segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

O esqueleto cantante e os beijos à porta

      Há qualquer coisa de extraordinário no espaço confinado de um autocarro, com cinquenta pessoas (mais coisa, menos coisa), com cinquenta histórias (mais coisa, menos coisa) diferentes. Para um solitário, que escreve, é importante ver pessoas, seja no autocarro, no metro, nas ruas... tomar parte nesses banhos de realidade concreta diária, como espectador atento da realidade humana, afastando-me da contemplação solitária imanente da minha vida. De outro modo, sobre o que escreveria? Sobre a beleza das folhas que caem, ou da brisa gélida e elegante que molda o inverno?... Pois sim, isso é belo. Mas só há um tanto sobre o que se pode escrever acerca de folhas caídas ou brisas gélidas. Depois esgota-se. E, além disso, que posso eu escrever que acrescente novidade a odes preciosas já escritas, sobre folhas caídas ou brisas de inverno, quando tantos, com tanta mestria, já o escreveram. Poderia certamente reinventá-lo, pois escrever também é isso. Mas só há um tanto sobre o que pode ser escrito acerca dessas coisas. Não... Preciso da paleta humana. Desses banhos de realidade concreta que me fazem pensar e humildemente esperar que as palavras queiram ser escritas. Portanto, não há melhor maneira do que meter-me pelas ruas fora, mais ainda nesta época de correrias desatentas, mas naturais, porque reflexo do mais puro alheamento do humano, ou simplesmente entrar num autocarro ou no metro.
Atrás de mim uma rapariga lamentava-se ao telefone, numa típica crise do fim da adolescência, falando como se estivesse sozinha com a amiga interlocutora com quem desabafava, no recato duma sala ou dum quarto, dos desamores frustados de uma investida de um “amigo” que, depois de uma noite de copos sugeriu saírem da discoteca para irem para outra zona de bares e que, cá fora, a tentou beijar. Ela não quis. Parece que ainda estava magoada doutra experiência atrasada. E voltou a fugir para a discoteca, gorando as expectativas do amigo, a quem ela insistia em dar o nome, ante aquele auditório de cinquenta pessoas, mais coisa, menos coisa. Claro, talvez nem todos estivessem atentos ou sequer interessados. Olhei em redor: nas imediações do meu assento, que era o auditório mais próximo desta conversa, todos olhavam compenetradamente para o ecrán do smartphone. Uns bancos mais à frente, viam um filme no portátil. Todos perfeitamente alheados. Lembrei-me imediatamente do “Pensatório”, do Harry Potter, onde as pessoas mergulham (literalmente) nas suas memórias (ou de outros, desde que metidas em convenientes frasquinhos), deixando para trás – mesmo que por momentos – a realidade concreta. A seguir, outra chamada, para comentar o episódio de choro na aula duma colega, a braços com um luto. Percebi perfeitamente. Há assuntos que, num processo de luto, despoletam marés de emoções. A professora também se comoveu, ela própria em luto. Rapidamente tudo chorava e se descontrolou a aula, que acabou mais cedo. Depois disto, o mesmo episódio da discoteca e da tentativa de beijos do amigo, que ela acabou por encontrar no dia seguinte e fez de conta que não viu. Foi melhor assim. “Não estás bem a sentir, estou mesmo mal”. Se pela noitada, pela ressaca e falta de dormir, se pelo beijo frustrado (que ela queria mas não queria), acabei por não perceber. Mais tarde, nova conversa, com a amiga enlutada,
“então, como estás?”

“Claro... E já não vais sair, ficas por casa? Pois, fazes bem”. Novamente a história do amigo e do beijo. “Mas se precisares da alguma coisa liga, sim?”
No espaço duma viagem, a história da noitada, da tentativa de beijo do amigo, da sua fuga de volta para a aparente segurança na discoteca e as aulas do dia seguinte foi contada e recontada. Como se estivesse sozinha com a(s) interlocutora(s) no espaço recatado dum quarto ou duma sala, ou até duma discreta mesa de café onde se pode falar sossegadamente... Também há qualquer coisa de extraordinário no espaço duma mesa de café, como se houvesse ali uma pequena redoma que nos encerra num mundo. E foi natural, como se não estivessem ali cinquenta pessoas, mais coisa, menos coisa. Como se estivesse sozinha. Ou então, talvez estivesse, apenas com os meus indiscretos ouvidos, e todos os outros mergulhados nas suas redomas de ecrán brilhante.
Fiquei a pensar como seria a vida daquela estudante universitária e como espelhará a vida de todos os estudantes universitários. Fiquei a pensar como se pode viver a vida tão despreocupadamente, sem ter noção do real e concreto valor das coisas, reduzindo o final da adolescência, o início da idade adulta e a experiência da faculdade a noitadas, copos e tentativas de beijos. E em como, a seguir a isso se vai para as aulas... Depois considerei que nós, adultos, vivemos a nossa vida igualmente despreocupados, olhando para “pensatórios” de alheamento da realidade concreta. Jamais entenderei a necessidade de noitadas e copos. Ainda menos o considerar-se isso divertimento. Mas também não consigo entender completamente a necessidade de constantemente nos alhearmos da realidade e deixarmos os nossos smartphones governar a nossa vida.
Se bem que, às vezes, é necessário um tanto de alheamento. Como de folhas caídas e brisas gélidas.
Apesar da proximidade do Natal, o sol nas ruas é agradável. Quase que se podem dispensar os casacos pesadões, as luvas, cachecóis e gorros. Pelo menos durante o dia. Passeando despreocupadamente, atento nas pessoas, em correria, sempre, nas decorações de natal, nas montras, na música nas ruas... Que bom o anonimato de passear despreocupadamente nas ruas cheias e , apesar disso, sem ninguém conhecido. Este pequeno conforto que só cidades grandes podem dar. Fui passando de rua em rua, admirando mais as decorações que as gentes, até deparar com os habituais grupos que se juntam em torno dos artistas de rua. Alguém fazia pinturas estranhas com sprays de cheiros também estranhos e combinações ainda mais esquisitas. Sentado no chão, uma roda de admiradores ia crescendo à medida que as pessoas passavam, muitas apenas curiosas, como eu, outras ficando um bocadinho, na admiração daquela arte de manchas psicadélicas, mais coisa, menos coisa. Não faço ideia se isso se iria traduzir em dinheiro na caixa despreocupadamente pousada ao lado, mas garantidamente debaixo de olho. Mais abaixo, uma figura envolta num lençol azul petróleo pairava no ar, sem nada de aparente que a sustentasse, para deleite dos passeantes. Noutra rua, um performer, já de certa idade, dava vida a um esqueleto cantante, que abria e fechava as mandíbulas ao som duma música barulhenta, encetando uma dança desengonçada, tal qual a sua própria condição de esqueleto, ainda que animado por cordéis.
A necessidade duma cadeira aliou-se à vontade duma bebida quente, o que me fez entrar numa cafeteria, de conceito demasiado americano para conseguirmos compreender tudo aquilo que se elenca nos preçários. Ainda assim, um espaço razoavelmente agradável, onde estar sozinho não parece estranho a ninguém, porque ninguém sequer repara, e se estivermos dispostos a abstrair-nos do corropio circundante. Um chocolate quente com uma nota de avelãs, desfigurado por natas de uma lata, que já não consegui impedir a tempo, e que o fez ficar enjoativo. Embora me tenha perguntado, e eu tenha dito um mecânico “sim”, antes mesmo de perceber exactamente o que me perguntava, por tão absorto na observação do ritual que aquela cafetaria implica.
“Obrigado... já chega”,
disse eu,
ante a surpresa do funcionário, que ainda mal tinha esguichado a lata. Os guardanapos muito bem arrumados numa mesa à parte; noutro compartimento, finas espátulas de madeira para se agitarem as bebidas... E ali toda a gente vem, enquanto se aguarda que nos chamem pelo nome – uma americanice possidónia que toda a gente parece achar normal – e nos entreguem copos com os nossos nomes escritos. É fácil ver quem são os solitários, os desajustados, os turistas, os nacionais, os geeks, os nerds, os populares, com um séquito de admiradores que se inebriam da luz que deles se desprende... Ali, todos os nichos entram, sem se misturarem, ainda no estrito cumprimento daquele ritual. Como noutros sítios, naturalmente. Mas ali tudo se faz num hino de louvor à marca, presente em todos os cantos e em todas as coisas, auto-elogiando-se a si própria em pequenos textos e constatação de feitos, num verdadeiro culto de si mesma: prémios disto e daquilo; metas alcançadas; x milhões de tal; x percentagem de reciclagem; tantas árvores salvas...
Lá fora a música de natal continuava ininterrupta. Levantou-se um vento gelado, próprio do fim dos dias no inverno. O esqueleto cantante já tinha desaparecido. A multidão nas ruas era mais fluída à medida que o sol desaparecia e ficava frio. As decorações de natal impuseram também o seu ritual próprio de festa. Há qualquer coisa de igualmente extraordinário nas decorações de natal e no seu ritual.
