quarta-feira, 11 de julho de 2012
Purificação
sábado, 30 de junho de 2012
O ridículo e o desencanto
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Post prandium
quarta-feira, 4 de abril de 2012
O cão, o gato e a bomba-de-leite
Falámos do tempo. Eu disse que a primavera me desgosta, por causa das alergias. Mas não é verdade. Gosto da primavera. Só não gosto que me faça espirrar. Mas não me adiantei em explicações. Ela voltou-se para o trabalho dela, tirando cafézinhos a outros clientes e eu deambulei pelas páginas, ainda a pensar nas primeiras impressões e nos espirros da primavera. As “gordas” do dia não eram muito diferentes das de ontem. Ou mesmo da semana passada. O tema é quase sempre o mesmo, e que é mais ou menos aquilo que poderíamos chamar, grosso modo, de “situação”. Toda a gente sabe o que é, não há muito para explicar nem sequer para ocupar a cabeça com questões mais fundas que as próprias manchetes.
Por desgraça, o jornal que leio, a vapores de café, tem uma secção cor-se-rosa, até na cor das páginas. Detesto o cor-de-rosa, não pelas rosas, por entre cujos espinhos nascem as flores, mas pela cor e por aquilo a que ela se associa, que a mim me repugna pelo fútil, pelo banal, pelo inútil. Mais pelo que não tem do que pelo que tem. E pelo espelho do país que somos. Nessas páginas, tão sobejamente necessárias à sobrevivência do bacoco e do popularucho, tomei conhecimento da novela que se tornou o facto de uma determinada criatura ter dado à luz uma menina. Ali se lêem entrevistas, comentários, aspectos verdadeiramente pungentes da vida da recém-nascida, famosa em tudo, desde o nome, que por um rasgo qualquer, inexplicável para mim, não quer dizer nada senão a junção de letras e iniciais. A maior surpresa para mim, porém, foi saber, em notícia destacada, que a mãe tinha comprado uma bomba de leite. Vieram-me à ideia as primeiras impressões outra vez, e colocaram-se-me, quase imediatamente, duas perguntas: o que (a quem) interessa isto para vir noticiado num jornal e, mais importante, porque raio estou eu a ler isto? Não pára de me surpreender a capacidade que temos para o ridículo.
Fiquei a pensar nisto.
Não tive de pensar muito, porque no mesmo dia, vi na TV a notícia de que o cão que foi a estrela do filme “O Artista” foi jantar à Casa Branca. Esperemos que o distinto cão fique com uma boa primeira impressão daquela gente. E que possa até trocar umas impressões com o Bo, o ilustre cão-de-água presidencial que, recorde-se é bisneto de cães lusos, o que muito nos aprimora. Certamente que os senhores que se ocupam das genealogias caninas hão-de também encontrar nesta nova estrela canina um qualquer antepassado nosso. Não é de espantar que as secções cor-se-rosa tenham tanto para escrever...
Mas que havemos nós de dizer, se as notícias que nos preocupam são os cães de cinema e as bombas de leite? Dir-me-ão: mas grande parte do(s) jornal(ais) não são notícias cor-de-rosa! Verdade. Não são. São discussões tautológicas, às vezes anacrónicas (ou muitas vezes?), encerradas em repetições inúteis, de assuntos discutidos vezes sem conta, sobre os quais se chega de cada vez a uma conclusão, sobre a qual se nomeia ou estabelece mais um grupo de trabalho (já não é de moda dizer-se comissão. Agora são grupos de trabalho), para depois se chegar a outra determinada conclusão, porventura ela própria já velha e testada, mas posta, de novo, à discussão, para se voltar ao mesmo.
Seria quase enfadonho repetir aquilo que o Eça escreveu sobre a política. Toda a gente o repete, sempre que se quer dizer mal da classe política, como se ela precisasse que outrem dissesse mal dela. Não precisa. Não deve existir classe que mais se difame a si própria, se dilacere, se esgane, se afronte, do que a classe política. Cai no ridículo sem precisar da ajuda de ninguém. Mas o que diz o Eça poderíamos ir buscá-lo aos diários do rei D. Pedro; aos escritos do rei D. Luíz (não é erro. Escrevi à moda da época, numa espécie de vénia. Aqui não há acordos ortográficos ad hoc); às cartas da raínha D. Amélia, só para pegar em coisas recentes. Porque, tristemente, o que se disse deste povo e, sobretudo, de quem o governa não tem diferido muito pelos séculos além. Basta dizer que Galba dizia dos lusitanos (ou alguém disse por ele) que é um povo que “nem se governa nem se deixa governar”.
