domingo, 3 de abril de 2011

O guardador de sonhos

Então pediram-lhe: “Fala-nos da ingratidão”. “Certo homem, guardador de sonhos, apascentava o seu rebanho nos campos. O seu rebanho era grande e estimado, e cuidava dele como dum filho, de tal modo, que pelas redondezas, todos o conheciam e elogiavam. Vivia pobre, mas não esperava nada, porque tinha sonhos, e os seus eram os mais belos e mais cobiçados. Vivia simples, mas não esperava nada, porque tinha sonhos, e os seus chegavam para lhe completar a vida. Vivia satisfeito, e não desejava mais nada. Vivia também só, mas nunca se sentia sozinho, porque tinha os sonhos, que o acompanhavam. Nada esperava, a não ser ver os seus sonhos crescerem e tornarem-se concretos, e fazerem-se realidade, da mesma maneira que um pai se compraz no filho que, ontem criança, se faz homem. E o completa. Assim era o guardador de sonhos. Um dia, apareceu um estranho. Andava só e não tinha sonhos. Vivia triste e nada o acalentava. Era pobre e ninguém lhe oferecia sequer as migalhas dos sonhos. Era faminto, sem ter o que o satisfizesse. Esperava nada, mas porque nada era o que tinha e a vida lhe dava. Passou mendigo, como passam os desesperados, de cara no chão, indo sem rumo, puxando as pernas para caminho nenhum. O guardador de sonhos compadece-se dele, porque nada entristece mais um homem do que ver um seu semelhante sem esperança. 'Amigo', disse-lhe, 'senta-te comigo à minha mesa. Sou pobre e nada tenho, mas deixa-me lavar-te as feridas, dar-te de vestir e dividir contigo o pão do meu dia'. Comeram e saciaram-se e o guardador de sonhos deixou que o estranho pernoitasse em casa dele. Conversaram até o sono tomar conta deles. O estranho sentiu-se grato por ter um tecto nessa noite, o guardador de sonhos por ter alguém com quem rir. De manhã cedo, o guardador de sonhos saiu para cuidar do seu rebanho. O estranho saiu com ele, dizendo: 'Deixa-me ajudar-te com o teu rebanho, antes de seguir o meu caminho.' Já o sol ia alto quando o estranho se pôs a caminho. 'Quando voltares, aqui estarei', disse-lhe o guardador de sonhos. Passaram-se dias, até que o estranho tornou a passar pela casa do guardador de sonhos. 'Amigo, és bem-vindo à minha mesa'. Comeram e beberam, conversaram e riram. O estranho ficou grato, mais uma vez, pelo tecto nessa noite; o guardador de sonhos pela conversa. No dia seguinte, o guardador de sonhos disse-lhe: ’Confio-te o que tenho de mais precioso. Toma. Leva um sonho’. E ofereceu-lhe um sonho. O homem segurou-o com cuidado nas mãos em concha, agradeceu com lágrimas, e seguiu o seu caminho. Passaram dias e semanas, sem que o guardador de sonhos nada mais tivesse ouvido ou visto do estranho, que chamava amigo. Certo dia, porém, precisou de ir à cidade e pôs-me a caminho. Chegando lá, viu grande comoção de gente e aproximou-se para ver o que era. Passava pela multidão um homem muito rico, acompanhado dos seus criados. Era de caminhar altivo, vestido de ricos panos. Todos se juntavam para o ver, porque se tornara rico da noite para o dia. O guardador de sonhos furou a custo pela turba, aproximou-se e tocou-lhe no ombro. ‘Amigo’, e logo um dos criados o derrubou ao chão batendo-lhe. ‘Como te atreves?’ ‘Este homem é meu amigo’, respondeu o guardador de sonhos. O rico olhou para ele e perguntou: ‘Porque me chamas amigo? Não te conheço. Vai-te daqui’. O guardador de sonhos nada disse. Levantou-se, voltou costas à multidão e foi tratar dos seus assuntos. Depois, seguiu para casa, deixando pelo caminho lágrimas. Procurou consolo nos seus sonhos. Passaram dias e semanas, e o guardador de sonhos esqueceu-se do rico ingrato. Tratava dos seus sonhos. Era pobre, mas não esperava mais nada senão os sonhos. Estava só, mas não se sentia sozinho, enquanto tivesse os seus sonhos. Certo dia, viu passar um mendigo. Caminhava como quem já nada espera. O guardador de sonhos chamou-o e quis dar-lhe algum conforto. Ao chegar junto dele, reconheceu-o. Era o rico ingrato. ‘Que aconteceu?’, perguntou o guardador de sonhos. ‘Amigo, perdão. Sei que agi mal para contigo. Estava cego. Tudo o que ganhei, com o sonho que me deste, perdi. Voltei a ser um errante’. ‘O que passou, passou. Vem sentar-te comigo à mesa’, disse o guardador de sonhos. Acolheu-o na sua casa novamente, sem rancor, porque quem está satisfeito com o que tem não se deixa conquistar pelo rancor. Nem pelo ódio. Falaram e falaram. Comeram e riram. O guardador de sonhos ouviu a história do rico ingrato, que mesmo quando foi rico era mendigo. Nessa noite, lembrou-se das lágrimas derramadas. E foi grato por elas. No dia seguinte, antes que o mendigo quisesse tomar caminho, disse-lhe: ‘Amigo, vou dar-te outro sonho. Mas desta vez, ficarás comigo por um tempo. Vou ensinar-te a cuidar-te dele para que não se torne ilusão. Quando te ensinar tudo o sei, seguirás então a tua vida. E o sonho seguirá contigo’. O mendigo caiu-lhe aos pés: ‘Não sou digno!’ ‘Todos os homens são dignos. Também a mim alguém um dia me tomou pela mão e ensinou a pegar nos sonhos’. Passaram dias e dias. O guardador de sonhos ensinava tudo quanto podia ao mendigo. Eram bons amigos. Mas chegou, por fim, o tempo em que o mendigo pegou no sonho e partiu. Mas a amizade que os unia era forte. Por isso a tristeza não foi maior que o desejo de querer bem. O guardador de sonhos não o podia segurar numa vida que não era a dele, nem vedar-lhe o caminho que o esperava. E assim passaram mais dias e semanas, sem que nada de novo soubesse do seu amigo. Certa manhã, pôs-se a caminho da cidade, a tratar de assuntos. Chegado lá, viu uma grande multidão que aclamava alguém que passava. Aproximou-se para ver. Era o mendigo. Ficara outra vez rico com o sonho. Vestia-se outra vez de tecidos finos. Passeava-se altivo, seguido por um séquito de criados maldispostos e zelosos. Furou a multidão a custo, para lhe chegar: ‘Amigo!’ Um dos criados derrubou-o com um encontrão. ‘Quem és tu para me chamares amigo? Vai-te daqui’. E a multidão riu-se dele, enquanto voltou costas e se afastou. Nada disse. Tratou dos seus assuntos e voltou a casa, fazendo um caminho de lágrimas. Buscou novamente consolo nos sonhos. E a eles se dedicou, esquecendo-se do rico ingrato, que o humilhou. Foi então que, certo dia, voltou a ver o ingrato. Conheceu-o de longe. O rico ingrato atirou-se-lhe aos pés e pediu perdão. O guardador de sonhos compadeceu-se dele. Apanhou-o do chão e ouviu tudo quanto tinha para dizer. Falaram e falaram. O guardador de sonhos perdoou-o novamente. No dia seguinte, o mendigo disse-lhe: ‘Amigo, sei que não mereço, nem tenho o direito de te pedir, mas gostaria de te pedir mais um sonho’. O guardador de sonhos ficou em silêncio um momento. Depois perguntou: ‘Foi para isso então que vieste ter comigo… E para que o queres?’ ‘Para mudar de vida’. Iluminou-se o rosto ao guardador de sonhos, acreditando nas palavras do mendigo. ‘Pois aqui o tens. Estima-o. Já viste que se o não cuidares, te arruinará. Tudo quanto sei te ensinei. Usa-o com sabedoria e encontrarás a felicidade. A felicidade segue o coração. Da abundância do que nele houver se alimentará o teu sonho. E a tua felicidade.’ E o mendigo partiu novamente. Passaram muitos meses até que o guardador de sonhos teve de voltar à cidade. Logo que chegou notou, novamente, a multidão que se apinhava. Aproximou-se também para ver. Era o mendigo, outra vez rico. Entristeceu-se por ele. Passou pela multidão, mas os criados do rico impediram-no de se aproximar. ‘Vens para pedir, louco?’, perguntou-lhe o rico, do alto dum estrado finamente talhado. A multidão perdeu-se de riso, ao ver como os criados manietavam o guardador de rebanhos. ‘Vai-te daqui. E leva as tuas palavras. Palavras não me contentam, não me compram vestidos nem pagam criados.’ O guardador de sonhos levantou-se e disse: ‘Por três vezes te estendi a mão. Por três vezes te acolhi. Por três vezes te confiei os meus tesouros. E por três vezes me menosprezaste’. O rico irou-se com aquelas palavras. ‘Some-te daqui ou mando prender-te’. O guardador de sonhos voltou a casa, semeando novamente lágrimas. Consolaram-no os sonhos. No dia seguinte, viu ao longe que o rico vinha ao seu encontro. Vinha sozinho. Sem criados e sem multidão para o aclamar. Atirou-se-lhe aos pés: ‘Perdão. Não sou digno!’ ‘Todo o homem é digno’, respondeu-lhe o guardador de sonhos. ‘A não ser que perca a dignidade de ser homem. A dignidade não é minha para que ta dê, nem tu a podes ter se a ela renunciares. De cada vez que aqui vieste, alimentei-me, confortei-te, acolhi-te, estendi-te a mão, o ouvido e o coração. Confiei-te a sabedoria dos sonhos e ofereci-tos, para que deles cuidasses e satisfizesses. Por três vezes me humilhaste e esbanjaste os sonhos que te dei. Conseguiste ficar rico por fim, mas sem sonhos. Tens ouro e prata, servos e bons vestidos. Mas és oco, porque o teu coração não conhece mais nada. Rico que sejas, continuas mendigo, que procurando não quer encontrar, pedindo não sabe aceitar, e aceitando cospe e intruja a mão que o levanta. Procuras perdão? Pois bem, três vezes semeei lágrimas no caminho da cidade até aqui. Traz-me uma e encontrarás perdão.’ ‘Mas, amigo, como posso eu encontrar uma lágrima no caminho? Por certo já a poeira e o sol as secaram’, respondeu incrédulo o rico ingrato. ‘As lágrimas que nascem da ingratidão jamais secam. Quando conheceres a gratidão conseguirás encontrá-las. Então encontrarás o perdão para ti próprio.’ Partiu o rico e o guardador de sonhos dedicou-se aos seus sonhos. Era grato por eles. Passaram dias e dias. Muito tempo. E o rico continua a percorrer o caminho todos os dias, à procura duma lágrima. Soubera ele, que encontrando a gratidão, as suas lágrimas lhe haveriam de remir as lágrimas do guardador de sonhos.”