Na viagem de regresso, entretive-me no deslumbramento duma figura extraordinária. Não sei se o era, realmente, ou se simplesmente a mim me parecia que fosse, na solidão que escolhi para viver. A solidão também ela pode ser extraordinária, sobretudo quando se escolhe e não é imposta. Da rapariga dos beijos roubados, nem rasto. Esse encontro fortuito, porventura irrepetível, foi revelador dum universo paralelo ao meu, e que eu jamais entenderei ou pertencerei. É de igual modo extraordinário como as nossas escolhas de vida definem o nosso próprio universo e moldam a nossa existência, mais coisa, menos coisa. Apercebemo-nos disso em pormenores pequenos, que se estivermos desatentos, não damos por eles. Surgem em pequenas redomas extraordinárias da existência.
Acordei desse torpor para voltar ao conforto da vida que me é familiar. Enfim em casa, sem auditórios indiscretos. Mesmo que seja o do confinamento dum autocarro, ou duma pequena mesinha de café. Lá fora o vento é gélido e as folhas das árvores, já quase nuas, são sopradas com certa inclemência, própria do tempo. Está bem assim, tudo no seu tempo. O frio, o gelo, as folhas caídas, os beijos roubados à porta duma discoteca.
Feliz Natal.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

O estranho caso dum buraco no chão ou a política de casos

Diz-se da avestruz que quando se assusta ou pressente perigo enterra a cabeça na areia. Parece, no entanto, que isto não é verdade, mas é daqui que vem a expressão que todos associamos a um certo acto de cobardia ante as dificuldades ou, então, a um fazer-de-conta que passa se eu fizer de conta que não vejo.
Há buracos, contudo, que são muito maiores do que as cabeças ou que é impossível não ver. Tal como há buracos que o não são. Quem nunca ouviu falar das impressionantes ilusões de óptica pintadas no chão, que quase parece que vamos cair num precipício quando, afinal, é apenas tinta? Porventura terá sido este o caso do incauto visitante, na exposição de Anish Kapoor, em Serralves que, apreciando a obra, caiu no buraco. Uma verdadeira “descida para o limbo”, assim se chama a peça que o visitante admirava e nela caiu.
Confesso que a minha relação com a arte contemporânea é difícil. Custa-me muito apreciá-la, talvez por ser mais dado aos grandes mestres do Renascimento e do Barroco. Talvez por não compreender o génio artístico (o que é muito provável. Não compreendo mesmo). Suponho que até os grandes mestres, na sua época, foram incompreendidos. Provavelmente, daqui a centos de anos, a arte hoje contemporânea será reverenciada por muitos e não apenas por um restrito grupo de eleitos que se deleita na contemplação de buracos no chão, ou outras peças de igual gabarito. Lembro-me de estar uma vez no Reijksmuseum de Amesterdão, no último piso dedicado à arte contemporânea e estar muita gente de roda duma vitrina que não tinha nada, apenas os contornos de qualquer coisa. Uma dúzia de asiáticos comentava e tirava fotos. Parecia que estavam a apreciar maravilhados os contornos de qualquer coisa e isso era um epíteto da contemporaneidade. Aproximei-me mais, na tentativa de encontrar, eu próprio, qualquer satisfação na fruição do que lá estaria (nada, para mim). Levantando os olhos para fora da vitrina, na parede, estava uma pequena placa, onde se lia: “Peça retirada para estudo”. Ninguém pareceu notá-la. Eu sorri, os asiáticos, que entretanto tinham atraído mais uns quantos turistas à vitrina, continuaram a tirar fotos, e eu prossegui na minha visita. A arte está nos olhos de quem vê, portanto. Um bocadinho como as polémicas, ou os buracos no chão. Para uns uma ilusão sendo verdade, para outros uma verdade sendo ilusão. Uns empolgando-os; outros desprezando-os.
Nem todos os buracos no chão são de desprezar, note-se. Em Tolkien, por exemplo, “num buraco no chão vivia um hobbit”. E daí nasceu uma obra-prima, conhecida de todos. Tal como o de Serralves, amado por muitos, menosprezado por alguns. A ninguém, contudo, é indiferente. Os buracos verdadeiros tendem a não deixar as pessoas indiferentes. Mesmo que sejam reais só literariamente.
De facto, a arte de empolgar coisas parece estar na moda. Enquanto em Serralves se cai em buracos, julgando-os ilusórios, pelo país fora espreitam oportunistas da ilusão. Coisa triste haver pessoas cuja estratégia de vida é a ilusão. Como, por exemplo, o fazer-se de conta que se é importante ou que se tem muito a dizer ou se detém todas as soluções... Claro, todos temos certas soluções, certas coisas importantes a dizer, certo peso ou importância. Cada um no seu espaço relativo. No seu mundo, se quisermos. E, claro, todos vemos e apontamos com muito mais facilidade o que está mal. Apontar o dedo é muito fácil. Tanto mais fácil quanto não nos comprometemos ou fazemos de conta que nada daquilo é connosco. Meros espectadores, como a ver buracos pintados no chão. Esta atitude é tanto mais grave quanto maior é o grau de responsabilidade da pessoa na sociedade. Cria-se aqui um ciclo nefasto: alguém pretende ser importante, apontando o dedo aos defeitos, todos e qualquer um, mesmo aqueles que são apenas aparências de erro, mas nunca apresentando soluções que vão além do senso comum ou daquilo que é fácil. Pretende-se ganhar importância à custa dos problemas alheios, fazendo com eles um jogo triste, ao mesmo tempo que se desresponsabiliza e demarca completamente, como se vivendo noutra realidade e dando a sim mesmo, perante os outros, uma aparência de saber fazer melhor, mesmo que isso não seja verdade. Chama-se a isto populismo. Poder-se-á defini-lo com outras palavras, naturalmente. Mas na sua essência, é isto. E é perigoso. Muito perigoso. Joga com as fragilidades das pessoas; aproveita os desaires alheios; empolga todo e qualquer deslize dos adversários, mesmo aqueles que não têm nenhum significado ou se vêem a provar falsos; agita as massas e toma como suas causas que sabe, à partida serem impossíveis ou pouco viáveis, mesmo que anteriormente tenho sido absolutamente contra elas... E tudo para subir à conta dos outros, disfarçando a sua própria incapacidade, canalizando ao seu redor o desencanto alheio e moldando a opinião dos outros a seu proveito, muitas vezes sem qualquer estratégia para fazer melhor. Transportemos isto para a política e facilmente se percebe o perigo. E, no entanto, isto acontece a olhos vistos, disfarçadamente, impondo-se como um discurso sério. Acontece no presente do nosso País, à escala nacional e à escala local. Quantos Presidentes de Câmara (com maior ou menor mérito, diga-se) contam com uma oposição deste tipo nas suas terras? Estranhamente, uma parte significativa das pessoas considera esta forma de actuar válida. Pior, muitos políticos (ao nível nacional e local) fazem desta forma de actuar a sua própria estratégia quando, na verdade, não é estratégia nenhuma! Uma política de casos, sem quaisquer soluções que não seja apenas o desgaste para forçar as pessoas ao desagrado. A arte da ilusão posta em prática. É fácil. Há muita gente a servir-se de buracos pintados no chão e a prometer às pessoas que vão cair neles, sabendo que, de verdade, são apenas tinta no chão. Contudo, convém sempre saber onde está a realidade e a ilusão, sobretudo no que toca a votos e a estratégias políticas. Não vá o feitiço voltar-se contra o feiticeiro e esses engenhosos obreiros do populismo acabarem por cair, eles próprios, no buraco com que andaram a amedrontar os outros. A ilusão tem destas coisas às vezes. Que o diga o visitante de Serralves.
Há solução para o populismo? Podemos evitar a política de casos? Certamente que sim. Não poderei eu arvorar-me na condição de ter a solução. Mas tenho uma solução. Desde logo, a consciencialização/educação/responsabilização das pessoas. A aposta no seu esclarecimento, em vez de alimentar a sua preguiça intelectual natural. Reparemos, por exemplo, nas notícias. Um exemplo banal do quotidiano. Num bloco noticiário, quanto tempo se dedica às notícias (factuais) e quanto tempo é dedicado ao seu comentário (interpretação)? Temos telejornais a demorarem horas, porque a maior parte desse tempo é dedicado a comentar as notícias, não a apresentá-las. Já lá vai o tempo em que os noticiários eram de notícias, ou seja, o jornalista limitava-se a apresentar a notícia factual sem a comentar ou a fazer sobre ela qualquer juízo. Competia a quem ouvia/via interpretá-la para si próprio. Hoje, não só isso não acontece, como o próprio jornalista que apresenta a notícia factual tem já sobre ela uma determinada carga, às vezes impercetível (o acentuar de um determinado número ou percentagem; a entoação da voz; um simples torcer de cabeça...) outras mais visível, socorrendo-se de uma bateria de comentadores que, expressando cada um a sua opinião, de acordo com as suas próprias tendências (ninguém é acepticamente imparcial; isso não existe: o homem é ele e a sua circunstância), mesmo que inadvertidamente ou sem essa intenção específica, vão fazendo correntes de opinião, ao mesmo tempo que se dá o fenómeno concomitante das pessoas deixarem de pensar por si para adoptarem as formas de pensar dos comentadores da sua predileção.