Está tudo dito. Na assembleia, os insígnes deputados entretêm-se a atirar culpas uns aos outros; a fazer queixinhas aos senhores jornalistas, porque A disse qualquer coisa que não fez, porque B mentiu ou porque C não esclareceu o assunto X ou Y. Deputados muito engravatados, outros sem gravata nenhuma porque são modernos, outros ainda de brinco na orelha, porque são mais modernos ainda. Horas e dias passados a tentar descobrir a careca duns e doutros, mais preocupados em expôrem-se mutuamente do que em fazer o que realmente lhes compete, enquanto nas ruas já se vê a fome, a miséria, a tristeza e o desencanto da vida. Vai-se vendo também umas bastonadas às vezes. Doeram, certamente, não apenas aos jornalistas, que por mercê da profissão se têm por imunes a esses flagelos corporais, mas também a todos os que as apanharam. Mas as desses não se discutiram tanto. Espero, contudo, não chegar a ver o desencanto de ser Português.
Que pena que o cão d' “O Artista” não faça um périplo pela Europa... Sempre haveria umas manchetes novas. Não sei é que impressão de cá levaria.
Não creio que a bomba de leite encha páginas por muito mais tempo. O que vale é termos senhores representantes que são, in se, a paródia diária. E, claro, temos pastéis de nata, manifestações sem consequência, velhos que gritam que o país não é para velhos; jovens que gritam que o país também é para jovens; subsídios que hão-de ser devolvidos às mijinhas, se alguma vez o forem, e até o gato Gaspar, que hoje foi chamado à discussão parlamentar. Somos ou não somos um país cor-de-rosa?
Boa Páscoa.
domingo, 18 de março de 2012
As abelhas
Resolveu entregar-se aos clássicos. A leitura havia de consolá-lo e tirá-lo desta cisma depressiva que o dilacerava por dentro. Andava ele assim entretido, entre tomos aristotélicos, escritos platónicos e peças sofoclianas, quando lhe veio às mãos uma revista, que era do vizinho, mas que o carteiro erradamente pusera na sua caixa de correio. Lá foi, solícito, entregá-la ao dono, quando reparou num dos títulos da capa: “Abelhas em risco de desaparecer”. Já tinha ouvido falar daquilo. Parece que as abelhas andam a morrer. Aguçou-se-lhe a curiosidade. O bom vizinho anuiu a que lesse, pelo que voltou para trás, entregue à leitura do artigo das abelhas. Lá se explicava que as abelhas estão a morrer aos poucos, mas de modo constante, de tal forma que já se teme que desapareçam de todo. Aquilo deu-lhe que pensar, a ele, que não dispensava a sua colher de mel em jejum, todos os dias, receita da sua Avó. “Oh diabo”...disse, a cofiar o queixo como convém aos entendidos. “E se agora se acaba o mel?” Naturalmente, pensou e bem, se se acaba o mel vai-se tudo. Não pelo mel, ele próprio, claro está, mas por causa da falta que aqueles insectozinhos fazem.
Sem polinização, já se vê. É o fim.
Andou a pensar naquilo uns dias. Depois veio-lhe à cabeça que por cá, já se acabou o mel. Andam agora as abelhinhas sem alimento. Poisam, poisam, mas como não chove, também não há néctar com que encher as patitas, e assim definha a colmeia. Quem seria o glutão que comeu todo o mel? Quem foi, que deixou as abelhinhas tontas de fome? De fome e desorientação, por faltar agora com que encher o papinho? Ah, se ele soubesse...
O que lhe vale, é atentar como os senhores bem-postos andam agora todos preocupados com as abelhas. Enquanto assim for, Portugal está safo. E ele pode alimentar esperanças de ver o sol brilhar. Pena que não seja para todos.
