quarta-feira, 11 de julho de 2012

Purificação


Maria da Purificação vivia uma vida pia. Pia e pura como o nome, vivida de terços desfiados, rezados devotamente, por entre joelhos moídos e velas acesas, a santos enegrecidos pelo tempo e pela fumaça. Rezava pelos pecadores, não se contando entre eles, nem se dando conta que este seu presumir-se pura era já tanto pecado. Rezava pelas Chagas, como se precisassem, elas, ainda de alguma remissão, esquecendo-se ela própria remida pelo sangue. Rezava pelo senhor Santo Padre e pelas suas intenções, fossem elas que fossem, que a ela chegava-lhe o descarrego de consciência do dever devoto cumprido. Quando à noite punha a cabeça no travesseiro, duas coisas lhe garantiam o sono: o trabalho árduo e o saber-se contribuinte para diminuir o Mal no mundo, fazendo dos seus terços, das missas ouvidas, e das vassouras e panos com que trabalhava as suas armas. Nisto se consolava. Os seus dias eram simples, como simples era a vida que sempre vivera, não sei se por escolha se por acaso, como decerto ela também o não sabia. Acredito que nem tão pouco tenha sido questão que algum dia se lhe tenha levantado. Era um espírito simples e nisso, tinha a certeza, ganhara o Céu. O Bom Jesus o prometera. Quando não estava na igreja, fossem matinas, vésperas ou hora de missa, trabalhava. Limpava a dias, melhor a horas. Primeiramente, as horas eram para Deus. Depois para tratar do ganho e dar sustento ao corpo. Vaidades nada. A sua única vaidade tinha sido um vestido fino, estreado numa ida ao teatro, no salão da paróquia, aqui há uns anos, para ver cenas da vida do Cristo. Conheci-as ela de cor, e nelas se compadecia e consolava quando os actores lhe mostravam ora a glória ora a paixão. O único homem que tinha por próximo era o senhor prior. Para além dele, apenas o caro sobrinho, enlevo da sua alma, para quem amealhava todas as coroas que lhe sobravam. Era filho da sua única irmã, Maria da Graça. Chamavam-lhe sempre só Graça, ou Gracinha às vezes, ainda que graça fosse coisa que já não tinha. Os anos tinham-se encarregado de a carcomir a ponto de sobejarem só rugas. Tinha a saúde frágil, coitadinha, dizia a Purificação. Por qualquer razão, as Marias são sempre chamadas pelo segundo nome. “Sempre foi muito fraquinha”, dizia a Purificação. Só uma vez vira um homem de ceroulas e, por desgraça, o pai, quando certa vez o apanhou à saída do barracão onde tomara banho, noutra vida, sendo as Marias ainda garotas e vivendo não na cidade mas na ruralidade a que agora se aspira por moda. Por moda e também por desespero. Bem diz a Purificação que havemos de ter de voltar todos à enxada. Mas desse fortuito e traumático encontro logo se seguiu uma ida ao confesso, que aquilo não eram coisas que uma filha devesse ver. Mesmo tendo sido uma casualidade. Fora o Diabo. Expurgá-lo fez acender um ror de velas na capela e orações em laus perene. Pia e pura, assim viveu e cresceu.
Durante anos, a sua distracção fora a televisão, mais pela companhia do que pelos programas. Interessava-se pouco pelos programas, porque facilmente via a malícia e os apelos à luxúria. Mas gostava de ver as missas solenes. Sonhava um dia poder ver ao vivo aquela devoção de milhares que só pelo aparelho acompanhava. Mas um dia, certa freira de clausura com quem falava, por ocasião dumas jornadas de oração, disse-lhe que a capela era a sua televisão. Elevou-se-lhe a alma de tal modo, inflamada por tamanho exemplo, que atirou fora o televisor. Apesar de ser velho, o sobrinho reclamou, porque sempre lhe poderia dar proveito.
Certa vez um senhor padre que ali estava por ocasião duma pregação, disse-lhe que ela rezava demais e descurava de menos as obras pias. Falou-lhe da misericórdia em vez do sacrifício. A ela, toda pura e pia, que já perdera a conta aos terços oferecidos pelos pecadores. Indignou-se. Chorou bastante nesse dia, pelo choque e pela desfeita. Mas não se abateu. No dia a seguir reuniu o beatério e houve romagem ao paço. Do pregador nunca mais se ouviu nada naqueles lados. O senhor prior também foi chamado a capítulo. Estava lá no paço um velho monsenhor, tão velho que conhecera as Marias novas e disse, com a sapiência dos anos, que a um espírito simples não convém grande teologia. Desde então o senhor prior pouco mais faz que pregar à Purificação e às outras Marias as virtudes da oração.
Amargurava-se agora a Purificação, quando os cabelos brancos já eram muito mais que os pretos e as rugas eram quase já tantas como as da Graça, porque o caro sobrinho andava desempregado, para mais de um ano. Falou do caso ao senhor prior, crente nos empregos que o cura haveria de ter em bolsa para os pios. Pediu-lhe primeiro conselho, depois ajuda. Fez promessas. Havia noites que os joelhos já se recusavam a mais, mas ela não lhes dava tréguas. Empregos para o sobrinho é que nada. Aquele quase desapego pelo mundo não a deixava compreender porque razão o estimado rapaz não conseguia empregar-se. O senhor prior tentava explicar. Mas à falta de melhor explicação para dar àquele espírito puro, dizia-lhe para ter paciência. E ela tinha. Mas nessa noite, em vez de se ir pôr diante da imagem enegrecida, decidiu por-se ao corrente da “situação”. O sobrinho estava sempre a falar-lhe da situação. Ela não entendia, mas também não se preocupava muito. Era coisa de gente moderna. A ela bastava-lhe ter na cabeça, bem arrumado, o calendário das suas limpezas. O sobrinho, às vezes, soltava um desesperado “oh tia”... E ela abraçava-o, beijava-o na testa e tirava uma nota da carteira. E pronto. Ele também não adiantava conversa. Agradecia a nota, soltava uma lágrima, ela outra, e ia cada um à sua vida.
Pela primeira vez em muitos anos, quis ler o jornal. De início assim sem grande entusiasmo. Depois começou a atentar no que se dizia. Depois das parangonas, assustou-se com as mortes e os assaltos. A guerra lá ao longe. “Não mudou assim muito”, comentou de si para si, aludindo à última vez que lera o jornal. Se havia coisa que no mundo a não surpreendia eram as mortes, os assaltos, a violência, nem mesmo a guerra. Tudo isso era o mundo. E essa mesmo fora uma das razões pelas quais não lhe custara assim tanto ficar sem o televisor, nem devotar-me mais às rezas e menos às conversas. O que ela procurava mesmo eram as páginas da economia. Queria por-se a par da situação. Folheou com cuidado, como quem sabe o que anda a procura e leu com desvelo, como quem medita um catecismo. A coisa que mais a surpreendeu foi saber que havia países falidos. Parecia até que a falência era a palavra de ordem e que o país, nunca tendo sido desafogado, estava agora mais que afogado. Atentou cuidadosamente nos dizeres de todos aqueles senhores bem postos, engravatados, de ar grave e falas mansas. Leu e tornou a ler, porque o palavreado era por demais floreado e se cuidado não tivesse naquela atenta leitura, ficava-se exactamente na mesma. “Podem por-lhe gráficos e coisas bonitas, mas 'tá visto o que é a situação: não há tusto. Venderam isto a retalho, os mariolas. Arre que gente!”. E fechou o jornal. (...)
continua