Isto acontece por duas razões principais, a par de uma quantidade de outras, que apenas reforçam estas: a “revolução” social que levou ao abandono dos parâmetros de vida tradicionais trouxe também uma certa preguiça intelectual, que entronca no vazio contemporâneo; ao mesmo tempo que os media, eles próprios a braços com uma autêntica revolução de parâmetros, descobriram a predisposição e o gosto das pessoas pelo reality show, preferindo que a informação seja “mastigada” e apresentada como se fosse um espectáculo. Daí a empolgar toda e qualquer notícia, por vezes até ao extremo do ridículo, procurando alimentar esta sede do espectacular, foi um pequeno passo. É isto que se passa com os chamados “casos”: coisas pequenas, muitas delas sem qualquer significado, ou então decorrentes de erros, que em circunstâncias normais seriam lidados com rapidez e eficácia, arrastadas e exploradas à saciedade, empolgando-os muito além do seu contexto concreto, sem olhar, tantas vezes, a consequências. Moldar a opinião pública à custa destes “casos” tornou-se banal, ao mesmo tempo que se apresentam e exploram circunstâncias da vida das pessoas como se fossem verdadeiros espectáculos, que prendem aos ecráns os espectadores. Acredite-se, ou não, este é um campo fértil ao populismo. E cresce. Crescerá enquanto houver audiência e enquanto houver oportunistas da desgraça.
Às vezes gostava de poder resolver as coisas com a facilidade com se podem resolver os buracos pintados no chão. Ou com a facilidade com que se podem resolver dilemas a 10 euros... Há dias, vi no facebook (esse monstruoso espelho da nossa contemporaneidade) um anúncio que dizia: “Dois dilemas, 10 euros”, fazendo reclame à pagina de um qualquer profissional das coisas ocultas. Não sei como lhe chamar, lamento. Charlatão seria deselegante. E, pois, se há quem acredite que se podem resolver dois dilemas, duma penada, apenas pela consulta de cartas ou outra coisa do género, porque é que não há-se haver quem lucre com isso? Em terra de cegos... Os políticos de casos vão fazendo mais ou menos o mesmo e ninguém estranha. Fosse tudo assim tão fácil. Eu poria como dilemas a consciencialização das pessoas e a estupidez humana. Dava dez euros de bom grado. Em todo o caso, sempre é mais genuíno o negócio das fraldas para galinhas. A mim parece-me muito mais legítimo. Chama-se aproveitar nichos de negócio: se passámos dos cães e gatos, de que eu dilecto amante me confesso, para galinhas por animal de companhia, porque não havemos de as ter limpas e bem-comportadas? Já se sabe, as galinhas são estúpidas, quando comparadas com padrões humanos (outro erro). É da sua natureza. Elas querem lá saber se cagam o sofá ou o corredor da sala, enquanto debicam o chão da cozinha... Querem é tratar da sua vida. Se as queremos na nossa, dentro de casa, pois, que haja fraldas. Alguém percebeu isso, em Inglaterra. E está a ganhar muito dinheiro, indiferente aos buracos no chão. Esperemos que não se passe para avestruzes. Não haverão fraldas que aguentem. Nem buracos.
Da próxima vez que for a Serralves hei-se ver bem onde ponho os pés.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

saudades utópicas

Não digas que tens saudades minhas, se soubeste sempre onde me encontrar. Surgiu-me assim, num rompante, enquanto deslizava o dedo no feed das redes sociais. Quando voltei para trás para ler melhor, já tinha actualizado e já não o tornei a ver. Impressionante o conjunto de coisas que nos habituamos a fazer diariamente. Passar o dedo no telefone é uma delas (sendo “telefone” aqui claramente um termo genérico para aqueles aparelhos de que nos tornámos todos dependentes; há muito tempo que os telefones deixaram de ser telefones). Dissessem-me que bastaria andar com o dedo para cima e para baixo no ecrán dum telefone para saber do mundo, em tempo real, e eu rir-me-ia. E, no entanto, aqui estamos, nessa realidade muito real, sem nada de alternativo ou utópico, cheios de possibilidades e estrangeirismos e de palavras inventadas ao sabor da velocidade a que anda o mundo virtual. Palavras que nunca suspeitámos que pudéssemos usar ou mesmo virem a existir.
Talvez não tenha sido exactamente assim, com aquelas palavras concretas, a citação, mas foi assim que me ficou, num dos milhentos posts que as pessoas vão colocando com dizeres mais ou menos giros, “citações”, às vezes de coisa nenhuma ou de ninguém, mas que passam por bocadilhos de sabedoria universal, que vamos engolindo a goles sôfregos, sedentos que andamos de qualquer coisa mais do que passar o dedo para cima e para baixo, diariamente, no ecrán de um telefone. Como se essas frasesinhas, muitas vezes inventadas e atribuídas a algum nome sonante, para se lhe dar autoridade, ou então genuínas mas perfeitamente desenraizadas e retiradas do seu contexto, pudessem mitigar a nossa sede real de sentido.
Ao mesmo tempo que sabemos todas as coisas do mundo em tempo real, vivemos em desencontro constante e permanente, estabelecendo laços virtuais raramente reais e muitas vezes alicerçados em noções platónicas, tecidas por detrás do ecrán dum telefone, sem nunca nos deixarmos conquistar verdadeiramente. Depois, se insistirmos muito, lá acontece levar ao real concreto essa relação, às vezes de anos, outras vezes fugaz, mas sempre virtual e construída de ideais aparentes. E amiúde é novo desencanto, porque o real concreto não se compadece dos beneplácitos virtuais, nem é nunca perfeito como nos aparecem aqueles fragmentos, nem a pessoa toda inteira cabe no ecrán dum telefone, por mais que se lá tente meter o mundo em tempo real. Mas a pessoa é ela própria um mundo e, portanto, são muitos os mundos para acompanhar em tempo real. Alguns, terão de ficar por explorar.
Não digas que tens saudades minhas. Estive sempre aqui, muito além do dedo a andar para cima e para baixo no ecrán dum telefone. Sempre aqui, muito além da ideia engraçada de te moldares aos meus gostos, como que a meteres-te no telefone do meu mundo, a tomares-lhe a forma para me agradar e eu dizer “sim, sim, és mesmo tu; onde tens andando, que me fartei de andar com o dedo para cima e para baixo, no ecrán dum telefone, como que à tua procura e tu, aí, perfeito, à minha espera?” Ou então, citar-te Sophia e dizer-te que “és tu a Primavera que eu esperava”... Eu, tão estúpido, basbaque num ecrán de telefone, contigo aí à espera. E tu moldando-te cada vez mais ao ecrán do meu mundo, para me apareceres cada dia mais perfeito e esperado, como uma panaceia messiânica ou um bálsamo na aridez do ecrán do telefone dos meus dias. Quando, depois, me permiti regar a aridez do ecrán do telefone dos meus dias com o remédio miraculoso do teu ser, percebeste o erro: não se pode conquistar alguém enganando-nos a nós mesmos. Porque depois, quando conquistamos assim, a pessoa rega-se nessa panaceia e floresce, enquanto que nós, que nos moldámos a um mundo que não era o nosso, para caber no ecrán desse telefone, cada vez mais definhamos e secamos, a ponto de nos morrerem as raízes. Então tiveste de desistir. Atabalhoadamente. Arruinando por completo o mundo que via no ecrán do telefone, sem remédio possível. Nestas coisas não se pode desfazer. Porque a consolação de olhar o mundo pelo ecrán do telefone, deleitando-nos em ideias de perfeição parciais, apenas com o passar do dedo para cima e para baixo, uma vez desfeita, não volta a refazer-se. E a conquista suada de uma paz interior relativa e de aceitação dos desencontros como realidade factual, na miríade de mundos que nos chegam pelo ecrán do telefone, fica em ruínas, levando muito tempo para se poder reparar.
Não digas que tens saudades. Estive sempre aqui, e tu apenas te moldas-te, sem nunca quereres realmente ser, o mundo no ecrán do meu telefone. Soubeste sempre onde me encontrar, porque avidamente vou passando o dedo para cima e para baixo, como um puzzle incompleto, na expectativa permanente da peça em falta. Perdida, porém, lamentavelmente. O mundo virtual em que nos votámos a viver fez-nos cativos dos desencontros e da insatisfação constante. Porque cada pessoa é ela própria um mundo, muito além do que esperamos poder meter no ecrán do telefone. Alguns, ficarão inevitavelmente por explorar.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Particularmente saboroso?

