeiro e esses engenhosos obreiros do populismo acabarem por cair, eles próprios, no buraco com que andaram a amedrontar os outros. A ilusão tem destas coisas às vezes. Que o diga o visitante de Serralves.
Há solução para o populismo? Podemos evitar a política de casos? Certamente que sim. Não poderei eu arvorar-me na condição de ter a solução. Mas tenho uma solução. Desde logo, a consciencialização/educação/responsabilização das pessoas. A aposta no seu esclarecimento, em vez de alimentar a sua preguiça intelectual natural. Reparemos, por exemplo, nas notícias. Um exemplo banal do quotidiano. Num bloco noticiário, quanto tempo se dedica às notícias (factuais) e quanto tempo é dedicado ao seu comentário (interpretação)? Temos telejornais a demorarem horas, porque a maior parte desse tempo é dedicado a comentar as notícias, não a apresentá-las. Já lá vai o tempo em que os noticiários eram de notícias, ou seja, o jornalista limitava-se a apresentar a notícia factual sem a comentar ou a fazer sobre ela qualquer juízo. Competia a quem ouvia/via interpretá-la para si próprio. Hoje, não só isso não acontece, como o próprio jornalista que apresenta a notícia factual tem já sobre ela uma determinada carga, às vezes impercetível (o acentuar de um determinado número ou percentagem; a entoação da voz; um simples torcer de cabeça...) outras mais visível, socorrendo-se de uma bateria de comentadores que, expressando cada um a sua opinião, de acordo com as suas próprias tendências (ninguém é acepticamente imparcial; isso não existe: o homem é ele e a sua circunstância), mesmo que inadvertidamente ou sem essa intenção específica, vão fazendo correntes de opinião, ao mesmo tempo que se dá o fenómeno concomitante das pessoas deixarem de pensar por si para adoptarem as formas de pensar dos comentadores da sua predileção.
Isto acontece por duas razões principais, a par de uma quantidade de outras, que apenas reforçam estas: a “revolução” social que levou ao abandono dos parâmetros de vida tradicionais trouxe também uma certa preguiça intelectual, que entronca no vazio contemporâneo; ao mesmo tempo que os media, eles próprios a braços com uma autêntica revolução de parâmetros, descobriram a predisposição e o gosto das pessoas pelo reality show, preferindo que a informação seja “mastigada” e apresentada como se fosse um espectáculo. Daí a empolgar toda e qualquer notícia, por vezes até ao extremo do ridículo, procurando alimentar esta sede do espectacular, foi um pequeno passo. É isto que se passa com os chamados “casos”: coisas pequenas, muitas delas sem qualquer significado, ou então decorrentes de erros, que em circunstâncias normais seriam lidados com rapidez e eficácia, arrastadas e exploradas à saciedade, empolgando-os muito além do seu contexto concreto, sem olhar, tantas vezes, a consequências. Moldar a opinião pública à custa destes “casos” tornou-se banal, ao mesmo tempo que se apresentam e exploram circunstâncias da vida das pessoas como se fossem verdadeiros espectáculos, que prendem aos ecráns os espectadores. Acredite-se, ou não, este é um campo fértil ao populismo. E cresce. Crescerá enquanto houver audiência e enquanto houver oportunistas da desgraça.
Às vezes gostava de poder resolver as coisas com a facilidade com se podem resolver os buracos pintados no chão. Ou com a facilidade com que se podem resolver dilemas a 10 euros... Há dias, vi no facebook (esse monstruoso espelho da nossa contemporaneidade) um anúncio que dizia: “Dois dilemas, 10 euros”, fazendo reclame à pagina de um qualquer profissional das coisas ocultas. Não sei como lhe chamar, lamento. Charlatão seria deselegante. E, pois, se há quem acredite que se podem resolver dois dilemas, duma penada, apenas pela consulta de cartas ou outra coisa do género, porque é que não há-se haver quem lucre com isso? Em terra de cegos... Os políticos de casos vão fazendo mais ou menos o mesmo e ninguém estranha. Fosse tudo assim tão fácil. Eu poria como dilemas a consciencialização das pessoas e a estupidez humana. Dava dez euros de bom grado. Em todo o caso, sempre é mais genuíno o negócio das fraldas para galinhas. A mim parece-me muito mais legítimo. Chama-se aproveitar nichos de negócio: se passámos dos cães e gatos, de que eu dilecto amante me confesso, para galinhas por animal de companhia, porque não havemos de as ter limpas e bem-comportadas? Já se sabe, as galinhas são estúpidas, quando comparadas com padrões humanos (outro erro). É da sua natureza. Elas querem lá saber se cagam o sofá ou o corredor da sala, enquanto debicam o chão da cozinha... Querem é tratar da sua vida. Se as queremos na nossa, dentro de casa, pois, que haja fraldas. Alguém percebeu isso, em Inglaterra. E está a ganhar muito dinheiro, indiferente aos buracos no chão. Esperemos que não se passe para avestruzes. Não haverão fraldas que aguentem. Nem buracos.