NOTA: Purificação é um conto. Como tal, extenso demais para publicar duma só vez, pelo que optei por dividi-los em vários posts. Assim, sempre é possível aguardar pelos próximos capítulos... ;)

sábado, 30 de junho de 2012

O ridículo e o desencanto


Voltei a passar em frente ao baldio onde dantes era um hotel, agora em ruínas, e onde estavam os tufos de papoilas encosta acima. Já não há papoilas, seja porque passou o tempo da floração, pelo menos daquelas, seja porque o estio veio com força e trouxe temperaturas de 40 graus, levantando de imediato um côro de protestos e de alertas de radiações altas. Queixamo-nos porque está calor, quando está calor; queixamo-nos porque está frio, quando está frio. Somos uma espécie difícil de contentar. Queixarmo-nos do calor em Julho ou do frio em Janeiro é a mesma coisa que queixarmo-nos da areia da praia ou do mar ser salgado. Mas somos assim. Um desfiar de queixumes. Há sempre qualquer coisa que não está bem. Nem que seja uma dorzinha pequenina, uma moínha, às vezes. Ou uma corrente de ar que deu uma dor de garganta. Ou uma espinha das sardinhas. Ou o vinho que tem pé. Ou a bica que vem fria. Ou quente de mais. Ou do Ronaldo, que não marca golos. Penso mesmo que nos está no sangue o queixume, da mesma forma que o fado não seria fado se não fosse português. A prova disto mesmo é o Ronaldo. Ontem era o homem que não se entregava à camisola, que não marca golos como marca no Real, que é vaidoso, que não joga nada. Hoje é o nosso capitão. O herói da bola, espelho dum país rendido às chuteiras, ao génio dos jogadores e consolado nas vitórias brilhantes da nossa Selecção. A forma como o nosso capitão passou de besta a bestial fez-me pensar em Pascal, naquela ideia do homem não ser nem besta nem anjo... Mas acontece muito. Como pode o homem jogar na Selecção da mesma forma que joga no seu clube, se os jogadores são outros, o tempo de treino é diferente e o treinador também não é o mesmo? A racionalidade e o futebol são duas coisas que não combinam.
Não gosto de futebol. Acho uma coisa estéril, enfadonha, demasiado conturbada por negociatas e trocas de galhardetes. Parece-me estranho que se lhe chame desporto. Talvez não o entenda. Dou esse benefício. Verdade é que não faço grande esforço para entender. Apesar disso gosto da Selecção. Da mesma maneira que gosto de tudo o que eleva a alma dum país tão corroída como a nossa. Por alma devem entender-se as pessoas. A alma dum país são as pessoas. E nós, as pessoas deste pequeno País, habituado a sermos tão pequenos, andamos acabrunhados. Então sim. Que se vibre com a Selecção, que se acarinhem os jogadores, que se dêem vivas ao Ronaldo, que se festeje nas ruas. Sim, que se celebre este orgulho de ser Português. Mas que não se pense, por um minuto, ludibriar a alma dum povo. Fazer das pessoas parvas é que não. Se a festa servir para puxar pelas gentes, então sim. Se servir para lhes atirarem areia para os olhos, então não. A ilusão é, porventura, a pior inimiga da alma dum País. É ilusão pensar que o País se endireita com os golos do Ronaldo. Mas é legítimo festejá-los. É ilusão elevar acima da mortalidade o génio da bola. Irrita-me mesmo que se eleve mais o génio futebolístico do que o génio literário, ou outro génio artístico; do que o génio científico, o génio matemático ou mesmo o génio político, embora deste não possamos apontar nenhum caso conhecido. Eu, pelo menos, não conheço. Mas, também, que conheço eu da política, a não ser a medianidade de uma pequena parte e a mediocridade do grosso, feita por gente que ocupa cargos para os quais não está qualificada, cuja única experiência foi conseguida à sombra de comícios ou palmadinhas nas costas ou até porque é amigo do amigo do amigo de alguém?... Gostava que houvesse um, um só, que apresentasse a mesma convicção, a mesma garra, a mesma vontade de ganhar, o mesmo sentido de entrega do nosso capitão. Que realmente