quarta-feira, 4 de abril de 2012
O cão, o gato e a bomba-de-leite
Falámos do tempo. Eu disse que a primavera me desgosta, por causa das alergias. Mas não é verdade. Gosto da primavera. Só não gosto que me faça espirrar. Mas não me adiantei em explicações. Ela voltou-se para o trabalho dela, tirando cafézinhos a outros clientes e eu deambulei pelas páginas, ainda a pensar nas primeiras impressões e nos espirros da primavera. As “gordas” do dia não eram muito diferentes das de ontem. Ou mesmo da semana passada. O tema é quase sempre o mesmo, e que é mais ou menos aquilo que poderíamos chamar, grosso modo, de “situação”. Toda a gente sabe o que é, não há muito para explicar nem sequer para ocupar a cabeça com questões mais fundas que as próprias manchetes.
Por desgraça, o jornal que leio, a vapores de café, tem uma secção cor-se-rosa, até na cor das páginas. Detesto o cor-de-rosa, não pelas rosas, por entre cujos espinhos nascem as flores, mas pela cor e por aquilo a que ela se associa, que a mim me repugna pelo fútil, pelo banal, pelo inútil. Mais pelo que não tem do que pelo que tem. E pelo espelho do país que somos. Nessas páginas, tão sobejamente necessárias à sobrevivência do bacoco e do popularucho, tomei conhecimento da novela que se tornou o facto de uma determinada criatura ter dado à luz uma menina. Ali se lêem entrevistas, comentários, aspectos verdadeiramente pungentes da vida da recém-nascida, famosa em tudo, desde o nome, que por um rasgo qualquer, inexplicável para mim, não quer dizer nada senão a junção de letras e iniciais. A maior surpresa para mim, porém, foi saber, em notícia destacada, que a mãe tinha comprado uma bomba de leite. Vieram-me à ideia as primeiras impressões outra vez, e colocaram-se-me, quase imediatamente, duas perguntas: o que (a quem) interessa isto para vir noticiado num jornal e, mais importante, porque raio estou eu a ler isto? Não pára de me surpreender a capacidade que temos para o ridículo.
Fiquei a pensar nisto.
Não tive de pensar muito, porque no mesmo dia, vi na TV a notícia de que o cão que foi a estrela do filme “O Artista” foi jantar à Casa Branca. Esperemos que o distinto cão fique com uma boa primeira impressão daquela gente. E que possa até trocar umas impressões com o Bo, o ilustre cão-de-água presidencial que, recorde-se é bisneto de cães lusos, o que muito nos aprimora. Certamente que os senhores que se ocupam das genealogias caninas hão-de também encontrar nesta nova estrela canina um qualquer antepassado nosso. Não é de espantar que as secções cor-se-rosa tenham tanto para escrever...
Mas que havemos nós de dizer, se as notícias que nos preocupam são os cães de cinema e as bombas de leite? Dir-me-ão: mas grande parte do(s) jornal(ais) não são notícias cor-de-rosa! Verdade. Não são. São discussões tautológicas, às vezes anacrónicas (ou muitas vezes?), encerradas em repetições inúteis, de assuntos discutidos vezes sem conta, sobre os quais se chega de cada vez a uma conclusão, sobre a qual se nomeia ou estabelece mais um grupo de trabalho (já não é de moda dizer-se comissão. Agora são grupos de trabalho), para depois se chegar a outra determinada conclusão, porventura ela própria já velha e testada, mas posta, de novo, à discussão, para se voltar ao mesmo.
Seria quase enfadonho repetir aquilo que o Eça escreveu sobre a política. Toda a gente o repete, sempre que se quer dizer mal da classe política, como se ela precisasse que outrem dissesse mal dela. Não precisa. Não deve existir classe que mais se difame a si própria, se dilacere, se esgane, se afronte, do que a classe política. Cai no ridículo sem precisar da ajuda de ninguém. Mas o que diz o Eça poderíamos ir buscá-lo aos diários do rei D. Pedro; aos escritos do rei D. Luíz (não é erro. Escrevi à moda da época, numa espécie de vénia. Aqui não há acordos ortográficos ad hoc); às cartas da raínha D. Amélia, só para pegar em coisas recentes. Porque, tristemente, o que se disse deste povo e, sobretudo, de quem o governa não tem diferido muito pelos séculos além. Basta dizer que Galba dizia dos lusitanos (ou alguém disse por ele) que é um povo que “nem se governa nem se deixa governar”.
