segunda-feira, 25 de março de 2013

Os ovos da Páscoa de Bo, o rabo de Beckham e os mercados financeiros (II)

(...) continuação
A acrescentar a estas dificuldades, o modelo social em que existimos padece do problema da credibilidade. Tomemos como hipótese a situação em que alguém, conhecido futebolista e modelo, lança uma linha de roupa interior masculina. Faz um anúncio publicitário em que, a par da forma física, exibe a roupa que pretende vender. Acontece que alguém alvitra a possibilidade daquele rabo que aparece no anúncio não ser o dele. A possibilidade apenas. Logo se apressa a pessoa a afiançar que sim senhor, é mesmo o rabo dele. Criou-se, no entanto, a dúvida. E esta faz tremer as previsões de vendas. A isto se chama instabilidade dos mercados, provocada pela falta de credibilidade ou confiança. No nosso modelo social em análise, o problema é exactamente o mesmo: não andam os senhores políticos, financeiros, economistas e restante pessoal técnico e de assessoria certamente preocupados com o rabo do Beckham. Mas andam muito preocupados com a instabilidade dos mercados. A razão é simples: o nosso sistema social standardizado alberga um modelo económico falido (sem respostas, sem soluções, sem possibilidade de dar a volta à situação em que se encontra). Mas por qualquer razão insiste-se nele, de tal forma que se tomam no campo político medidas, que depois serão postas em prática por técnicos sem responsabilidade política, e se abrem portas a que se prolongue a agonia deste sistema moribundo, afundando com ele todo o tecido social, com benefício, contudo, dos mesmíssimos mercados que criam a própria instabilidade, lançando eles mesmos previsões e alvitrando possibilidades de que, nesta ou naquela ocasião, serão ou não cumpridos determinados compromissos, normalmente pagamentos, que é a linguagem universal e transversal a todos os sistemas integrantes do sistema global em que vivemos. Não importa se esses compromissos vão ou não ser cumpridos, note-se. Basta aventar possibilidades. E nelas, lançar ao lixo sociedades inteiras.
Eis aqui como se domina o mundo hoje. E eis também como ele está tão próximo de se perder. E temos hoje novamente o espectro da guerra, a juntar ao da exclusão social, da fome, das lutas raciais, do desemprego que corrompe verdadeiramente a realização pessoal do indivíduoo na sociedade.... Somos um modelo social em colapso. Resta saber se o homem superará este momento. Se será maior que ele. Ou se soçobrará ante o peso dos padrões, das regras, das formas e a pressão dos fortes, que lutam ainda por subsistir neste modelo decadente. E o que resultará?...
Pois, não sei.
A primeira pergunta deveria ser, antes do que resultará, quem beneficiará?... Houvesse quem respondesse, quem se pusesse a pensar, quem limpasse o raciocínio de tantas formas e modelos e padrões e regras e ideologias gastas e ocas e talvez, talvez, se afigurasse um caminho. Houvesse quem fosse maior do que si próprio, quem se orgulhasse daqueles que representa, quem se esmerasse pela busca do melhor e do mais justo e talvez, talvez houvesse um caminho. Mas não. Estamos na era do depois do vazio.Já passou o moderno, o pós-moderno e até o hipermoderno... Agora é a era dos extremismos. Da irracionalidade barata e cruel. A era dos mercados financeiros. É a era da política sem inteligência. A era dos políticos tecnicizados. Queria políticos que lessem Thomas More... Ou então outra coisa qualquer... Mas que lessem. E pensassem...Ah, o difícil acto de pensar...Tão fácil, e tão difícil.
Mas enfim, nem tudo está perdido. Bo esquadrinha alegremente os campos da Casa Branca em busca dos ovos pintados da Páscoa; o querido líder da Coreia vai fazendo uns ensaios nucleares; o Comandante venezuelano foi-se para influenciar no céu a escolha dum papa argentino; na Europa os senhores reunem-se para evitar o inevitável e lidar com o mal comportando Chipre... E por cá, tudo se adia para depois da Páscoa. Vamos comendo o folar enquanto o temos. Depois? Depois veremos. A nossa desgraça é esta mesmo: uns ou outros, todos da mesma medianidade insuportável e bafienta.
Só o pobrezinho português deseja sossego. Mas ninguém lho dá. 
E, pasme-se! Era mesmo o rabo do Beckham. Ele há coisas...

domingo, 24 de março de 2013

Os ovos da Páscoa de Bo, o rabo de Beckham e os mercados financeiros (I)

