quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O fim do mundo e outros mitos


O título vi-o hoje num jornal. Gostei. Não era bem assim, mas foi assim que me soou, mal lhe pus os olhos em cima. Era a propósito de um congresso qualquer acerca de diversos mitos, desde o fim do mundo a 21 de Dezembro ao local de nascimento do Viriato. Parece que não foi na Serra da Estrela. A mim pouco me importa. O Viriato, como os grandes homens, não era duma terra só. Era Luso, e isso basta. Também já aqui me debrucei sobre o 21 de Dezembro. Mas não é isso que me importa hoje. Nem sequer se o mundo acaba ou não para Dezembro. Que me importa isso?
Podia ficar aqui a discutir a importância dos mitos. Ou a sua não importância. Mas também não é isso que me interessa. É-me suficiente dizer que à sombra dos mitos o mundo avançou. Outras vezes enganou-se. Mas conhecer faz-se de enganos também.
O que me importa é este fim do mundo a que assisto, eu, aqui sentado, olhando para a caneta, velha amiga, mas preferindo as teclas do computador, onde as pontas dos meus dedos vão escrevendo sem tinta. Está a acabar-se o mundo. O hoje amanhã será passado, como em todas as eras. Com ou sem mitos. Acaba-se a cada dia. E mesmo assim, há uma ânsia por um fim. Talvez seja da natureza humana querer ver o fim, como se nele houvesse respostas. Não sei. Mas cada dia traz um fim. Não percebo porque se há-de querer outro. Bem a propósito, enquanto escrevo, pus-me a ouvir música portuguesa do século XVI, que encontrei no youtube. De repente, dei por mim a cantar a "Porque me não ues Joana", uma cantiga de amigo que eu também cantava na faculdade, no coro a capella a que pertencia. Dei um sorriso involuntário, ante aquela lembrança, mas também isso já é passado. Fim. É bom recordar. Mas não penso voltar a vivê-lo. Para fim, basta-me um só. Sobretudo, quando a cada dia vejo o fim de mais qualquer coisa nesta lusa terra, tão amada por tantos e por mim também , bem antes do Viriato. Mas cada dia, algo fenece. Vejo nas ruas olhos vazios, de gente que anda para cá e para lá, mas não sabe para onde. Vejo governos sem alternativas, sem soluções, sem brio de servir… Possivelmente nem saberão o que isso é. Mas não creio que alguém, algum dia, mo pergunte. Vejo velhos de ombros caídos. Vejo crianças ainda inocentes, desconhecedoras de que o seu tempo já acabou, mesmo antes de ter começado. Temo bem, que o fim que está para chegar seja o da esperança.
Atormenta-me a ideia da pobreza. Um pobre, o que é? Se perguntar a um banqueiro, dir-me-á que é alguém sem crédito. Se perguntar a um empresário poderá dizer que é alguém sem trabalho. Se perguntar a um governante, talvez diga que é alguém que recebe subsídios. Se perguntar a um padre, provavelmente dir-me-á que é alguém sem pão nem fé. A um trabalhador, e dirá que é o pedinte na rua, ou no metro, ou no comboio… Um pobre é muitas coisas. Porque a pobreza vem em muitas formas. E todas destroem. Todas matam. Todas ditam o fim. Um fim para o sem crédito, para o desempregado, para o subsidiado, para o néscio, para o esfomeado, para o maltrapilho. E, sobretudo, um fim para o desesperado. Nada quebra tanto o Homem como perder a esperança. Não me resigno a que haja pobres para sempre. Não posso resignar-me. Que homem serei, senão um pouco homem, ou mesmo um homem morto, se parar de lutar pela justeza da Humanidade toda inteira onde todos caibam? Pouco homem, de verdade.
Não se perca a esperança, e talvez não venha o fim do mundo.
Happy Halloween.
Feliz dia de Santos.