Está tudo dito. Na assembleia, os insígnes deputados entretêm-se a atirar culpas uns aos outros; a fazer queixinhas aos senhores jornalistas, porque A disse qualquer coisa que não fez, porque B mentiu ou porque C não esclareceu o assunto X ou Y. Deputados muito engravatados, outros sem gravata nenhuma porque são modernos, outros ainda de brinco na orelha, porque são mais modernos ainda. Horas e dias passados a tentar descobrir a careca duns e doutros, mais preocupados em expôrem-se mutuamente do que em fazer o que realmente lhes compete, enquanto nas ruas já se vê a fome, a miséria, a tristeza e o desencanto da vida. Vai-se vendo também umas bastonadas às vezes. Doeram, certamente, não apenas aos jornalistas, que por mercê da profissão se têm por imunes a esses flagelos corporais, mas também a todos os que as apanharam. Mas as desses não se discutiram tanto. Espero, contudo, não chegar a ver o desencanto de ser Português.
Que pena que o cão d' “O Artista” não faça um périplo pela Europa... Sempre haveria umas manchetes novas. Não sei é que impressão de cá levaria.
Não creio que a bomba de leite encha páginas por muito mais tempo. O que vale é termos senhores representantes que são, in se, a paródia diária. E, claro, temos pastéis de nata, manifestações sem consequência, velhos que gritam que o país não é para velhos; jovens que gritam que o país também é para jovens; subsídios que hão-de ser devolvidos às mijinhas, se alguma vez o forem, e até o gato Gaspar, que hoje foi chamado à discussão parlamentar. Somos ou não somos um país cor-de-rosa?
Boa Páscoa.
domingo, 18 de março de 2012
As abelhas
Resolveu entregar-se aos clássicos. A leitura havia de consolá-lo e tirá-lo desta cisma depressiva que o dilacerava por dentro. Andava ele assim entretido, entre tomos aristotélicos, escritos platónicos e peças sofoclianas, quando lhe veio às mãos uma revista, que era do vizinho, mas que o carteiro erradamente pusera na sua caixa de correio. Lá foi, solícito, entregá-la ao dono, quando reparou num dos títulos da capa: “Abelhas em risco de desaparecer”. Já tinha ouvido falar daquilo. Parece que as abelhas andam a morrer. Aguçou-se-lhe a curiosidade. O bom vizinho anuiu a que lesse, pelo que voltou para trás, entregue à leitura do artigo das abelhas. Lá se explicava que as abelhas estão a morrer aos poucos, mas de modo constante, de tal forma que já se teme que desapareçam de todo. Aquilo deu-lhe que pensar, a ele, que não dispensava a sua colher de mel em jejum, todos os dias, receita da sua Avó. “Oh diabo”...disse, a cofiar o queixo como convém aos entendidos. “E se agora se acaba o mel?” Naturalmente, pensou e bem, se se acaba o mel vai-se tudo. Não pelo mel, ele próprio, claro está, mas por causa da falta que aqueles insectozinhos fazem.
Sem polinização, já se vê. É o fim.
Andou a pensar naquilo uns dias. Depois veio-lhe à cabeça que por cá, já se acabou o mel. Andam agora as abelhinhas sem alimento. Poisam, poisam, mas como não chove, também não há néctar com que encher as patitas, e assim definha a colmeia. Quem seria o glutão que comeu todo o mel? Quem foi, que deixou as abelhinhas tontas de fome? De fome e desorientação, por faltar agora com que encher o papinho? Ah, se ele soubesse...
O que lhe vale, é atentar como os senhores bem-postos andam agora todos preocupados com as abelhas. Enquanto assim for, Portugal está safo. E ele pode alimentar esperanças de ver o sol brilhar. Pena que não seja para todos.
