terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Nada

Ontem?... Ontem jantei ar. Ontem jantei aquilo que Deus me deu. E o que Deus me deu foi nada.”
Nada. Fiquei a pensar naquilo. Um desabafo. Mas não fiquei a pensar em Deus. E no nada que ele deu. Pensei no homem, ainda novo, de quem falaram nas notícias, e a quem a vida entregou desgraças e desgraçadamente tudo perdeu. Vive sem nada, da amizade e da caridade de quem o conhece. Dorme numa gruta na Boca do Inferno. Literal e geograficamente. A história dele é igual à de muitos, sem conta. Desgraçadamente igual. Tão igual que já não incomoda (muito). Habituámo-nos.
Nada.
Quando terá sido?
Quando terá sido que nos habituámos? Que nos conformámos à sociedade que criámos. Desgraçadamente criámos. E a quem havemos de por culpas?...
Quando foi que ficámos cheios de nadas sem resposta?
Acho que deve ter sido no dia em que alguém disse “é a vida”…
Não sei se vamos por bom caminho.
Tornámo-nos indiferentes e contentamo-nos com uma sociedade onde poucos ganham e muitos perdem. Contentamo-nos com a miséria, com a pobreza, com a tristeza, com a falta de condições de vida, com a corrupção… O laissez-faire… E o mundo vai andando assim, com a sociedade dividida em lotes. Uns sem nada. A vida cheia de nadas. Sem ter sequer o que comer. Outros sem mesmo nada, apesar de pensarem ter tudo.
Andamos agora apressados em cimeiras atabalhoadas sobre o clima, como se só agora tivéssemos percebido que estamos a mudar o planeta que nos serve de casa. E tenta-se fazer com que um entendimento qualquer impeça que se derretam os oceanos e se mudem as estações e se extingam as espécies… Ouvi há dias um número absurdo de 55 mil espécies extintas por ano. Quero acreditar que ouvi mal.
Há uns dois anos, vi um daqueles programas do National Geographic sobre as alterações climáticas. O de sempre: de um lado os cépticos, do outro os que defendem a necessidade de alteração da pegada humana. Muitas opiniões, factos, gráficos, estudos. Um deles disse uma coisa que me ficou na memória: “ a Terra está cá há milhões de anos. Resistiu a terramotos, erupções, cataclismos, cometas, glaciares, e tudo o mais. Adaptou-se e evoluiu. Sobreviveu. Ainda aqui está. Mas e nós? Seremos capazes de sobreviver às alterações que a nossa própria acção está a provocar?” A mim parece-me um excelente ponto de partida para conversações.
Por cá andamos entretidos com as coisas do costume. Ouvi também hoje que há um município que quer erguer um mastro de bandeira com 100 metros para comemorar o centenário da república. Parece que o projecto é módico. Um milhão de euros.
Por entre o afã da crise, o governo vai-se vendo a braços com a oposição que usa agora a maioria a seu favor para lhe bater o pé e o contrariar. E por entre queixinhas e palhaços, tias de Cascais, processos de corrupção, leis feitas ad hoc para calar os jornais, o país vai indo. Só não percebo bem o que vai a república comemorar… Nadas?... O milhão de euro dos mastro e os outros milhões todos que se hão-de gastar em jantares e galas e beberetes e condecorações e fogos de artifício?... As grutas das bocas do inferno?...
Pergunto-me quantos nadas se poderiam encher com um milhão de euros… Quantas vidas se haveria de arrancar à pobreza… E, ainda assim, se uma só fosse, se não valeria mais à república do que um mastro…
Já toda a gente percebeu que Copenhaga é aquilo que se esperava. Nada. Uma reunião de gente que precisa de justificar (porventura até a si próprios) aos cidadãos do mundo que estão a tentar.
Espero que já se tenha percebido que a república não tem nada para comemorar (quem serão os palhaços?)
Também gostava que se percebesse que enquanto continuarmos a fazer da indiferença o modus vivendi há-de haver muitos nadas.
Hoje? Jantámos nada. Foi aquilo que nos démos.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A pobreza