Aprendi há muito que não se escreve a quente sobre assuntos que nos incomodam ou de algum modo nos tocam, a não ser como desabafo e, nesse caso, não são coisas para partilhar. São coisas em chorrilho, muitas vezes incorrectas ou incompletas ou mal escritas; escritas com o propósito único de nos aliviar. Quando queremos escrever sobre alguma coisa convém deixarmos passar o calor do momento, a erupção de emoções ou a fúria que nos move, sobretudo se queremos partilhar o que escrevemos e, mais ainda, se queremos que alguém entenda o que escrevemos. Estando o ano a começar, é tempo de olhar para trás, para o ano findo, seja como balanço seja lá como se lhe quiser chamar. Para mim, o fim do ano e o início de outro é sempre tempo de reflexão.
O ano foi amargo, agora que já chegou ao fim. “Particularmente saboroso” (nas palavras do nosso Primeiro-Ministro), decerto, em muitos aspectos da nossa vida comum de País. As melhorias económicas, traduzidas em melhorias sociais; uma estabilidade política mais ou menos conseguida; boas perspectivas de mercado; rendimentos devolvidos, paulatinamente, ao cidadão comum, traduzindo-se isso num aumento da confiança; boa cotação internacional, como se vê pelos casos da ONU e Ecofin... Será este governo, “bem menor”, assim tão diferente do(s) anterior(es)? Sim, é. E não, não é. Continuam os erros, as polémicas e os atropelos próprios de uma forma de estar benevolente para com o facilitismo e habituada ao “amiguismo”, estranha forma de nepotismo, tão portuguesa. Continua a privilegiar-se antes as pessoas que se conhece e as ligações que tem (partidárias ou pessoais), em detrimento do mérito e da competência. Aliás, neste aspecto, tanto nacional como localmente, onde os jogos de influência dos “amigos” são claramente nefastos mas, ainda assim, amplamente postos em prática. Lamentavelmente, não são só os governos PS que têm vindo a condescender nesta forma de estar. Ela é transversal a todas as forças políticas, mormente aquelas que tradicionalmente chamamos do “arco da governação”, agora mais diluído, com o protagonismo e entrada em cena do BE e CDU como apoiantes claros de um governo. Sendo isto novidade no governo central não o é, certamente, nos poderes locais, onde a procura de consensos de poder é habitual para assegurar certa estabilidade e governabilidade. Portanto, não é este governo melhor que o(s) outro(s).
Acontece, porém, que realmente é melhor. Melhor pelos resultados mas, sobretudo, pelas opções. Ou seja, optando por uma solução assente em compromissos de princípio, tornou-se possível ser um governo minoritário com estabilidade governativa, atalhando caminhos muito diversos daqueles tomados anteriormente, muito graças à genialidade inesperada de Centeno, a princípio tão posta em causa, tanto interna como externamente, numa resistência quase patética às ideias e às escolhas financeiro-governativas, sobretudo por parte da oposição (o diabo, o diabo!), no que foi um estúpido exercício de birra, por um lado e, por outro, à habilidade política de Costa, cuja capacidade para construir consensos é admirável. Tudo amparado generosa e afectuosamente pelo Presidente Marcelo, outra das enormes surpresas boas. Não é despiciendo o papel dos partidos apoiantes do governo: a CDU, com a maturidade duma velha senhora, fiel à palavra dada, mesmo a custo de votos; o BE com a irreverência inexperiente das ideias feitas e não testadas, mas contribuindo com alguma frescura a uma máquina pesada e saturada. Muito destas ideias não podem sequer ser consideradas, por serem diametralmente opostas a tudo aquilo que são as opções políticas de fundo do País, assumidas em contexto internacional. Têm algo de realidade paralela, num país “far, far away”, mas fazem o seu papel, satisfazendo os seus próprios eleitorados. Para mais, a opção de fundo do governo de devolver rendimento e corrigir injustiça social, reavaliando medidas verdadeiramente chocantes do anterior executivo – executivo propriamente e não governo, porque o seu apanágio foi “ir além da troika” e obstinadamente seguir esse rumo, para que Portugal estivesse melhor, “mesmo que os portugueses não estejam”. De todos os disparates e laivos arrogantes ditatoriais de quase-fascismo, traduzido em frases feitas e aberrantes, debitadas por elementos do anterior executivo, esta foi, porventura, a mais ilustrativa da mentalidade que então vigorava. Mais que o “emigrem!” ou que a arrogância institucional da felizmente-ex-presidente-da-assembleia-da-república, toda ela inconseguimento, “Portugal está melhor mesmo que os portugueses não estejam” (apenas comparável ao “aguentam, aguentam”) é a visão de quem não compreendeu que um país quebrado não se endireita sem esperança e confiança. E quanto mais se insistiu, mais se derrotou o ânimo. E os custos, foram enormes. Marcelo trouxe o calor humano que não é habitual nos políticos e de o País precisava, diga-se; Costa puxou pela confiança nacional, revertendo o status quo e devolvendo rendimento.
É uma política sustentável? Não sei. Não sou economista nem politólogo. Resultou? Está a resultar, com repercussões além fronteiras: o artigo do “Finantial Times” sobre o sucesso da política portuguesa, por exemplo; a eleição de Mário Centeno... “particularmente saboroso”, se pensarmos que há poucos meses as opções orçamentais de Portugal eram postas em causa, continuamente, pelos “parceiros” europeus.

Particularmente saboroso em tudo o que se disse. Uma catástrofe, contudo, quase como a outra face duma moeda, noutros aspectos. O ano foi também particular e nefastamente doloroso, em especial pela tragédia dos incêndios. Nunca em Portugal tínhamos assistido a uma catástrofe destas dimensões e com esta crueza. Chocou a dimensão, o horror, a incapacidade de reacção útil, a eficácia de uma estratégia lúcida... Chocou a tragédia humana e os quilómetros, a perder de vista, de área destruída. Nunca tinha ido ver, de propósito, o resultado dum incêndio. Já tinha visto, en passant, mas sempre em razão de ter passado numa zona ardida por outra qualquer razão. Nunca para ir ver propositadamente, porque nunca gostei de insistir na desgraça, nem nunca a tinha sentido de perto, mesmo quando, há dois ou três anos, ardeu a pequena mata em frente de minha casa. Mas este ano fui. Já semanas depois dos incêndios, ainda senti o cheiro intenso a queimado e a roupa ficou negra, pelo lado de dentro. Aqui e ali, ainda fumo. Uma experiência nova a aterradora para mim. Janelas e portas distorcidas pelo calor, em casas não ardidas; jardins e varandas de casas destruídos; pequenas hortas dentro de povoações ardidas, mesmo junto às casas; sinais de trânsito fantasmagoricamente enegrecidos; cabos eléctricos derretidos, estradas fora, e restos de postes suspensos no ar, ardidos por baixo e seguros por cabos não ardidos mas completamente distorcidos... E uma paisagem, a perder de vista, muito para lá do que consegui ver, queimada até ao chão, negra e decrépita. As árvores carbonizadas, queimadas até às raízes, só restos de paus de fósforo, numa desolação árida. Fiz aí o meu luto desta tragédia.
Num cenário onde tantas coisas podiam ter corrido mal, tudo realmente acabou mal. Muitas culpas, sem ser claro de quem. Começa pela impreparação. Pela incapacidade de resposta a um cenário desta natureza. Não sei se é possível a preparação para a tragédia, destas dimensões. Não sei. Mas tem de ser. Deveria, na verdade, ter sido. Claramente, fosse por que fosse, não estávamos preparados. Nem como país, nem como cidadãos, nem como protecção civil... O desnorte foi evidente, os meios inadequados (não sei se suficientes ou não) e a opção estratégica caótica. Tudo errado, incluindo a comunicação de emergência, a comunicação aos atingidos e a comunicação ao país, verbal e corporal. Atitudes erradas, palavras erradas, timings errados. Desnorte, portanto. Um perfeito caos.
Com o país mergulhado num caos emocional, a par com as consequências materiais da tragédia, começaram a surgir os abutres da situação. Primeiro muito contidos, mas igualmente em desnorte. Depois desenfreadamente desbocados, atiçados pelos media diversos, com directos constantes e repetidos, reportagens “de fundo” (vá-se lá saber o que isto é) e outras que nem de raspão, com jornalistas a fazer reportagem junto a cadáveres, mostrando à saciedade e despudoradamente a desgraça e o sofrimento alheios, numa guerra de shares absolutamente ridícula, mostrando o lamaçal ético em que neste momento os media em geral (sem querer particular nem generalizar, porque há honrosas excepções) estão mergulhados. Semanas a fio com os noticiários a abrir e a fechar com o mesmo assunto, desgastando a paciência de qualquer um e explorando ao máximo, para dividendos de audiências, a situação do país. Poderia ter acalmado, não fosse uma segunda tragédia, três meses depois, voltando tudo ao início: governantes desnorteados; oposição hermeticamente fechada em argumentos infantis e caducos; media exacerbando ânimos e explorando a desgraça. Há muito que se perdeu a fronteira entre o dever de informar e a exploração sem pudor; os factos noticiosos (que deveriam ser factuais apenas) e o eivar de opinião mais ou menos tendenciosa, de acordo com o pensar e opção política de quem a veicula, manipulado descaradamente a opinião pública, já tão habituada a não pensar por si (para que é que há-de pensar, se há tantos a fazê-lo e ainda por cima bem pagos)... Mas isso é outra história.