O modelo social em que vivemos hoje é, em larga medida, feito de coisas standard. Vivemos de acordo com certas regras, com certos padrões definidos, com certas formas de estar e agir e onde se espera que em determinadas alturas da vida se faça isto ou aquilo. É uma maneira de estruturar a sociedade. Na verdade, nós os que vivemos hoje, concretamente, tivémos muito pouco a dizer sobre esta forma de fazer. É assim e pronto. A vida em sociedade seria, na verdade, completamente impossível não fossem as regras, os padrões, os usos, as leis que moldam e peiam cada indivíduo, pegando nele desde o berço e modelando-o, de tal modo que viva na sociedade que já encontrou e possa nela realizar-se como pessoa, indivíduo e membro do conjunto social alargado em que vive, contribuindo também para a sua melhoria. De certo modo, há um tolher da liberdade individual, embora sacrificada para proteger o próprio indivíduo e para o inserir na sociedade onde tem de fazer a sua vida. O indivíduo deixado à solta, sem regras, modos, modelos ou padrões, seria bestial. Lobo de si mesmo, se pegarmos no conceito de Hobbes.
O problema da standardização é precisamente quando falha. Ou então quando alguém, conscientemente, percebe que o modelo em que se espera que viva não corresponde à sua própria essência como pessoa. Dito de outra forma, quando alguém percebe que será mais feliz vivendo de outro modo. No plano puro das liberdades, esta seria uma situação perfeitamente legítima. Dum certo ponto de vista, até desejável, na medida em que os modelos sociais, quaisquer que sejam, não conseguem realizar plenamente todos os indivíduos, e necessitam constantemente de aperfeiçoamento e de maturação e, claro, de mudança. Não pode haver mudança se não houver discordância. Mas, no plano concreto da vida, esta é exactamente o tipo de situação que cria atritos. E donde nascem fenómenos como racismo, xenofobia, o bullying e coisas mais do género. A razão disto é a incapacidade para a diferença. O embaraço de ter de lidar com a situação de alguém que não está em plena concordância com o que seria de esperar. E isso assusta. E lança dúvidas. Naturalmente, é muito mais fácil adoptar uma postura de rejeição do que de inclusão da diferença. São muitas as razões para isso, mas é fácil constatar que perante alguém diferente a primeira reacção é de afastamento. Têm sido, felizmente, muitos os esforços no sentido de promover a diferença. E gradualmente a diferença consegue subsistir. Não tanto por ser aceite, mas por ser tolerada. A razão disto é que a inclusão dos que foram ficando “à margem” não faz parte do nosso modelo social. É um apêndice, que foi necessário adoptar para conviver com as várias diferenças: alguém que tem um qualquer problema de saúde; que nasce com uma deficiência; que é gordo quando deveria ser magro, baixo quando deveria ser alto, fraco quando deveria ser forte... Ou alguém que escolhe não constituir família, ou constitui-la de forma diferente... São muitas, muitas as situações que vão mostrando a necessária adaptabilidade dos sistemas de sociedade, perante a legitimidade e o direito de ser diferente sem ser proscrito ou marginalizado por isso. E de cada vez que alguém é maltratado por fazer ou ser diferente, regride-se no processo civilizacional e acentua-se a necessidade, que é constante, de promover a diferença como realmente parte da sociedade.
Evidentemente, a utopia é precisamente esta: uma sociedade baseada num modelo social em que os indíviduos se possam realizar plenamente como pessoas e como parte de um todo, de acordo com a sua própria essência.
Imaginemos agora um modelo social onde a standardização assenta na premissa base de que a sociedade se divide entre fracos e fortes. E em que todo o modelo social cresce e se alimenta em torno desta premissa. Imaginemos ainda que há não uma sociedade a viver deste modelo, mas o mundo inteiro, devido não apenas ao factor globalização, mas à força dos mercados financeiros e das instituições ou pessoas que os controlam.
Tomemos isto como real, e teremos uma descrição sumária, porventura simplista, ainda que verdadeira, da nossa própria e concreta sociedade, à escala global. Ora a situação em que vivemos, e que habitualmente chamamos de “crise”, advém precisamente da falha deste modelo standard, seja porque os fracos se cansaram de ser fracos, ou seja, muito provavelmente, porque os fortes esvaziaram de tal forma os fracos, que estes já não conseguem sustentar os fortes. Não há mais por onde. Há, portanto, aqui uma verdadeira crise, no sentido literal da palavra: uma ruptura. Urge, pois, repensar todo o modelo social. Não apenas o económico. Porque uma economia não pode subsistir sem pessoas. Aliás, ela existe para as pessoas. Correndo o risco de contradizer os economistas que acham que os historiadores não servem para nada, aqui vai: economia: do grego "oeconomia", que quer dizer “regras da casa”, numa tradução mais livre. Significa isto que a economia serve para o bem gerir da casa. Nesta vertente, a economia é uma ciência social, ou seja, que se desenvolve e fomenta na sociedade. Se não houver sociedade, também não há economia. E se os cientistas da economia escutassem, ou melhor ainda, lessem, os cientistas da sociedade, talvez se abstivessem de aberrações académicas que transformam as pessoas em cobaias de ensaio. Outro grave problema trazido pela crise.     
(...) continua

