terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O Carnaval dos Parvos

Abacílio andava preocupado. Era pelo Carnaval. Preocupado com os festejos, atormentava-se por não ter máscara. Não sabia de que se mascarar. Andando pela rua, assim angustiado, viu uma loja pequenina, mas muito arranjadinha, toda cheia de luzes e cores, com balões à porta e meninas bonitas ao balcão. Vendiam-se ali máscaras de Carnaval! Entrou afoito, animado com a perspectiva de ali poder encontrar a sua máscara para o cortejo.
Olhou, olhou, passeou e revirou, mas nada. Umas porque eram grandes, outras porque eram pequenas; umas por serem feias, outras porque serem iguais às de toda a gente, certo é que nenhuma agradava ao Abacílio.
Veio então uma vetusta senhora, muito elegante, de sorriso branco e modos portentosos. Trazia nas mãos uma máscara. Era perfeita! Toda ela à medida, bem proporcionada, de feições robustas, medonha quanto baste. Tudo o que se quer numa máscara. Brilharam os olhos de Abacílio, enquanto a velha senhora lhe estendia a máscara.
“De que é? De que é?”, perguntava sem se conter. A velha senhora segredou-lhe ao ouvido, e ele riu a bom rir, feliz por ter a sua máscara. Saiu a correr, depois de pagar, claro está, que Abacílio era jovem mas era honesto. Era cara. Mas podia pagar a prestações. Em cinco anos pela moeda antiga, ou em três, e amortizações por mais uns quantos, na moeda de agora.
Aprumou-se a rigor, colocou a sua máscara nova e lá foi.
A rua já fervilhava de gente, tudo mascarado. Ouvia-se o riso e os guinchos deliciados dos mais pequenos. Chegou ao corso. Toda a gente admirava a máscara nova do Abacílio. Ele cumprimentava os demais e ia passando, inchado de vaidade: “Eu cá, tenho uma máscara de doutor!”
“De doutor!”, exclamavam os foliões.
Não tardou muitos que toda a gente o cercasse, a admirar a máscara. Juntaram-se e juntaram-se, tantos foliões que não se contavam.
Chegaram, por fim, os amigos e conhecidos de Abacílio, também eles a rigor. Qual não foi o espanto do Abacílio, ao ver que os amigos traziam também uma máscara igual à sua. Pudesse ver-se-lhe a cara e estaria mais branca que a máscara, agora descorada e sem brilho.
“Ó Abacílio, de que é a tua máscara?”
“É de doutor”, respondeu com voz sumida.
“A minha é de engenheiro.”
“A minha de técnico.”
“E a minha de empregado qualificado”.
“Pois a minha, é de colaborador”, disse, emproado um dos amigos.
“Qual colaborador, qual carapuça. Pois se são todas iguais!”, exclamou o Abacílio. “Raio da velha. Se a apanho! Custou-me esta merda cinco anos!”
“A minha três. Mas com juros e amortizações.”
Os foliões começaram a rir-se.
“Ó rapazes, deixem-se disso. Então vocês não vêm que estão todos mascarados de igual?”
“Pois isso vemos. Só não sabemos é de quê…”
“De parvos, senhores. E de parvos escravizados!
“Ai o raio da velha, que nos enganou a todos!”, exclamou o Abacílio. “Ó malta! Às favas para o corso. Vamos mas é atrás da velha”.
E puseram-se em debandada, com o Abacílio de máscara em punho, a pedir os cinco anos de volta. Atrás dele, os amigos, e atrás dos amigos a multidão dos foliões. Todos bradavam à velha.
Correram a bom correr e só pararam quando já não tinham fôlego. Da velha nem sinal. Ia um desfile a passar. Carros bonitos, bem decorados, gente bem vestida e anafada. Todos perdidos de riso. A encimar o desfile ia a velha, num trono. Toda ela de cetim e madrepérola. Acenou-lhes com aquele sorriso branco e untuoso.
Eles bem fizeram menção de a perseguir, mas havia muita gente a proteger o corso. Eram gordos, enormes mesmo, bem juntos em fileira, e os foliões não conseguiam passar. Dos carros, os bem-postos puseram-se a perguntar quem era aquela gente.
“São os parvos”, respondeu a velha. E todos gargalharam, bem-postos e gordos, todos num conluio. “Velha senhora”, gritou um dos bem-postos, “atira-lhes com notas de 500, que os acalma”.
“Está bem. Mas uma por mês. Só uma!” E riram e riram. Passava o corso, e os foliões ali parados não podiam senão olhar.
“Ó Abacílio”, gritou um dos bem-postos, “de que te mascaras?”
“De parvo”.
Ai que parvos. Que parvos que nós somos!
Fim da festa.