percebesse o que se quer dizer quando se diz serviço público... O que isso implica de entrega, de compromisso, de dedicação, de sacrifício, de aniquilação de si próprio... Então talvez a festa fosse mais legítima e, certamente, mais autêntica, sem ser inflamada pela alegria contagiante dos golos marcados e das vitórias da Selecção, mas assente em progressos verdadeiros no sentido de dar aos portugueses a alegria perene da cabeça erguida de quem se sabe senhor de si mesmo. Lamentavelmente a genialidade não se faz por tirar a gravata ou andar pelo Parlamento de brinco na orelha. Se assim fosse, teríamos já alguns génios de mérito. Em vez disso, vamos caindo no ridículo. E as pessoas que têm a missão de defender o Povo (não gosto desta palavra, está politizada e tem sempre segundos sentidos. Mas aqui não. Povo e povo só, por definição o soberano dum estado democrata) vão fazendo tristes figuras de si próprias, como o senhor Presidente que por alguma iluminação momentânea de marketing político de algum de algum membro da sua entourage ou assessores ou estrategas deste negócio da política, vi há dias a inaugurar qualquer coisa de fato e camisa, mas sem gravata. O pior é que a camisa, de tão habituada à gravata, estava teimosamente agarrada ao pescoço. E lá iam as figuras proeminentes daquele evento também de fato e camisa sem gravata. A gravata não faz o político, da mesma forma que o hábito não faz o monge. Mas que seria do monge sem o hábito, tomando aqui por hábito todas as coisas que fazem parte do seu ofício. Pode haver políticos sem gravata. O que não pode haver é políticos que caem no ridículo, tanto mais quando representam o País.
Estou convencido que já passámos a era do vazio, lamentavelmente apenas sentida por quem se dá ao privilégio de pensar. Haverá quem se interrogue por que razão as coisas estão a acontecer deste modo, sem perceber que a razão última é o esvaziamento a que nos sujeitaram e nos sujeitámos. Quisemos libertar-nos das peias e esquecemos que quando se tira algo tão fundamental como os valores, que são como que o tear onde se teceu a espécie humana, seria necessário colocar qualquer outra coisa no seu lugar. Em vez disso ficou o vazio. Goste-se ou não, a crise que vivemos é de valores. Não particularizo nenhum, porque estou convencido que todos, em maior ou menor grau, foram relativizados, postos em causa ou mesmo aniquilados em alguns casos. Nalgumas coisas coisas foi bom, noutras não. É sempre bom inquirir, questinar, aprofundar. Não é bom lançar a dúvida quando não se tem solução alternativa. Cria instabilidade. E ilusão. E a ilusão é a pior inimiga dum Povo. Pode criar também crise. Mas crise não é também o que temos. A palavra grega krisis significa separação, ruptura. E, portanto, nesta linha, uma crise é sempre ruptura com algo para se prosseguir para outra coisa diametralmente diferente. Ora a situação que vivemos é unicamente a prova da falência do modelo financeiro e económico estabelecido, sem que esteja a ser feita, em parte nenhuma, qualquer esforço por encontrar outro modelo que sirva os interesses e as necessidades das pessoas. Pelo contrário, arranjam-se arremedos de soluções, na expectativa de fazer ainda durar este modelo moribundo mais uns tempos. As consequências serão, creio, nefastas e imprevisíveis. Mas não boas. Passámos a era do vazio. Agora é a era do ridículo. Mas também poderia ser do desencanto, e eu seria o primeiro dos desencantados.
O estio chegou forte. Poderíamos queixar-nos da falta de dinheiro, de empregos, de soluções estratégicas verdadeiramente importantes, mas não. O calor é que nos mata. Mesmo que andemos louquinhos por esticar o pernil no areal da praia. Somos difíceis de contentar. Eu por mim já me contentava com uma seara de trigo, onde houvesse, aqui e ali, umas papolias.

Já me esquecia: se dúvidas houvesse, esta pessoa não escreve de acordo com a chamada nova ortografia .