sábado, 20 de outubro de 2012

Coitados deles


Dentre as espécies de pessoas que não suporto, os untuosos ocupam lugar especial. Os falsos, sim, também. Essa corja, que faz da perfídia uma coisa de trazer por casa e a usa com a mesma displicência e facilidade com que se muda de camisa ou se calça outro par de meias. Mas os untuosos... Há qualquer coisa neles de simplesmente odiável. Não sei se é aquela atitude submissa, enquanto empenham a sua inteligência e astúcia em tentativas de agradar a todo aquele que, mesmo remotamente, possa ser uma mais-valia. E num país de doutores...pfff, já se vê. Não, o negócio da graxa não pode ir mal. Haverá outros que sim. Os restaurantes, as lojas, os vendedores de toda a espécie, mesmo os que vendem coisas que não servem para nada mas que habilmente as vendem, porque criaram nos consumidores a ilusão de que são necessárias... Todos eles se veêm apertados pelo recuo do consumo.
Agora penso que o recuo do consumo pode não ser totalmente mau, se ajudar a que nos livremos das ilusões do consumo excessivo. Mas claro, é sempre mau porque resulta do empobrecimento forçado e não da livre vontade. Desde que nos convencemos de que comprar é necessário para viver, lançámo-nos num caminho que dificilmente acabará bem. E aqui reside o problema. Mas os untuosos. Coitados deles. Passam pela vida esquecendo-se dela, tão ocupados estão com a vontade de agradar. E no jogo de xadrez não passam de meros peões, jogados como os outros, uma casa de cada vez, embora convencidos de poderem a bel-prazer atravessar o tabuleiro inteiro. Haverá sempre alguém, cuidam, que dará o jeitinho. E por entre sorrisos tortuosos, lançam-se. Coitados deles. Como se a graxa com que se besuntam, a si e aos outros, os fizesse escapar por entre as gotas da chuva, os grãos de poeira dos caminhos. Ou se os cabelos das suas cabeças pudessem parar de cair ou passar pela vida sempre fazendo de outros bengalas, nunca pondo, eles próprios, os pés no chão. Mas o caminho, como se faz, se não se caminhar? São como corvos que sonham ser águias. Coitados deles. Detesto-os de verdade. Um homem que espezinha outro é ignóbil. Um homem que usa outro é parasita. Parasitas todos eles, cheios de mesuras, de vénias, de sorrisos falsos, de palmadinhas amigáveis, de conversas de ocasião… Para no momento certo fazerem dos vaidosos presas.
E de que vale? Pergunto-me a mim próprio de que vale. De que vale tanto unto? Porventura não virá, a seu tempo, reclamá-los a Morte? Claro, também poderia perguntar de que vale, afinal, seja o que for, com ou sem unto, porque a Morte a todos reclama. E sim, reclama. Talvez os untuosos tenham o seu consolo no seu unto. Nos seus esquemas, nos seus sonhos de voar alto… E talvez isso lhes baste, tal como à mulher em frente da Bershka talvez lhes bastassem os sacos de compras. Ou aos cães de loiça lhes baste estarem ali, no seu posto, muito afilados de olhos cor-de-laranja, enquanto o mundo e a vida passa  por eles. E, portanto, quando chega o seu tempo, nada mais esperam. Não sei. Não posso dizer. Sei que o unto a mim me enoja. E isso a mim basta-me. Preciso de olhar para as pessoas pessoas. De ver gente e sabê-las gente. Mesmo que não saiba o que esperam nem o que as consola. Nem tão pouco ao que aspiram. Mas que não seja ao unto. Espero que não.
Numa lógica tortuosa poderia dizer coitado de mim, porque os untuosos untam e sempre vingam. Há sempre maneira. E eu…Bem, eu… Nada. Não há lugar para as palavras. Às vezes nem em mim próprio. Vejo as ruas, cheias de gente, que passa, uns muito atarefados, outros, como eu, em passo de passeio, só vendo. Penso em quantas pessoas naquele momento pensam. Coitado de mim que penso, enquanto os untuosos untam e vingam. Aqueles risos serão talvez de escárnio. Não há lugar para pensadores. Muito menos para os pensadores pelintras.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