sexta-feira, 11 de março de 2011

A máscara de Abacílio

Abacílio andava preocupado. Era pelo Carnaval. Preocupado com os festejos, atormentava-se por não ter máscara. Não sabia de que se mascarar. Andando pela rua, assim angustiado, viu uma loja pequenina, mas muito arranjadinha, toda cheia de luzes e cores, com balões à porta e meninas bonitas ao balcão. Vendiam-se ali máscaras de Carnaval! Entrou afoito, animado com a perspectiva de ali poder encontrar a sua máscara para o cortejo.
Olhou, olhou, passeou e revirou, mas nada. Umas porque eram grandes, outras porque eram pequenas; umas por serem feias, outras porque serem iguais às de toda a gente, certo é que nenhuma agradava ao Abacílio.
Veio então uma vetusta senhora, muito elegante, de sorriso branco e modos portentosos. Trazia nas mãos uma máscara. Era perfeita! Toda ela à medida, bem proporcionada, de feições robustas, medonha quanto baste. Tudo o que se quer numa máscara. Brilharam os olhos de Abacílio, enquanto a velha senhora lhe estendia a máscara.
“De que é? De que é?”, perguntava sem se conter. A velha senhora segredou-lhe ao ouvido, e ele riu a bom rir, feliz por ter a sua máscara. Saiu a correr, depois de pagar, claro está, que Abacílio era jovem mas era honesto. Era cara. Mas podia pagar a prestações. Em cinco anos pela moeda antiga, ou em três, e amortizações por mais uns quantos, na moeda de agora.
Aprumou-se a rigor, colocou a sua máscara nova e lá foi.
A rua já fervilhava de gente, tudo mascarado. Ouvia-se o riso e os guinchos deliciados dos mais pequenos. Chegou ao corso. Toda a gente admirava a máscara nova do Abacílio. Ele cumprimentava os demais e ia passando, inchado de vaidade: “Eu cá, tenho uma máscara de doutor!”
“De doutor!”, exclamavam os foliões.
Não tardou muitos que toda a gente o cercasse, a admirar a máscara. Juntaram-se e juntaram-se, tantos foliões que não se contavam.
Chegaram, por fim, os amigos e conhecidos de Abacílio, também eles a rigor. Qual não foi o espanto do Abacílio, ao ver que os amigos traziam também uma máscara igual à sua. Pudesse ver-se-lhe a cara e estaria mais branca que a máscara, agora descorada e sem brilho.
“Ó Abacílio, de que é a tua máscara?”
“É de doutor”, respondeu com voz sumida.
“A minha é de engenheiro.”
“A minha de técnico.”
“E a minha de empregado qualificado”.
“Pois a minha, é de colaborador”, disse, emproado um dos amigos.
“Qual colaborador, qual carapuça. Pois se são todas iguais!”, exclamou o Abacílio. “Raio da velha. Se a apanho! Custou-me esta merda cinco anos!”
“A minha três. Mas com juros e amortizações.”
Os foliões começaram a rir-se.
“Ó rapazes, deixem-se disso. Então vocês não vêm que estão todos mascarados de igual?”
“Pois isso vemos. Só não sabemos é de quê…”
“De parvos, senhores. E de parvos escravizados!
“Ai o raio da velha, que nos enganou a todos!”, exclamou o Abacílio. “Ó malta! Às favas para o corso. Vamos mas é atrás da velha”.
E puseram-se em debandada, com o Abacílio de máscara em punho, a pedir os cinco anos de volta. Atrás dele, os amigos, e atrás dos amigos a multidão dos foliões. Todos bradavam à velha.
Correram a bom correr e só pararam quando já não tinham fôlego. Da velha nem sinal. Ia um desfile a passar. Carros bonitos, bem decorados, gente bem vestida e anafada. Todos perdidos de riso. A encimar o desfile ia a velha, num trono. Toda ela de cetim e madrepérola. Acenou-lhes com aquele sorriso branco e untuoso.
Eles bem fizeram menção de a perseguir, mas havia muita gente a proteger o corso. Eram gordos, enormes mesmo, bem juntos em fileira, e os foliões não conseguiam passar. Dos carros, os bem-postos puseram-se a perguntar quem era aquela gente.
“São os parvos”, respondeu a velha. E todos gargalharam, bem-postos e gordos, todos num conluio. “Velha senhora”, gritou um dos bem-postos, “atira-lhes com notas de 500, que os acalma”.
“Está bem. Mas uma por mês. Só uma!” E riram e riram. Passava o corso, e os foliões ali parados não podiam senão olhar.
“Ó Abacílio”, gritou um dos bem-postos, “de que te mascaras?”
“De parvo”.
Ai que parvos. Que parvos que nós somos!
Fim da festa.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Quaerendo