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Post prandium


Fui, na minha volta diária post prandium, cidade fora. Gosto de passear, curiosamente prazer raro. Não sou comunicativo. Sou observador. Dentre os meus muitos defeitos, conta-se o perder-me em pensamentos no meio da rua, por qualquer coisa que vejo ou por alguém que passa e me leva a pensar. É assim quase todos os dias. Se pensar me desse sustento, estaria rico. Lamentavelmente não dá. Atravessei o jardim, numa tentativa muito frugal de mitigar saudades da natureza, sendo embora ela tão espinhosa para mim, por causa das alergias primaveris. Pouco depois, reparei numa mulher que se me ultrapassou, porque o meu passo de passeante certamente não se coadunava com o que quer que fosse que a levava a andar na rua. Reparei nela não por ser especialmente bonita, mas por ser uma senhora fina, considerei, pela maneira como andava e os saltos, não muito finos, assentavam no chão sem aquele ruído exagerado de muitas outras senhoras que têm necessidade de se fazer notar. Tinha o cabelo armado numa cabeleira digna da “mulher do senhor ministro” e as calças,largas como convém a senhoras duma certa idade, eram pretas, mas de um tecido que não sei dizer qual. Infelizmente, não sou versado em tecidos. Mas aquele achei-lhe graça porque parecia luzir. Poderia, talvez, perguntar a alguma amiga que me instruísse naquele tecido. Mas não creio que nenhuma das minhas amigas seja também conhecedora dos tecidos. Claro, poderia perguntar à senhora com quem, por um capricho vil da vida, sou obrigado a conviver diariamente em casa do meu Pai, e que diz de si própria ser costureira. Mas a não ser que o canal dos brasileiros da TV cabo tenha algum programa sobre tecidos que luzem, ela provavelmente dir-me-ia qualquer coisa extemporânea, mesmo que não fizesse a mínima ideia do que está a falar. E eu ficaria na mesma por esclarecer a curiosidade sobre o tecido preto que luz. Certa vez, ainda não há muitos dias, estando no café, na rubrica de culinária de um dos programas da manhã que ocupam as televisões e as mentes, o chef mostrava um tapa qualquer feito de camarão e outras iguarias, embrulhados em pão sem fermento, à maneira dum wrap. O meu Pai admirou-se com aquilo, mas ela elucidou de imediato que aquilo era o que os ingleses comiam. O cozinheiro do canal brasileiro estava farto de mostrar aquilo. Aparentemente, o cozinheiro desse canal sabe de tudo, até mesmo comida alentejana. Pergunto-me para que quererá uma mulher nascida no Alentejo aprender cozinha alentejana com um cozinheiro brasileiro. Eu ri-me para dentro, tanto quanto a minha delicadeza mo permitiu, pensando de mim para mim que estou contente por a senhora não ir a Inglaterra. Se for, terá uma grande desilusão ao descobrir que os ingleses não comem rolos de pão ázimo com camarões e alface. Não é culpa de ninguém a ignorância. Mas irrita-me, a ponto de subir paredes, a presunção de saber, mesmo quando se não sabe. É quase blasfemo, penso.
A senhora das calças pretas que luzem e cabelo bem armado em laca ia a caminho do banco. Mas, por desgraça, o edifício tem várias janelas e a senhora fez menção de entrar por uma delas, pensando ser a porta, quase quase esbarrando com a cabeça dentro da cabeleira armada no vidro enorme. Deu-se logo conta do engano, até porque um cartaz com uma menina de sorriso pepsodent a fazer reclame a um produto qualquer do banco, não deixa margem para enganos. Ali não era a porta. A porta era ao lado, aliás muito idêntica à vidraça do lado, mas sem o cartaz da menina e com uma outra diferença, para além do óbvio puxador: tinha um botãozinho com um cartão vermelho bem visível, a dizer “carregue aqui para abrir”, mas que ela só viu depois de dois valentes puxões no puxador e de a porta não ceder. Ele lá pressionou o botão, algo atrapalhada, a olhar pelo canto do olho, não fosse alguém ter visto aquelas figuras. Eu vi, outros possivelmente também, mas não sei se alguém ficou a pensar naquele complot contra a finesse. Mas eu fiquei. Tenho este defeito, de me deixar ficar a pensar nas coisas mais absurdas. E até esbocei um sorriso.