Os debates no Parlamento são espectáculos de quase divertimento, não fosse a gravidade da situação, tal é a incapacidade de debater ideias, alicerçadas numa estratégia consequente e coerente. Barulho muito. Política pouco. Birras e polémicas de faz-de-conta, sempre à espera de que qualquer coisa corra mal para se aventar um pedido de satisfação, quase infantil, com pessoas absolutamente ineptas e desprovidas de sentido ético e do mínimo de inteligência política, refugiando-se numa esperteza bacoca de habilidade de jogar com a opinião pública. Diz-se mais o que se sabe que as pessoas gostam de ouvir do que aquilo que realmente deve ser dito. Viu-se com os incêndios; vê-se com qualquer notícia que, mesmo que remotamente, diga respeito a alguém ligado ao governo (fazendo aqui os media e, em particular as redes sociais, o trabalho sujo, numa era em que tudo e todos estão constantemente em cheque); vê-se na mais recente polémica “Raríssimas”, que é já vulgaríssima, a que se juntou entretanto o caso “Século”... Para quem já trabalhou numa instituição desse tipo, custa ver pessoas menos escrupulosas a servirem-se em proveito próprio da boa vontade e dos meios postos ao serviço de quem precisa, pondo em causa a honradez de quem todos os dias luta e trabalha por esses projectos e por essas pessoas. Mas também, por certo, não causará estranheza que isso aconteça. Eu próprio poderia enumerar outros tantos abusos quotidianos, que se fizeram e continuam a fazer por muitas instituições e que, regra geral, vão sendo mais ou menos do conhecimento das pessoas, à boca pequena e se aceita como sendo habitual... É assim que vamos, nos nossos brandos costumes. Estes casos em concreto só tomaram as proporções conhecidas pela insistência dos media. Não são extraordinariamente diferentes de muitos outros, se se procurar bem. E mais não digo.
Particularmente catastrófica também é a situação no futebol, no nosso país. Falo disto como mero expectador externo, sem qualquer interesse concreto, na medida em que o futebol em si não me merece qualquer atenção, como já doutras vezes referi. Não haverá para mim actividade mais inútil que o futebol, na medida em que transforma pessoas normais em perfeitos brutos, incapazes de raciocínio. O futebol interessa, sobretudo, a quem dele vive: jogadores, treinadores, empresários, membros de clubes e staff diverso, e toda uma parafernália de gente que ronda este círculo e dele se alimenta. A todos os outros não interessa absolutamente nada. Mas eis que o futebol conseguiu este feito extraordinário: convencer uma enorme massa de pessoas de que, realmente, interessa e tem a ver com eles. Que é seu! Classifica-os entre sócios e adeptos e com todos conta para engrossar as suas fileiras de dependentes e manter vivo um negócio de milhões, sustentado pelas chorudas quantias que as marcas, televisões e patrocinadores vários se dispõem a pagar em troca da publicidade contínua e da influência (de moda, de padrões de vida, de comportamento...) sobre as ditas massas. Um negócio de milhões de que a massa beneficia absolutamente zero, mas que defende o clube com a bestialidade insana de quem não precisa de qualquer outro argumento que não seja defender o “nosso” clube: os outros são sempre os inimigos, num jogo perigosamente popularista. O fascínio pelo mundo do futebol, para pessoas como eu, está justamente aqui: na análise psico-sociológica que se pode fazer.
Vimos assistindo a uma degradação deste mundo: se é verdade que desde há muito que o futebol cai na suspeição de tráfico de influências e outros negócios menos lícitos (nunca nada se provando nem nunca havendo culpas ou culpados), quase como se já fosse dado adquirido, discutido à porta de cafés e cumplicemente aceite pelas massas, acontece que nos últimos tempos têm vindo a adensar-se comportamentos e atitudes que denotam um perigoso derrapar ético. Incitações constantes e cada vez mais graves e audíveis à violência e ao ódio; suspeições atiradas à comunicação social; fait-divers misteriosamente tornados públicos; adopção de uma postura conflituosa constante (mais que o habitual)... enfim. Remato, retomando e reescrevendo um post anterior: há uma equipa que vem ganhando e outras que querem ganhar. Usa-se, para tanto, todos os artifícios, sendo que o que passa no jogo de futebol propriamente dito é o menos importante, uma vez que, como já sabem muito bem, o estado de alma dos jogadores, pressionados por múltiplas forças e condicionados por diversas vertentes deste jogo, nomeadamente pelo trabalho das claques e dos fazedores de opinião, é que ditará o resultado: a derrota virá se forem capazes de desestabilizar suficientemente o adversário em campo e instilar neles a incapacidade para ganhar ou o sentimento de inferioridade. Isto, mais que a qualidade técnica e táctica, é que, hoje, determina o jogo, sobretudo, nas fases finais dos campeonatos, onde tudo parece valer, apostando tudo neste jogo psicológico. A estratégia tornou-se a desestabilização do adversário por todos os meios possíveis. Há muito que o futebol dos dias de hoje se deixou de jogar nos campos.
Com tudo isto, resta-nos a esperança de que 2018 seja, de facto, melhor. E que os nossos políticos se elevem (finalmente) à altura das suas responsabilidades. E que deixem de fazer figuras ridículas, portando-se como se não tivessem nada a ver com o assunto... Podemos sempre sonhar. Vi, a propósito, uma rábula dos “Donos Disto Tudo” de se lhe tirar o chapéu, caricaturizando a líder de um partido e o candidato benzoca a líder doutro... Um mimo.
Ah, nota final: o senhor Trump não está doido. É simplesmente estúpido. Americanos: acordem para a vida. Vocês votaram no homem. Ele não chegou lá por milagre nem foram os russos que o lá puseram. Foram vocês, com o vosso maravilhoso e avançadíssimo sistema eleitoral. Agora aguentem-no. Façam-nos (ao resto do mundo) é um favorzinho: não ajam como se não fosse nada convosco, fazendo ares de espanto por cada desmando da criatura. E, já agora, não tornem a votar no homem.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Fátima, Torremolinos e as claques de futebol

Ando algo arredado da escrita. Não propositadamente. Apenas porque é assim, pelo menos comigo. Nunca fui capaz de escrever por atacado ou porque tem de ser. Admiro a disciplina de quem o faz e consegue fazer quase livros à la carte. A mim, a escrita nunca me veio por horários nem por calendário. Isto acontece-me assim, mesmo que assunto não falte, como é o caso... Tanta coisa a acontecer, em tantos campos e vertentes... Tanta coisa a despertar a vontade de escrever... Talvez porque a minha vida não dependa disso (com o sucesso monetário do que escrevo, já teria morrido de fome!) ou então, melhor, porque me sinto mais instrumento das palavras do que autor delas. Vão surgindo, devagar, suscitadas por qualquer coisa, boa ou má, e vão ficando, pairando até, à espera que possam tomar forma real, objectiva, e eu as possa escrever, num exercício subjectivo e objectivo ao mesmo tempo. Uma visão delas, que vão fazendo a sua aparição, ante o meu esforço intelectual e de raciocínio de as escrever.
Vem isto a propósito do artigo do Expresso, em entrevista ao Doutor Anselmo Borges, insigne filósofo e pensador, e que também é padre. Nela acaba por, de forma desempoeirada, questionar a compreensão comum do fenómeno de Fátima. A conversa vinha a propósito da crítica, melhor, do espírito crítico (ou falta dele) e da forma como a Igreja (em maiúsculas porque estou a referir-me à instituição) lida mal com ele. É precisamente o espírito crítico (e não a falta de fé) que lhe permite fazer a distinção extraordinária entre a aparição (objectiva) de Maria em Fátima e a visão (subjectiva) que os pastorinhos tiveram em Fátima, ou seja, a forma como vivenciaram uma experiência pessoal de fé. Assim, é perfeitamente possível “ser um bom católico e não acreditar em Fátima, porque não é um dogma”. Permito-me citar a entrevista do Expresso (16/04/1017), para dizer isto: não se nega o fenómeno de Fátima, note-se, põe-se em causa a objectividade da aparição em contraponto com o que poderá ter sido uma vivência pessoal (uma visão) de fé daquelas crianças, no contexto e nos paradigmas da época.