81 Veras Pereira

            Hoje, deambulando como costume pelas ruas, no meu passeio diário, companheiro precioso de ócio e da vida de desempregado, reparei numa mulher a berrar ao telemóvel qualquer coisa como “espero-te ao pé da Breshka”. Berrava muito alto, como que falando para longe e sendo necessário falar em tom que toda a gente ouça. Repetiu aquilo vezes sem fim. Não se deu conta, nem por um momento, que estava a dizer mal o nome da marca. Na verdade, acho que isso não a preocupava. É difícil preocuparmo-nos com o que não conhecemos. E ainda bem. Mas fiquei a pensar em como há coisas que entram tão facilmente na rotina e na forma de estar. Não foi preciso dizer “estou na rua tal, em frente a qualquer coisa”… Não. Bastou dizer “ao pé da Breshka”. Isso foi bastante para que o seu interlocutor soubesse precisamente onde deveria ir ter. Da mesma forma, há coisas que nos entram pela vida dentro e passam a fazer parte dela. De tal modo que já não precisamos de explicar. Todos sabem o que se quer dizer quando se diz determinada coisa. Uma espécie de linguagem mesmo. Sejam números, nomes, acontecimentos, pessoas… Toda a gente sabe a que se referem, sem ser preciso grandes explicações. Podemos falar, por exemplo, do Egas Moniz; de Abril; do 5 de Outubro; do Paiva Couceiro; do 1 de Dezembro; do Condestável; da Padeira; dos Jerónimos; de Camarate; do Titanic; do Holocausto; da Bershka, claro está… Enfim, uma miríade que podia referir. Umas coisas ficam na memória por boas razões. Puxam pelo brio, pelo orgulho… Outras pelas piores, lembrando-nos do que não devia ter acontecido e, sobretudo, não pode voltar acontecer. Depois procurei exemplos mais contemporâneos. Coisas a acontecer que se vão rapidamente tornar ícones desta forma de comunicação. Lembrei-me do número 81. E da Vera Pereira. Os 81, porque quando os salários diminuem no país, públicos e privados (basta ver as ofertas de emprego e verificar quais os salários oferecidos e fazer o exercício de comparação com, por exemplo, dois anos atrás), os digníssimos parlamentares conseguiram o feito de ter um aumento salarial que se traduz em 81 euros. 81 euros. Claro, no ordenado dum parlamentar, uma minudência. Quase nada. Mas a quem ganha o ordenado mínimo e corre o risco de o ver taxado no IRS, seria uma grande grande alegria. São estas as discrepâncias da nossa sociedade. E são elas que a fazem fracassar. Na verdade, estou convencido que a humanidade, enquanto projecto social, é um fracasso. Não apenas por isto. Mas também por isto.
            A Vera Pereira, porque estando desempregada conseguiu a proeza não apenas de arranjar emprego através do Centro de Emprego, coisa só por si rara, como ver-se nomeada para o dito emprego. Ficará inesquecível a frase “só a admitir a Vera Pereira”. A explicação oficial é que é perfeitamente normal ter acontecido, uma vez que a vaga em questão foi preenchida ao abrigo dum programa que permite ao futuro empregador indicar uma possível candidata. Tudo muito certo. A minha questão é só uma: qual a legitimidade de haver programas financiados pelo Estado, no âmbito de incentivos à empregabilidade, em que o empregador, privado, pretende contratar, com apoio estatal, note-se, uma determinada pessoa? Ora se os programas são públicos, financiados com dinheiro público, não deveria ser admitido o/a candidato/a mais capaz? Qualquer que fosse? A mim parece-me que sim. Pois se o distinto empregador queria contratar aquela agora famosa pessoa, porque não a contratou sem estar à espera de mais um subsídiozinho do Estado? De um jeitinho?... Naturalmente, não há apenas uma Vera Pereira. Nem tão pouco apenas 81 Veras Pereira. Haverá muitas mais. Este episódio foi, na verdade, um vislumbre de como funcionam as coisas. De como tudo se processa. Estamos no país dos jeitinhos, ora pois. Claro está, tudo devidamente justificado. Nada de malandrices. Aliás, já esta semana, uma distinta figura do aparelho judicial se apressou a descansar as pessoas de bem, garantindo que em Portugal não há políticos corruptos. O problema é sempre a mulher de César… O meu Avô costuma dizer que quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele.
            Perguntei-me se a pessoa que contratou a Vera Pereira dorme à noite. E se a pessoa que autorizou o aumento salarial dos parlamentares tem insónias… Depois olhei para trás. A mulher ainda estava “ao pé da Breshka”. Não sei se conhece a Vera Pereira, nem se a incomodam os 81 euros. Talvez o seu mundo se centre mais em sacos de compras.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