Não tive tempo de pensar muito, sobre esta correlação da finesse e da atenção com que se anda na rua porque, nem dois passos adiante, reparei num rapaz que atarefadamente se esforçava por mudar um pneu de um carro. Não sei dizer que carro era, porque nem me pareceu um carro nem um jipe, mas antes uma mistura bizarra dos dois. Também não sou versado em carros, o que acrescenta mais um aos meus defeitos. Poderia, certamente, pedir ajuda aos amigos versados no assunto, mas o tempo que me levaria a explicar como o carro era e a infinidade de pormenores que me seriam requisitados para ajudar à identificação do veículo – dos quais nada sei, porque embora observador, centro-me no que me desperta a atenção, como por certo acontece a todos os observadores – levá-los-ia a exasperar, e a mim na mesma à ignorância do veículo. Sei que era feio, para o meu gosto, embora fosse visível que o rapaz gostava do carro, pese embora o seu ar de desânimo pelo pneu furado. A acompanhá-lo estavam três mulheres, uma mais velha e duas mais novas. Muito direitas, de braços cruzados. Talvez a mais velha fosse mãe. Ou mãe de uma das raparigas se alguma delas fosse namorada, e a outra irmã ou amiga. Ou talvez não fosse nada disso. Pouco importa. Voltei a sorrir, porque não pude evitar um pensamento sobre a igualdade dos géneros. Digo géneros, porque dizer igualdade dos sexos é estúpido. Não se pode querer que seja igual uma coisa que é intrinsecamente diferente. E no caso, até anatómica e morfologicamente diferente. Igualdade de sexos é estúpido. E a mim a estupidez irrita-me. Tanto ou mais que presunção. Claro que agora os géneros, que têm acompanhado a história da humanidade numa dualidade complementar, também podem agora ser polémicos, porque parece estar a surgir a ideia de ser necessário um terceiro género, o “T”, para designar pessoas que mudam de sexo. Parece que a burocracia que tais situações exigem demora o seu tempo, e isto serviria para evitar certas confusões que podem, até legitimamente, instalar-se. Pena ser também uma ideia estúpida. Ninguém pode ficar num estado provisório. Ou é M ou é F. Sem mais. Mesmo que mude de sexo. Antes era de um sexo, com o seu correspondente género, agora de outro. Gostar de complicar, numa tentativa de agradar a gregos e troianos, não chegará a lado nenhum, senão à confusão. Uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo. É simples. E o simples deveria ser sempre a escolha. Mas se em vez de se pôr a tónica na igualdade de sexos, se pugnar para que as pessoas, independentemente do seu sexo ou género, sejam vistas como iguais em direitos e deveres, então talvez sim, talvez se chegue a qualquer lado. Embora sejamos humanos há tanto tempo que já não deveríamos ter de perder tempo e pensamentos com estas coisas... Não é óbvio que somos iguais?... Que ridículos que somos às vezes. Não em sexo. Não em género. Isso não pode ser. Se alguém quer que seja, então que ninguém se queixe porque falta cavalheirismo e não há quem abra uma porta, puxe uma cadeira ou mude um pneu. Mas se a questão são direitos (e deveres naturalmente. Mais uma dualidade inseparável), então pode-se à mesma assistir a rapazes atarefados com pneus furados e mulheres de braços cruzados como se nada fosse, sem que haja atentados à igualdade.
Ia entretido com estes pensamentos quando reparei em enormes tufos de papoilas, nas ruínas do que foi um hotel. Só resta a fachada, estacada. Por detrás, no que foi dantes o hotel, há agora tufos de papoilas colina acima. Pensei que se fossem cravos vermelhos poderia ser a primavera dum novo 25 de abril... Mas já não quis afundar-me nesses pensamentos. A política consegue irritar-me quase tanto com a estupidez ou a presunção. Deixei-me antes ficar só de cara voltada ao sol de fins de maio, que traz já promessas de estio.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O cão, o gato e a bomba-de-leite