Andamos já todos na lufa-lufa do Natal.
Gosto do Natal. Muito. Gosto sobretudo das memórias do Natal. Do que elas me trazem. Do enredar de lembranças dos tempos de criança. E gosto de prendas. De dar. Sobretudo porque não espero nada de ninguém. Dá-me gozo oferecer. Coisa que agora não faço, porque não ganho suficiente. É simples. Por isso, bastam-me as memórias.
E das luzes. Gosto das luzes.
E nesta azáfama, muitos fazem contas. Esticam o orçamento e esmeram-se em jogos – ainda que depois em Janeiro fiquem deprimidos e sem cheta – para que nada falte.
Outros há que já não fazem contas. Não podem.
Vi hoje uma reportagem sobre o trabalho social da AMI, no apoio aos carenciados... Meritório, sem dúvida, como o de tantas outras instituições e organizações, que nesta quadra ganham mais alguma visibilidade. Valha-nos isso. Embora não me apeteça muito publicitar seja o que for, seria desleal não enquadrar este pensamento. E o mérito deve ser dado quando existe. (Palavra feia: carenciados. Como se não fôssemos todos carentes de alguma coisa. Usamos palavras tão tontas...). Entrevistaram uma senhora, de cara muito afável, cortada entre lágrimas e uns olhos serenos, apesar das dificuldades, mas tão conscientes... Lembrei-me da frase célebre de Jesus: “tereis sempre os pobres convosco” (Jo 12, 8). O papa João Paulo II chamou a esta palavra “um abismo”... E é mesmo. É a certeza irrefutável de que a pobreza faz parte de ser homem. Poderíamos filosófica e teologicamente falar da pobreza como um despojamento... E aí até seria interessante. Mas não. A pobreza de que ali se fala é a da desgraça. Do não ter. Da que faz fome e lágrimas. Da que resulta de um conjunto de problemas que concorrem todos para um buraco sem fundo, da que não é culpa de ninguém (pode não ser) e é culpa de todos... De todos os que fecham os olhos. Que não se importam, que são indiferentes... Dos que vivem sem querer saber, como se a ignorância da pobreza e do sofrimento abonasse a existência de alguém... Ou a fizesse crescer e ser mais existência...
Pobres. Sempre os teremos. É fria esta constatação. Inexorável. Sem esperança.
Mas é um desafio.
Um não compactuar. Não ficar quieto. Não se resignar. Um querer mitigar. Um não se contentar com ver reportagens na TV... Um não ficar à espera, como se não pudéssemos fazer nada... É que podemos fazer.... Não é difícil perceber o quê!
Não vale de muito a constatação da crise; do encarecimento do custo de vida; do desemprego; da riqueza mal distribuída; das muitas pessoas que se estão completamente nas tintas para o que se passa à sua volta... Nada disso importa se, cada um, não decidir de que lado fica. O abismo está lá. Ficamos a olhar para ele ou seguimos adiante, como pudermos? Um pequeno acto de bondade de cada vez. Não custa. E assim a lufa-lufa do Natal há-de custar menos na consciência...