Estava outra vez a chover. Gosto da chuva. É aborrecido andar à chuva. Mas eu gosto. Era de noite e pûs-me a reparar nos pequenos regatos de água, que se formavam junto aos passeios e que corriam rua abaixo, como se fossem torrentes dum dilúvio em miniatura.
Não havia ninguém na rua. Andei devagar, permitindo que de vez em quando uns pingos escapassem ao guarda-chuva e me caíssem na cara. Reparei como a luz dos candeeiros, presa pela chuva a cair, formava um pequena auréola ao redor das lâmpadas. Achei giro. Pensei que era um cenário engraçado para uma história de detectives. Imaginei um homem, de gabardine e chapéu a descer a rua. O cigarro ao canto da boca fumegava sem ser fumado. Estava ali apenas por vício. Só se via uma luzinha pequena, a dar sinal de que ainda estava aceso. Ia a olhar para o chão, para os regatos de água. Não trazia guarda-chuva.
“Boa noite.”
“Boa noite”, respondi.
“Vem de baixo?”
Pergunta óbvia, pensei. Que raio de detective. Pensaria ele que eu estava ali parado na rua só por gosto?... Gosto de chuva. Mas não de estar na rua com chuva. Mesmo com as auréolas dos candeeiros e os pingos na cara. “Sim.”
“O senhor, por acaso, não viu um papel verde?”
“Não... não reparei. Está tudo encharcado. Se calhar desfez-se. Ou então...”
“Foi levado pela água, sim” - interrompeu-me ele. Franzi o sobrolho. Não gosto de ser interrompido. Mesmo que seja por um detective. “Mas é importante. Muito importante” - e seguiu adiante, de olhos pregados no chão.
Eu olhei outra vez para os candeeiros, sem guarda-chuva. Fiquei assim, de olhos fechados a sentir as gotas frias na cara. Não se ouvia nada. Só o pingue-pingue. Suspirei. Estava tão cansado. E com saudades. Fiquei ali, quieto, até a chuva escorrer pela cara, como se fossem lágrimas.
“Ei!”
Olhei para trás. Era o detective.
“Achei!”
Acenei e esbocei um sorriso de assentimento. Ele acenou de volta.
Retomei o caminho de casa. Senti o andar lento, pesado. Como se levasse nos pés o peso da minha vida. Não gostava dela, da vida. Nem quando me deixava gozar a sensação da chuva a cair-me na cara. Nem quando abria a porta da casa, que dava para o quartinho alugado onde morava. Nem quando a cama quantinha me abraçava e eu tentava sossegar os pensamentos e dormir.
Gostava mais da chuva. Deitei-me e fiquei quieto, à espera que o calor se espalhasse pelo corpo e me entorpecesse. Ainda conseguia ouvir a chuva. Foi apenas um momento, até os pensamentos tomarem conta de mim e me quebrarem a quietude. Pensei nas dívidas. Na vida miserável. No emprego que tinha acabado de perder. Na semana péssima, vazia, tudo em vão. Nada. Nem um empregozinho. Pensei também que vivia há demasiado tempo no quartinho alugado, que detestava. E que não havia ninguém à minha espera à noite, nem ninguém se despedia de mim de manhã. Senti a cara molhada outra vez, mas não chovia no meu quarto... A vida. A vida... Pfff. É boa para quem tem sorte. Se ao menos a morte viesse. Se viesse e me levasse. Quem seria que me choraria? Alguém choraria?... Pûs-me a murmurar uma oração. Por que seria que ainda rezava? Continuei a murmurar uma prece. Mas rezava à morte. Não a Deus.
Bateram à porta. Não liguei. Queria tudo, menos ver alguém. Mesmo estando só. Pensei no oxímoro. Não havia ninguém para me aconchegar, mas eu não queria conversar. Não agora. Precisava daquela comiseração, sózinho, para impedir a lucidez de me fugir. Outra batida. Não gostava de me levantar depois de estar deitado. Muito menos de ter de descer as escadas até à porta da rua. Outra, mais forte. “Já vai!!!”, gritei, enquanto procurava o roupão. “Mas quem será a estas horas. Que raio!”
Desci devagar, porque os chinelos estavam-me largos e tinha medo de cair. “Já vai”, disse outra vez.
“Boa noite” - disse, pensativo.
“Boa noite”. Era uma senhora. Sem guarda-chuva. Trazia um manto com capuz, de um tecido meio aveludado. Não entendo nada de tecidos. Mas era bonito. Ainda chovia e os candeeiros ainda tinham auréolas de luz amarela.
“Posso entrar?”
“Faz favor de dizer” - respondi, não muito simpaticamente. Não sou simpático por natureza. Muito menos em roupão e chinelos largos.
Ela sorriu e olhou para mim. Eu, fiquei a olhar para ela. “Não me reconhece?”
“Na verdade, não estou a ver... lamento”.
Sorriu outra vez. Passou por mim e começou a subir as escadas.
“Mas olhe... Espere!” - disse-lhe numa voz mais autoritária. Achava pouca graça a desconhecidas de manto com capuz.
“Queria que viesse, aqui estou. Venha!”, e continuou a subir sem esperar por mim. Subi atrás dela, o mais depressa que pude, dada a condição dos chinelos. “Esta mulher tem fogo nos pés! Credo! Mas que raio de coisa”.
Parou à porta do quarto, até que eu chegasse para a mandar entrar. Instalámo-nos o melhor que o quarto nos permitia. Eu pasmo, ela sorridente.
“Continuo sem saber quem é ou o que deseja”, atalhei em jeito de início de conversa.