Passei os olhos pelo jornal, como quase diariamente, num certo ritual das manhãs. Entrei, cumprimentei, sentei-me e peguei no jornal. A menina trouxe-me um café e eu olhei de soslaio a primeira página, enquanto trocava duas palavras. Gosto de café. Pena é que não possa beber tanto quanto me apetece. A primeira página do jornal é como as pessoas. Conta muito a primeira impressão. Pelo menos, para mim. É curioso como raramente se consegue apagar aquela primeira impressão. Dos jornais é a mesma coisa. Olhamos para a primeira página e lá está. Não mente no que é. Ainda que os títulos das parangonas por vezes sejam menos eloquentes e mais voltados ao marketing. Mas ainda assim, são títulos. E primeiras impressões.
Falámos do tempo. Eu disse que a primavera me desgosta, por causa das alergias. Mas não é verdade. Gosto da primavera. Só não gosto que me faça espirrar. Mas não me adiantei em explicações. Ela voltou-se para o trabalho dela, tirando cafézinhos a outros clientes e eu deambulei pelas páginas, ainda a pensar nas primeiras impressões e nos espirros da primavera. As “gordas” do dia não eram muito diferentes das de ontem. Ou mesmo da semana passada. O tema é quase sempre o mesmo, e que é mais ou menos aquilo que poderíamos chamar, grosso modo, de “situação”. Toda a gente sabe o que é, não há muito para explicar nem sequer para ocupar a cabeça com questões mais fundas que as próprias manchetes.
Por desgraça, o jornal que leio, a vapores de café, tem uma secção cor-se-rosa, até na cor das páginas. Detesto o cor-de-rosa, não pelas rosas, por entre cujos espinhos nascem as flores, mas pela cor e por aquilo a que ela se associa, que a mim me repugna pelo fútil, pelo banal, pelo inútil. Mais pelo que não tem do que pelo que tem. E pelo espelho do país que somos. Nessas páginas, tão sobejamente necessárias à sobrevivência do bacoco e do popularucho, tomei conhecimento da novela que se tornou o facto de uma determinada criatura ter dado à luz uma menina. Ali se lêem entrevistas, comentários, aspectos verdadeiramente pungentes da vida da recém-nascida, famosa em tudo, desde o nome, que por um rasgo qualquer, inexplicável para mim, não quer dizer nada senão a junção de letras e iniciais. A maior surpresa para mim, porém, foi saber, em notícia destacada, que a mãe tinha comprado uma bomba de leite. Vieram-me à ideia as primeiras impressões outra vez, e colocaram-se-me, quase imediatamente, duas perguntas: o que (a quem) interessa isto para vir noticiado num jornal e, mais importante, porque raio estou eu a ler isto? Não pára de me surpreender a capacidade que temos para o ridículo.
Fiquei a pensar nisto.
Não tive de pensar muito, porque no mesmo dia, vi na TV a notícia de que o cão que foi a estrela do filme “O Artista” foi jantar à Casa Branca. Esperemos que o distinto cão fique com uma boa primeira impressão daquela gente. E que possa até trocar umas impressões com o Bo, o ilustre cão-de-água presidencial que, recorde-se é bisneto de cães lusos, o que muito nos aprimora. Certamente que os senhores que se ocupam das genealogias caninas hão-de também encontrar nesta nova estrela canina um qualquer antepassado nosso. Não é de espantar que as secções cor-se-rosa tenham tanto para escrever...
Mas que havemos nós de dizer, se as notícias que nos preocupam são os cães de cinema e as bombas de leite? Dir-me-ão: mas grande parte do(s) jornal(ais) não são notícias cor-de-rosa! Verdade. Não são. São discussões tautológicas, às vezes anacrónicas (ou muitas vezes?), encerradas em repetições inúteis, de assuntos discutidos vezes sem conta, sobre os quais se chega de cada vez a uma conclusão, sobre a qual se nomeia ou estabelece mais um grupo de trabalho (já não é de moda dizer-se comissão. Agora são grupos de trabalho), para depois se chegar a outra determinada conclusão, porventura ela própria já velha e testada, mas posta, de novo, à discussão, para se voltar ao mesmo.
Seria quase enfadonho repetir aquilo que o Eça escreveu sobre a política. Toda a gente o repete, sempre que se quer dizer mal da classe política, como se ela precisasse que outrem dissesse mal dela. Não precisa. Não deve existir classe que mais se difame a si própria, se dilacere, se esgane, se afronte, do que a classe política. Cai no ridículo sem precisar da ajuda de ninguém. Mas o que diz o Eça poderíamos ir buscá-lo aos diários do rei D. Pedro; aos escritos do rei D. Luíz (não é erro. Escrevi à moda da época, numa espécie de vénia. Aqui não há acordos ortográficos ad hoc); às cartas da raínha D. Amélia, só para pegar em coisas recentes. Porque, tristemente, o que se disse deste povo e, sobretudo, de quem o governa não tem diferido muito pelos séculos além. Basta dizer que Galba dizia dos lusitanos (ou alguém disse por ele) que é um povo que “nem se governa nem se deixa governar”.
Está tudo dito. Na assembleia, os insígnes deputados entretêm-se a atirar culpas uns aos outros; a fazer queixinhas aos senhores jornalistas, porque A disse qualquer coisa que não fez, porque B mentiu ou porque C não esclareceu o assunto X ou Y. Deputados muito engravatados, outros sem gravata nenhuma porque são modernos, outros ainda de brinco na orelha, porque são mais modernos ainda. Horas e dias passados a tentar descobrir a careca duns e doutros, mais preocupados em expôrem-se mutuamente do que em fazer o que realmente lhes compete, enquanto nas ruas já se vê a fome, a miséria, a tristeza e o desencanto da vida. Vai-se vendo também umas bastonadas às vezes. Doeram, certamente, não apenas aos jornalistas, que por mercê da profissão se têm por imunes a esses flagelos corporais, mas também a todos os que as apanharam. Mas as desses não se discutiram tanto. Espero, contudo, não chegar a ver o desencanto de ser Português.
Que pena que o cão d' “O Artista” não faça um périplo pela Europa... Sempre haveria umas manchetes novas. Não sei é que impressão de cá levaria.
Não creio que a bomba de leite encha páginas por muito mais tempo. O que vale é termos senhores representantes que são, in se, a paródia diária. E, claro, temos pastéis de nata, manifestações sem consequência, velhos que gritam que o país não é para velhos; jovens que gritam que o país também é para jovens; subsídios que hão-de ser devolvidos às mijinhas, se alguma vez o forem, e até o gato Gaspar, que hoje foi chamado à discussão parlamentar. Somos ou não somos um país cor-de-rosa?
Boa Páscoa.