 Nota:  Este mesmo texto foi publicado aqui o ano passado, pelo Carnaval, sob o título "A Máscara de Abacílio".Uma vez que a sátira a que alude ainda se mantém, aqui fica de novo, para acicatar consciências e arrancar sorrisos.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O problema do neoliberalismo

Para todos aqueles que estudaram Filosofia, ou então para todos aqueles que estudaram com o mesmo Doutor que eu (devida vénia), saberão indelevelmente que um ismo é uma teoria ou doutrina segundo a qual. Uma maneira fácil de apreender como se define um ismo. Diz-nos logo duas coisas importantes: ou é uma teoria (qualquer coisa que pode vir a ser aplicada ou experimentada ou que existe somente no campo das formulações) ou é uma doutrina (algo que já foi experimentado, aplicado no campo concreto da vida, com todas as implicações e consequências disso mesmo). Aceitando que se pode discordar disto, para mim, funciona. E é assim que arrumo mentalmente todos os ismos que me vão aparecendo. Arrumei o neoliberalismo no campo das doutrinas. E como todas as doutrinas, estende-se por vários campos da sociedade. Neste em concreto, não apenas ao económico, mas também ao político e, consequentemente, ao social. Não pode haver doutrinas económicas que não sejam também políticas. E sendo políticas influem na vida das pessoas entrando, portanto, no campo social. E daqui... Bom, daqui, chega a todos os campos.
Curioso como as ideias, primeiro pequenas, incipientes, vão crescendo. Se fazem hipóteses, se testam em teorias e transformam em doutrinas, apanhando nelas todos os campos possíveis do espectro humano e social. A mim fascina-se como o pensar se pode traduzir em algo assim. Claro, com uma boa ajuda de outros elementos, sobretudo quando falamos em ideias que se transformam em modelos ou filosofias económicas, que depois se abraçam às políticas e são levadas por diante. Às vezes, menosprezando as consequências e os resultados marginais, quase como sub-produtos, dessas aplicações e dessas estreitas colaborações e implicações entre as ideias, o económico, o político e o social. De tal forma que, quase sem se dar por isso, as pessoas se aglomeram politicamente em torno de determinados modelos que mais não são do que ideias de filosofia económica que, para subsistirem e vingarem, necessitam da pujança do campo político, que as regula, implementa, fomenta, ramifica, mas também que as estigmatiza. É o preço a pagar.
Vivemos um dos maiores períodos de transformação política e social. Poderia dizer o maior, porque nunca passei pelas transformações anteriores a esta, e seria legítimo. Mas a Historiografia tem algo a dizer sobre isso. Não seria verdadeiro. Não será porventura a maior. Mas uma das maiores, sim. Talvez mesmo a mais complexa, pelo grau de informação disponível; pela necessidade de confronto e consenso de tantas partes que compõem o espectro da sociedade em que vivemos; pelo facto de ser uma transformação a nível global e, penso eu, por ser o fim dum sistema económico e a passagem para outro, embora não definido (ainda). Esta é, verdadeiramente, a crise. Estranho como perdemos o real significado de crise. Habituámo-nos a dizer “crise” sempre que algo não corre bem. Nesse sentido, eu digo a brincar que vivi na crise toda a vida, e não apenas desde 2008, altura do famoso problema do sub-prime, que arrastou o mundo para a maior recessão desde a Segunda Guerra e, no meu modesto entender, para níveis muito semelhantes aos dos da crise de 1929-33. Pelo menos, no impacto concreto na vida das pessoas. O problema das crises é que afecta sempre as pessoas. E o problema dos modelos económicos é que nem sempre se dão conta da forma como afectam a vida das pessoas.