Da próxima vez que for a Serralves hei-se ver bem onde ponho os pés.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

saudades utópicas

Não digas que tens saudades minhas, se soubeste sempre onde me encontrar. Surgiu-me assim, num rompante, enquanto deslizava o dedo no feed das redes sociais. Quando voltei para trás para ler melhor, já tinha actualizado e já não o tornei a ver. Impressionante o conjunto de coisas que nos habituamos a fazer diariamente. Passar o dedo no telefone é uma delas (sendo “telefone” aqui claramente um termo genérico para aqueles aparelhos de que nos tornámos todos dependentes; há muito tempo que os telefones deixaram de ser telefones). Dissessem-me que bastaria andar com o dedo para cima e para baixo no ecrán dum telefone para saber do mundo, em tempo real, e eu rir-me-ia. E, no entanto, aqui estamos, nessa realidade muito real, sem nada de alternativo ou utópico, cheios de possibilidades e estrangeirismos e de palavras inventadas ao sabor da velocidade a que anda o mundo virtual. Palavras que nunca suspeitámos que pudéssemos usar ou mesmo virem a existir.
Talvez não tenha sido exactamente assim, com aquelas palavras concretas, a citação, mas foi assim que me ficou, num dos milhentos posts que as pessoas vão colocando com dizeres mais ou menos giros, “citações”, às vezes de coisa nenhuma ou de ninguém, mas que passam por bocadilhos de sabedoria universal, que vamos engolindo a goles sôfregos, sedentos que andamos de qualquer coisa mais do que passar o dedo para cima e para baixo, diariamente, no ecrán de um telefone. Como se essas frasesinhas, muitas vezes inventadas e atribuídas a algum nome sonante, para se lhe dar autoridade, ou então genuínas mas perfeitamente desenraizadas e retiradas do seu contexto, pudessem mitigar a nossa sede real de sentido.
Ao mesmo tempo que sabemos todas as coisas do mundo em tempo real, vivemos em desencontro constante e permanente, estabelecendo laços virtuais raramente reais e muitas vezes alicerçados em noções platónicas, tecidas por detrás do ecrán dum telefone, sem nunca nos deixarmos conquistar verdadeiramente. Depois, se insistirmos muito, lá acontece levar ao real concreto essa relação, às vezes de anos, outras vezes fugaz, mas sempre virtual e construída de ideais aparentes. E amiúde é novo desencanto, porque o real concreto não se compadece dos beneplácitos virtuais, nem é nunca perfeito como nos aparecem aqueles fragmentos, nem a pessoa toda inteira cabe no ecrán dum telefone, por mais que se lá tente meter o mundo em tempo real. Mas a pessoa é ela própria um mundo e, portanto, são muitos os mundos para acompanhar em tempo real. Alguns, terão de ficar por explorar.