“Disseram-me que estava farto”.
“Eu? Farto?... Não estou a perceber”.
“A minha irmã está preocupada consigo. Diz que se desecantou.”
“Ah, a senhora é a irmã...”, respondi, pensando que ela seria a irmã da dona do quarto. Ela continuou, não sem antes sorrir mais uma vez. Sorria como se fosse dona de um segredo qualquer e aquilo começava a irritar-me.
“Estou aqui para chorar consigo”.
“Chorar comigo?!... Mas que conversa é essa?”
“A comiseração é um exercício muito mais frutuoso se for feita a dois.”
Não respondi. Olhámo-nos. Era a Morte. Mas como podia ser a Morte? Desde quando a morte bate à porta e anda por aí à chuva com mantos de capuz? “Afinal, sempre me fugiu a lucidez”, pensei. “Estou doido”.
“Surpeende-o que eu esteja aqui?”
Foi a minha vez de sorrir. Mas ela continuou: “Decidi vir. Tenho-o ouvido chamar por mim. Já nos conhecemos antes... Não se recorda?”
“Perdão” - sobrolho franzido outra vez.
“Não se lembra?... Era muito pequeno... É natural que se não se lembre...”
Mas lembrava. Lembrei-me de imediato. Era mesmo muito pequeno. Tinha tido um acidente. Caíra dum cavalo e estive entre a vida e a morte. Olhei bem para ela. Não me lembrava do manto, mas lembrava-me dos olhos e do sorriso. Lembrava-me daquela sensação de liberdade... De sentir o vento na cara. Lembro-me de ir a rir, de me debruçar no pescoço do cavalo e abraçá-lo. Adorava aquele cavalo. Lembro-me da luz do sol. Era primavera. A terra estava molhada ainda, mas tudo era verde e fresco, e vivo... Depois a queda. Lembro-me de voar por cima do cavalo, cair no chão e não ter tempo para me desviar dele. Caiu-me em cima. Lembro-me dos gritos do meu avô. Depois não ouvi mais nada. Só sentia a luz do sol. E ela a estender-me a mão. Sorria como agora. “Toca a levantar!” Lembro-me de me perguntar se podia ir com ela. “Ainda não pode ser. Há gente à espera. Mas um dia sim.” E piscou-me o olho. Devo ter dormido muito tempo. Quando acordei o meu avô tinha barba branca e olhos fundos.
“Continua a querer ir comigo, não é?”
Assenti. Pensei que a vida era injusta. Que não valia a pena.
“Essa conversa devia ter com a minha irmã... Não posso reponder-lhe a isso”. Olhei para ela. “A Vida. A Vida é minha irmã. Devia ter chamado por ela. O seu problema é com ela, não comigo. Mas já que estava aqui perto...”
“Isto é tudo tão...”
“Sim, eu sei. Mas já somos velhos conhecidos”. Piscou-me o olho outra vez. “E se fôssemos passear?”
“Passear? Com esta chuva?...”
“Vamos”, disse de mão estendida. Dei-lhe a mão. O sol estava quente. Era agradável senti-lo na cara. Estava outra vez no campo. Voltei a sentir o cheiro a terra molhada. E a sensação de liberdade. Apesar dos chinelos largos.
“Foi aqui que nos conhecemos”, disse.
“Pois foi”, assenti numa voz ausente, enquanto agradecia aquela sensação do calor do sol na cara e que me fazia sentir... vivo. “É muito injusto, tudo isto”.
“É. Justiça e Vida não são coisas iguais. Na verdade, a Justiça dá-se melhor comigo”. Outra piscadela de olho. “Recorda-se do que lhe disse que vinha fazer?”
“Sim. Chorar comigo.”
Não me lembrava das lágrimas serem tão purificadoras. Deixei-as vir, tratando a Morte como uma amiga e chorando com ela. Chorava por mim. Pelo desencanto.
“Não acha que seria maravilhoso se em vez de cemitérios tivéssemos florestas?” Pegou-me de novo na mão e começámos a caminhar, com o manto de veludo a arrastar pela erva húmida. “Se por cada pessoa que vem ter comigo nascesse uma árvore. E o mundo fosse todo verde, todo límpido, todo fresco. E se o vento as balouçasse, arrancando delas cânticos à Vida?”
Sorri. “Sim, acho que seria fantástico”. Na verdade, também não percebo nada de florestas. Nem de cemitérios. Mas assenti para lhe fazer a vontade.
“Não há propriamente um fim, sabe... Toda a gente pensa que há. Depois fica triste. Porque eu sou apenas uma passagem”.
“No tempo?”
“Na existência.”
Levantou-se vento e as árvores começaram a murmurar um cântico.
“Eu voltarei, meu caro amigo. E passaremos juntos, dessa vez. Mas não tenha pressa. Não deixe que a Vida lhe roube o viver. Cante e ria e chore. Ame e odei. Faça tudo o que tiver de fazer. Diga tudo o que lhe apetecer. Viva. Um dia de cada vez. Custa. A Justiça e a Vida não são as melhores amigas. Mas viva. A Vida não presta sem viver. Mesmo que por vezes pareça que vive sem si.”
Sentámos-nos e ficámos em silêncio. Depois levantou-se, pegou-me na mão e disse: “Penso que é tudo... Agora é tempo. O seu tempo. Aproveite-o!” Outra piscadela. “Até outro dia.”
Ainda chovia na rua. E eu gostava de ver as auréolas de luz dos candeeiros. Vi alguém que jazia prostrado no passeio, mais abaixo. Voltei para trás a correr. Aproximei-me devagar. Era o detective, de gabardine mas sem chapéu, completamente encharcado. Havia sangue na calçada. “Achei, achei”, disse numa voz sumida. Agarrava um papel verde na mão fechada.
“Pois foi. Achou.”