A queda dum Anjo no País dos jeitinhos

Calisto Elói, morgado da Agra de Freimas, ficará para sempre como o modelar exemplo de como o poder corrompe. E de como os eleitos para a causa pública se deixam enredar tantas vezes no ridículo. Às vezes até de si mesmos. O protagonista do romance célebre, que devia ser de leitura obrigatória para todo aquele que aspira ao serviço parlamentar, com tanta ou mais importância que as lições de colar cartazes e animar comícios, deixa de ser o homem íntegro, amante das letras e zeloso dos costumes do antigamente, para rapidamente perceber que o poder requer outros modos, que a vida dum representante da Nação não se compagina com polainas nem costas dobradas por horas a fio de nariz enfiado nos clássicos, que antes quer chapéu alto e fatiota de bom corte. Ele que vai para se impôr contra a corrupção dos costumes, vê-se rapidamente nos braços duma bela senhora que não a sua própria esposa, enquanto esta, sozinha e ouvindo novas do que se passa por Lisboa também não se fica atrás...
Ainda me atormenta esta ideia da era do ridículo. Não que duvide que vivemos nela. Ou que me angustie fazer parte desta idade. Para mim, é apenas lógico que ao vazio se siga o ridículo. O que atormenta é a forma escancarada como se se vive esta época. Como se entranha e parece tomar tudo, às claras, sem reservas... Ao escrever não posso deixar de pensar nos tristes episódios que quase diariamente as notícias nos dão conta. Dentre eles, nenhum outro me tenha talvez feito rir tanto como a moda das equivalências. Rir, sim. A era do ridículo é para isto que serve. Não apenas, mas também para rir. Assim que ouvi as notícias sobre o estranho caso das equivalências (não digo da licenciatura, porque casos desses já temos vários), pensei imediatamente no Calisto Elói. Não sei bem porquê. Mas veio-me imediatamente à imaginação o homem que, na casa de Alfama, a ler o livro do Mendes de Vasconcelos sobre as águas das fontes de Lisboa e, tomando-o à letra, se viu a braços com uma valente caganeira. Pensei nessa imagem por causa da quase seráfica ingenuidade com que Calisto Elói se crê nos livros, mesmo quando eles falam duma época que nada já tem a ver com a realidade das coisas. E a realidade das coisas é esta: embevece ver a ingenuidade com que se fazem trafulhices e depois se aparece com a cara mais inócua possível, como se tudo não fosse senão uma confabulação contra os bons costumes. Os Calistos Elóis de hoje já não são provincianos de polainas, conhecedores dos clássicos, de voz levantada contra a corrupção dos bons costumes. São, não obstante, para espanto meu, ainda ingénuos, crentes numa certa forma de estar na vida a que, por melhor designação, se costuma chamar “o jeitinho”. E assim, sem a erudição de Calisto Elói, mas usando das mesmas premissas e do mesmo vigor, lá vão seguindo, muito ao estilo do “rei vai nú”. E enquanto passam, nesse cortejo decrépito, reflexo duma época que já não existe, crentes ainda num respeito e num estatuto de que já não gozam (o ridículo atropela tudo, até os estatutos), vão atropelando também a valia das instituições, e a reputação e o trabalho de quem, porventura sério, se esforça por conseguir um grau, um trabalho, um negócio, um modo de vida, seja o que for, sem “o jeitinho”. Muito difícil, confesso. Talvez por isso Calisto Elói se tenha entregue aos prazeres da carne, depois de ter descoberto os de andar de costas direitas...
O estio avança, na pasmaceira habitual. Não sei ainda o que o verão reserva no domínio do ridículo. Não sei se virão ainda mais notícias de negócios escondidos, de documentos que desaparecem ou de lideranças bicéfalas... Não sei. Sei que na China, as senhoras optam por ir à praia com uma máscara de nylon, para evitar os raios ultravioletas e os malefícios do sol. Esperemos que a essa moda não juntem a máscara anti-fumos e anti-cheiros e anti-micróbios e anti-tudo tão querida aos seus vizinhos nipónicos. Ainda assim, esse exagero protector, sempre seria melhor do que certas caras-de-pau. Faria bem que se encomendassem uma quantas para quando se retomarem os trabalhos parlamentares.
Soube também que, a par do Bosão, a ciência avançou também nas previsões do futuro. Para além dos mistérios da Vida, desvendam-se agora também, ainda que o futuro que é possível prever seja ainda a curto prazo, os mistérios do Inenarrável. Já vejo romagens a este novo Oráculo. Mas para isto não preciso de saber prever com exactidão o futuro. Contento-me com a imagem do Calisto Elói, eloquentemente vociferando na assembleia contra a corrupção dos costumes e Teodora, sua desprezada esposa, a caminho de Lisboa, como um furação. Prevejo que nem a máscara de nylon lhe vai valer. Nem essa nem outra qualquer equivalente.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Purificação IV