Pelo sim pelo não, foi à dispensa. Lá estava, na prateleira de cima, um frasco de mel. Ao menos isso.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
A caixa de música
Era uma noite fria, assim daquelas de vento a cortar na cara. Uivava lá fora. A mim diziam-me que era a Noite do Caramelo. Caramelo por causa do gelo, como quando o açúcar se faz em ponto e fica caramelizado assim que arrefece. A minha grande preocupação era o presépio. Caixas e caixas de musgo, cascas de árvore, pedras e sei lá que mais, ano após ano, puxavam pelo meu engenho, de modo a dar ao Menino um lugar condigno. Sabia da manjedoura, mas para mim, não chegava. Tinha de haver montes e vales, rios a correr feitos de regatos de areia, pontes, moinhos de vento e uma gruta. Não seria de Belém, mas era, ainda assim, a gruta do presépio.
O meu Avô vinha sempre ver o presépio. Queria saber o que tinha trazido o Menino. Eu dizia-lhe que quem trazia as prendas era o Pai Natal. Ele insistia que era o Menino. Mas eu não me importava. Claro que eu não entendia como podia o Menino, tão pequenino, andar mundo fora carregado de prendas. O Pai Natal sim. Tinha um trenó e podia num repente distribuir as prendas todas. Andei a pensar naquilo um bom par de anos, porque me faltava perceber como sabia o Pai Natal quem tinha sido mau ou bom. Deve ser o Menino que lhe diz, pensei. Servia-me aquela explicação.
Certo Natal alguém me ofereceu uma caixa de música. Era uma pequena casinha de tijolo vermelho, coberta do branco da neve artificial. Tinha encostada uma escada por onde subira o Pai Natal que estava empoleirado no telhado, enquanto a rena esperava cá em baixo, ao pé do pinheiro, também ele coberto de neve artificial. Inchei de orgulho, porque aquilo era a prova provada da minha teoria. Era mesmo o Pai Natal que trazia os presentes. Fui mostrar ao meu Avô, que se riu. “Foi o Menino que te trouxe.” Olhei para ele e perguntei: “Oh Avô, porque gostas tanto do Menino?” “Ora essa, porque é Natal!”, disse ele, como se aquilo fosse a coisa mais óbvia. “Se não houvesse Menino, não havia Natal” explicou-me a minha Avó.
“Ah”, disse eu. E fui atirar-me às filhós.
Fazer as filhós foi sempre um ritual em minha casa. Desde o amassar ao fritar, fui instruído em todos os passos pela minha Avó, que me ia ensinando como se colocam as mãos quando se amassa; como se usa o rolo da massa e como se vê se o azeite já está na temperatura para fritar, tudo enquanto me contava como se fazia quando ela era menina pequena. Foi precisamente a fazer as filhós que me lembrei dela. Não pude evitar uma lágrima, nem sequer enquanto escrevo. O primeiro Natal sem lhe dar as filhós a provar. Não pensei que ligasse tanta importância às filhós.
Tenho um Natal feito de lembranças. E celebro-o não já pelo Menino mas pelas lembranças. Ainda consigo ver o meu Avô segurar me na mão, na missa do Galo, enquanto íamos igreja fora para beijar o Menino. E os risos, lá muito longe, de serões em família. Tudo se foi. Tenho as lembranças. E o Avô, de olhos muitos vivos. E as filhós. E a caixa de música também, embora com muito pó. São eles agora o meu Natal.
Festas Felizes.
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Leccio Nutricionis
Passavam-se os dias e Abacílio continuava na mesma, letárgico, deprimido, apático, tendo posto a vida em latência desde que ficara desempregado. Perdia o ânimo só de pensar em ir ao centro de (des)emprego. Filas intermináveis, sem nenhuma proposta concreta ou qualquer vislumbre de solução. “Tem de procurar”... diziam-lhe as bem-postas senhoras que o atendiam. E ele lá ia, calcorreando centros comerciais, percorrendo agências de trabalho temporário, candidatando-se a call centers... Nada. Nem pó.
Estava triste o Abacílio. Pensava em ir-se embora. Em deixar a amada Pátria. Mas para onde? E com que dinheiro?...
Restava-lhe pouco mais que entregar-se ao sofá e ao zapping. “Anda lá. Não te deixes ir abaixo.” Mas ele deixava. Apoderara-se dele a noção que estava num buraco e dele não podia sair.