domingo, 18 de março de 2012

As abelhas

O Abacílio andava magro. Sem tostão. Arreliado com a vida, com o país, com a troika, com as dívidas. Acabara-se-lhe a esperança. Era o rosto de uma geração perdida. No fulgor da vida, bem preparada, bem estudada e nula. Completamente dependente da caridade dos pais. Já nem o zapping o entretinha. Precisava de desopilar, mas não sabia que fazer. Para onde se virasse, era a tristeza, a desilusão, o desencanto pela própria vida. Faltando o trabalho, tudo lhe faltou. Andava aziado por causa daquela história da luz agora ter de se ir pagar à loja dos chineses. E, pelo andar da carruagem, não há-de ser só a luz. Continuava aborrecido por não ter podido ir falar aos deputados. Enchia-se de tédio só de pensar naquelas discussões intermináveis, numa política feita de manchetes de jornais e notícias de última hora. Quem seria mais nulo? Ele, improdutivo numa sociedade que o preparou e depois não lhe dá trabalho, ou os deputados, ocupados na lã caprina, toda ela muito bem disfarçada de assuntos prementes? E as nomeações?... Que dor de cabeça para o Abacílio pensar em tanto tacho...
Resolveu entregar-se aos clássicos. A leitura havia de consolá-lo e tirá-lo desta cisma depressiva que o dilacerava por dentro. Andava ele assim entretido, entre tomos aristotélicos, escritos platónicos e peças sofoclianas, quando lhe veio às mãos uma revista, que era do vizinho, mas que o carteiro erradamente pusera na sua caixa de correio. Lá foi, solícito, entregá-la ao dono, quando reparou num dos títulos da capa: “Abelhas em risco de desaparecer”. Já tinha ouvido falar daquilo. Parece que as abelhas andam a morrer. Aguçou-se-lhe a curiosidade. O bom vizinho anuiu a que lesse, pelo que voltou para trás, entregue à leitura do artigo das abelhas. Lá se explicava que as abelhas estão a morrer aos poucos, mas de modo constante, de tal forma que já se teme que desapareçam de todo. Aquilo deu-lhe que pensar, a ele, que não dispensava a sua colher de mel em jejum, todos os dias, receita da sua Avó. “Oh diabo”...disse, a cofiar o queixo como convém aos entendidos. “E se agora se acaba o mel?” Naturalmente, pensou e bem, se se acaba o mel vai-se tudo. Não pelo mel, ele próprio, claro está, mas por causa da falta que aqueles insectozinhos fazem.
Sem polinização, já se vê. É o fim.
Andou a pensar naquilo uns dias. Depois veio-lhe à cabeça que por cá, já se acabou o mel. Andam agora as abelhinhas sem alimento. Poisam, poisam, mas como não chove, também não há néctar com que encher as patitas, e assim definha a colmeia. Quem seria o glutão que comeu todo o mel? Quem foi, que deixou as abelhinhas tontas de fome? De fome e desorientação, por faltar agora com que encher o papinho? Ah, se ele soubesse...
O que lhe vale, é atentar como os senhores bem-postos andam agora todos preocupados com as abelhas. Enquanto assim for, Portugal está safo. E ele pode alimentar esperanças de ver o sol brilhar. Pena que não seja para todos.
Pelo sim pelo não, foi à dispensa. Lá estava, na prateleira de cima, um frasco de mel. Ao menos isso.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A caixa de música

Era uma noite fria, assim daquelas de vento a cortar na cara. Uivava lá fora. A mim diziam-me que era a Noite do Caramelo. Caramelo por causa do gelo, como quando o açúcar se faz em ponto e fica caramelizado assim que arrefece. A minha grande preocupação era o presépio. Caixas e caixas de musgo, cascas de árvore, pedras e sei lá que mais, ano após ano, puxavam pelo meu engenho, de modo a dar ao Menino um lugar condigno. Sabia da manjedoura, mas para mim, não chegava. Tinha de haver montes e vales, rios a correr feitos de regatos de areia, pontes, moinhos de vento e uma gruta. Não seria de Belém, mas era, ainda assim, a gruta do presépio.

O meu Avô vinha sempre ver o presépio. Queria saber o que tinha trazido o Menino. Eu dizia-lhe que quem trazia as prendas era o Pai Natal. Ele insistia que era o Menino. Mas eu não me importava. Claro que eu não entendia como podia o Menino, tão pequenino, andar mundo fora carregado de prendas. O Pai Natal sim. Tinha um trenó e podia num repente distribuir as prendas todas. Andei a pensar naquilo um bom par de anos, porque me faltava perceber como sabia o Pai Natal quem tinha sido mau ou bom. Deve ser o Menino que lhe diz, pensei. Servia-me aquela explicação.

Certo Natal alguém me ofereceu uma caixa de música. Era uma pequena casinha de tijolo vermelho, coberta do branco da neve artificial. Tinha encostada uma escada por onde subira o Pai Natal que estava empoleirado no telhado, enquanto a rena esperava cá em baixo, ao pé do pinheiro, também ele coberto de neve artificial. Inchei de orgulho, porque aquilo era a prova provada da minha teoria. Era mesmo o Pai Natal que trazia os presentes. Fui mostrar ao meu Avô, que se riu. “Foi o Menino que te trouxe.” Olhei para ele e perguntei: “Oh Avô, porque gostas tanto do Menino?” “Ora essa, porque é Natal!”, disse ele, como se aquilo fosse a coisa mais óbvia. “Se não houvesse Menino, não havia Natal” explicou-me a minha Avó.

“Ah”, disse eu. E fui atirar-me às filhós.

Fazer as filhós foi sempre um ritual em minha casa. Desde o amassar ao fritar, fui instruído em todos os passos pela minha Avó, que me ia ensinando como se colocam as mãos quando se amassa; como se usa o rolo da massa e como se vê se o azeite já está na temperatura para fritar, tudo enquanto me contava como se fazia quando ela era menina pequena. Foi precisamente a fazer as filhós que me lembrei dela. Não pude evitar uma lágrima, nem sequer enquanto escrevo. O primeiro Natal sem lhe dar as filhós a provar. Não pensei que ligasse tanta importância às filhós.

Tenho um Natal feito de lembranças. E celebro-o não já pelo Menino mas pelas lembranças. Ainda consigo ver o meu Avô segurar me na mão, na missa do Galo, enquanto íamos igreja fora para beijar o Menino. E os risos, lá muito longe, de serões em família. Tudo se foi. Tenho as lembranças. E o Avô, de olhos muitos vivos. E as filhós. E a caixa de música também, embora com muito pó. São eles agora o meu Natal.