Passaram os dias e a Purificação sem aparecer na igreja. Nem rezas nem missas. Estava, por assim dizer, de greve. Curiosamente, não pensava muito nisso. Vivia os dias imersa nos seus trabalhos e, depois, na companhia da irmã, que era agora a sua missa. Estava a finar-se. “Desistiu”, dizia somente a Purificação às vizinhas que perguntavam melhoras. E quanto mais a irmã definhava, mais zangada ela estava. Com Deus, com as pessoas, com a bebida que lhe roubara o sobrinho, com o carro que lhe batera mas, sobretudo, com a impotência que a consumia. Era uma coisa de dentro, enorme, que devagar lhe comia a alma e a enchia de amargura. Primeiro perguntara-se por que razão Deus não lhe acudia, nem acudira ao sobrinho, ou à irmã, agora enferma na cama. Culpou-se a ela. Talvez rezando mais... Ou melhor... Mas não sabia como se rezava melhor. Depois culpou Deus, ele próprio, virando para ele a sua angústia e a sua ira. Queria lá saber se aquilo era pecado. Queria lá saber se ofendia. Ofendida estava ela, e não era pouco! Queria era respostas e não tinha nenhuma. E a morte, que sempre vem, não espera por respostas. Cumpre o seu papel e pronto. Faz-nos atravessar o momento único, tão pessoal, tão íntimo, pega-nos na mão por momentos, um instante só, e depois, cumprido o seu papel, segue adiante e ficam, na mesma, as perguntas sem resposta. E Deus nem lhe acudia nem lhe respondia. Sentiu-se ela própria um Job, engolida pelo peixe enorme da vida que agora a cuspira despojada de todas as seguranças, todas as alegrias, todos os merecimentos e todas as consolações. E à sua volta, só vazio. E desilusão. Depois, a ira deu lugar só à dor. Não mais se culpou a ela. Nem a Deus. Na sua cabeça, não valia a pena esperar por repostas que não viriam. Percebeu, por fim, que a culpa não era de Deus, mas dela. Não a morte do sobrinho, claro está, mas as expectativas, as crenças, as confianças cegas. Não culpou Deus. Mas não percebia porque lhe tinha falhado. Ficou só a tristeza. E o desencanto, oco.
O prior, estranhando a ausência, a falta de notícias e as rezas diárias, mandou uma delegação do beatério saber da Purificação. Primeiro mataram saudades. Os “como está”, os “como vai indo” e os “como passa a Gracinha”, repetidos tantas vezes quantas as delegadas senhoras. Depois as conversas do costume, feitas a chá e bolo mármore, com lamentos pela tragédia daquela família. “Pois digam lá ao senhor prior que eu não estou bem, não senhor. Que me falta alegria. Mas, sobretudo, que me faltam respostas. Que a minha irmã se está para finar, porque o filho lhe foi morto pelo desemprego, pela bebida e por um carro que lhe bateu. Digam-lhe lá que agradeço muito ter-se preocupado com o meu querido sobrinho morto, das duas vezes que lhe falei do assunto. E digam-lhe também que ando muito atarefada, e que Deus nosso Senhor nem vem fazer o meu trabalho nem me responde às perguntas que eu lhe faço. Já rezei muito, mas agora tenho que tratar da minha irmã Gracinha e de mim própria. Um tempo para tudo, não é verdade?”
As outras ficaram-se sem pio, sobretudo com o remate da Escritura, pois efectivamente lá se lê que para tudo há um tempo. Lá se foram, depois do chá que a Purificação lhes deu, levar o recado ao prior. Ficou boquiaberto, mas nada disse. Não era muito bom com as palavras, o que é em si mesmo um paradoxo, para um homem que é ministro da palavra não se entender com elas.
Quem não se ficou foi o velho monsenhor. Soube daquela tragédia, e da tragédia maior que era uma ovelha perdida. Muito a custo, mas cheio ainda do zelo de pastor, lá deixou as portas cerradas e verdes do paço, atravessou as ruas, agora tão desconhecidas e estranhas, a passos miúdos amparados de bengala encastoada, e foi ver da Purificação. Ele recebeu-o muito bem, mas algo distante, o que não passou despercebido ao velho sacerdote. Os “como está” e “como passa a Graça” foram logo substituídos por um abraço. O velho, sem grandes palavras, estendeu-lhe os braços. Ela aceitou-os, não tanto por serem do padre, mas por precisar dum consolo. O padre não era de conversas fiadas. Mas era sabedor da experiência feita de muitas perdas acompanhadas. “Ás vezes, a única coisa que faz falta é um abraço”, disse ele. Deixou-a chorar, como já antes da primeira vez, no vestíbulo do paço a deixara chorar e falar até ela se desunhar, para que a mágoa tivesse escapatória, em vez de a consumir. Ficou ali não sei quanto tempo, até o velhote lhe dizer para se sentarem um bocadinho. Ela fungou uma vez mais e sentaram-se. “Tenho rezado muito por ti, desde aquele dia. Soube logo que morrera o Jorge. Mas ele agora está junto do Pai. E tu, minha querida filha, precisas é de consolo. Diz-me, deixaste de ir à igreja?” Ela nada. “Eu entendo”, continuou o velho. Ela levantou os olhos e disse só: “Desencantei-me, que hei-de fazer?”