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Caim

Caim lançou-se sobre seu irmão Abel e matou-o.” (Gen 4, 8b)
Caim. Parece-me, cada vez mais, que estamos num país devotado à polémica. Como se tudo e todas as coisas onerassem desta dívida, e portanto, tudo aquilo que acontece tenha de lhe pagar algum tributo…
Estou muito curioso para ler Caim. Não tanto pela polémica. Lê-lo-ia apesar disso. Aprendi a apreciar Saramago. A escrita e o homem por trás dela. O génio. Levei muito tempo a reconciliar-me com ele. Sempre fui muito de ideias feitas, com tudo o que isso acarreta de prejuízo. Houve uma fase, muito militantemente católica, em que o próprio nome me enfurecia. E era estúpido. Estúpido como todos aqueles que falam sem saber. Eu nunca tinha lido nada dele. E punha-me com palpites. A vida, porém, ensinou-me a minhas custas a prudência e, sobretudo, a graça da tolerância. O respeito pelas opiniões, mesmo se diversas das minhas. Chegou-me às mãos, há uns anos, “o cão das lágrimas”. Desejei, se algum dia me vir tão desprezado que não sobre nada nem ninguém, ter ao menos um cão das lágrimas. E pensei: o cão das lágrimas não pode ter nascido de alguém tão desprezível. Não. Nasceu dum Homem. Alguém capaz de falar da natureza humana à maneira dos génios da literatura, que captam aquilo, por vezes posto aí para se ver, mas que os olhos atarefados e distraídos não vêem.
Estou muito curioso para ler o livro. Mas fiquei triste com a polémica. E, mais ainda, com a troca de galhardetes… Como se o senhor precisasse de polémicas para vender livros ou para publicidade (é fácil perder a noção dos disparates que se aventam)… Como se o senhor não tivesse direito a expressar o que pensa… A dizer no que se baseia para escrever ou lá o que for… Como se de cada vez que fala fosse uma ofensa ou estivesse no intuito de ferir alguém de morte… Não me senti ofendido enquanto católico. Todas as opiniões são válidas. Pode-se concordar ou não. Agora vir dizer que o homem é indigno de ser português; que é um vaidoso; que acha que tem o direito a dizer tudo o que lhe apetece; que procura sempre ofender a Igreja… Andar com trocas de recados entre deputados… Mas que país é este, senhores?...
A Bíblia é um catálogo de maus costumes. Sim. O Deus da Bíblia é vil. Sim sim. Muito de acordo.
Pergunta: onde é isto ofende a Igreja? Ou os católicos? Ou somos tão pouco seguros da verdade da nossa fé, que não suportamos a diversidade e a contrariedade? O problema estará no senhor Saramago, que disse o que pensa e como pensa o Deus que lê na Bíblia, ou em nós, que ouvimos? Desde quando é que a Igreja rejeita a pluralidade de opiniões? Ai, os ventos do Concílio, que se calaram… Continua só a cheirar-me a mofo e a cera de velas queimada. Ou a verdade duma coisa não é como um diamante, com muitas faces, que uns vêem duma perspectiva e outros doutra?...
Pois entendo que Saramago não ofendeu ninguém. Na verdade, até creio que disse o que disse num tom bastante desempoeirado e despretensioso. Disse o que pensa, da forma que está habituado a fazer: sem rodeios. E tem direito a achar que o Deus da Bíblia não lhe serve. Teria gostado muito de ver uma atitude esclarecedora e apaziguadora por parte da Igreja, em vez de aparecer um senhor muito ufano a fazer de porta-voz, a vir falar de jacobinismos… Até arrepia. Teria gostado que alguém dissesse: Sim. A Bíblia mostra o pior do homem. Mostra. E um Deus que se apresenta vil. Porque a Bíblia é também a história do homem e da humanidade, na sua busca de autoconhecimento e relacionamento com Deus. É a história de Deus com os Homens e a história de como se relaciona com um Povo. É um relato teológico (isto aqui diz tudo, embora não consiga expressar plenamente a força do que quero dizer) onde se relata o pior do homem no seu vício, mas também o melhor. Onde está presente a crueldade, o assassínio, o engano, a mentira, mas também o amor. E é nele que a Bíblia se sustenta. No Amor de Deus. Teria gostado tanto de ver alguém falar da forma amorosa como Deus se revela… Como Deus se dá… E a voz da Igreja a ser sinal…
Não consigo perceber por que razão se opta sempre pela polémica em vez do diálogo… Pela afronta em vez do respeito e compreensão. Não é esse o modo de Cristo? Não é assim também sequela Christi? E não é isto, senhores ofendidos, o dedo do diabo? Não está nisto a tentação última posta à Igreja? Reflexão. E oração. Muita. Antes de nos pormos para aí a fazermo-nos de ofendidos. Ainda vamos ficar todos Caim…
No relato bíblico, primeiro o homem revolta-se contra Deus. Depois uns contra os outros. É isto que teologicamente se tira do relato de Caim e Abel. Estranhamente, continuamos a matar o Abel à primeira oportunidade. E o sangue dele a clamar na terra…
Teria gostado de ver o rosto de Abel nesta história toda.
Ah… Obrigado, José Saramago.
Quanto a nós, católicos ofendidos, há tanto na Bíblia para nos surpreender, antes de atirarmos as pedras…