De vez em quando enervava-se. Punha-se aos gritos. Saía para manifestações. Queria agir. Queria reclamar. Queria ser do contra. Depois acalmava-se e via que os ideais já não tinham nada de novo, que os modelos estavam gastos e que as concentrações e manifestações e reclamações serviam interesses que não os seus.
Acordava de vez em quando dessa letargia. Enchia-se de zelo patriótico. Mas não lhe servia de nada.
Andava assim desesperado e atormentado, mal de comidas e pior de dormidas, quando soube que a senhora ministra tinha ido ao parlamento dar uma lição de nutrição. Os senhores deputados andavam preocupados porque o IVA dos boiões de comida para bebé ia subir. Por isso, a senhora ministra explicou que, do ponto de vista nutricional, os boiões de comida não eram a alimentação mais adequada. “Ah, bom”, descansaram-se os deputados. Pois evidentemente que não. Que o diga o Abacílio. Quando ele era bebé, haver banana esmagada já era um luxo. Quanto mais comida metida em frascos, meia mastigada. Modernices. Depois crescem sem apreciar o belo cozido à portuguesa, as migas de batata à alentejana, o chouriço assado, a tiborna, o ensopado, a chanfana e eu sei lá que mais petiscos e coisas boas da Pátria querida. Não têm a boca educada para o tempero. Só frascos e latas. Muita razão tem a senhora ministra. Abaixo os boiões. Fora as latas! Fora.
No calor daquela discussão, tão vital na Domus Daemocratiae, chamou-lhe a atenção certo deputado de brinco na orelha. Primeiro achou que não tinha visto bem. Depois olhou melhor, e olhou, olhou, e lá estava. Uma argolita, bem a meio da orelha do insigne deputado da Nação. “Esta agora”... cogitou o Abacílio, “então se aquele pode representar a Nação de brinco na orelha, outros há que a representam em mangas de camisa e colarinhos abertos, porque diabo não hei-de eu ir lá com a Máscara?”
Se bem pensou, melhor o fez. Foi ver da máscara, pegou nos canudos, inúteis apesar de tanto queimar de pestanas, e lá foi a caminho do Parlamento. Havia de ir lá e gritar bem alto os azedumes e os devaneios que deitam por terra a Nação. Havia de denunciar aos ventos as horas, os dias, meses e anos desperdiçados com conversas de mel-coado, quando o Povo, esse esquecido sustento da Nação jazia de fome, desemprego e, sobretudo, jazia de enganos! Ah, que ninguém o havia de calar.
Mas calaram. E bem depressa. Aliás, nem foi preciso. Não podia entrar. Até lá havia uns senhores da polícia, preparados para qualquer motim que pudesse haver. “Quero falar aos representantes do Povo” bradava ele. Mas de nada lhe serviu.
Não se dando por derrotado decidiu-se a encontrar a Nação. Mas onde encontrá-la? Pois se nem nunca a tinha visto... Até pensou que era a senhora de peitos de fora cuja estátua anda espalhada pelos edifícios públicos. Mas não era. Essa era, parece, a Liberdade.
Não sabendo bem por onde comçar, foi ter com os cães de loiça. Ali estavam, muito afilados, de grandes olhos cor-de-laranja, muito inóveis e quietos. Mas nada. Viam muito. Mas a Nação não a viram. Disseram-lhe que estavam até admirados por Ela não estar no Parlamento, ou nalgum palácio ministerial. Como ainda os não tinha visto todos, lá foi, um por um, saber da Nação. Mas não a encontrou.
Fartou-se. “Que se lixe a taça. Vou mas é pr' ó sofá. Assim como assim...” Pronto. Passou-lhe o fervor.
Mas então, inesperadamente, bateram-lhe à porta. Era a Nação. Muito cansada, apoiada numa bengala velha, toda despenteada, vestidos rotos. O Abacílio nem sabia o que dizer. Queria contar-lhe da lição de nutrição, do brinco na orelha, dos desvarios dos deputados, das coisas que têm feito, das que não têm feito, do tempo que perdem a discutir a lã caprina, a acicatar-se e a desdenharem uns dos outros, das mangas de camisa... de tudo isso e mais que se lembrasse. Mas não foi preciso. Ela bem sabia. Oh, se sabia. Pelo estado em que estava, via-se que sabia. E bem.