. “Pois, nada, cara amiga. Não tens de fazer nada.” Ela ficou surpresa com a resposta. Mas ele tranquilizou-a logo, com um sorriso. Tinha um sorriso de velho sabedor, que trazia com ele uma calma. “Não vim cá para te convencer a voltares. Não senhora. Fica descansada. Para que serviria eu convencer-te a ires à missa se fores só para me fazer a vontade e não sentires, no teu coração, que precisas de lá ir?” Carregou as sobrancelhas. “Vim foi conversar contigo. Porque a morte é velhaca. E tu agora vês-te sozinha e desconsolada. É o caminho aberto que o Diabo quer. As pessoas quando estão frágeis e sozinhas são como galinhas presas com a raposa à solta”. E falou-lhe da fé que move montanhas, dos tempos de Deus e dos tempos para as outras coisas, falou-lhe da confiança da fé viva, da entrega nas mãos Deus e de algo que até então nunca ninguém lhe falara. Falou-lhe da necessidade de cada um fazer a sua parte no jogo da vida. “Ou pensas tu que Deus desce dos Céus para vir fazer por ti a tua parte?”
E assim ficaram, tarde fora, naquela conversa. Ainda houve tempo para chá e bolo mármore, porque entretanto eram horas de merenda. O monsenhor foi dar as melhoras às Gracinha, e foi-se, de volta ao paço. A Purificação ficou com aquele conforto, da companhia e do espírito, e pôs-se a pensar nas palavras do sábio, enquanto se acercou da cama da Gracinha, para lhe fazer um bocadinho de companhia. Pouco mais esperava da vida. Sabia, como toda a gente a sabe, que o tempo cura. Precisava de tempo. Para ajudar a irmã, de quem não desistira ainda, para sarar o coração sofrido da perda do sobrinho e para pôr as ideias em ordem e fazer as pazes com Deus. Não sei se seria bem fazer as pazes. Não estava já propriamente zangada. Era só aquela sensação de vazio e de abandono. De desencanto. Calculou que talvez para isso precisasse de mais tempo do que aquele que a vida estaria ainda disposta a dar-lhe. Mas também não podia afirmar, porque certezas são coisas que não se podem ter nestes assuntos. E de verdade, verdadinha, Deus só tinha falhado porque ela quis acreditar que tudo se resolveria com terços. Deu-se feliz por saber agora que não. Infeliz à mesma porque apesar desta nova descoberta na sua vida espiritual, nada adiantava em relação ao que tinha acontecido ao sobrinho. Era assim a vida. Nunca sempre feliz, nem sempre infeliz. E a dela, que em boa parte tinha sido sossegada e, portanto, para ela coroada duma certa felicidade, estava agora mais mais propícia à infelicidade.
“Bom dia, D. Purificação”, acenou-lhe o Zé do Vão, como era conhecido na rua, por ser dono da tabacaria, metida num vão de escadas dum prédio, onde se vendia não só tabacos, mas atacadores, pentes, jornais, revistas, e uma parafernália de outras coisas. “Bom dia”, respondeu a Purificação, ficando-se a pensar. “Esta agora”... Comentou com a Gracinha o cumprimento do vizinho que, pela primeira vez em tanto tempo, desde a morte do seu Jorge, se sorriu.
A vida corria agora bem devagar, como sempre acontece na velhice. Estavam as duas velhas, a mana Purificação e a mana Graça. A Gracinha recuperava aos poucos, que é como quem diz, já não passava os dias na cama. Sentava-se ali na salinha, a ver a televisão, que entretanto a Purificação tinha ido buscar a casa da mana. Teimou com a Gracinha que viesse viver com ela, para poder tomar conta dela melhor. E assim foi. Veio a televisão e as malas de roupa, a mobília gasta. Tudo na furgoneta do Venâncio, vizinho da Gracinha, que se prontificou a tratar das mudanças. A casa ficara lá, vazia, lembrança vã de uma vida que deixara a Graça sozinha. Decidiu, tempos passados, entregá-la ao senhorio. Não voltaria àquela casa. Não sem o seu Jorge, nem sem o seu homem, já morto há tantos anos que nem se lembrava bem quantos. Ficava-se, pois, ali, na salinha à espera da Purificação que vinha ora das limpezas, ora de algum mandado, e entretinham-se as duas na conversa ao serão ou no crochet. Às vezes ia lanchar com o Zé do Vão, sempre com um sorriso cúmplice da Gracinha. Corria-lhes devagar a vida, sem terem mais propriamente por quem fazê-la correr senão por elas duas. Como se o relógio do paço marcasse agora ali também o tempo, e os minutos dessem lugar às horas sem se dar por elas. Às vezes passava pela igreja. Umas vezes entrava, outras não. Quando entrava, rezava uma Avé-Maria e ficava-se ali um bocadinho. Sentava-se, fechava os olhos e ficava-se no silêncio. Aprendera a gostar tanto da quietude do silêncio. Às vezes também saía uma lágrima. Depois levantava-se e ia à sua vida. Fizera as pazes com Deus, mas também fizera consigo própria. Maria da Purificação levava uma vida pia. Pia e pura, como ela, mas já não feita de terços nem de rezas. Dedicava-se à irmã, apreciava a vida como dádiva, sabendo que o tempo, mesmo que o relógio do paço o marcasse devagar, haveria de esgotar-se, e isso lhe bastava para à noite, no travesseiro, pôr a cabeça em sossego.