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O Carnaval dos Parvos

Abacílio andava preocupado. Era pelo Carnaval. Preocupado com os festejos, atormentava-se por não ter máscara. Não sabia de que se mascarar. Andando pela rua, assim angustiado, viu uma loja pequenina, mas muito arranjadinha, toda cheia de luzes e cores, com balões à porta e meninas bonitas ao balcão. Vendiam-se ali máscaras de Carnaval! Entrou afoito, animado com a perspectiva de ali poder encontrar a sua máscara para o cortejo.
Olhou, olhou, passeou e revirou, mas nada. Umas porque eram grandes, outras porque eram pequenas; umas por serem feias, outras porque serem iguais às de toda a gente, certo é que nenhuma agradava ao Abacílio.
Veio então uma vetusta senhora, muito elegante, de sorriso branco e modos portentosos. Trazia nas mãos uma máscara. Era perfeita! Toda ela à medida, bem proporcionada, de feições robustas, medonha quanto baste. Tudo o que se quer numa máscara. Brilharam os olhos de Abacílio, enquanto a velha senhora lhe estendia a máscara.
“De que é? De que é?”, perguntava sem se conter. A velha senhora segredou-lhe ao ouvido, e ele riu a bom rir, feliz por ter a sua máscara. Saiu a correr, depois de pagar, claro está, que Abacílio era jovem mas era honesto. Era cara. Mas podia pagar a prestações. Em cinco anos pela moeda antiga, ou em três, e amortizações por mais uns quantos, na moeda de agora.
Aprumou-se a rigor, colocou a sua máscara nova e lá foi.
A rua já fervilhava de gente, tudo mascarado. Ouvia-se o riso e os guinchos deliciados dos mais pequenos. Chegou ao corso. Toda a gente admirava a máscara nova do Abacílio. Ele cumprimentava os demais e ia passando, inchado de vaidade: “Eu cá, tenho uma máscara de doutor!”
“De doutor!”, exclamavam os foliões.
Não tardou muitos que toda a gente o cercasse, a admirar a máscara. Juntaram-se e juntaram-se, tantos foliões que não se contavam.
Chegaram, por fim, os amigos e conhecidos de Abacílio, também eles a rigor. Qual não foi o espanto do Abacílio, ao ver que os amigos traziam também uma máscara igual à sua. Pudesse ver-se-lhe a cara e estaria mais branca que a máscara, agora descorada e sem brilho.
“Ó Abacílio, de que é a tua máscara?”
“É de doutor”, respondeu com voz sumida.
“A minha é de engenheiro.”
“A minha de técnico.”
“E a minha de empregado qualificado”.
“Pois a minha, é de colaborador”, disse, emproado um dos amigos.
“Qual colaborador, qual carapuça. Pois se são todas iguais!”, exclamou o Abacílio. “Raio da velha. Se a apanho! Custou-me esta merda cinco anos!”
“A minha três. Mas com juros e amortizações.”
Os foliões começaram a rir-se.
“Ó rapazes, deixem-se disso. Então vocês não vêm que estão todos mascarados de igual?”
“Pois isso vemos. Só não sabemos é de quê…”
“De parvos, senhores. E de parvos escravizados!
“Ai o raio da velha, que nos enganou a todos!”, exclamou o Abacílio. “Ó malta! Às favas para o corso. Vamos mas é atrás da velha”.
E puseram-se em debandada, com o Abacílio de máscara em punho, a pedir os cinco anos de volta. Atrás dele, os amigos, e atrás dos amigos a multidão dos foliões. Todos bradavam à velha.
Correram a bom correr e só pararam quando já não tinham fôlego. Da velha nem sinal. Ia um desfile a passar. Carros bonitos, bem decorados, gente bem vestida e anafada. Todos perdidos de riso. A encimar o desfile ia a velha, num trono. Toda ela de cetim e madrepérola. Acenou-lhes com aquele sorriso branco e untuoso.
Eles bem fizeram menção de a perseguir, mas havia muita gente a proteger o corso. Eram gordos, enormes mesmo, bem juntos em fileira, e os foliões não conseguiam passar. Dos carros, os bem-postos puseram-se a perguntar quem era aquela gente.
“São os parvos”, respondeu a velha. E todos gargalharam, bem-postos e gordos, todos num conluio. “Velha senhora”, gritou um dos bem-postos, “atira-lhes com notas de 500, que os acalma”.
“Está bem. Mas uma por mês. Só uma!” E riram e riram. Passava o corso, e os foliões ali parados não podiam senão olhar.
“Ó Abacílio”, gritou um dos bem-postos, “de que te mascaras?”
“De parvo”.
Ai que parvos. Que parvos que nós somos!
Fim da festa.