Quisera ele ter ao menos uns boiões de fruta para lhe dar. Mas nem para isso havia tusto.
Ah, Nação Portuguesa, que te matam! Não sei se de fome, se de logro ou se hão-de vender-te aos bocados. Mas que te matam, isso matam.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
A avenida
Era muito perto da minha faculdade. Todos os dias, religiosamente, ritualmente, post prandium (e às vezes também post coenam) lá ia, em passos de passeio, muito vagarosos, sozinho ou acompanhado por amigos, para ajudar na digestão. Outras vezes, muitas, apenas para estar sozinho e pensar. Havia bancos a ladear um grande lago. Todos encostados a ameixas-de-jardim. Formavam uma espécie de gazebo, mas sem cobertura, a não ser a das árvores. Sentava-me lá muitas vezes. Conhecia quase todas as árvores, todos os caminhos, os bancos e os miradouros, de onde se podia ver toda a extensão do jardim ou ver as escadarias, ou até olhar para a parte reservada. Não estava aberto ao público por completo. A razão disto era ser um jardim botânico. E gostava de passar na avenida. Detesto tílias. Fazem-me espirrar. Mas queria lá saber se eram tílias. Gostava daquele cenário de grandeza, como se a natureza, ali amestrada, tivesse ela tomado as rédeas e tivesse feito daquela parte do jardim um triunfo. A toda a hora podia imaginar quadrigas saudadas por multidões, ou carruagens puxadas por cavalos muito penteados, ou simplesmente senhoras de sombrinha acompanhadas por cavalheiros de chapéu alto, que passeavam descontraidamente. Ou então alunos, muitos alunos, que ali passavam todos os dias. Atravessando o jardim e passando pela avenida estava-se praticamente no Campus. Mas naquela altura acho que ninguém lhe chamava campus… Chamava-se-lhe Pátio. O tempo ali era como se parasse. Fora das grades, muito altas, de ferro e bronze, o frenesim de carros. Ali, nada. Umas vezes só o barulho do vento. Ou o som dos pássaros. Especialmente no Outono. A Primavera era bonita, sim. A vida que rompe e se faz sempre nova. Mas eu não gosto de fait-divers. Toda a gente esperava pela força da Primavera. Eu, pelos dias de Outono, ou pelo fim do Verão. Pelas primeiras folhas a cair. Esperava por ver os tons das folhas. Depois respirar fundo, à espera do cheiro do Outono. Na porta mais perto do campus, havia a senhora das castanhas, que no Verão era de gelados. E eu esperava pelo cheiro do carvão e das castanhas, misturados com os primeiros ventos frios que derrubava as folhas, já sem tons de verde ou então de verde-velho, e calcetava o chão da avenida de folhagem. Então, sim, era grandiosa a avenida.
Chegou discreto o Outono. Quase nem dava por ele, tão distraído ando do tempo. E do calendário. Mas mudou o tempo. Houve uma noite fria. E lembrei-me então da avenida, onde o tempo pára. Senti saudades, como todo o estudante sente da sua faculdade. Foi no tempo em que as licenciaturas tinham muitos anos. Fiz da cidade minha, apesar de não ter nunca mais lá voltado.
O tempo é sempre tão relativo… Quando me lembrei da avenida lembrei-me também que a vi pela última vez há mais de onze anos. Onze anos. Pus-me a pensar que para mim foi ontem. A vida é outra já. Os colegas também nunca mais os vi, em grande parte. Mas consigo ainda pôr-me de pé, no meio da avenida a atravessá-la como se ainda lá estivesse. Ou como se tivesse sido ontem que me vim embora. Tenho a certeza que os portões estarão da mesma maneira abertos e a avenida há-de lá estar, ladeada de tílias e plátanos. Se eu agora lá fosse seria como um estrangeiro. Como se nada daquilo tivesse já sido meu um dia. Como se não me tivesse sentado todos os dias naqueles bancos de pedra. E receberia olhares curiosos como se nunca lá tivesse estado. Coisa relativa o tempo. Passa. Mas não para quem está dentro dele. Para quem está dentro dele, leva-nos também com ele. E só parecemos mais velhos a quem passa por fora. Coisa relativa o tempo.
Já é Outono e quase não o senti chegar. Não fora lembrar-me da avenida e estaria ainda noutro tempo. Que saudades do Outono na avenida.