domingo, 15 de julho de 2012

Purificação III


O velho homem recebeu-a com amabilidade. Sabia, naturalmente, ao que vinha. Pessoas da idade e da posição dele não se iludem. Mas ainda assim, era agradável receber visitas, e vê-la era lembrança de outros tempos. Ficaram ali no vestíbulo, sentados num banco-arca de madeira escurecida, bem polido mas com ar de muito velho, bem mais velho que o monsenhor. Primeiro umas palavrinhas de circunstância, depois as conversas do antigamente, do dantes... Ah, dantes... Olhava o monsenhor para a parede em frente, com as mãos sobrepostas na bengala encastoada, como se nela estivesse a ser projectado um filme mudo ou a preto-e-branco dos tempos em que ele nem precisava de bengala nem era ainda vetusto e sábio. A Purificação acompanhou-o, olhando também para a parede, mas o velho já se tinha deixado levar pelo filme das memórias que via, enquanto ela continuava ainda a desdobrar-se em episódios e coisas de outras tempos. Ali, tudo era diferente do mundo. Uma porta, enorme, grossa, de verde como convém aos paços, uma porta apenas, os separava do mundo lá fora. E, no entanto, ali, tudo era tão diferente. Sereno, respeitoso... Até o relógio de parede, ao fundo do vestíbulo, não deixava que o pêndulo fizesse sequer um tique-taque. Andava para cá e para lá, tão silencioso que os minutos davam lugar às horas sem que se desse por elas. Havia uma certa solenidade no ar que deixava as pessoas pouco à vontade. Quase por impulso, toda a gente falava muito baixo. E andava devagar. Tudo muito pausado. Chegou junto deles uma freira, por certo lá empregada, tão devagar que a Purificação nem se deu conta dela chegar. Queria saber se o monsenhor não quereria uma chá ou a senhora... O monsenhor acordou do seu torpor e disse que não, para ele não. A Purificação também não quis o chá, embora a garganta se lhe secasse, sem saber bem como começar. Foi o monsenhor que lhe deu o mote. “Então, minha amiga, diga-me cá. O que posso fazer por si”. E ela lá disse, a medo e sem grande jeito para as palavras, meio gaguejante. Ele pegou-lhe na mão, e ela olhou para ele e não se conteve nas lágrimas. Chorou e desabafou e abriu o coração ao velho homem, que ouviu, ouviu sempre de olhos postos nela. Ela foi falando do sobrinho, da situação dele, do desemprego, da bebida, da preocupação com a irmão Gracinha – como vai ela?, quis saber o monsenhor – e depois falou-lhe até das suas dúvidas de fé. Não entendia porque razão Deus não lhe acudia. Queixou-se de que já falara duas vezes com o senhor prior...
Deixou-a falar quanto quis. Bem sabia que deixar falar quem precisa é meio remédio para a cura. E, às vezes, remédio inteiro. Depois disse-lhe que ia ver o que podia fazer. Sem promessas, bem se vê. Mas ia dar uma palavrinha... Disse-lhe ainda que atentasse nas palavras da Escritura, para mitigar e procurar ânimo nas dúvidas: “Os meus caminhos não são os vossos caminhos”. Terminou ele. Ela agradeceu, de coração mais leve e abriu a porta grossa e verde, despedindo-se e voltando ao mundo.
Foi a pensar nas palavras do velho, tanto quanto a sua mente lhe permitia. Mas misturava-se naquele adágio, que parecia poder resolver tudo, o barulho da rua, agora tão contrastante com o silêncio reverente do paço, a situação do sobrinho e a preocupação com a irmã Gracinha. Tinha a cabeça num novelo. Pôs-se a olhar para o movimento dos carros na estrada, velozes, numa marcha inexorável, como o tempo, que sem se importar com os infortúnios das gentes, passa sempre. Perdeu-se nestes pensamentos o resto do dia, enquanto bradiu panos de pó e vassouras nas suas limpezas, como que banindo com o pó as preocupações da vida. Estava cansada nessa noite. Ia a caminho da missa vespertina quando lhe veio ao encontro a Gracinha, esbaforida, aos gritos por ela. “É o Jorge. É o meu Jorge...” disse-lhe em prato, enquanto ela segurava a irmã abraçando-a, por entre “pronto, pronto” e “acalma-te lá”. Ficaram as duas ali, muito tempo, abraçadas.

O Jorge, enlevo da tia e razão de ser da mãe, estava morto. Um carro, na noite, juntamente com a bebida, tinham-no levado da vida.
Durante dias, a Purificação matou-se em trabalho.Trabalho e mais trabalho, horas infindas que a ela não importavam, conquanto que a cabeça estivesse obrigada às obrigações. “Ajuda”, dizia ela, umas vezes para si mesma, outras para quem se acerca dela com lamúrias. A lamúria não fazia o género dela.
A Gracinha, por seu lado, mergulhou numa letargia própria do luto, mas agravada por ter perdido a razão de viver. A Purificação não sabia mais que fazer. Desdobrava-se em cuidados, em chávenas de chá, em canjas de galinha, em abraços e tentativas de fazer conversa. Mas nada parecia tirar a Gracinha daquele lugar longínquo para onde se remetera.
Certa tarde, antes da missa vespertina, pôs-se a olhar para o santo e reparou que estava enegrecido. Já tinha olhado para ele muitas vezes. Mas agora olhava e só via a escuridão que envolvia o santo, mercê do fumo de velas, do pó e dos anos. Olhou para as mãos que seguravam as contas do rosário, sem perceber muito bem porque razão continuava a balbuciar mecanicamente aquelas orações. Estava zangada. Desencantada. Poucas coisas são maiores que o desencanto. Como se tivesse acordado dum sonho, no caso o dela própria, de uma vida inteira, e se se visse agora sem saber que fazer nem para onde se virar. “Então, D. Purificação, não fica para a missa?”. “Hoje não posso”, respondeu ela ao prior. “Deus anda ocupado e eu tenho muito que fazer”. E foi-se embora. Assim, sem mais nem menos. O prior ficou meio embasbacado, mas nada disse. Também não lhe ocorreu nada para dizer.

continua

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Purificação (parte II)