 Nota:  Este mesmo texto foi publicado aqui o ano passado, pelo Carnaval, sob o título "A Máscara de Abacílio".Uma vez que a sátira a que alude ainda se mantém, aqui fica de novo, para acicatar consciências e arrancar sorrisos.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O problema do neoliberalismo

Para todos aqueles que estudaram Filosofia, ou então para todos aqueles que estudaram com o mesmo Doutor que eu (devida vénia), saberão indelevelmente que um ismo é uma teoria ou doutrina segundo a qual. Uma maneira fácil de apreender como se define um ismo. Diz-nos logo duas coisas importantes: ou é uma teoria (qualquer coisa que pode vir a ser aplicada ou experimentada ou que existe somente no campo das formulações) ou é uma doutrina (algo que já foi experimentado, aplicado no campo concreto da vida, com todas as implicações e consequências disso mesmo). Aceitando que se pode discordar disto, para mim, funciona. E é assim que arrumo mentalmente todos os ismos que me vão aparecendo. Arrumei o neoliberalismo no campo das doutrinas. E como todas as doutrinas, estende-se por vários campos da sociedade. Neste em concreto, não apenas ao económico, mas também ao político e, consequentemente, ao social. Não pode haver doutrinas económicas que não sejam também políticas. E sendo políticas influem na vida das pessoas entrando, portanto, no campo social. E daqui... Bom, daqui, chega a todos os campos.
Curioso como as ideias, primeiro pequenas, incipientes, vão crescendo. Se fazem hipóteses, se testam em teorias e transformam em doutrinas, apanhando nelas todos os campos possíveis do espectro humano e social. A mim fascina-se como o pensar se pode traduzir em algo assim. Claro, com uma boa ajuda de outros elementos, sobretudo quando falamos em ideias que se transformam em modelos ou filosofias económicas, que depois se abraçam às políticas e são levadas por diante. Às vezes, menosprezando as consequências e os resultados marginais, quase como sub-produtos, dessas aplicações e dessas estreitas colaborações e implicações entre as ideias, o económico, o político e o social. De tal forma que, quase sem se dar por isso, as pessoas se aglomeram politicamente em torno de determinados modelos que mais não são do que ideias de filosofia económica que, para subsistirem e vingarem, necessitam da pujança do campo político, que as regula, implementa, fomenta, ramifica, mas também que as estigmatiza. É o preço a pagar.
Vivemos um dos maiores períodos de transformação política e social. Poderia dizer o maior, porque nunca passei pelas transformações anteriores a esta, e seria legítimo. Mas a Historiografia tem algo a dizer sobre isso. Não seria verdadeiro. Não será porventura a maior. Mas uma das maiores, sim. Talvez mesmo a mais complexa, pelo grau de informação disponível; pela necessidade de confronto e consenso de tantas partes que compõem o espectro da sociedade em que vivemos; pelo facto de ser uma transformação a nível global e, penso eu, por ser o fim dum sistema económico e a passagem para outro, embora não definido (ainda). Esta é, verdadeiramente, a crise. Estranho como perdemos o real significado de crise. Habituámo-nos a dizer “crise” sempre que algo não corre bem. Nesse sentido, eu digo a brincar que vivi na crise toda a vida, e não apenas desde 2008, altura do famoso problema do sub-prime, que arrastou o mundo para a maior recessão desde a Segunda Guerra e, no meu modesto entender, para níveis muito semelhantes aos dos da crise de 1929-33. Pelo menos, no impacto concreto na vida das pessoas. O problema das crises é que afecta sempre as pessoas. E o problema dos modelos económicos é que nem sempre se dão conta da forma como afectam a vida das pessoas.