domingo, 11 de outubro de 2009

O Nobel

Deve ser a primeira vez que um prémio Nobel é atribuído não pela obra feita, mas pela obra ainda a fazer. Ou que se espera que alguém faça.
O Presidente Obama ganhou o Nobel da Paz. Fiquei surpreso como quase toda a gente. Mas gostei. Sim, gostei. Simpatizo com o homem. Deve ser porque ambos pomos muita força naquilo em que acreditamos. E por aquela forma de falar... Também já falei assim, noutro contexto. De forma apaixonada, a saber dizer a palavra certa no momento certo, com uma vontade imensa de acreditar e fazer acreditar. Em mim, infelizmente, passou. Já não preciso de discursar. Nem para mim mesmo. Mas olho para ele e penso: “Até que enfim”...
Gosto dele. E que lhe atribuissem um Nobel. Naturalmente, concordo que não tem obra feita. Ainda. Mas há-de ter. A nomeação foi claramente política... uma mensagem, quanto a mim muito clara... e uma esperança. Como se o mundo todo estivesse de barbas brancas, esqueleticamente apoiado em bengalas, à espera de alguém que tomasse as rédeas e as dores. Alguém inspirado. Alguém que compreendesse. Que estivesse disposto a pegar no embróglio poeirento que é o mundo diplomático e tratasse de começar a desatar. A solução de Alexandre seria prática. O problema é que nós não se deixam cortar.
Quando o vi, percebia que ia ser ele. Eu e todos os velhos de bengala. Há, no entanto, aqui, um erro de estratégia... Puseram-lhe tudo às costas. E vão vergá-lo pelo peso antes do tempo. Mas isso veremos. Agora o que há, é a esperança. Uma esperança grande que ele, animado pelo Nobel, faça o que os de barba e bengala não fizeram. Pode até ser naif. Não há salvadores ad hoc. Mas que é animador, é. Era bom que voltássemos a acreditar. Todos.

A fantasia

Irritam-me as pessoas muito cor-de-rosa. Muito cuchi-cuchi, muchi-wuchi, gugu-dadá. Pessoas que apesar de adultas vivem rodeadas de coisas de meninos e meninas pequeninos. Como se apesar da idade, continuassem agarrados à fantasia.
Ontem no expresso, no banco da frente vinha uma dessas pessoas. A falar ao telemóvel, com uma voz muito melosa e distorcida, na tentativa atabalhoada de imitar a voz de bebé...
Naturalmente que a fantasia faz parte da vida. Às vezes faz falta fantasiar. O problema da fantasia é a ilusão. O fascínio, melhor dito. Arranca-nos à realidade e não nos deixa por os pés no chão.
Pode haver quem ache graça às meninas adultas cheias de laçarotes, bonecos da Pucka, da Hello Kitty, cheias de cor-de-rosa. Mas a vida não tem laços nem bonecos, e muito menos é cor-de-rosa. Dá vontade de abaná-las com força e dizer: “Hey! Acorda! Sim, tu. Já cresceste, sabias? Olha aí o mundo à tua espera!”