Não digas que tens saudades minhas. Estive sempre aqui, muito além do dedo a andar para cima e para baixo no ecrán dum telefone. Sempre aqui, muito além da ideia engraçada de te moldares aos meus gostos, como que a meteres-te no telefone do meu mundo, a tomares-lhe a forma para me agradar e eu dizer “sim, sim, és mesmo tu; onde tens andando, que me fartei de andar com o dedo para cima e para baixo, no ecrán dum telefone, como que à tua procura e tu, aí, perfeito, à minha espera?” Ou então, citar-te Sophia e dizer-te que “és tu a Primavera que eu esperava”... Eu, tão estúpido, basbaque num ecrán de telefone, contigo aí à espera. E tu moldando-te cada vez mais ao ecrán do meu mundo, para me apareceres cada dia mais perfeito e esperado, como uma panaceia messiânica ou um bálsamo na aridez do ecrán do telefone dos meus dias. Quando, depois, me permiti regar a aridez do ecrán do telefone dos meus dias com o remédio miraculoso do teu ser, percebeste o erro: não se pode conquistar alguém enganando-nos a nós mesmos. Porque depois, quando conquistamos assim, a pessoa rega-se nessa panaceia e floresce, enquanto que nós, que nos moldámos a um mundo que não era o nosso, para caber no ecrán desse telefone, cada vez mais definhamos e secamos, a ponto de nos morrerem as raízes. Então tiveste de desistir. Atabalhoadamente. Arruinando por completo o mundo que via no ecrán do telefone, sem remédio possível. Nestas coisas não se pode desfazer. Porque a consolação de olhar o mundo pelo ecrán do telefone, deleitando-nos em ideias de perfeição parciais, apenas com o passar do dedo para cima e para baixo, uma vez desfeita, não volta a refazer-se. E a conquista suada de uma paz interior relativa e de aceitação dos desencontros como realidade factual, na miríade de mundos que nos chegam pelo ecrán do telefone, fica em ruínas, levando muito tempo para se poder reparar.
Não digas que tens saudades. Estive sempre aqui, e tu apenas te moldas-te, sem nunca quereres realmente ser, o mundo no ecrán do meu telefone. Soubeste sempre onde me encontrar, porque avidamente vou passando o dedo para cima e para baixo, como um puzzle incompleto, na expectativa permanente da peça em falta. Perdida, porém, lamentavelmente. O mundo virtual em que nos votámos a viver fez-nos cativos dos desencontros e da insatisfação constante. Porque cada pessoa é ela própria um mundo, muito além do que esperamos poder meter no ecrán do telefone. Alguns, ficarão inevitavelmente por explorar.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Particularmente saboroso?

Aprendi há muito que não se escreve a quente sobre assuntos que nos incomodam ou de algum modo nos tocam, a não ser como desabafo e, nesse caso, não são coisas para partilhar. São coisas em chorrilho, muitas vezes incorrectas ou incompletas ou mal escritas; escritas com o propósito único de nos aliviar. Quando queremos escrever sobre alguma coisa convém deixarmos passar o calor do momento, a erupção de emoções ou a fúria que nos move, sobretudo se queremos partilhar o que escrevemos e, mais ainda, se queremos que alguém entenda o que escrevemos. Estando o ano a começar, é tempo de olhar para trás, para o ano findo, seja como balanço seja lá como se lhe quiser chamar. Para mim, o fim do ano e o início de outro é sempre tempo de reflexão.
O ano foi amargo, agora que já chegou ao fim. “Particularmente saboroso” (nas palavras do nosso Primeiro-Ministro), decerto, em muitos aspectos da nossa vida comum de País. As melhorias económicas, traduzidas em melhorias sociais; uma estabilidade política mais ou menos conseguida; boas perspectivas de mercado; rendimentos devolvidos, paulatinamente, ao cidadão comum, traduzindo-se isso num aumento da confiança; boa cotação internacional, como se vê pelos casos da ONU e Ecofin... Será este governo, “bem menor”, assim tão diferente do(s) anterior(es)? Sim, é. E não, não é. Continuam os erros, as polémicas e os atropelos próprios de uma forma de estar benevolente para com o facilitismo e habituada ao “amiguismo”, estranha forma de nepotismo, tão portuguesa. Continua a privilegiar-se antes as pessoas que se conhece e as ligações que tem (partidárias ou pessoais), em detrimento do mérito e da competência. Aliás, neste aspecto, tanto nacional como localmente, onde os jogos de influência dos “amigos” são claramente nefastos mas, ainda assim, amplamente postos em prática. Lamentavelmente, não são só os governos PS que têm vindo a condescender nesta forma de estar. Ela é transversal a todas as forças políticas, mormente aquelas que tradicionalmente chamamos do “arco da governação”, agora mais diluído, com o protagonismo e entrada em cena do BE e CDU como apoiantes claros de um governo. Sendo isto novidade no governo central não o é, certamente, nos poderes locais, onde a procura de consensos de poder é habitual para assegurar certa estabilidade e governabilidade. Portanto, não é este governo melhor que o(s) outro(s).