A transformação social que vivemos, depara-se, neste nosso Portugal, com desafios tremendos. Serão muitos. Não saberei dizê-los todos. Mas o maior deles, a não culpabilização dos governantes e dirigentes que, desde a revolta democrática, foram sustentando modelos, práticas e políticas que não responderam às necessidades reais dos País e das pessoas, levando-o mesmo à quase falência. Depois, a falta de alternativas credíveis e realizáveis, agudizada pela alternância política de poder entre esquerda e direita, muitas vezes diluída e com programas opacos que, por diversas vezes, sustentaram mais o interesse privado do que o público. Depois a forma de fazer política, muito assente na promessa, na troca de acusações, no dabate inflamado, no prometer-esquecer, no dizer hoje e desdizer amanhã, nas contradições e controvérsias, ao invés da discussão de ideias e programas, e assente em noções concretas e reais do estado do País. Naturalmente, a razão disto é o facto de não existirem estadistas, nem homens de ideias e de ideais sólidos, com experiência de vida e de trabalho, feitos apenas nas escolas partidárias, onde se filiam desde novos e embarcam num carreirismo que os leva até aos cargos dirigentes. Depois a ausência de um plano político-económico de longo prazo, a que se junta a ausência de um modelo económico-político que sirva realmente os interesses das pessoas e do País. É que o modelo focado no mercado e no capitalismo está, simplesmente, esgotado. E enquanto se adoptam medidas de contenção de modo a evitar o colapso desse modelo, prologando a agonia dum modelo gasto e retirando às pessoas mais do que ética ou moralmente aceitável, vai-se esvaziando realmente a possibilidade concreta de sair desta situação.
E eis que, neste clima, nos vemos confrontados com a proposta de um modelo neoliberal. É lícito propô-lo certamente. Da mesma forma, que é lícito propôr à discussão (note-se propôr, não impôr) qualquer outro modelo. O que não é lícito é não assumir que se está a ter uma determinada orientação neoliberal. Sobretudo quando todas acções, formas de dizer e atitudes vão nesse sentido. E, acima de tudo, quando esse modelo não foi sufragado claramente pelo voto democrático. É que o neoliberalismo já foi testado. Já foi posto em prática. Já sabemos os resultados. E assim, há que perguntar: queremos um modelo político-económico neoliberal? A mim, ninguém me perguntou. A resposta é: não, não quero.
A minha resposta é baseada precisamente nos resultados já conhecidos do neoliberalismo. Se a própria teorização de Hayek é já realmente desconcertante, os resultados sociais e económicos da sua aplicação, nos modelos da Senhora Tatcher, do Presidente Reagan ou até do ditador Pinochet, são calamitosos. Não quero um Estado que se reduz ao mínimo, sem função económica e social, apenas como agente facilitador de privatizações e negócios. Não quero um Estado que veja a desigualdade social como própria da liberdade humana e que olhe para os pobres como os incapazes da economia de mercado. Não quero um Estado que deixe o mercado entregue e si mesmo para se renovar e reorganizar ele próprio. Vimos bem, na crise do sub-prime, que essa auto-regulação não funciona. E a forma como, por causa da globalização que é realmente o grande veículo dinamizador do mercado livre e desta forma de entender a economia, arrastou todo o mundo. Não quero um Estado que, por via das necessidades do mercado esteja cada vez mais dependente dos países ricos, caminhando a passos largos do neoliberalismo para um neocolonialismo económico.
Não quero, sobretudo, um estado de negociatas; de gente incompetente; de modelos económicos e políticos falhados e gastos. Quero um Estado que olhe para as pessoas e veja nelas Pessoas. E quero que me perguntem se quero ou não embarcar nessa loucura.
Devo dizer que não me revejo em nenhum dos ismos em que habitualmente gostamos de agrupar as pessoas. Entendo que faz falta uma outra via, porventura ainda não pensada. Mas urgente.
A questão é: o Estado existe para as pessoas, não as pessoas para o Estado. Se o Estado não existir para as pessoas, para que serve o Estado?

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Em nome do Rui

Caro Rui:

Não me conheces, nem eu a ti. Escrevo-te depois de ler a tua história no jornal, sobre como a vida tem pregou a partida de conheceres a fome, apesar de só teres nove anos e estarmos no século XXI e viveres num País que pertence à União Europeia, é membro da NATO, do Conselho de Segurança da ONU, da FAO, da UNICEF, entre tantas outras instituições e siglas, como convém a um país do primeiro mundo, seja lá isso o que for. Fiquei triste. Quero dizer, primeiro muito zangado. Comecei aos berros no café onde estava a ler o jornal, como se alguém que ali estava, tivesse alguma culpa. Depois revoltado. Agora triste.
Na verdade não me interessa nada se tudo aquilo que se diz no jornal é verdade. Se é mesmo assim, que a tua mãe não tem dinheiro; que deve €4,65; que não te mudaram o escalão por causa dum papel que a Segurança Social parece que só vai emitir em Janeiro; que não te deram de comer porque não tinhas 73 cêntimos... Não me interessa. O que me interessa é a partida que a vida te está a pregar, por um lado, e o ver-te exposto às complicações dos adultos, por outro. Não sei se as compreenderás e, sobretudo, se saberás lidar com elas e com o estigma que elas costumam trazer. Perdoa-me escrever de forma tão adulta. Bem sei que os teus nove anos pediam que me esforçasse por uma linguagem mais direccionada para a tua idade. Mas porque alimento, lá no fundo, uma centelhazinha de esperança de que alguém ao ler isto se indigne tanto como eu me indigno e, melhor do que eu, esteja em posição de fazer alguma coisa concreta e útil por ti, permite-me gladiar neste palavreado por ti, mesmo que o não entendas.
Não sei quantos Rui haverá. Ouvi nas notícias que serão para cima de 12 mil. Doze mil! Eu próprio Rui me confesso. A razão pela qual me indignei tanto é por ter sido eu mesmo, a dada altura, Rui. E, por causa disso, lágrimas. Verdade que há aqui um certo egoísmo meu, porque acabei por me ver espelhado numa situação que pensava já não ver, ou pelo menos, não ver mais no meu País. Na casa que é o meu País. Certa vez, ia a caminho da escola, bem mais pequeno do que tu, e era inverno. Começou a chover, e eu levava calçados uns sapatos de sola, que estavam rotos. As meias brancas – naquela altura era o que se usava, caro amigo – depressa ficaram ensopadas e os pés encharcados. Comecei a ouvir um choc-choc, que era o eco dos meus passos molhados. Passaram por mim uns colegas, que começaram a a rir. Não sabiam duas coisas: a primeira que eu usava sapatos de sola, apesar da chuva, porque não podia usar solas de borracha ou plástico, que me feriam os pés. A segunda é que, mesmo que pudesse, não havia dinheiro para comprar outros. Senti a cara molhada, e até hoje não sei se era da chuva, se de que era. É muito fácil fazer gozo na ignorância. Bem vês, entendo muito bem a tua cara escondida no colo da tua mãe. Mas deixemos isso. Não é de mim que falamos. Antes que alguém com muito jeito para análises leia isto e comece a inventar neste episódio que te contei laivos de recalcamentos e traumas, voltemos ao assunto. Falemos de ti. Do facto de conheceres a fome e, por ela, a vergonha. De saberes o que é um dedo apontado ou um risinho escarnecido. Vou dizer-te que não acredito que não quiseste ir à escola por te sentires fraco. Sentirias, por certo. Não duvido. Mas a verdadeira razão de não quereres ir, acho que era a vergonha. Não faz mal. Não é vergonha ter vergonha. Não te envergonhes da vergonha. Nem da fome. Dias virão, acredito, em que perceberás que te moldaram de alguma forma. Espero que de uma forma que te fez mais íntegro, mais digno, mais humano e menos conformado. Lamentavelmente, não há forma de fazermos voltar atrás o tempo, esse extraordinário curandeiro, de modo a que não tivesses de passar por esta experiência. Acontece que passaste. E isso, não mudará. O que ela te fará, está também um pouco nas tuas mãos. E na altura devida, compreenderás.
Outras coisas há que não estão nas tuas mãos. Infelizmente nem nas minhas, pois se estivessem, este meu palavreado todo era escusado. Arrepiávamos caminho. Mas não. Está nas mãos de muita gente, e como tudo o que está nas mãos de muita gente, dá muitas voltas, a maior parte das vezes para ficar no mesmo sítio. Talvez por isso, voltemos hoje a falar de fome, e de miséria e de carências alimentares, e de falta de dinheiro... De programas PÊRA (de quem terá sido a luminosa ideia de dar o nome duma fruta a um programa de combate à fome?...) Tantas coisas más de que não devíamos estar a falar. Soube também que mais de metade da população activa, quer dizer, daquelas pessoas que no nosso País têm idade e condição para trabalhar, ou são desempregados ou estão em situação de emprego precário. Mais de metade! E penso que não consigo perceber para onde vamos. Parece-me tudo um desnorte. Não há caminhos apontados; não há estímulos para os caminhantes; não há metas; não há timoneiros de mãos firmes no leme; não há chefes que andem á frente e agarrem nos que caem pelo caminho. Vejo a desesperança; as crianças e os adolescentes com fome; os jovens sem perspectivas e desempregados; as famílias sem dinheiro; os velhos na miséria. E falta-me saber o mais importante: para quê?
Podia continuar a atirar números. Do desemprego, do endividamento, do défice, do número de pobres... De nada serve. O que serve é a vontade de querer fazer melhor. O que serve é reconhecer o erro. E a vontade de o corrigir. O que serve é perceber que, em cada decisão que se toma, em cada medida que aceita, há rostos; há caras que se escondem em colos ou só nas mãos; há histórias de vida de pessoas reais, que existem, que passam por nós e vão baixando os braços, desistindo aos poucos, como se passassem pela vida sem ser já o seu tempo.
Meu caro Rui, não tenho solução. Tenho palavras. E a esperança de que toquem em alguém que, pegando nelas, dê o primeiro passo para mudar o que é preciso mudar. Mormente consciências. E valores. Tantos valores perdidos... Onde irá parar um País que não honra a memória; que não é brioso; que deixa de celebrar a sua Independência... Falta-me mesmo o para quê.
Faço votos de poder saber de ti, daqui a alguns anos, talvez dez ou quinze, quando já fores homem feito, e poder saber-te bem. Poder saber-te um Homem íntegro e um Cidadão competente.