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Os três mendigos

Gosto de sair de casa ao fim-de-semana. Gosto da calma. Sempre que posso, o Alentejo. Mas às vezes fico em Lisboa.
Fui ao super-mercado, numa tarde de sol. Podia ter ido à praia se tivesse companhia. Ou à esplanada. Ou passear. Podia ter ido fazer uma coisa diferente. Às vezes penso que a minha vida se acomodou numa monotonia sem sabor. Mas o super-mercado era um imperativo, ditado pelo frigorífico vazio. Segui pois o ritual de tantos solitários sem sabor, como eu, que necessitam, de vez em quando rumar a esses locais, quase peregrinamente, cheios de pessoas a empurrarem carros por entre prateleiras a olhar como se estivessem de visita a um museu e "pis" das máquinas registadoras, que nos permitem depois sobreviver durante a semana no esquema trabalho-casa-comer qualquer coisa-cama.
Não havia carros na rua. Nem muita gente. Gostei de sentir o sol. Estava quente.
Encontrei no caminho até ao super-mercado 7 pessoas e 3 carros. Um casal de chineses, atarefados à porta da sua loja, sempre aberta; um português a arrumar o porta-bagagem do seu carro, muito empertigado nas suas calças vincadas à meia canela e meia branca; um marroquino em passo apressado e três sem abrigo. Um deles carregava um enorme saco de viagem cinzento, sujo e caminhava em passo acelerado, como para chegar a qualquer lado. Outro ia devagar, num delírio murmurante, a andar para lado nenhum. Outro, mais velho, enrolado em trapos, sentado muito encolhido, olhava para a frente, sem ver nada. Os carros iam em velocidade de fim-de-semana. Não fosse os mendigos e ter-me-ia parecido uma bela tarde de sábado à tarde.
Voltei com os sacos das compras, para ouvir os diários das campanhas eleitorais. Votos, votos, votos. Uns porque o governo foi prepotente, outros porque querem mais e melhor (queremos todos), o governo porque a oposição é derrotista e pessimista. Fixei uma frase: "aquilo que realmente nos une é uma visão de futuro". Pensei nos mendigos e na visão de futuro. Pensei nos portugueses sem emprego; na "geração 500"; nos reformados. Não consigo entender a visão de futuro, a não ser que seja um tender para. Aí já me faz algum sentido... Mas não achei que o calor da campanha eleitoral fosse alimentado por considerações de natureza filosófica. Às vezes (muitas) nem política.
As eleições são uma coisa gira.
Não percebo muito de eleições. Mas tenho vindo a ganhar interesse nos últimos tempos. Talvez seja sinal de maturidade. Talvez seja sinal da inconformidade. Ou da indómita vontade de sempre querer melhor, de nunca estar satisfeito, tão própria do ser humano. E de querer mudar e de fazer, em vez de continuar a ver só falar e falar e falar... Ou talvez seja só sinal de cansaço. E de não poder continuar indiferente, como se fosse espectador num mundo paralelo enquanto o país e o mundo se corroem e se gastam. E eu impassível, a ver os chineses, o português de calça à meia canela e o marroquino. E os mendigos. O que pensarão os mendigos da visão de futuro? O que pensarão os mendigos do futuro. Em si mesmo. Lembrei-me do Almada: "até hoje fui sempre futuro". E amanhã?
São giras, as eleições. Este ano, com tantas, há muito sobre o que escrever. Embora também não haja muito a dizer.
Dei-me conta que toda a gente ganhou. Foi o grande ensinamento: numas eleições, pensava eu, uns perdem e outros ganham. Mas nesta coisa dos partidos não. Nos partidos todos ganham. Ainda assim, uns mais do que outros. O partido do Governo ganhou um segundo mandato. Os partidos da oposição ganharam, porque o partido do Governo perdeu a maioria absoluta; porque conseguiram mais deputados; porque chegaram aos dois dígitos... Todos ganhadores para melhor servir. Ver-se-á, no decorrer da legislatura o que foi que ganharam realmente. E o que ganhámos nós, realmente. O português da meia branca e os mendigos. E todos os outros que agora povoam o nosso canto. Vindos de todos os lados. E por cá se fazem e por cá ficam. Uns de meia branca. Esperemos que não mais mendigos a olhar para lado nenhum.
O que precisamos é visão de futuro. Mas não utópico. Futuro a fazer-se hoje. E esse não vai lá com visões. Só com trabalho. E seriedade.Vi que todos ganharam. Mas pode haver alguma coisa onde todos ganhem? Se os partidos ganharam todos, então, quem perdeu?