Acontece, porém, que realmente é melhor. Melhor pelos resultados mas, sobretudo, pelas opções. Ou seja, optando por uma solução assente em compromissos de princípio, tornou-se possível ser um governo minoritário com estabilidade governativa, atalhando caminhos muito diversos daqueles tomados anteriormente, muito graças à genialidade inesperada de Centeno, a princípio tão posta em causa, tanto interna como externamente, numa resistência quase patética às ideias e às escolhas financeiro-governativas, sobretudo por parte da oposição (o diabo, o diabo!), no que foi um estúpido exercício de birra, por um lado e, por outro, à habilidade política de Costa, cuja capacidade para construir consensos é admirável. Tudo amparado generosa e afectuosamente pelo Presidente Marcelo, outra das enormes surpresas boas. Não é despiciendo o papel dos partidos apoiantes do governo: a CDU, com a maturidade duma velha senhora, fiel à palavra dada, mesmo a custo de votos; o BE com a irreverência inexperiente das ideias feitas e não testadas, mas contribuindo com alguma frescura a uma máquina pesada e saturada. Muito destas ideias não podem sequer ser consideradas, por serem diametralmente opostas a tudo aquilo que são as opções políticas de fundo do País, assumidas em contexto internacional. Têm algo de realidade paralela, num país “far, far away”, mas fazem o seu papel, satisfazendo os seus próprios eleitorados. Para mais, a opção de fundo do governo de devolver rendimento e corrigir injustiça social, reavaliando medidas verdadeiramente chocantes do anterior executivo – executivo propriamente e não governo, porque o seu apanágio foi “ir além da troika” e obstinadamente seguir esse rumo, para que Portugal estivesse melhor, “mesmo que os portugueses não estejam”. De todos os disparates e laivos arrogantes ditatoriais de quase-fascismo, traduzido em frases feitas e aberrantes, debitadas por elementos do anterior executivo, esta foi, porventura, a mais ilustrativa da mentalidade que então vigorava. Mais que o “emigrem!” ou que a arrogância institucional da felizmente-ex-presidente-da-assembleia-da-república, toda ela inconseguimento, “Portugal está melhor mesmo que os portugueses não estejam” (apenas comparável ao “aguentam, aguentam”) é a visão de quem não compreendeu que um país quebrado não se endireita sem esperança e confiança. E quanto mais se insistiu, mais se derrotou o ânimo. E os custos, foram enormes. Marcelo trouxe o calor humano que não é habitual nos políticos e de o País precisava, diga-se; Costa puxou pela confiança nacional, revertendo o status quo e devolvendo rendimento.
É uma política sustentável? Não sei. Não sou economista nem politólogo. Resultou? Está a resultar, com repercussões além fronteiras: o artigo do “Finantial Times” sobre o sucesso da política portuguesa, por exemplo; a eleição de Mário Centeno... “particularmente saboroso”, se pensarmos que há poucos meses as opções orçamentais de Portugal eram postas em causa, continuamente, pelos “parceiros” europeus.

Particularmente saboroso em tudo o que se disse. Uma catástrofe, contudo, quase como a outra face duma moeda, noutros aspectos. O ano foi também particular e nefastamente doloroso, em especial pela tragédia dos incêndios. Nunca em Portugal tínhamos assistido a uma catástrofe destas dimensões e com esta crueza. Chocou a dimensão, o horror, a incapacidade de reacção útil, a eficácia de uma estratégia lúcida... Chocou a tragédia humana e os quilómetros, a perder de vista, de área destruída. Nunca tinha ido ver, de propósito, o resultado dum incêndio. Já tinha visto, en passant, mas sempre em razão de ter passado numa zona ardida por outra qualquer razão. Nunca para ir ver propositadamente, porque nunca gostei de insistir na desgraça, nem nunca a tinha sentido de perto, mesmo quando, há dois ou três anos, ardeu a pequena mata em frente de minha casa. Mas este ano fui. Já semanas depois dos incêndios, ainda senti o cheiro intenso a queimado e a roupa ficou negra, pelo lado de dentro. Aqui e ali, ainda fumo. Uma experiência nova a aterradora para mim. Janelas e portas distorcidas pelo calor, em casas não ardidas; jardins e varandas de casas destruídos; pequenas hortas dentro de povoações ardidas, mesmo junto às casas; sinais de trânsito fantasmagoricamente enegrecidos; cabos eléctricos derretidos, estradas fora, e restos de postes suspensos no ar, ardidos por baixo e seguros por cabos não ardidos mas completamente distorcidos... E uma paisagem, a perder de vista, muito para lá do que consegui ver, queimada até ao chão, negra e decrépita. As árvores carbonizadas, queimadas até às raízes, só restos de paus de fósforo, numa desolação árida. Fiz aí o meu luto desta tragédia.