                                                                                 Teu muito amigo.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O fim do mundo e outros mitos


O título vi-o hoje num jornal. Gostei. Não era bem assim, mas foi assim que me soou, mal lhe pus os olhos em cima. Era a propósito de um congresso qualquer acerca de diversos mitos, desde o fim do mundo a 21 de Dezembro ao local de nascimento do Viriato. Parece que não foi na Serra da Estrela. A mim pouco me importa. O Viriato, como os grandes homens, não era duma terra só. Era Luso, e isso basta. Também já aqui me debrucei sobre o 21 de Dezembro. Mas não é isso que me importa hoje. Nem sequer se o mundo acaba ou não para Dezembro. Que me importa isso?
Podia ficar aqui a discutir a importância dos mitos. Ou a sua não importância. Mas também não é isso que me interessa. É-me suficiente dizer que à sombra dos mitos o mundo avançou. Outras vezes enganou-se. Mas conhecer faz-se de enganos também.
O que me importa é este fim do mundo a que assisto, eu, aqui sentado, olhando para a caneta, velha amiga, mas preferindo as teclas do computador, onde as pontas dos meus dedos vão escrevendo sem tinta. Está a acabar-se o mundo. O hoje amanhã será passado, como em todas as eras. Com ou sem mitos. Acaba-se a cada dia. E mesmo assim, há uma ânsia por um fim. Talvez seja da natureza humana querer ver o fim, como se nele houvesse respostas. Não sei. Mas cada dia traz um fim. Não percebo porque se há-de querer outro. Bem a propósito, enquanto escrevo, pus-me a ouvir música portuguesa do século XVI, que encontrei no youtube. De repente, dei por mim a cantar a "Porque me não ues Joana", uma cantiga de amigo que eu também cantava na faculdade, no coro a capella a que pertencia. Dei um sorriso involuntário, ante aquela lembrança, mas também isso já é passado. Fim. É bom recordar. Mas não penso voltar a vivê-lo. Para fim, basta-me um só. Sobretudo, quando a cada dia vejo o fim de mais qualquer coisa nesta lusa terra, tão amada por tantos e por mim também , bem antes do Viriato. Mas cada dia, algo fenece. Vejo nas ruas olhos vazios, de gente que anda para cá e para lá, mas não sabe para onde. Vejo governos sem alternativas, sem soluções, sem brio de servir… Possivelmente nem saberão o que isso é. Mas não creio que alguém, algum dia, mo pergunte. Vejo velhos de ombros caídos. Vejo crianças ainda inocentes, desconhecedoras de que o seu tempo já acabou, mesmo antes de ter começado. Temo bem, que o fim que está para chegar seja o da esperança.
Atormenta-me a ideia da pobreza. Um pobre, o que é? Se perguntar a um banqueiro, dir-me-á que é alguém sem crédito. Se perguntar a um empresário poderá dizer que é alguém sem trabalho. Se perguntar a um governante, talvez diga que é alguém que recebe subsídios. Se perguntar a um padre, provavelmente dir-me-á que é alguém sem pão nem fé. A um trabalhador, e dirá que é o pedinte na rua, ou no metro, ou no comboio… Um pobre é muitas coisas. Porque a pobreza vem em muitas formas. E todas destroem. Todas matam. Todas ditam o fim. Um fim para o sem crédito, para o desempregado, para o subsidiado, para o néscio, para o esfomeado, para o maltrapilho. E, sobretudo, um fim para o desesperado. Nada quebra tanto o Homem como perder a esperança. Não me resigno a que haja pobres para sempre. Não posso resignar-me. Que homem serei, senão um pouco homem, ou mesmo um homem morto, se parar de lutar pela justeza da Humanidade toda inteira onde todos caibam? Pouco homem, de verdade.
Não se perca a esperança, e talvez não venha o fim do mundo.
Happy Halloween.
Feliz dia de Santos.