Nada para mim poderia fazer mais sentido. Talvez porque, eu próprio, fui depurando a minha forma de crer em Deus (fé) de roupagens, religiosidades, preconceitos, ideias feitas e, porventura, controladas, apenas para tentar chegar a um conceito de Deus com o qual me sinta confortável, depois de ter passado (e passar) dificuldades na vida nas quais Deus não teve, absolutamente, nenhum papel. Percebi que, por mais que rezasse, ou pedisse, ou firmemente acreditasse e me abstivesse de determinadas coisas ou comportamentos, nada mudaria. As coisas aconteceriam exactamente como tinham que acontecer; os problemas estariam aí para resolver; as dificuldades não desapareceriam; as pessoas de que gosto e me fazem falta, foram morrendo à mesma. A religião responde-me que nada disso era suposto ter acontecido de outra forma; o que mudaria com as minhas preces fervorosas seria o não sentir-me sozinho. Deus estaria comigo, caminharia comigo, partilhando o meu sofrimento e tornando-o suportável. Durante um tempo, isso bastou. Foi deixando de bastar, à medida que se sucediam (e sucedem), uns após outros, episódios tristes, de sofrimento, de perda, de dificuldades, de desemprego... De muitas vezes, procurei ajuda na oração. De nenhumas tive resposta. Percebi (fui percebendo), que não é Deus que está errado. Sou eu. Eu é que precisei de depurar o meu conceito de Deus; a forma como ele se poderá expressar na minha vida e a maneira como eu hei-de relacionar-me com ele. Hoje temos uma relação de mútuo respeito. Ele faz a vida dele; eu a minha. Não duvido em nada da sua existência. Mas não mudo a minha, por causa disso. Esta depuração, trabalho em contínuo aperfeiçoamento, sempre mutante com as circunstâncias da vida, a reflexão, o espírito crítico e teológico (sim, também tenho!), o contexto do mundo em que vivemos, permite-me este conceito de Deus com que me sinto confortável e no qual a religião ocupa um lugar verdadeiramente marginal. Nem eu estou inteiramente certo e todos os outros errados; nem os outros certos e eu errado. Também aqui há uma subjectividade própria de uma vivência pessoal.
Tenho já dito que escrever é expôr-se, em alguma medida. O texto de hoje é claramente uma exposição, íntima, revelando um pedaço do turbilhão em que o meu raciocínio se move. Neste caos, há sentido para mim. Há, no entanto, alguma segurança neste expôr-me, porque o número de pessoas que lerá é francamente irrelevante e, para os que lêem, o que lhes importa é o gosto por ler o que eu escrevo e nada podia ser mais circunstancial do que a minha experiência pessoal.
As redes sociais, sobre as quais me debrucei à tão pouco tempo (veja-se, por exemplo, o texto do dia dos namorados) são pródigas e rápidas nos comentários. Tenho lido coisas absolutamente incríveis sobre a entrevista do Doutor Anselmo Borges, também padre. Atrevo-me a dizer que a maioria desses comentários provém de pessoas que não passaram além do título ou, então, passando, não entenderam nada do que leram. E isso é triste. É verdade que os espíritos críticos, dotados de muita inteligência, nem sempre são compreendidos. Normalmente não o são. Seja porque escrevem ou falam com categorias semânticas e de raciocínio pouco usuais para o dia-a-dia, seja porque o seu pensamento e a forma como o expressam requer que, ao ler, se utilize realmente a inteligência. Enfim, a liberdade de opinião é algo bonito e desejável, mesmo que seja de pessoas que têm tanta dificuldade em lidar com o espírito crítico e em aceitar uma opinião diversa ou abrir o seu pensamento e o seu raciocínio à novidade e à diferença. É exactamente isto que o Papa Francisco tem feito e é exactamente por isto que o seu discurso é pouco aceite e tem tanta dificuldade em entrar numa certa parte do catolicismo moderno, e não apenas na Igreja institucional. É uma pena ver que há cristãos leigos que continuam com as janelas encerradas ao mundo, um bocadinho à maneira do espírito anti-moderno do século XIX e do Papa Pio IX... E é também exactamente por isto que o Papa Francisco tem tanta aceitação fora da Igreja. A mudança está aí. Somos seres resistentes à mudança, por natureza. Mas ela acontece, apesar disso. Adaptarmos-nos a ela ou não é o desafio. A forma como escolhermos, definirá as pessoas que queremos ser.
A propósito da liberdade de opinião não poderia ficar de fora desta reflexão o fenómeno das claques do futebol, de que tanto se tem falado, por causa do mau-gosto na escolha das frases com que vituperam nos jogos. É bem sabido, entre os que me conhecem, que eu não gosto de futebol. Isso dá-me uma certa capacidade de ver além das rivalidades e olhar para o futebol como aquilo que ele realmente é: um jogo. De emoções, de rivalidades, de milhões de euros, envolvido num sub-mundo, mais ou menos delinquente e quase marginal, de apostas, de drogas, de negócios por baixo da mesa, trocas de influências, insultos, galhardetes, pressões... a coordenar uma parte significativa disto as claques, legalizadas ou não, dirigidas por indivíduos na sua maior parte com cadastro, sem qualquer outra ocupação profissional. Fazem ainda parte desta “machina” enxames de comentadores e fazedores de opinião, em todos os canais, que vão difundindo determinadas ideias em detrimento de outras; veiculando certas formas de estar, pensar e agir e construindo verdadeiras correntes de opinião. O terreno fértil para tudo isto: uma massa adepta socialmente transversal e culturalmente multiforme, com uma característica comum: o amor pelo seu clube e o ódio pelo outros. A escolha das palavras não é ao acaso. Amor e ódio. Eis o que define o fenómeno do futebol, no meu entendimento. Um fenómeno sócio-cultural, julgo que mal estudado pela sociologia e pela psicologia, em muitos casos assumindo uma forma de relação com os adeptos que ronda a experiência religiosa, quase vivencial... Um jogo cercado por um autêntico polvo. No cerne de tudo isto duas coisas: as somas inimagináveis de dinheiro que movimentam esta máquina e que a máquina faz movimentar e, num núcleo mais pequenino, os jogadores, figuras semi-heróicas ou endeusadas, pagas a peso de ouro, literalmente. Poderá ser uma visão redutora; para um adepto convicto, será por certo uma visão horrífica, mas para mim, muito evidente, tentando ser tão imparcial quanto as circunstancias que tecem a minha visão sobre o assunto permitem. É certo que este fascínio pelo jogo, mormente pelo jogo de rivalidades, tem acompanhado a humanidade ao longo da História. Escuso-me de exemplos, deixando-os para um estudioso mais abalizado. Muito gostaria de ler um tratado académico sobe o assunto... É certo também que o poder político, épocas fora, tem aproveitado esse gosto peculiar da humanidade, servindo-se dele, acicatando-o por vezes, alimentando-os por outras, colhendo dele grandes dividendos. A nossa época, contudo, porventura por ter sido esvaziada da maior parte das referências ancestrais, está esfomeada de coisas que lhe deêm sentido e respostas e caminhos... De coisas que possam canalizar a dicotomia do amor/ódio, que a Igreja, em tempos idos, controlou, mas cujo papel há muito está esquecido.
Ora, não há coisa que mexa mais com as emoções do que um desafio de futebol. Para os adeptos, evidentemente, e que são, atreveria a dizer-me, a larga maioria das pessoas. Há, portanto, um vasto campo de oportunidades para o jogo. As últimas décadas parecem ter sido fecundas na forma como os múltiplos vectores que controlam o polvo que rodeia o jogo têm oferecido aos adeptos verdadeiras experiências de satisfação pessoal, conquistando-os, quase sem esforço, para alimentar a enormíssima “machina” do jogo, colhendo, entre outros, os frutos do seu amor/ódio. É aqui, neste campo, que entram as claques, recolhendo, sobretudo esse ódio, exacerbando-o ao ponto do ridículo e, mais do que isso, do irracional. Só isso explica as letras (se se pode chamar letras) daqueles urros que vão soltando nos jogos, verdadeiros gritos de ódio, e que a mim me lembram os relatos feitos pelos escritores antigos do que seriam os gritos de desafio entre forças antes dos combates, insultando-se mutuamente, procurando a desestabilização e a quebra do moral, provocando no outro lado, as mesmas invectivas ou piores. O fenómeno, trazido à escala do que hoje assistimos, é exactamente o que se passa. Insultos, verdadeiramente ofensivos, sem qualquer barreira moral ou ética, visando a provocação gratuita e até, quem sabe, a violência. A uns, respondem outros, numa escalada irracional mas, porventura, bem pensada e com um objectivo perverso por detrás. Abre-se aqui campo para a discussão na violência no mundo do futebol, verbal e física, uma outra vertente que acompanha este jogo. Ganha, assim, não a melhor equipa, mas a equipa mais bem preparada psicologicamente para aguentar este jogo e aquela que tiver a melhor máquina a abrir-lhe caminho. Para mim, este ano, isso é muito evidente. Há uma equipa que vai em primeiro e outra que lhe quer passar à frente. Usa, para tanto, todos os artifícios, sendo que o que passa no jogo de futebol propriamente dito é o menos importante, uma vez que, como já sabem muito bem, o estado de alma dos jogadores, pressionados por múltiplas forças e condicionados por diversas vertentes deste jogo, nomeadamente pelo trabalho das claques e dos fazedores de opinião, é que ditará o resultado: a derrota virá se forem capazes de desestabilizar suficientemente o adversário em campo e instilar neles a incapacidade para ganhar ou o sentimento de inferioridade. Isto, mais que a qualidade técnica e táctica, é que, hoje, determina o jogo, sobretudo, nas fases finais dos campeonatos, onde tudo parece valer. Tenho acompanhado, por exemplo, a estratégia de um outro clube, completamente arredado da possibilidade de ganhar o campeonato mas que nutre pelo clube que vai à frente um autêntico ódio irracional, que ultrapassa qualquer rivalidade desportiva que a razão possa compreender: a estratégia tornou-se a desestabilização daquele adversário por todos os meios possíveis, fazendo uso inclusivé de ferramentas ridículas, levantando questões que sabe, muito bem e à partida que não vão ter prosseguimento, mas aventando-os e tentando provocar um contínuo clima de polémica, na expectativa da quebra psicológica do adversário. Se acontecer, será para este clube, a derradeira vitória: a humilhação do adversário, quebrando a sua psiqué e provando ter uma “machina” mais eficaz. Há muito que o futebol dos dias de hoje se deixou de jogar nos campos.