NOTA: Para os preciosistas, o Outono, que como se sabe tem início com o Equinócio de Setembro, este ano é apenas a 23, amanhã, pelas 09.04h. Para o texto literário, contudo, já é Outono.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Dantes
“Avó, porque é que os pontinhos ficam grandes?”
“Por causa do calor da água, filho.”
“Não é isso avó. Porque é que ficam como se fossem folhas?”
Não sabia ainda naquela altura que o chá era feito de folhas.
Os porquês das coisas sempre me incomodaram. Às vezes podemos perdermo-nos nos porquês sem sequer nos darmos conta.
Ela sorria e respondia aquilo que sabia que não ia dar origem a mais perguntas de porquês: “Não sei. Mas tu vais descobrir – festinha na cabeça – e depois vais contar-me. Segredo nosso”.
O segredo do chá, ficava-me eu a pensar e a olhar para o chá, que dentro da chávena não era vermelho, nem castanho, nem cor-de-laranja, nem dourado, mas uma mistura de todas elas. Como se o sol que secou as folhas deixasse nelas uma faúlha que depois o calor da água fazia desprender para dentro da chávena, com um brilho próprio, íntimo do próprio chá.
Acabei por ficar desapontado com a ciência. Claro está que descobri o segredo do chá. Como todas a gente… Fiquei chateado. Perdeu a mística. Fiquei sem o fascínio do porquê. Continuo a fingir que não sei.
Tenho saudades do Chá Li-Kungo. E de ficar à espera que as folhas se desdobrem. A minha mãe apresentou-me ao chá Tetley em saquetas. Mas não é a mesma coisa. Mais prático, sim. Mas a ciência que fez do chá uma coisa prática, tirou-lhe o misticismo, aquele ritualismo próprio, muito cadenciado que faz do chá chá e não apenas uma coisa que se bebe. Gosto das saquetas, sim. Que seria do mundo civilizado, aliás, sem as saquetas. Mas já alguém viu a faúlha de sol sair das saquetas? Pois como há-de sair, se nem sequer as folhas são folhas? Não, não é a mesma coisa.
Já não há Li-Kungo. Mas eu tenho saudades dele. Guardo ainda uma caixa amarela. Havia também as cor-de-rosa. Gosto de guardas coisas. Não que fosse preciso. Na minha memória estará sempre o cheiro, a cor e o sabor do Li-Kungo. Dantes, o mundo do chá para mim era simples. Havia o Li-Kungo, que era o chá, e havia as saquetas. E pronto. Era assim. Depois, que acabou o Li-Kungo, tive de aprender o intricado mundo dos chás. O English Breakfast, o Earl Grey, o Darjeeling; o Oolong; os verdes; os brancos e todos os outros. Continuo a gostar imenso de chá, mas sobretudo preto. Os outros não me cativam. O Li-Kungo também pertencia aos pretos. Os apreciadores dizem que os verdes são aromáticos. A mim sabem-me a ervas. E para que queria eu um chá onde não posso ver o sol?
Gostava mais quando era simples. Dantes. O Li-Kungo ou as saquetas. Gosto das coisas simples.
Há dias o meu irmão também se lembrou de qualquer coisa de antes. Não me lembro o que foi, porque não o ouvi. Ia a pensar no chá. E depois no dantes.
Dantes.
Deixei-me sorrir, porque me lembrei de imediato do meu amigo Sousa. Tinha horror ao dantes. Não pelo dantes. Mas porque o afligia a ideia da resistência à mudança, quando ela significava o melhor. Gostava da tradição. Mas não do tradicionalismo. Desta moda revivencialista que agora há de querer fazer tudo como era dantes, sem se parar um bocadinho para pensar que, entretanto, mudou o mundo. E a vida. E as pessoas. Que já não é como era dantes, porque não pode ser. Agora é hoje. Também já não há chá Li-Kungo… Nesse aspecto achava-o muito parecido com a Miss Marple, outra das minhas heroínas, se bem que, esta, de fantasia.