NOTA: Esta história de ficção foi criada a pedido do fotógrafo Bruno Silva, que pretende recontá-la através da fotografia. A seu tempo, será recontada no site do fotógrafo.

sábado, 22 de janeiro de 2011

O feio

Sou um homem de gostos simples. Gosto das coisas simples. Das pequenas. Das sem importância. Gosto de acordar cedo. De ouvir os pardais de manhã. Gosto de ouvir o vento nas folhas das árvores. Gosto de nevoeiro. De frio. Duma lareira acesa. Gosto da sensação de me deitar numa cama acabada de fazer. Gosto de casas de campo. Rústicas. Gosto de livros. Do cheiro do papel e de passar os dedos pelas páginas. Não gosto do barulho. De lugares cheios de gente. Da obcessão pelas marcas. Da confusão. Do luxo. Da futilidade. Da vaziez de espírito. Da confusão entre o que se é e o que se tem. Da incapacidade de se aceitar como se é. Não gosto da crítica burra. Nem da malícia. Nem da conivência entre compadres.
Deve ser por isso que as pessoas me acham bizarro. Seria excêntrico, se fosse rico. Como não sou, sou meramente estranho.
É um facto. Sou estranho. Sinto-me estranho ao mundo que me rodeia. Estou desadequado. As minhas prioridades são invariavelmente diferentes.
Há alguns anos tive um trabalho que me obrigava a apanhar um comboio de regresso a casa já depois das onze e meia da noite. Não gosto de trabalhar de noite. Só de escrever. Mas no trabalho de escrever a noite é conselheira. Assim como a manhã, ou tarde... Mas prefiro a noite. Uso-a como se fosse uma manta para as pernas. E gosto dela. Aconchega-me. E o silêncio deixa que as palavras se aproximem no lusco-fusco.
Mas não naquele trabalho. Nem a noite era conselheira nem eu consigo trabalhar bem de noite. Detestava-o. Mas tinha de ser. Também não gosto de viver numa sociedade em que tenho de trabalhar no que não gosto e, por consequência, o trabalho que faço não me realiza. Mas tem de ser.
Vinha, quase sempre, com uma colega, de horário semelhante. Tornámo-nos amigos, através das nossas conversas e da convivência pelo caminho. Nunca mais soube dela depois de sair desse trabalho. Curioso como as necessidades da vida nos moldam. E como as relações entre as pessoas dependem delas. Penso que me achava estranho. Sei mesmo que sim. Intrigava-a a minha forma de estar na vida. Gostava de conversar, enquanto aguardávamos pelo comboio, com olhos de sono. Gostava de ouvir o que eu pensava. E eu deixava-a ouvir. Pensava, muitas vezes, diferente de mim. Mas isso nunca nos impediu de continuar a conversar.
Certa vez ficou chocada porque eu, já não me lembro a que propósito, disse que era feio. Só ao fim de algum tempo é que percebi que ela estava de boca aberta a olhar para mim, sem saber o que dizer, só porque eu tinha dito que era feio. Calei-me. Primeiro porque não percebi de imediato o que tinha eu dito que a chocasse. Depois para ser ela a elucidar-me. Não deu grandes explicações. A resposta foi simples. “Ninguém é feio.” Gosto das coisas simples. Mas desta não, porque é hipócrita. Há muita gente feia. A fealdade não é uma coisa que tenha sido proscrita da face da Terra. Na verdade, sempre houve gente feia. Hoje não é excepção. Mas o choque dela era por duas razões: por eu o ter expressado abertamente e, sobretudo, por ela saber que era verdade, embora não o conseguisse admitir. Tranquilizei-a. Disse-lhe que não se devia chocar com o facto das coisas serem como são. Com os factos. Voltámos à conversa. E passou o choque. Dela. Não o meu. O meu choque foi ter percebido a dificuldade que as pessoas têm em aceitar as coisas como são e em dizê-las.
Para a sociedade de hoje é lícito pensar que alguém é feio. É bastante aceitável que se goze com alguém, na surdina, por ser feio. Mas não que se diga abertamente. E, certamente, nunca que alguém diga de si mesmo que é feio. Isto faz-me confusão. Prefere-se a hipocrisia. Por que razão alguém que é feio não há-de dizer que o é?... Claro que poderíamos atalhar que ninguém é realmente feio, isto é, que o ser íntimo da pessoa, aquilo que a pessoa é, não é feio. Mas eu acho que pode ser. Existem pessoas feias. Muitas pessoas e muito feias. Por mais que isso custe. Mas sim, no caso da conversa do comboio, eu referia-me à beleza física, e foi isso que despoletou a reacção de choque. O mundo em que vivemos não permite que alguém diga de si mesmo que é feio. Simplesmente porque o paradigma actual é precisamente o oposto. E quem não vive pelo paradigma, está fora dele e, consequentemente, a arriscar estar fora do mundo.
Há riscos nesta maneira de ver. Se dividirmos o mundo entre ricos e pobres, bonitos e feios, campónios e citadinos, totós e populares, retrógrados e evoluídos, heteros e metros, arricamo-nos a deixar de ver as pessoas pelo que são e a olhá-las apenas pelo que aparentam ser. Como nos aparecem. É isto o apelo da beleza, como paradigma. Uma sociedade onde apenas contam os sorrisos bonitos e simpáticos, a estatura alta e bem proporcionada, as feições mais primorosas e os corpos bem definidos. A beleza torna-se uma ditadura do aparente. Já não como uma meta. Mas como uma condição. Só têm lugar os que enquadram. Ser feio, ainda que se seja, está fora de questão.
O problema que daqui decorre é evidente. Nem todas as pessoas são bonitas. Fisicamente apelativas. Os que o são vêem abrir-se-lhe as portas; os que o não são têm de bater com força. E esperar que alguém abra. Umberto Eco tem duas obras sobre este assunto. Magníficas. Em português, entitulam-se História da Beleza e História do Feio. Leitura recomendada.
O apelo da beleza e o repúdio do feio podem, realmente, marcar uma vida. Marcam com certeza objectivos. Comportamentos, formas de estar, posturas de vida. Opções. De vária ordem: social, profissional, mesmo pessoais. O exemplo mais trágico, e que naturalmente passará na mente de todos por estes dias, é o do caso Castro/Seabra. Ambos vítimas, cada um na sua perspectiva. E ambos culpados, também cada um na sua medida. Ambos fruto da época. Sucumbidos a ela e aos seus ditâmes. Triste.
Gosto das coisas simples da vida. De acordar cedo, com o barulhosdos pardais e o vento nas árvores. De cheirar a humidade do nevoeiro e abrir as cortinas ao sol. Gosto até de ser feio, desde que isso signifique ser livre. E estar consciente de mim.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O fim do açúcar