Poderíamos pensar, eu no meu bom-senso pensaria, que os clubes quereriam demarcar-se desta realidade. O facto é que, não só não se demarcam como fazem vista grossa, facilitando estas realidades oficial ou oficiosamente. A questão não está em saber se as claques devem estar ou não legalizadas. A discussão deve ser que tipo de futebol queremos e se as claques, quaisquer que sejam e da forma como se organizam, têm lugar num futebol limpo... Dificilmente veremos esta discussão. Ganhar tornou-se o único objectivo, competir é quase irrelevante. Para ganhar, far-se-á o que for preciso.
Vamos assistindo, mais ou menos, impotentes, a este clima crispado, que perpassa todo o mundo, neste momento um pouco à deriva, tudo na expectativa do que pode acontecer, dependendo do que o senhor Trump decidir fazer. Percebeu, não sem uma boa dose de “espírito americano”, que as suas falhas como Presidente ponderado e para quem os seus concidadãos e o resto do mundo olham, podem ser colmatadas (ou, pelo menos, esbatidas) pela força, desviando o olhar para a panela de pressão que é o mundo. Mostrou, simplesmente, que não tem medo de utilizar as armas e a força que tem. Pode concordar-se ou não. Não consigo ainda, neste momento, perceber os efeitos que esta posição traz. Será, porventura, este o maior perigo dos populismos vazios: fazer coisas aparentemente justificadas, que talvez outros gostassem de fazer mas não têm coragem para fazer ou não podem, sem conseguirmos perceber onde é que esses actos de aparente justificação nos podem levar. Além disso, dogma número um do populismo, quando as coisas não correm como se promete ou não se consegue cumprir o que se prometeu (provavelmente por ser inverosímil ou porque os outros não percebem a grandeza do pensamento populista e colocam entraves que se olham como absurdos), nada melhor do que criar um outra questão onde a superioridade do que somos ou de quem somos basta para se afirmar, sem mais força de argumentos.
Uma última palavra para o hotel em Torremolinos e a questão dos finalistas. Não me alongarei. Tome-se um grupo de adolescentes em idade de se emanciparem; retirem-se do seu ambiente e da supervisão das figuras a que estão habituados e que têm como autoridade; lancem-se num ambiente propício, sem este entrave, com bebida e drogas à descrição e com a ideia já pré-feita de que, naquela viagem, tudo é possível. Juntem-se outros factores essenciais desta questão, como sejam as agências de viagens e o seu papel; as eleições das associações de estudantes ou das comissões de finalistas; o factor económico das centenas de milhares de euros que estes eventos geram... O que se espera? Um grupo de peregrinos?... Todos nós já vimos, melhor ou pior, imagens destas “viagens” na televisão... Eu, que tenho a desdita de viver num local que tem um dos maiores festivais de verão, já vi ao vivo coisas indescritíveis... Deito-me, apenas, a indagar: rituais de emancipação?... Diversão?... Limites?... “Viagens” de finalistas?...
Também aqui há muito terreno fértil para se discutir e reflectir. E também aqui, dificilmente, veremos esta reflexão feita.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Sobre o amor e outras coisas

        O Dia dos Namorados é daquelas datas que nos entraram na vida mercê do marketing, de influência estrangeira ou por força das omnipresentes e omnipotentes redes sociais. Celebram-se os namorados, lembrando, parece, a figura do bispo Valentim, que no século III desafiou o édito do imperador Cláudio proibindo os casamentos, como forma de forçar os solteiros a alistar-se no exército. Ou, então, celebrando outro Valentim qualquer, que parece não haver falta deles por esses séculos fora. Ainda assim, não obstante tão ilustres inícios, nunca foi uma coisa de muita expressão (para mim, pelo menos), celebrar o dia dos namorados e apelar ao Cupido (uma referência para os menos religiosos e dados aos mitos), não fosse a enorme pressão do marketing, fustigando com publicidade e promoções os consumidores, verdadeiras vítimas do Cupido, tal qual acontece noutras datas. Vivemos num tempo em que dificilmente haverá dia no calendário que não seja dia de qualquer coisa. Na verdade, todos são dias de qualquer coisa. São únicos e irrepetíveis, muitas vezes negligenciados e tantas outras vividos no desespero único de que aquele dia acabe, sem nos apercebermos que jamais voltaremos a ter a experiência daquele dia.
Compreendo o esforço do marketing. Deveras que compreendo. Vender tornou-se o paradigma do nosso tempo. Tudo é visto em função do ganho/perda. O que não compreendo é a alucinação colectiva que parece tomar conta das pessoas, como se o dia disto ou daquilo fosse a coisa mais importante do mundo. Na verdade, parece-me pouco que o namoro se celebre só um dia. Ou a saúde, as árvores, o ambiente, a água, a mãe, o pai, os avós... Que se escolha só um dia para ser do não-fumador... Claro, as datas surgirão para se chamar a atenção para determinadas ocasiões ou problemas... Certo. Mas o amor, que os namorados celebram, não é de todos os dias? Talvez devesse ser. Porque o amor é que funda e dá sentido às coisas, esteja-se ou não apaixonado, viva-se ou não um namoro. O melhor tratado que conheço sobre o amor resume-se numa frase de Agostinho de Hipona: Ama e faz o que quiseres. Simples assim.
Ando a aprender sobre o amor há muito tempo. Sobre ele têm escrito, ao longo do tempo, tão longe como a própria História, filósofos, teólogos, sociólogos, psicólogos, poetas, romancistas... Todos errados. E todos certos. Mas não passam (nem poderiam) de muletas, bengalas pequenas sobre as quais podemos apoiar-nos para fazer o nosso próprio caminho. Porque o amor não pode ensinar-se. Cada um ou aprende o amor por si próprio, ou não ama. Não se ama com palavras de outros. Deixem, portanto, de lado as citações fofinhas, os cartõezinhos medíocres, os postaisinhos pindéricos e amem. O amor, mais do que dizer-se, faz-se, cada um o seu e a seu modo, no seu tempo e na sua vida, seja num cheiro, numa palavra dita ou no silêncio de conversas caladas, ditas entre olhares cúmplices... Ama-se a saber esperar, a ser feliz hoje se a pessoa amada vier amanhã, na delícia da expectativa, como “O Principezinho”... Ama-se a pessoa toda inteira, como ela é, sem querermos mudar nela nada que a desvirtue... Ama-se quando se anseia pelo cheiro do cigarro mesmo quando não se fuma e se detesta o cheiro... Ama-se quando no silêncio, sem palavras, dois seres estão todos, inteiros, um com o outro, mesmo quando longe. Não se ama sem primeiro se aprender a estar sozinho, perdendo o medo da solidão. Não se ama sem primeiro perceber que amar dói, muitas vezes.
Para nada disto as citações piegas nos alertam. Ama, e faz o que quiseres. Ama todos os dias. Amanhã não poderás amar como hoje.
Feliz Dia dos Namorados.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

O Benfica, a Padaria e o senhor Trump na era dos comentadores

    Hoje as parangonas e as notícias de abertura do telejornal (meia-hora! vi eu,) tinham que ver com a derrota do Benfica. As redes sociais, esse grande veículo de tudo e todos, sem crivos, contenções de alguma espécie ou comum bom-senso, verdadeiros baluartes tanto da liberdade de expressão como da mais absoluta falta de respeito mútuo, empolgaram a coisa a níveis de absurdo, com manifestações exuberantes dos adeptos de clubes rivais, mesmo daqueles desde há muito afastados da competição, como se fossem eles próprios já vencedores, apenas e só pela derrota daquele clube. Nada de espantar, portanto, visto que o futebol é jogo de paixões. Jogo verdadeira e propriamente, porquanto se move e se alimenta numa teia de emoções, conversações e confabulações que têm em vista o ganho de muitos milhões, numa realidade de contraste gritante com a dos seus comuns adeptos. Ilusão de massas, servindo-se delas para fazer negócio à custa das exacerbadas emoções e devoções dos adeptos mais vivaços e doentios, alimentando verdadeiros ódios irracionais e viscerais contra adeptos de clubes rivais, tirando das derrotas destes mais prazer (ás vezes quase orgásmico) do que das conquistas do próprio clube. Estas são, muito resumidamente, as razões pelas quais jamais conseguirei entender o futebol e o considero uma excelente ferramenta de distração das massas. Muitos políticos o perceberam e, alguns, aplicaram-no com mestria, tornando-o parte duma famosa tríade dos três ff, noutros tempos... Mas adiante.