Comadre Marília muito se admirou de ver a Purificação por ali àquela hora. “Então hoje não foi a vésperas?”
“As vésperas hoje são outras”, bradiu-lhe a Purificação. “Ando arreliada com esta coisa do meu sobrinho não arranjar trabalho. Até anda mais magrinho, o pobre. Ando a ver se percebo bem isto da situação. Queria até saber se a Comadre não se importa que lá vá hoje, para ver as notícias na televisão.”
“Ora essa, pois disponha, Comadre. Coitado do seu Jorge...”
Mas as notícias também não lhe trouxeram grande novidade. Já percebera bem que a situação era a mesma de sempre. Seja de há dez ou vinte ou cem anos. A diferença é que agora era tudo mais moderno. Mas ninguém parecia saber muito bem como resolver isto. Governar um país não é para loucos. Nem para parvos. Bem fez a Purificação que se dedicou às rezas. Essas não têm que saber.
Os dias passavam-se e agora era já a Purificação que sofria com o sobrinho. Rezava e rezava. Andava desorientada porque nunca até então as rezas lhe haviam falhado. Voltou a ir falar com o senhor prior. Voltou a pedir, não conselho, mas que olhava para o sobrinho. “Se o senhor prior pudesse...”, pediu de mãos postas, como se fosse defronte do santo enegrecido. E ele disse que sim. Que ia ver. Que ia tentar. Que se havia de arranjar qualquer coisa. Foi mais sossegada, mas não pregou olho em toda a noite. Havia dias que já não dormia bem. Acordava sobressaltada, e soltavam-se-lhe as lágrimas, sobretudo depois da Gracinha ter vindo desabafar. Naturalmente, também ela andava com o coração nas mãos. É difícil a uma mãe ver que nada pode pelo filho. Nada não. Pode carinho, pode sacrifício, pode amor. Não pode, contudo, trabalho. E era isso que faltava ao Jorge. Foi apanhá-lo a beber. Ela pediu-lhe que parasse, mas ele afastou-a e foi-se pela rua abaixo, passos trôpegos, comiserando-se consigo mesmo. E assim as manas iam-se consolando uma à outra. Uma rezando, a outra gemendo. A Graça dizia-lhe que gostava de ter a fé dela. A Purificação abraçava-a e deixava sair uma lágrima, não pela mana, mas secretamente por si própria, porque fundo, lá bem fundo, era já sabedora do que não tinha coragem para dizer à mana: a fé não basta contra o mercado de trabalho. Parece que essa montanha não se move só pela força da fé. E a lágrima que agora saía era de desconsolo e até de uma certa desilusão.
Passavam-se os dias e rezavam-se os terços, sem grande novas. A Purificação redobrava-se em fervorosa oração e penitência e Graça em secreta vigilância do filho, que vagueava, quando não bêbado, à procura de ficar. Purificação dizia que tudo aquilo era uma provação. Pediu à Gracinha que fosse com ela rezar. E ela lá foi, com a mesma esperança de quem se sabe impotente e se volta para donde for que venha a luz. Perguntava à irmã onde ia ela buscar forças para ver naquela desgraça a vontade de Deus. A Purificação respondia-lhe que confiava em Deus, e isso bastava-lhe. Uma agarrava-se à fé. A outra à secreta esperança dum milagre, sem acreditar nele. Como pode haver milagres se não se crê neles?
Não vendo melhoras, decidiu-se a ir ao Paço, não para ver o bispo, mas à procura do velho Monsenhor, tão velho que conhecera as manas ainda meninas, a fim de lhe dar uma palavrinha. Era homem de sabedoria, daquela que os muitos anos trazem, e com a sabedoria veio também o conhecimento. Acabaram por vir também os conhecimentos, e ela deles que ela agora precisava. Não era mulher de pedir favores, apesar de já ter ido falar com o senhor prior por duas vezes. Fora como uma filha vai a desabafos com o pai e, portanto, não o entendera bem com favores, embora o fossem e ela sabia-o. Mas agora ia mesmo à procura de um jeitinho que o velho monsenhor pudesse dar. Apesar de continuar pouco interessada nos jornais e nas coisas do televisor, tinha muito boa ideia de como funciona o mundo. Houve tempos que julgou mudá-lo, à força de rezas. Percebeu que o mundo precisa de muito mais anos dos que contêm uma vida para que qualquer reza, seja qual for, produza qualquer efeito. Não por Deus, que sempre escuta quem lhe pede, mas pelo mundo. Dizia consigo que não é toa que o mundo é inimigo do homem... Talvez seja mesmo. Lamentavelmente, o homem é responsável pelo mundo. Mas isso era já filosofia demais para a Purificação. E a filosofia, na sua pertinaz opinião, era coisa de quem não tem muito com que se entreter. Concentrou-se no caminho, embora nervosa, por bem saber que o que lhe ia custar pedir um favor, assim com toda a pompa de pedir favores. Nunca o tinha feito. A sua mãe sempre lhe ensinara que pedir favores não convém a ninguém porque, mais tarde ou mais cedo, todos são cobrados. E o preço que nos pedem de volta, podemos não o conseguir pagar. Quando era pequena não percebia isso. Mas os cabelos também já branqueados traziam-lhe uma qualquer sapiência, pelo que entendia bem que quem se governa com favores, entrega a alma ao diabo, sendo o diabo quem se quiser tomar por ele. Certo é que sossego nunca mais haverá, porque quem favorece espera sempre ser favorecido um dia, em maior ou menor grau. E ela presava, e muito, o sono descansado na sua travesseira, ainda que ultimamente lhe fugisse, por andar tão apoquentada.

(continua)