21 de Dezembro de 2012. Estamos precisamente a dois anos da data do final do Calendário Maia. Resta saber final de quê... Parece que, na cultura maia, a data se refere ao fim do ciclo de vinte e seis mil anos em que nos inserimos. O mistério está precisamente na razão pela qual o calendário maia tem um fim. Sabemos pouco das razões deles.
A par disto, a história está cheia de profetas e adivinhos, mais ou menos documentados (e acreditados), todos a apontar para a mesma data ou lá perto. Parece que os egípcios também disseram qualquer coisa sobre isto. Os babilónios dos zigurates também. A cabala hebraica. Nostradamus, claro. Para alguns estudiosos do assunto, até a Bíblia.
Não sou estudioso do assunto. Antes de mais, porque não sei a que fim se refere. O calendário maia tem um fim porque a data marca o fim da vida da terra? O fim da humanidade? Ou o fim do tempo? Ou será apenas que marca o fim dum ciclo e o começo de outro? E este fim trás o quê? Uma catástrofe? Um conjunto de calamidades que exterminarão a vida na terra ou as coisas como as conhecemos?... Não sei. O senso comum manda-me acreditar que a data pode marcar um fim. Da concepção de tempo como ele era concebido pelos maias. Ou da vida como a conhecemos... Ou mesmo até deste período de existência da Terra, consequência das adaptações que o planeta precisa de fazer em resposta às alterações que nós próprios provocámos. Isto é o lógico. A mim parece-me que é. Seguramente não marcará o fim in abrupto, como se agora fôssemos e amanhã tivéssemos deixado de ser. Como se a vida tivesse um relógio biológico que repentinamente fosse desligado.
O problema com as profecias é que, se nos esforçarmos o suficiente, ela dizem aquilo que queremos que elas digam. Mesmo que o façamos inconscientemente ou sem malícia. É exactamente por isso que, qualquer exegeta sabe, o princípio básico e fundamental para a interpretação de qualquer texto é o contexto. Também nos textos das profecias. Sobretudo neles, tanto mais que, muitas vezes, a linguagem utilizada segue um estilo próprio, que chamamos linguagem apocalíptica. Tenho sempre medo de usar esta expressão, por causa do equívoco que provoca. Ainda assim, corro o risco, elucidando que não se trata aqui do livro da Bíblia propriamente dito. Não é a isso que me refiro, mas sim à linguagem, ao estilo utilizado para escrever ou descrever profecias. A Bíblia está cheia desse estilo. Mas existe em quase todos os textos de índole profética, sobretudo quando pretendem fazer certas premonições ou falar de alguns assuntos em particular. Trata-se do uso de números, animais, palavras, figuras de estilo, todos usados de forma simbólica, de tal modo que, no verdadeiro sentido do texto (aquele que o autor lhe diz dar, e que na exegese chamamos intenção de autor) nada é o que parece. E é precisamente aqui que está o problema das profecias. Tire-se uma frase do seu contexto, e será muito fácil encontrar nela a data do fim do mundo. Pode ser perigoso isto. É fácil descontextualizar, e com as melhores intenções. E, no entanto, a data existe. E, mais ainda, marca um fim. Um terminus. Para eles foi-o certamente. Lamentavelmente, finaram-se eles muito antes do calendário chegar ao fim. E também não foram muito claros quanto ao que queriam dizer com esta coisa de fim. Ou não foram, ou nós não sabemos ler o que deixaram com a devida clareza. Sabemos pouco das razões deles.
Quanto a mim, vou esperar para ver, se daqui a dois anos, a terra se consome em chamas (e nós com ela, e portanto não verei coisa nenhuma) ou se a polaridade da terra se inverte, ou se haverá um cataclismo doutra espécie, ou se restarão apenas as baratas. Ou, quem sabe, se será apenas e maravilhosamente o início duma nova fase. Dum novo ciclo. Um novo Génesis. Estarei directamente em contradição com a Bíblia, uma vez que Deus prometeu a Noé que não mais destruiria a humanidade, ou seja, que não haveria um segundo dilúvio. Não me parece que Deus tenha mentido. Já os homens... Ainda assim, nada impede que, sem dilúvio, não se possa começar de novo. E Deus sabe o quanto precisamos dum novo começo. Deus sabe. Os homens é que não.
É estranha a nossa sociedade. Há muita gente a criticar a nossa forma de viver em sociedade. Eu incluído. In extremis, estamos a criticar-nos a nós próprios, porque nós é que somos a sociedade e somos nós que a construímos e a fazemos ir nesta ou naquela direcção. E, no entanto, não somos capazes de a mudar. A sociedade, criação humana, tomou conta do seu criador, a ponto de ser ela, a criada, a reger o criador e não o criador a dar-lhe o sentido e a direcção. Naturalmente que isto tem consequências. Todas bem assimiladas e aceites, desde que os benefícios sejam maiores que os custos. Haverá sempre uma franja que terá de pagar um preço de sangue para a engrenagem social não parar. E para nutrir as gordas e abastadas camadas e estractos em que decidimos dividir-nos a nós próprios. Perdurará pela história dahumanidade adiante a lacónica e triste sentença de Cristo: "Pobres, sempre os tereis convosco".
Esta estratificação social, soube recentemente, não é exclusiva da espécie humana. Muitas outras espécies animais diferenciam os seus indivíduos em ordem a uma escala social. Isto não é novidade para mim. A novidade é que, em algumas, particularmente no mundo primata, essa diferenciação assume contornos de casta, de classe. Achei isso demasiado... humano. Não vamos pensar que as espécies, por diferenciarem os indivíduos são segregadoras. Mas até podem ser. Cruéis mesmo. Mas a diferenciação tem o objetivo de escolher os mais aptos para a continuidade. E eventualmente, os que este ano não são aptos, poderão vir a sê-lo amanhã, não estando, portanto, vedada uma certa ascensão social.
Dirão: mas na sociedade humana é exactamente a mesma coisa! Diferenciar para escolher os melhores e mais adequados. Sim, é verdade. Mas se houver um mendigo que consiga, digamos, escapar à mendicidade e fazer sucesso, que dirão? “Ah, teve sorte!” Mais ainda: “olha, lá vai o mendigo com a mania que é rico”. Chama-se a isto preconceito. Esta é uma noção tipicamente humana, que não se verifica na diferenciação social das outras espécies animais. Quanto às outras espécies sei pouco das razões, fora esta da sobrevivência do mais apto. Das nossas, humanas, sei ainda menos.
Imaginemos mais. Imaginemos que falta, digamos, o açúcar.
Quase no Natal, tudo atarefado com tantas compras e coisas para fazer, esquecendo por uns dias esta coisa da crise (que parece que é de 2008, embora eu ande a ouvir falar dela desde que me tenho por gente), já tudo pronto para marcar umas fériazitas e...zás. Falta o açúcar.
“Não! Que é isso? Um disparate. Há montes de açucar” – vem logo um senhor do governo dizer, muito incomodado a ajeitar as polainas e a sacudir a cinza do charuto. Vai olhando de soslaio para os sapatos de verniz e para o relógio de bolso, por cima da barriga farta, desesperado com aqueles boatos, capazes de arruinar a almoçarada da rapaziada do clube. “Mas, senhor”... “Senhor nada. Há açucar às toneladas homem! Veja se toma tino no que diz. As pessoas ainda acreditam. E depois? Uma crise. O descalabro!”
E assim foi. Acabou-se o açúcar. Seja porque não havia mesmo, seja porque parece que só temos licença dos amáveis senhores que governam o nosso clube europeu para importar a matéria-prima de que se faz o seráfico ingrediente (só importar, note-se. Produzir jamais!), seja porque os senhores que vendem a matéria-prima querem fazer subir o preço, ou antes a querem vender aos senhores do biocombustível, que a pagam mais cara, seja lá por que razão foi, o certo é que se acabou. Nada de açúcar. Nada, nada. Abaixo as rabanadas, o arroz-doce, os sonhos, os pudins, as azevias, o bolo-rei. Fim às filhós.
O senhor do governo ficou atarantado. E nós ficámos sem doces. Se era este o fim da profecia, chegou dois anos adiantado. Fosse como fosse, doces, nem vê-los. Toda a gente se lembrou da crise outra vez. Ficou tudo cinzento outra vez. Foi preciso uma operação de charme a convencer as pessoas que, afinal, era falso alarme. “Estão a ver, seus patetas! Muito açúcar! Voltem aos doces. Chega de conversa fiada”. Ah, a propaganda...
Só tiro uma lição da crise do açúcar (nunca pensei escrever sobre uma crise do açúcar): estamos demasiados nervosos. E descrentes. Do açúcar, do governo, da sociedade, da vida. Os ingleses têm uma palavra gira para isto: dizem jumpy. É isso mesmo. Estamos todos jumpy. Irrequietos, incomodados, numa calmaria disfarçada por pudins e rabanadas. E infelizes. Muito infelizes.
Gostava tanto de ver o fim. O fim das mentiras, dos logros, das desigualdades sociais, dos esquemas, dos compadrios, das coisas podres que matam e corrompem o meu país a partir de dentro. O fim das pessoas a pedirem esmola. A quererem trabalhar e a não haver quem lho dê. O fim do faz-de-conta. O fim do tempo dos cães de loiça. O fim da hipocrisia.
Mas ainda faltam dois anos. Só espero que não se tenham enganado nas contas... E que já tenha começado, há uns anos bons, mais um ciclo.
Feliz e doce Natal.
Bom 2011, tanto quanto possível. Mesmo que seja com pouco açúcar.