Festas Felizes.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Leccio Nutricionis

Passavam-se os dias e Abacílio continuava na mesma, letárgico, deprimido, apático, tendo posto a vida em latência desde que ficara desempregado. Perdia o ânimo só de pensar em ir ao centro de (des)emprego. Filas intermináveis, sem nenhuma proposta concreta ou qualquer vislumbre de solução. “Tem de procurar”... diziam-lhe as bem-postas senhoras que o atendiam. E ele lá ia, calcorreando centros comerciais, percorrendo agências de trabalho temporário, candidatando-se a call centers... Nada. Nem pó.

Estava triste o Abacílio. Pensava em ir-se embora. Em deixar a amada Pátria. Mas para onde? E com que dinheiro?...

Restava-lhe pouco mais que entregar-se ao sofá e ao zapping. “Anda lá. Não te deixes ir abaixo.” Mas ele deixava. Apoderara-se dele a noção que estava num buraco e dele não podia sair.

De vez em quando enervava-se. Punha-se aos gritos. Saía para manifestações. Queria agir. Queria reclamar. Queria ser do contra. Depois acalmava-se e via que os ideais já não tinham nada de novo, que os modelos estavam gastos e que as concentrações e manifestações e reclamações serviam interesses que não os seus.

Acordava de vez em quando dessa letargia. Enchia-se de zelo patriótico. Mas não lhe servia de nada.

Andava assim desesperado e atormentado, mal de comidas e pior de dormidas, quando soube que a senhora ministra tinha ido ao parlamento dar uma lição de nutrição. Os senhores deputados andavam preocupados porque o IVA dos boiões de comida para bebé ia subir. Por isso, a senhora ministra explicou que, do ponto de vista nutricional, os boiões de comida não eram a alimentação mais adequada. “Ah, bom”, descansaram-se os deputados. Pois evidentemente que não. Que o diga o Abacílio. Quando ele era bebé, haver banana esmagada já era um luxo. Quanto mais comida metida em frascos, meia mastigada. Modernices. Depois crescem sem apreciar o belo cozido à portuguesa, as migas de batata à alentejana, o chouriço assado, a tiborna, o ensopado, a chanfana e eu sei lá que mais petiscos e coisas boas da Pátria querida. Não têm a boca educada para o tempero. Só frascos e latas. Muita razão tem a senhora ministra. Abaixo os boiões. Fora as latas! Fora.

No calor daquela discussão, tão vital na Domus Daemocratiae, chamou-lhe a atenção certo deputado de brinco na orelha. Primeiro achou que não tinha visto bem. Depois olhou melhor, e olhou, olhou, e lá estava. Uma argolita, bem a meio da orelha do insigne deputado da Nação. “Esta agora”... cogitou o Abacílio, “então se aquele pode representar a Nação de brinco na orelha, outros há que a representam em mangas de camisa e colarinhos abertos, porque diabo não hei-de eu ir lá com a Máscara?”

Se bem pensou, melhor o fez. Foi ver da máscara, pegou nos canudos, inúteis apesar de tanto queimar de pestanas, e lá foi a caminho do Parlamento. Havia de ir lá e gritar bem alto os azedumes e os devaneios que deitam por terra a Nação. Havia de denunciar aos ventos as horas, os dias, meses e anos desperdiçados com conversas de mel-coado, quando o Povo, esse esquecido sustento da Nação jazia de fome, desemprego e, sobretudo, jazia de enganos! Ah, que ninguém o havia de calar.

Mas calaram. E bem depressa. Aliás, nem foi preciso. Não podia entrar. Até lá havia uns senhores da polícia, preparados para qualquer motim que pudesse haver. “Quero falar aos representantes do Povo” bradava ele. Mas de nada lhe serviu.

Não se dando por derrotado decidiu-se a encontrar a Nação. Mas onde encontrá-la? Pois se nem nunca a tinha visto... Até pensou que era a senhora de peitos de fora cuja estátua anda espalhada pelos edifícios públicos. Mas não era. Essa era, parece, a Liberdade.

Não sabendo bem por onde comçar, foi ter com os cães de loiça. Ali estavam, muito afilados, de grandes olhos cor-de-laranja, muito inóveis e quietos. Mas nada. Viam muito. Mas a Nação não a viram. Disseram-lhe que estavam até admirados por Ela não estar no Parlamento, ou nalgum palácio ministerial. Como ainda os não tinha visto todos, lá foi, um por um, saber da Nação. Mas não a encontrou.

Fartou-se. “Que se lixe a taça. Vou mas é pr' ó sofá. Assim como assim...” Pronto. Passou-lhe o fervor.

Mas então, inesperadamente, bateram-lhe à porta. Era a Nação. Muito cansada, apoiada numa bengala velha, toda despenteada, vestidos rotos. O Abacílio nem sabia o que dizer. Queria contar-lhe da lição de nutrição, do brinco na orelha, dos desvarios dos deputados, das coisas que têm feito, das que não têm feito, do tempo que perdem a discutir a lã caprina, a acicatar-se e a desdenharem uns dos outros, das mangas de camisa... de tudo isso e mais que se lembrasse. Mas não foi preciso. Ela bem sabia. Oh, se sabia. Pelo estado em que estava, via-se que sabia. E bem.

Quisera ele ter ao menos uns boiões de fruta para lhe dar. Mas nem para isso havia tusto.

Ah, Nação Portuguesa, que te matam! Não sei se de fome, se de logro ou se hão-de vender-te aos bocados. Mas que te matam, isso matam.