Pelo sim pelo não, foi à dispensa. Lá estava, na prateleira de cima, um frasco de mel. Ao menos isso.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
A caixa de música
Era uma noite fria, assim daquelas de vento a cortar na cara. Uivava lá fora. A mim diziam-me que era a Noite do Caramelo. Caramelo por causa do gelo, como quando o açúcar se faz em ponto e fica caramelizado assim que arrefece. A minha grande preocupação era o presépio. Caixas e caixas de musgo, cascas de árvore, pedras e sei lá que mais, ano após ano, puxavam pelo meu engenho, de modo a dar ao Menino um lugar condigno. Sabia da manjedoura, mas para mim, não chegava. Tinha de haver montes e vales, rios a correr feitos de regatos de areia, pontes, moinhos de vento e uma gruta. Não seria de Belém, mas era, ainda assim, a gruta do presépio.
O meu Avô vinha sempre ver o presépio. Queria saber o que tinha trazido o Menino. Eu dizia-lhe que quem trazia as prendas era o Pai Natal. Ele insistia que era o Menino. Mas eu não me importava. Claro que eu não entendia como podia o Menino, tão pequenino, andar mundo fora carregado de prendas. O Pai Natal sim. Tinha um trenó e podia num repente distribuir as prendas todas. Andei a pensar naquilo um bom par de anos, porque me faltava perceber como sabia o Pai Natal quem tinha sido mau ou bom. Deve ser o Menino que lhe diz, pensei. Servia-me aquela explicação.
Certo Natal alguém me ofereceu uma caixa de música. Era uma pequena casinha de tijolo vermelho, coberta do branco da neve artificial. Tinha encostada uma escada por onde subira o Pai Natal que estava empoleirado no telhado, enquanto a rena esperava cá em baixo, ao pé do pinheiro, também ele coberto de neve artificial. Inchei de orgulho, porque aquilo era a prova provada da minha teoria. Era mesmo o Pai Natal que trazia os presentes. Fui mostrar ao meu Avô, que se riu. “Foi o Menino que te trouxe.” Olhei para ele e perguntei: “Oh Avô, porque gostas tanto do Menino?” “Ora essa, porque é Natal!”, disse ele, como se aquilo fosse a coisa mais óbvia. “Se não houvesse Menino, não havia Natal” explicou-me a minha Avó.
“Ah”, disse eu. E fui atirar-me às filhós.
Fazer as filhós foi sempre um ritual em minha casa. Desde o amassar ao fritar, fui instruído em todos os passos pela minha Avó, que me ia ensinando como se colocam as mãos quando se amassa; como se usa o rolo da massa e como se vê se o azeite já está na temperatura para fritar, tudo enquanto me contava como se fazia quando ela era menina pequena. Foi precisamente a fazer as filhós que me lembrei dela. Não pude evitar uma lágrima, nem sequer enquanto escrevo. O primeiro Natal sem lhe dar as filhós a provar. Não pensei que ligasse tanta importância às filhós.
Tenho um Natal feito de lembranças. E celebro-o não já pelo Menino mas pelas lembranças. Ainda consigo ver o meu Avô segurar me na mão, na missa do Galo, enquanto íamos igreja fora para beijar o Menino. E os risos, lá muito longe, de serões em família. Tudo se foi. Tenho as lembranças. E o Avô, de olhos muitos vivos. E as filhós. E a caixa de música também, embora com muito pó. São eles agora o meu Natal.
Festas Felizes.
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Leccio Nutricionis
Passavam-se os dias e Abacílio continuava na mesma, letárgico, deprimido, apático, tendo posto a vida em latência desde que ficara desempregado. Perdia o ânimo só de pensar em ir ao centro de (des)emprego. Filas intermináveis, sem nenhuma proposta concreta ou qualquer vislumbre de solução. “Tem de procurar”... diziam-lhe as bem-postas senhoras que o atendiam. E ele lá ia, calcorreando centros comerciais, percorrendo agências de trabalho temporário, candidatando-se a call centers... Nada. Nem pó.
Estava triste o Abacílio. Pensava em ir-se embora. Em deixar a amada Pátria. Mas para onde? E com que dinheiro?...
Restava-lhe pouco mais que entregar-se ao sofá e ao zapping. “Anda lá. Não te deixes ir abaixo.” Mas ele deixava. Apoderara-se dele a noção que estava num buraco e dele não podia sair.
De vez em quando enervava-se. Punha-se aos gritos. Saía para manifestações. Queria agir. Queria reclamar. Queria ser do contra. Depois acalmava-se e via que os ideais já não tinham nada de novo, que os modelos estavam gastos e que as concentrações e manifestações e reclamações serviam interesses que não os seus.