Dantes. Quando alguém lhe dizia qualquer coisa de como era dantes, ele punha logo as mãos à cabeça, olhava para mim e fazia aquele sorriso discreto e cúmplce, como se partilhássemos os dois um segredo quanto a esse assunto e dizia: “Oh meu Deus, dantes, dantes…” Olhava sempre para mim com aquele sorriso cúmplice, quando estava mais alguém. Teríamos à volta de quarenta anos de diferença, mas tratava-me como par. Fascinava-se a ouvir as ideias retocadas e de cara lavada, acabadas de sair dos doutos corredores da universidade. A forma como dantes era e agora já era diferente. Depois dizia: “No fundo, é a mesma coisa. Mas tem muito mais gracinha assim”. E ria. Era extraordinário. Isso custou-lhe um preço. O empreendedorismo nem sempre é bem-vindo. Sobretudo quando o dantes se impõe esmagadoramente. Há muita gente que é incapaz de ver o sol, mesmo numa chávena de chá. Sobretudo numa chávena de chá. Fica preso no porquê. E não percebe a vida a fluir. E o sol a escapar-se.
Dantes era tudo mais simples. Havia o chá Li-Kungo e havia as saquetas. Gosto de chá, mas também gosto das coisas simples. Sempre que me apetece que o tempo pare, lembro-me dele a pôr as mãos à cabeça. Dantes, dantes… A vida segue. Mesmo sem chá Li-Kungo. Levamos as memórias. Ao menos que isso nos acompanhe. Ah, e o sol. O sol também vai. Preso em folhas de chá, que seja. Mas há-de à mesma ser luz.
Post Scriptum. Precisamos tanto de luz. E de chá. Tanta falta de chá… É que o chá conforta. Relaxa. E ajuda a pensar. Pergunto-me que diria o meu amigo Sousa se fosse discursar na União Europeia. Ou só que fosse ver aqueles debates. Aquelas discussões, sempre muito civilizadas, cada um na sua postura, acompanhado de uma miríade de consultores, assessores e tradutores, que tornam possível que se debata naquela Babel. Faria bem àqueles senhores pensar, ao redor duma chávena de chá. E ver o sol. Talvez que tivessem mais ideias mais interessantes para além de brincar com as bandeiras… Não me importo que pusessem a bandeira de Portugal a meia haste. Seria de luto. Porque a Europa esqueceu-se donde vem. Vive no dantes. E perdeu o norte. Não sabe para onde vai.
Do meu ponto de vista, a crise financeira da Europa tem uma vantagem, claro. Acabaram-se as máscaras. A conversa fiada de entreajuda e cooperação internacional, de promoção dos mais pobres. Seremos sempre pobres enquanto pensarmos assim. E a Europa será o que sempre foi. Um conjunto de países a vários tempos e compassos, incapaz de sarar as feridas e pôr de lado os orgulhos. O senhor comissário da Alemanha tem um problema com as bandeiras. Ou melhor, com os países devedores. Não andarão ali ainda uns resquícios de um certo racismo histórico… Há coisas que continuam sempre como dantes. Quando nos perguntamos como foram possível certos episódios da história, perdemo-nos nos porquês. Uma pessoa pode ficar-se perdida nos porquês. Depois o hoje presenteia-nos com respostas. Ou com interrogações. A resposta também pode ser uma pergunta.
E depois, também pode ser só indigestão… Hm, não sei. Talvez seja. Chá, senhor comissário?
terça-feira, 2 de agosto de 2011
O tiro aos pratos
Se calhar é como os discos, pensei. Imaginei-me na rua em frente de casa a atirar um disco ao ar e a correr atrás dele, eu e os amigos da vizinhança. Mas por que hão-de fazer pontaria aos pratos?
Lá fui, tomado desta dúvida, a ver o torneio.
Pai, não vejo os pratos!
Tens de olhar com atenção. Eu olhava, mas não via.
Espera aí.
Desapareceu uns minutos e trouxe-me uma mão cheia de pratos.
Vês! Isto são os pratos.
Os pratos? Mas isto não são pratos! Não se pode comer nisto!
O meu pai riu-se. Mas não explicou mais nada. Eu não conhecia ainda a ideia de prato. Só os pratos. Não podia conceber que houvesse uma coisa de cerâmica a que chamavam prato e que servia apenas e só para se disparar contra eles.
Deve ser preciso muita força para atirar isto tão alto!