Num cenário onde tantas coisas podiam ter corrido mal, tudo realmente acabou mal. Muitas culpas, sem ser claro de quem. Começa pela impreparação. Pela incapacidade de resposta a um cenário desta natureza. Não sei se é possível a preparação para a tragédia, destas dimensões. Não sei. Mas tem de ser. Deveria, na verdade, ter sido. Claramente, fosse por que fosse, não estávamos preparados. Nem como país, nem como cidadãos, nem como protecção civil... O desnorte foi evidente, os meios inadequados (não sei se suficientes ou não) e a opção estratégica caótica. Tudo errado, incluindo a comunicação de emergência, a comunicação aos atingidos e a comunicação ao país, verbal e corporal. Atitudes erradas, palavras erradas, timings errados. Desnorte, portanto. Um perfeito caos.
Com o país mergulhado num caos emocional, a par com as consequências materiais da tragédia, começaram a surgir os abutres da situação. Primeiro muito contidos, mas igualmente em desnorte. Depois desenfreadamente desbocados, atiçados pelos media diversos, com directos constantes e repetidos, reportagens “de fundo” (vá-se lá saber o que isto é) e outras que nem de raspão, com jornalistas a fazer reportagem junto a cadáveres, mostrando à saciedade e despudoradamente a desgraça e o sofrimento alheios, numa guerra de shares absolutamente ridícula, mostrando o lamaçal ético em que neste momento os media em geral (sem querer particular nem generalizar, porque há honrosas excepções) estão mergulhados. Semanas a fio com os noticiários a abrir e a fechar com o mesmo assunto, desgastando a paciência de qualquer um e explorando ao máximo, para dividendos de audiências, a situação do país. Poderia ter acalmado, não fosse uma segunda tragédia, três meses depois, voltando tudo ao início: governantes desnorteados; oposição hermeticamente fechada em argumentos infantis e caducos; media exacerbando ânimos e explorando a desgraça. Há muito que se perdeu a fronteira entre o dever de informar e a exploração sem pudor; os factos noticiosos (que deveriam ser factuais apenas) e o eivar de opinião mais ou menos tendenciosa, de acordo com o pensar e opção política de quem a veicula, manipulado descaradamente a opinião pública, já tão habituada a não pensar por si (para que é que há-de pensar, se há tantos a fazê-lo e ainda por cima bem pagos)... Mas isso é outra história.
Os debates no Parlamento são espectáculos de quase divertimento, não fosse a gravidade da situação, tal é a incapacidade de debater ideias, alicerçadas numa estratégia consequente e coerente. Barulho muito. Política pouco. Birras e polémicas de faz-de-conta, sempre à espera de que qualquer coisa corra mal para se aventar um pedido de satisfação, quase infantil, com pessoas absolutamente ineptas e desprovidas de sentido ético e do mínimo de inteligência política, refugiando-se numa esperteza bacoca de habilidade de jogar com a opinião pública. Diz-se mais o que se sabe que as pessoas gostam de ouvir do que aquilo que realmente deve ser dito. Viu-se com os incêndios; vê-se com qualquer notícia que, mesmo que remotamente, diga respeito a alguém ligado ao governo (fazendo aqui os media e, em particular as redes sociais, o trabalho sujo, numa era em que tudo e todos estão constantemente em cheque); vê-se na mais recente polémica “Raríssimas”, que é já vulgaríssima, a que se juntou entretanto o caso “Século”... Para quem já trabalhou numa instituição desse tipo, custa ver pessoas menos escrupulosas a servirem-se em proveito próprio da boa vontade e dos meios postos ao serviço de quem precisa, pondo em causa a honradez de quem todos os dias luta e trabalha por esses projectos e por essas pessoas. Mas também, por certo, não causará estranheza que isso aconteça. Eu próprio poderia enumerar outros tantos abusos quotidianos, que se fizeram e continuam a fazer por muitas instituições e que, regra geral, vão sendo mais ou menos do conhecimento das pessoas, à boca pequena e se aceita como sendo habitual... É assim que vamos, nos nossos brandos costumes. Estes casos em concreto só tomaram as proporções conhecidas pela insistência dos media. Não são extraordinariamente diferentes de muitos outros, se se procurar bem. E mais não digo.