sábado, 20 de outubro de 2012

Coitados deles


Dentre as espécies de pessoas que não suporto, os untuosos ocupam lugar especial. Os falsos, sim, também. Essa corja, que faz da perfídia uma coisa de trazer por casa e a usa com a mesma displicência e facilidade com que se muda de camisa ou se calça outro par de meias. Mas os untuosos... Há qualquer coisa neles de simplesmente odiável. Não sei se é aquela atitude submissa, enquanto empenham a sua inteligência e astúcia em tentativas de agradar a todo aquele que, mesmo remotamente, possa ser uma mais-valia. E num país de doutores...pfff, já se vê. Não, o negócio da graxa não pode ir mal. Haverá outros que sim. Os restaurantes, as lojas, os vendedores de toda a espécie, mesmo os que vendem coisas que não servem para nada mas que habilmente as vendem, porque criaram nos consumidores a ilusão de que são necessárias... Todos eles se veêm apertados pelo recuo do consumo.
Agora penso que o recuo do consumo pode não ser totalmente mau, se ajudar a que nos livremos das ilusões do consumo excessivo. Mas claro, é sempre mau porque resulta do empobrecimento forçado e não da livre vontade. Desde que nos convencemos de que comprar é necessário para viver, lançámo-nos num caminho que dificilmente acabará bem. E aqui reside o problema. Mas os untuosos. Coitados deles. Passam pela vida esquecendo-se dela, tão ocupados estão com a vontade de agradar. E no jogo de xadrez não passam de meros peões, jogados como os outros, uma casa de cada vez, embora convencidos de poderem a bel-prazer atravessar o tabuleiro inteiro. Haverá sempre alguém, cuidam, que dará o jeitinho. E por entre sorrisos tortuosos, lançam-se. Coitados deles. Como se a graxa com que se besuntam, a si e aos outros, os fizesse escapar por entre as gotas da chuva, os grãos de poeira dos caminhos. Ou se os cabelos das suas cabeças pudessem parar de cair ou passar pela vida sempre fazendo de outros bengalas, nunca pondo, eles próprios, os pés no chão. Mas o caminho, como se faz, se não se caminhar? São como corvos que sonham ser águias. Coitados deles. Detesto-os de verdade. Um homem que espezinha outro é ignóbil. Um homem que usa outro é parasita. Parasitas todos eles, cheios de mesuras, de vénias, de sorrisos falsos, de palmadinhas amigáveis, de conversas de ocasião… Para no momento certo fazerem dos vaidosos presas.
E de que vale? Pergunto-me a mim próprio de que vale. De que vale tanto unto? Porventura não virá, a seu tempo, reclamá-los a Morte? Claro, também poderia perguntar de que vale, afinal, seja o que for, com ou sem unto, porque a Morte a todos reclama. E sim, reclama. Talvez os untuosos tenham o seu consolo no seu unto. Nos seus esquemas, nos seus sonhos de voar alto… E talvez isso lhes baste, tal como à mulher em frente da Bershka talvez lhes bastassem os sacos de compras. Ou aos cães de loiça lhes baste estarem ali, no seu posto, muito afilados de olhos cor-de-laranja, enquanto o mundo e a vida passa  por eles. E, portanto, quando chega o seu tempo, nada mais esperam. Não sei. Não posso dizer. Sei que o unto a mim me enoja. E isso a mim basta-me. Preciso de olhar para as pessoas pessoas. De ver gente e sabê-las gente. Mesmo que não saiba o que esperam nem o que as consola. Nem tão pouco ao que aspiram. Mas que não seja ao unto. Espero que não.
Numa lógica tortuosa poderia dizer coitado de mim, porque os untuosos untam e sempre vingam. Há sempre maneira. E eu…Bem, eu… Nada. Não há lugar para as palavras. Às vezes nem em mim próprio. Vejo as ruas, cheias de gente, que passa, uns muito atarefados, outros, como eu, em passo de passeio, só vendo. Penso em quantas pessoas naquele momento pensam. Coitado de mim que penso, enquanto os untuosos untam e vingam. Aqueles risos serão talvez de escárnio. Não há lugar para pensadores. Muito menos para os pensadores pelintras.