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A blusa cor-de-rosa

À minha frente no metro sentou-se uma senhora, toda ela muito cor-de-rosa, agarrada a uma mala enorme, da qual foram saindo bolsas e bolsinhas, todas elas também muito cor-de-rosa, enquanto a senhora ia passando em revista a diversa parafernália que a acompanhava. Os telemóveis, o mp3 e outro aparelho que nem percebi o que era, todos eles muito embrulhados em bolsinhas, cor-de-rosa com bonecos.
Depois passou outra senhora, para o lugar da janela, muito sóbria, que puxou de um livro e se pôs a ler, de pernas muito juntas e costas bem direitas, como convém às senhoras muito sóbrias. Tive pena de não conseguir perceber o que lia. Gosto de ver o que os outros lêem.
A senhora cor-se-rosa foi passando os apetrechos em revista, a senhora sóbria as páginas, e eu os pensamentos. A viagem chegou ao fim para mim e não cheguei a saber se os aparelhos estavam ou não em condições ou se o livro era interessante. Saí do metro ainda com os pensamentos. Vinha assolado com as notícias da tragédia nacional que foi a suspensão do jornal de sexta-feira da TVI. Quando me disseram até pensei que tivesse havido uma catástrofe, que tivessem assassinado alguém importante ou que tivesse sido um terramoto… Ouvi os telemóveis todos a tocar e as pessoas todas a dizer “ a sério?”; “tens a certeza?”, “que grande bronca”… etc. E eu pensei: “uma calamidade!”
Era mesmo a sério, com toda a certeza e foi uma bronca. Suspenderam, assim, sem mais, o jornal de sexta-feira. Como será possível a este país sobreviver sem aquele verdadeiro espaço informativo tão sabiamente conduzido pelo ícone, agora martirizado, do jornalismo português? Como poderemos olhar para a TVI e ver na sexta-feira um noticiário que não é o Jornal de Sexta? É como se se atingisse a alma lusa naquilo que ela tem de mais seu! Como se se abanassem todos os pilares da democracia! Como se estivessem periclitantes, quase a ruir, os próprios fundamentos do País!
Depois disse de mim para comigo: Espera. Mas qual catástrofe? É só um formato televisivo?... Ou não?
Pois claro que não. Tive logo a resposta na catadupa de entrevistas e comentários e notícias na TV: era a liberdade de imprensa! Era ela que tinha sido ultrajada. “Ah”, disse eu. A liberdade de imprensa. Será?!...
Mas de quem é a culpa afinal? Do governo, pois claro. E foi ouvir um ror de gente a dizer que o Sócrates é que tinha a culpa… Como se não fosse de esperar que assim que o marido da protagonista saísse da TVI, arranjassem uma maneira de arrumar também a senhora… Como se a administração espanhola não tivesse já antes – muito antes do agora célebre arrufo entre o Senhor Primeiro Ministro e a Senhora Moura Guedes – afastado a aclamada pivot dos ecráns… Como se não fosse um verdadeiro espectáculo triste aquele formato de noticiário… Como se não tivesse bastado o Senhor Bastonário ter perdido as estribeiras e destratado a senhora em directo e ao vivo e a cores… Pois se ela tira a paciência a um santo, quanto mais ao engenheiro, somente homem, que era, claramente, alvo primário e primeiro? Goste-se ou não do homem, aquilo era demais… Goste-se ou não do homem, a par da liberdade de imprensa acautelou-se o respeito institucional pelo cargo do homem?...Qual rigor informativo… Qual mostrar as coisas como são na realidade… Deixemo-nos de aforismos. Num dos últimos programas que vi, antes das férias – que eu honestamente, já adivinhava serem permanentes – o jornal da sexta elegeu o Primeiro-Ministro para tema todas as notícias – todas – durante aproximadamente 40 minutos… está tudo dito. Depois era ver o rigor informativo a induzir o espectador nesta ou naquela interpretação, utilizando deliberadamente esta ou aquela expressão que ligava inequivocamente o que se estava a dizer ao senhor engenheiro. Isto também tem um nome. E não é rigor… Gostava de ver noticiários em que os jornalistas se inibissem de opinar. Mostrar a notícia, ela mesma. E não embrulhá-la em bolsas cor-de-rosa ou de outras cores, conforme o que se goste. É difícil, sim. Mas por isso é que é um trabalho para o qual nem todos estão talhados. Assim escusava de ter visto o repórter de campo da TVI tão empenhado em implicar o Primeiro-ministro na decisão da empresa que deixou escapar duas frases absolutamente inadmissíveis, do meu ponto de vista: “José Socratés a tentar justificar que não teve nada a ver”… “ a virar a questão exactamente ao contrário”… Pergunta: é ao repórter que cabe interpretar o sentido? Ou ao espectador? O repórter reporta ou comenta?...
Enfim. Depois os políticos… Nada como um pseudo-escândalo para animar uma campanha eleitoral… Voltei a pensar na senhora cor-de-rosa. E pensei na parafernália das bolsas. Somos um país pequeno. Ou “piqueno”, como agora soi dizer-se, por mercê doutra senhora, também ela muito sóbria. E de gente pequena também. E estreita de pensamento. Então o país está mergulhado no caos quase completo; sem perspectivas de futuro para grande parte das pessoas da minha idade (eu incluído); sem emprego; com salários que nos fazem depender dos pais e dos avós e dos antepassados até à quinta geração; com problemas de segurança, de imigração, de justiça e de mentalidades – sobretudo de mentalidades – e os políticos entretém-se, até à exaustão, até ao cúmulo do humanamente aceitável, com um programa de televisão? Mas que é isto?
Senhores!... Que é isto?
Qual liberdade de imprensa qual carapuça… Mas quando é que se vai prestar atenção ao fundamental em vez de mascarar as coisas com o acessório?
Ponham-se lá todos direitos, muito sentadinhos como convém, em vez de andarem aí na beijoquice nas feiras, a embrulhar as pessoas em bolsas, e comecem a ver se os vossos aparelhos funcionam. E decidam lá de cor vai ser a blusa. E parem de mandar recados uns aos outros… Não vos enoja isso?...
Quem me dera saber o que ia a ler a senhora sóbria. E parar de ouvir disparates.