    Preocupa-me que o futebol seja mais distração, desviando a atenção para o acessório, para deixar escapar ou tapar em cortinas de gritos irracionais os verdadeiros problemas. Felizmente para nós, criaturas pouco dadas à análise do quotidiano, temos miríades de comentadores, de todos os quadrantes e de todos os campos possíveis e imaginários, para nos iluminar e esclarecer as mentes, verdadeiros protectores do cidadão despreocupado que, tendo que fazer alguma coisa pela vida para receber o ordenadito ao fim do mês, não se pode dar ao luxo de passar dias a fio a comentar assuntos, tentar fazer escola deles, influenciar opiniões e comentar os comentários que entretanto lhes fazem a eles próprios. Haja, pois, respeito, por estes verdadeiros servidores da causa pública, tal o seu empenho em esclarecer-nos a todas as horas e a qualquer pretexto, sobre tudo e qualquer coisa. Devia até, acho, ser considerada profissão e ser-lhes atribuído subsídio do erário público, tal o seu indispensável papel, mormente para aquelas pessoas que, tendo acabado o seu tacho, perdão, a sua colaboração ou comissão em determinado lugar ou cargo, se veêm agora investidos do poder e da capacidade de comentar. Não tardará a que nos substituam também na capacidade de pensar... Assistimos a uma autêntica ditadura dos comentadores, muito a par com a das redes sociais (e financeira, com as agências de rating, mas isso são outros quinhentos), em que se formam reais correntes de opinião, pelas quais é bom tom afinar e sem as quais não se chega a lado nenhum. Há sempre algum comentador que tece um pequeno comentário ou achega para corrigir este ou aquele comportamento do político ou do governante tal que, até está a fazer muito bem e desempenha muito bem o seu papel, mas seria melhor se... E os políticos ou governantes lã vão moderando isto ou aquilo para ver se calha bem... Governa-se a bel-prazer das opiniões e com o intuito do que melhor parece. Um bocadinho ao estilo daquele senhor eurodeputado que opina que o Presidente da República exagera no apoio ao Governo e portanto deve moderar-se... Ou outro fulano que acha que o Presidente da República excede as suas funções... Ou outro ainda que comenta que o Presidente deve fazer assim ou assado. Eu não sei. Nunca fui Presidente da República. E, portanto, o que eu acho ou deixo de achar não é mais que a minha opinião e não me passaria pela cabeça pôr-me a mandar recados ao homem sobre o que ele deve ou não deve fazer... Mas isto sou eu, que me lembro de na escola me terem falado dum tipo chamado Wittgenstein que achava que do que não se pode falar não há senão que calar... Ou qualquer coisa assim do género. Quanto mais não seja, por boa educação. Coisa que vai faltando... Apetece perguntar: Vossa Exª já foi Presidente da República? Foi eleito para o ser? Ah, não... Então... É que senão passamos todos a vida a discutir coisas de lana caprina. Ou então a arranjar polémicas novas como esta agora da Padaria Portuguesa e do Daniel Oliveira.
     Só ontem é que me dei conta desta questão que abalou os fundamentos laborais deste país e incendiou, claro está, as redes sociais, despoletando muito mais opiniões verrinosas do que a derrota do Benfica. Já li a opinião da Porteira, daquela página soberba da Criada Mal-Criada, que para mim é opinião de valor e consulto sempre nestas questões de tão difícil discernimento. Depois dei-me ao trabalho de ir ver a entrevista do homem, ler o comentário do Daniel Oliveira e ler a entrevista no Expresso. Ficou-me da escola esta mania de ir às fontes em vez de me segurar nos comentários. Enfim, como diz um amigo, o que me vale é ter a quarta classe... Não concordo com o homem, não senhor. Nalgum do conteúdo e muito menos na forma como desfia as sua posições. Confesso-me até amedrontado com a ideologia de pensamento por detrás daquelas opiniões. Para mim, seria impensável defender que a “flexibilidade” como ele a entende traria salários maiores. Que trabalhar 60 horas em vez de 40 (desde que as pessoas o quisessem, ressalva sempre) traria benefícios às pessoas, que levariam mais dinheiro para casa. Que a “rigidez” laboral (as regras que definem o trabalho) são um entrave à progressão das pessoas (colaboradores) e das empresas (achei curioso que se refira à sua empresa como “organização”) e que muitos dos seus colaboradores já têm outros part-time ou mesmo full-time (?) e que prefeririam ter um horário mais alargado na própria empresa, em vez da empresa ter custos muitos elevados com horas extraordinárias... Confrontado com a pergunta com a eficácia do trabalho em termos de produtividade em tantas horas seguidas, entende que o estudo da OIT que defende que o trabalho semanal com mais de 50 horas não é saudável, refere que essa é uma abordagem empírica, tal como é a sua (admite) ao achar que as pessoas são capazes de trabalhar mais de 40 semanais. Obviamente que são. São e, não raro, é o que acontece. Isto não quer dizer, contudo, que seja desejável. Em nenhum momento se fala de salário justo ou da justeza da remuneração auferida. Nunca se questiona porque razão as pessoas estão dispostas a trabalhar as tais 60 horas ou a ter outros trabalhos. Pois bem, no meu empirismo não é porque querem; estão dispostas porque precisam. Ou seja: o que ganham no seu trabalho a full-time não é suficiente para viverem. A solução, parece-me, não é trabalhar mais horas mas sim receber melhor, de uma forma mais justa e adequada. Nunca se fala em momento algum do que estender as horas de trabalho legalmente faria às outras dimensões do humano. Que lugar teria a família, a vida social e privada, o divertimento, o lazer, o cultivo pessoal?... Nada disso é, sequer, aflorado. Uma opinião focada em dois polos: o crescimento da organização/produtividade e a necessidade de flexibilidade. Ainda assim, isso mesmo. Uma opinião. A sua. Tem direito a ela. E aqui está o problema. Não se pode pedir ao gerente da Padaria os seus pontos de vista sobre o assunto e depois arrasar o homem sem mais. Claro que a sua opinião seria a do empregador! Outra coisa não seria de esperar. Não há opiniões assépticas, desprovidas da circunstância de cada um. O homem é sempre ele e a sua circunstância. Claro que a sua opinião atenta apenas em determinados pontos de vista (os do seu interesse e da sua visão). Claro que o seu argumentário é fácil de desmontar. Claro que tem vícios (alguns graves). Claro que temos de parar de andar com esta coisa da produtividade para justificar os salários baixos... Ou alguém acredita que o salário mínimo ou seja o que for perto disso motiva alguém a produzir mais?... Além disso, quando se atenta em estudos e artigos e tabelas e estatísticas, parece que, por cá, não se trabalha menos horas ou dias que nos outros países... produz-se menos. Porque será? Será de se ganhar pouco?... SERÁ?... Pois, não sei. Tal como nunca fui Presidente da República, nunca fui economista. Mas que a mim me parece que pagar ás pessoas um salário adequado ás suas necessidades as vai motivar a produzir mais, isso parece.
     Mas pronto, o homem tem direito à sua opinião, tanto mais que lhe perguntaram. Não concordo, não senhor... E talvez não tenha sido a melhor estratégia comprar uma briga entre comentadores... E as coisas que diz das pessoas que leêm o Daniel Oliveira... Se a isso juntarmos outros pequenos comentários que faz sobre a forma como as pessoas gastam o seu dinheiro... Bom. Fica o conselho: mesmo quando temos razão (nunca se está completamente errado ou certo, não é verdade?), não devemos dizer tudo o que nos vem à cabeça. Além disso, a Padaria não deve ser o paraíso laboral que parece transparecer da entrevista, ou então, doutro modo, seria dificílimo que houvessem vagas por preencher e não é o caso. Pelo menos, nos sites de procura de emprego, lá aparecem... Tínhamos aqui pano para mangas se quiséssemos continuar a esmiuçar a entrevista e o pensamento do gerente da Padaria, que diz de si ser padeiro.
     O que nos vale nesta panóplia complexa do nosso pequeno mundo, é o senhor Trump, esse sim um verdadeiro patriota. Ele e o bibelôt que arranjou a servir de primeira-dama. Se alguém tem dúvidas quanto ao papel da criatura na vida e acção daquele senhor, basta ver as imagens e verificar o à vontade com que a senhora se movimenta... Enfim... trumpices. Veremos o que dá. Pior do que a Padaria não há-de ser. Bom, como também não sou comentador, já me calo, que a conversa vai longa. Ah, para acabar: esta é a minha opinião. Quem gosta, gosta, quem não gosta, está servido, à boa maneira dum croissant ou de um pãozinho com manteiga, tudo com muita flexibilidade e produtividade.