sábado, 30 de outubro de 2010

414

Acordei com o ping-ping da chuva. Esbocei um sorriso ensonado e enrosquei-me o mais que pude, para me deixar ficar a ouvir a chuva a cair. Não deve haver nada que me contente mais. Fiquei assim até a preguiça me permitir, antes de enfrentar o dia. Mais frio do que esperava. Ainda assim bom.
Gosto de dias frios.
E de ouvir a chuva na cama.
Comecei a pensar em marmelada e geleia e broas de mel escaldadas. Coisas boas. Estamos nos Santos. Quando eu era pequeno, ia mais os amigos da rua de porta em porta pedir os “santinhos”. E lá nos davam um punhado de castanhas, romãs, rebuçados, e às vezes umas moedas de 5 escudos. Regressávamos a casa com aqueles pequenos tesouros, que nos iriam entreter por uns dias, juntamente com a marmelada feita à poucos dias, a geleia e as broas de mel. As coisas eram mais simples, e não havia Halloween. Nem sequer sabia o que isso era. Lembro-me de ouvir falar disso nos primeiros anos da Secundária, numa aula de inglês. Alguns colegas já sabiam o que era. Eu fiquei a pensar que era matarroano por nem sequer ter ouvido falar da coisa. Ainda assim achei que o halloween era uma coisa disparatada. Mesmo que pedir os santos ou andar pelas ruas mascarado de bruxa, fantasma ou duende tivessem o mesmo objectivo: arranjar doces.
Era pobre nessa altura. Lembro-me que só tinha um par de sapatos. Que as refeições eram quase sempre uma sopa ou então arroz com qualquer coisa. E que a minha Mãe, discretamente, de vez em quando não comia “porque não tinha fome”. E que muitas vezes fui comer a casa dos meus Avós, a minha verdadeira Casa. Ainda assim, estava rodeado pelas pessoas de quem gostava, podia correr na rua, passar as tardes no campo depois da escola, comer muitos doces e mimos trazidos pela Avó e pelo Avô. Só por causa disso, não era até nada pobre. Mesmo só com um par de sapatos ou com meias muitas vezes remendadas ou com calças de bombazine com as bainhas vincadas a várias alturas, uma por cada vez que a minha Mãe as arranjava para durarem mais um tempo, ou com camisolas fora de moda cheias de borbotos. Mas as coisas eram mais simples.
Pûs-me a fazer a marmelada e a geleia, pensando que dantes era mais simples. Passaram quase trinta anos desde estas memórias. Lá fora ainda se ouve o ping-ping. Depois ri-me de mim mesmo, com a cozinha da casa, onde antes havia as pessoas de quem gostava, agora vazia só comigo, cheia de tachos e panelas. A minha Mãe sempre dizia que eu era muito bom a fazer doces e muito bom a desarrumar tudo. O que não deixa de ser trágico, porque fazer os doces é muito divertido. Limpar e lavar tudo não. Ri-me. Porque dantes, quando pedia os santinhos, era pobre. Hoje, que já não peço – nem sei sequer se os miúdos por aqui ainda pedirão – continuo a ser pobre. Neste sentido, é uma tragédia. Nada mudou para mim. A não ser o estar mais pobre. Faltam-me as pessoas.
Há dias, quando se anunciaram as medidas de corte do Orçamento de Estado para o ano que vem e as pessoas cairam na relidade de que estamos – não é o país, somos nós – a viver há décadas acima das possibilidades e do que produzimos, vi montanhas de projecções, cenários e múltiplas reportagens sobre a vida dos republicaníssimos portugueses. Estava já enjoado de tantas más notícias. Já me bastam as minhas. E a cada dia basta o seu mal. Fui assombrado, outra vez, pelo “pobres sempre os tereis convosco”. Esta inevitabilidade incomoda-me. Por causa da injustiça, da desigualdade, da sensação de impotência. No meio das reportagens alguém disse que estava preocupado porque depois de um apurado estudo se concluiu que metade da população portuguesa não poupa. Outros que se estima que serão dois milhões os portugueses pobres, porque vivem com menos de 414 euros mensais, ou então porque não conseguem fazer duas refeições de carne por semana. Não sei qual é o critério mais preponderante. Ou como se chega a estas conclsões. Ou porque razão hão-de 414 os euros que separam os pobres dos remediados. Que mal tinham os 415? Ou já agora os 500, que são, para a grande maioria das pessoas da minha idade, atirados para call-centers e caixas de supermercado, com um diploma e um sorriso, o rendimento mensal com que a nossa economia nos brinda. Sei-o de facto e na pele. Não por estudos complicados. Gosto das coisas simples. Parece que há um problema qualquer com a produtividade. E portanto, olha, temos de contentar-nos. Afinal, estamos acima da pobreza. Mas o senhor que estava preocupado porque os portugueses não poupam não perguntou porque razão não poupam eles. E o senhor das estatísticas não explicou o que se está a fazer para acudir aos dois milhões. Nem o senhor dos estudos demostrou a razão dos 414 ou das duas refeições de carne. Ninguém, mesmo ninguém, falou de porque é que se chegou a esta situação. Ou de porque é que vivemos em crise desde que me lembro e não só agora... Alguém falou da correlação entre salário-produtividade-motivação. Mas ficou abafado pelas estatísticas. Depois ainda perdi tempo a ir ver o tal site de que toda a gente fala, onde se podem ver as despesas do Estado. Digo perder porque, realmente, parece-me que vivemos cada vez mais num país fantástico, muito longe da Utopia, em que as pessoas e as realidades estão alheadas umas das outras. O problema é que os dois milhões já não serão apenas dois. Já serão mais. E o republicaníssimo país vai brilhando, nas festas e jantaradas, enquanto decorrem os jogos de bancada que vão entretendo os políticos, completamente desacreditados, concentrados nos corredores e a anafar os lenços de seda e as cambraias e a polir as fivelas de prata, enquanto o povo vai raspando o fundo aos tachos. O país estava um caos antes da revolção salvadora. Ficou pior, porque os grandiosos mentores do novo regime andaram a fazer cair governos atrás de governos, como papagaios à cata de poleiro. Continua mal. E os senhores do regime péssimos. E com uma queda para a novela e o drama, que ronda o insulto. Até quando os brandos costumes tolerarão o status quo?...
A mim, parece-me mais simples que nos contentemos com o que temos. Aprender a viver com o que se tem deve ser das coisas mais difíceis do mundo. Embora não pareça.
Tenho os doces prontos. Agora sento-me, mesmo sem ir pedir os santinhos, a lambuzar-me de marmelada e geleia. Fico a pensar nos 414, sem saber que mal teriam os 415. Pobre, afinal, sempre fui. Tinha era uma riqueza diferente, feita de pequenas coisas. E a pobreza não era a coisa mais importante.
Acordei com o ping-ping na janela. A marmelada está boa. E este ano, os senhores do regime não têm outro remédio senão ir pedir os santinhos. Mas hão-de ir mascarados de bruxas e fantasmas e duendes. Dantes era tudo mais simples. No tempo das fivelas de prata, de quem era a culpa daquilo ir mal? Do rei, claro está. E hoje, que não há rei para expulsar, de quem será?
Mas de quem será, de quem será?...
Dantes se calhar era mais simples.
Que bom que chegou a chuva. Já cheira a castanha assada. E a broas dos Santos.
Happy Halloween.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O penso rápido