Mas não era. Era uma máquina que os atirava, e os homens de barriga e farto bigode esperavam alinhados.
Achei giro. Mas chato. Só mais tarde é que percebi a importância de afinar a pontaria. Só quando me levaram à caça. Também achei giro. Mas triste. Pensei nos pratos. Depois nos pombos. Os pratos não largavam sangue. Tive pena. Nesse dia decidi que a pontaria era uma coisa boa mas só para torneios.
Gostava muito de tiro ao alvo. Aos pratos não. Sou demasiado magro para disparar caçadeiras sem fazer figuras tristes. Mas ao alvo sim. Desafiava-me a paciência. Depois compraram-me um arco. Podia passar dias a fazer pontaria a tudo. Mais ou menos pela mesma altura li um livro do Pateta, em que ele era xerife no Velho Oeste. Ia fazer pontaria para a lixeira. Acertava sempre, claro. Na lixeira acerta-se sempre em alguma coisa. Senti-me um xerife do Oeste. Depois alguém me disse que os xerifes não tinham arcos e flechas. Isso eram os índios.
Ora, mas os índios são os maus! Assim já não quero. Fiquei-me pelos alvos. E por todas as latas que conseguisse encontrar.
Continuo a gostar de tiro ao alvo. Do jogo da respiração. Do saber que consigo, por mais pequeno ou longe que esteja. Lamentavelmente, vejo mal. Acabou-se o tiro. Tive pena.
Passei anos sem pensar em pratos, nem pombos, nem índios. E o arco partiu-se. Mandei-o para o lixo na última limpeza que fiz ao sótão. Mas não aos pratos. Vieram-me às mãos, por entre o pó e as coisas velhas. Os pratos daquele dia. Guardei-os. Não sei para quê. Gosto de guardar. Não precisava de ter guardado o arco partido tantos anos. Afinal, ainda me lembro dele, apesar de agora já não ser arco nem estar na minha casa. Mas sou assim. Guardo.
Voltei a pensar neles, nos pratos. Na inocência com que fui ao torneio. No domínio da ideia de prato. É inevitável para mim pensar no torneio dos pratos e não pensar em homens de grandes barrigas. Deve ser uma coisa de estatuto. Embora não saiba bem porquê. Penso que qualquer um, mesmo sem barriga ou bigode farto, poderia fazer tiro aos pratos. Até eu poderia. Claro que não os veria, e não sei se me daria bem com os tiros de caçadeira. Mas os homens de barriga grande sempre hão-de personificar para mim o torneio dos pratos. Assim como numa caricatura. Nas revistas velhas que encontrei no sótão havia montes de caricaturas. Da situação, dos políticos, da crise que, obviamente, é de sempre. E os políticos sempre de cartola e charuto. As cartolas estão, por assim dizer, para os políticos como as barrigas e os bigodes para os pratos. Lamentavelmente, se fossem fazer pontaria aos pratos, também não sei se os veriam. Ou se aguentariam o recuo das caçadeiras. Haveria de estilhaçar-se os pratos, mas não pelos tiros. Saem sempre ao lado. Tenho pena dos pratos. A importância da pontaria vêm-me outra vez à ideia. Ficou-me para a vida, mesmo que agora já não faça tiro ao alvo. Mas gostava. Gostava muito. No vernáculo que hoje usamos a pontaria pode ser muita coisa. Acuidade, claro. Centrar-se em objectivos. Focar-se (resisto ao focalizar. Desprezo-o quase tanto como o recepcionar que, por mister do destino, hoje substitui o receber). Para quem já disparou uma arma, sabe que o controlo é o segredo. Não apenas o olho. O respirar. E pronto, depois sabemos o momento certo. Isto é a pontaria. Seja de cartola ou de barriga grande. Não convém ir aos pratos (nem aos patos) se não se fizer pontaria. E termos presente que os pombos sangram. É o preço a pagar pelo chumbo. Um tiro reclama sempre um preço. Não se deve puxar o gatilho se não estivermos dispostos a pagar o preço. Tenho pena dos pratos. E dos pombos. E dos patos.
Gostava de voltar à inocência das ideias sobre os pratos.
E ao tiro ao alvo. Os pratos não largam sangue. Mas também se estilhaçam. Mesmo que não levem tiros.