Particularmente catastrófica também é a situação no futebol, no nosso país. Falo disto como mero expectador externo, sem qualquer interesse concreto, na medida em que o futebol em si não me merece qualquer atenção, como já doutras vezes referi. Não haverá para mim actividade mais inútil que o futebol, na medida em que transforma pessoas normais em perfeitos brutos, incapazes de raciocínio. O futebol interessa, sobretudo, a quem dele vive: jogadores, treinadores, empresários, membros de clubes e staff diverso, e toda uma parafernália de gente que ronda este círculo e dele se alimenta. A todos os outros não interessa absolutamente nada. Mas eis que o futebol conseguiu este feito extraordinário: convencer uma enorme massa de pessoas de que, realmente, interessa e tem a ver com eles. Que é seu! Classifica-os entre sócios e adeptos e com todos conta para engrossar as suas fileiras de dependentes e manter vivo um negócio de milhões, sustentado pelas chorudas quantias que as marcas, televisões e patrocinadores vários se dispõem a pagar em troca da publicidade contínua e da influência (de moda, de padrões de vida, de comportamento...) sobre as ditas massas. Um negócio de milhões de que a massa beneficia absolutamente zero, mas que defende o clube com a bestialidade insana de quem não precisa de qualquer outro argumento que não seja defender o “nosso” clube: os outros são sempre os inimigos, num jogo perigosamente popularista. O fascínio pelo mundo do futebol, para pessoas como eu, está justamente aqui: na análise psico-sociológica que se pode fazer.
Vimos assistindo a uma degradação deste mundo: se é verdade que desde há muito que o futebol cai na suspeição de tráfico de influências e outros negócios menos lícitos (nunca nada se provando nem nunca havendo culpas ou culpados), quase como se já fosse dado adquirido, discutido à porta de cafés e cumplicemente aceite pelas massas, acontece que nos últimos tempos têm vindo a adensar-se comportamentos e atitudes que denotam um perigoso derrapar ético. Incitações constantes e cada vez mais graves e audíveis à violência e ao ódio; suspeições atiradas à comunicação social; fait-divers misteriosamente tornados públicos; adopção de uma postura conflituosa constante (mais que o habitual)... enfim. Remato, retomando e reescrevendo um post anterior: há uma equipa que vem ganhando e outras que querem ganhar. Usa-se, para tanto, todos os artifícios, sendo que o que passa no jogo de futebol propriamente dito é o menos importante, uma vez que, como já sabem muito bem, o estado de alma dos jogadores, pressionados por múltiplas forças e condicionados por diversas vertentes deste jogo, nomeadamente pelo trabalho das claques e dos fazedores de opinião, é que ditará o resultado: a derrota virá se forem capazes de desestabilizar suficientemente o adversário em campo e instilar neles a incapacidade para ganhar ou o sentimento de inferioridade. Isto, mais que a qualidade técnica e táctica, é que, hoje, determina o jogo, sobretudo, nas fases finais dos campeonatos, onde tudo parece valer, apostando tudo neste jogo psicológico. A estratégia tornou-se a desestabilização do adversário por todos os meios possíveis. Há muito que o futebol dos dias de hoje se deixou de jogar nos campos.
Com tudo isto, resta-nos a esperança de que 2018 seja, de facto, melhor. E que os nossos políticos se elevem (finalmente) à altura das suas responsabilidades. E que deixem de fazer figuras ridículas, portando-se como se não tivessem nada a ver com o assunto... Podemos sempre sonhar. Vi, a propósito, uma rábula dos “Donos Disto Tudo” de se lhe tirar o chapéu, caricaturizando a líder de um partido e o candidato benzoca a líder doutro... Um mimo.
Ah, nota final: o senhor Trump não está doido. É simplesmente estúpido. Americanos: acordem para a vida. Vocês votaram no homem. Ele não chegou lá por milagre nem foram os russos que o lá puseram. Foram vocês, com o vosso maravilhoso e avançadíssimo sistema eleitoral. Agora aguentem-no. Façam-nos (ao resto do mundo) é um favorzinho: não ajam como se não fosse nada convosco, fazendo ares de espanto por cada desmando da criatura. E, já agora, não tornem a votar no homem.