Quando eu era miúdo e fazia uma ferida, a coisa de que tinha mais medo era dos pensos rápidos. Não pelo penso. Mas porque ao tirar arrepelava os pêlos (lamento, escrevo à antiga... fora de moda, bem sei. Mas até eu me parece que já passei de moda) ou então por estar agarrado à ferida ainda não sarada, fazia doer. Pedia à mãe que arrancasse o penso muito devagarinho e que soprasse. E ela lá se punha, com infinita paciência, a soprar-me o joelho ou o braço, enquanto puxava o penso pêlo a pêlo, como se o sopro levasse a dor, por entre um ou outro grito de protesto meu, mas não sem dizer que se arrancasse depressa, todo de uma vez, iria fazer doer menos.
À medida que fui crescendo, a vida foi-se encarregando de me arrancar os pensos de forma rápida. Não me pareceu que doesse menos. Também não sei dizer se doeu mais. A dor é sempre dor. A diferença é que me dói tudo de uma vez, em vez de ser pêlo a pêlo. Mas a contrapartida é que me afunda sem apelo nem agravo, e só a custo volto à tona. Mas também não é mais fácil quando me arranca os pensos devagar. Primeiro porque não sopra na ferida, depois porque devagar, devagarinho me faz repetir a dor uma e outra vez, até não haver mais pêlos. Porque os pensos da vida não são como os rápidos, só aquela tirinha plástica... São enormes, compridos. Às vezes cobrem-nos de alto a baixo.
Com os meus Avós, está a arrancar-me o penso pêlo a pêlo. E dói de cada vez.
Devo estar realmente uma pessoas muito adulta, porque tenho a cabeça cheia de porquês... E uma pessoa pode afundar-se nos porquês. Também me apetece hoje perguntar outra vez “onde está o Deus”. Mas não sei se quero mesmo perguntar ou se é a tristeza que pergunta por mim. Olho para a vida como um sudecer de coisas e contecimentos, inexorável, sem piscar os olhos nem olhar para trás, indiferente aos apelos. Será o tempo que passa ou será a vida que passa no tempo? E os dois, num conluio, vão tirando, todos os dias algo.
A ideia da finitude nunca me meteu medo. A minha finitude olho-a como uma coisa normal da vida. Curiosamente, só me vem o porquê quando penso na finitude das pessoas de quem gosto. O terror de não poder voltar a tocar, a ouvir, a sentir o cheiro... Uma pessoa pode afundar-se nos porquês.
Hoje pus-me a olhar para a casa vazia dos meus avós, nesta fase mais debilitada da sua velhice. Há um sentimento estranho ali, de estarem e ao mesmo tempo não estarem. Vejo-os todos os dias. Estou com eles todos os dias. E, no entanto, hoje, pela primeira vez na minha vida queria não estar sozinho. E a única companhia que me serviria eram eles. Os três, na casa velha e branca, pequenina e quieta. Consigo ver-me ali, à hora de jantar, depois de comer, a brincar no corredor, junto à camilha, com o velho carro da polícia feito de lata, enquantos eles olham para mim e se riem. A minha Avó diz, como de todas as vezes, que não comi quase nada. O meu Avô responde que já como mais, vou comer a fruta com ele. Doeu-me muito. Não sei quantos pêlos a vida me arrepelou hoje.
Mas já descobri que, não importa quantos pensos a vida me ponha, vai doer sempre.