Acordava de vez em quando dessa letargia. Enchia-se de zelo patriótico. Mas não lhe servia de nada.
Andava assim desesperado e atormentado, mal de comidas e pior de dormidas, quando soube que a senhora ministra tinha ido ao parlamento dar uma lição de nutrição. Os senhores deputados andavam preocupados porque o IVA dos boiões de comida para bebé ia subir. Por isso, a senhora ministra explicou que, do ponto de vista nutricional, os boiões de comida não eram a alimentação mais adequada. “Ah, bom”, descansaram-se os deputados. Pois evidentemente que não. Que o diga o Abacílio. Quando ele era bebé, haver banana esmagada já era um luxo. Quanto mais comida metida em frascos, meia mastigada. Modernices. Depois crescem sem apreciar o belo cozido à portuguesa, as migas de batata à alentejana, o chouriço assado, a tiborna, o ensopado, a chanfana e eu sei lá que mais petiscos e coisas boas da Pátria querida. Não têm a boca educada para o tempero. Só frascos e latas. Muita razão tem a senhora ministra. Abaixo os boiões. Fora as latas! Fora.
No calor daquela discussão, tão vital na Domus Daemocratiae, chamou-lhe a atenção certo deputado de brinco na orelha. Primeiro achou que não tinha visto bem. Depois olhou melhor, e olhou, olhou, e lá estava. Uma argolita, bem a meio da orelha do insigne deputado da Nação. “Esta agora”... cogitou o Abacílio, “então se aquele pode representar a Nação de brinco na orelha, outros há que a representam em mangas de camisa e colarinhos abertos, porque diabo não hei-de eu ir lá com a Máscara?”
Se bem pensou, melhor o fez. Foi ver da máscara, pegou nos canudos, inúteis apesar de tanto queimar de pestanas, e lá foi a caminho do Parlamento. Havia de ir lá e gritar bem alto os azedumes e os devaneios que deitam por terra a Nação. Havia de denunciar aos ventos as horas, os dias, meses e anos desperdiçados com conversas de mel-coado, quando o Povo, esse esquecido sustento da Nação jazia de fome, desemprego e, sobretudo, jazia de enganos! Ah, que ninguém o havia de calar.
Mas calaram. E bem depressa. Aliás, nem foi preciso. Não podia entrar. Até lá havia uns senhores da polícia, preparados para qualquer motim que pudesse haver. “Quero falar aos representantes do Povo” bradava ele. Mas de nada lhe serviu.
Não se dando por derrotado decidiu-se a encontrar a Nação. Mas onde encontrá-la? Pois se nem nunca a tinha visto... Até pensou que era a senhora de peitos de fora cuja estátua anda espalhada pelos edifícios públicos. Mas não era. Essa era, parece, a Liberdade.
Não sabendo bem por onde comçar, foi ter com os cães de loiça. Ali estavam, muito afilados, de grandes olhos cor-de-laranja, muito inóveis e quietos. Mas nada. Viam muito. Mas a Nação não a viram. Disseram-lhe que estavam até admirados por Ela não estar no Parlamento, ou nalgum palácio ministerial. Como ainda os não tinha visto todos, lá foi, um por um, saber da Nação. Mas não a encontrou.
Fartou-se. “Que se lixe a taça. Vou mas é pr' ó sofá. Assim como assim...” Pronto. Passou-lhe o fervor.
Mas então, inesperadamente, bateram-lhe à porta. Era a Nação. Muito cansada, apoiada numa bengala velha, toda despenteada, vestidos rotos. O Abacílio nem sabia o que dizer. Queria contar-lhe da lição de nutrição, do brinco na orelha, dos desvarios dos deputados, das coisas que têm feito, das que não têm feito, do tempo que perdem a discutir a lã caprina, a acicatar-se e a desdenharem uns dos outros, das mangas de camisa... de tudo isso e mais que se lembrasse. Mas não foi preciso. Ela bem sabia. Oh, se sabia. Pelo estado em que estava, via-se que sabia. E bem.
Quisera ele ter ao menos uns boiões de fruta para lhe dar. Mas nem para isso havia tusto.
Ah, Nação Portuguesa, que te matam! Não sei se de fome, se de logro ou se hão-de vender-te aos bocados. Mas que te matam, isso matam.