A transformação social que vivemos, depara-se, neste nosso Portugal, com desafios tremendos. Serão muitos. Não saberei dizê-los todos. Mas o maior deles, a não culpabilização dos governantes e dirigentes que, desde a revolta democrática, foram sustentando modelos, práticas e políticas que não responderam às necessidades reais dos País e das pessoas, levando-o mesmo à quase falência. Depois, a falta de alternativas credíveis e realizáveis, agudizada pela alternância política de poder entre esquerda e direita, muitas vezes diluída e com programas opacos que, por diversas vezes, sustentaram mais o interesse privado do que o público. Depois a forma de fazer política, muito assente na promessa, na troca de acusações, no dabate inflamado, no prometer-esquecer, no dizer hoje e desdizer amanhã, nas contradições e controvérsias, ao invés da discussão de ideias e programas, e assente em noções concretas e reais do estado do País. Naturalmente, a razão disto é o facto de não existirem estadistas, nem homens de ideias e de ideais sólidos, com experiência de vida e de trabalho, feitos apenas nas escolas partidárias, onde se filiam desde novos e embarcam num carreirismo que os leva até aos cargos dirigentes. Depois a ausência de um plano político-económico de longo prazo, a que se junta a ausência de um modelo económico-político que sirva realmente os interesses das pessoas e do País. É que o modelo focado no mercado e no capitalismo está, simplesmente, esgotado. E enquanto se adoptam medidas de contenção de modo a evitar o colapso desse modelo, prologando a agonia dum modelo gasto e retirando às pessoas mais do que ética ou moralmente aceitável, vai-se esvaziando realmente a possibilidade concreta de sair desta situação.
E eis que, neste clima, nos vemos confrontados com a proposta de um modelo neoliberal. É lícito propô-lo certamente. Da mesma forma, que é lícito propôr à discussão (note-se propôr, não impôr) qualquer outro modelo. O que não é lícito é não assumir que se está a ter uma determinada orientação neoliberal. Sobretudo quando todas acções, formas de dizer e atitudes vão nesse sentido. E, acima de tudo, quando esse modelo não foi sufragado claramente pelo voto democrático. É que o neoliberalismo já foi testado. Já foi posto em prática. Já sabemos os resultados. E assim, há que perguntar: queremos um modelo político-económico neoliberal? A mim, ninguém me perguntou. A resposta é: não, não quero.
A minha resposta é baseada precisamente nos resultados já conhecidos do neoliberalismo. Se a própria teorização de Hayek é já realmente desconcertante, os resultados sociais e económicos da sua aplicação, nos modelos da Senhora Tatcher, do Presidente Reagan ou até do ditador Pinochet, são calamitosos. Não quero um Estado que se reduz ao mínimo, sem função económica e social, apenas como agente facilitador de privatizações e negócios. Não quero um Estado que veja a desigualdade social como própria da liberdade humana e que olhe para os pobres como os incapazes da economia de mercado. Não quero um Estado que deixe o mercado entregue e si mesmo para se renovar e reorganizar ele próprio. Vimos bem, na crise do sub-prime, que essa auto-regulação não funciona. E a forma como, por causa da globalização que é realmente o grande veículo dinamizador do mercado livre e desta forma de entender a economia, arrastou todo o mundo. Não quero um Estado que, por via das necessidades do mercado esteja cada vez mais dependente dos países ricos, caminhando a passos largos do neoliberalismo para um neocolonialismo económico.
Não quero, sobretudo, um estado de negociatas; de gente incompetente; de modelos económicos e políticos falhados e gastos. Quero um Estado que olhe para as pessoas e veja nelas Pessoas. E quero que me perguntem se quero ou não embarcar nessa loucura.
Devo dizer que não me revejo em nenhum dos ismos em que habitualmente gostamos de agrupar as pessoas. Entendo que faz falta uma outra via, porventura ainda não pensada. Mas urgente.
A questão é: o Estado existe para as pessoas, não as pessoas para o Estado. Se o Estado não existir para as pessoas, para que serve o Estado?

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Em nome do Rui

Caro Rui:

Não me conheces, nem eu a ti. Escrevo-te depois de ler a tua história no jornal, sobre como a vida tem pregou a partida de conheceres a fome, apesar de só teres nove anos e estarmos no século XXI e viveres num País que pertence à União Europeia, é membro da NATO, do Conselho de Segurança da ONU, da FAO, da UNICEF, entre tantas outras instituições e siglas, como convém a um país do primeiro mundo, seja lá isso o que for. Fiquei triste. Quero dizer, primeiro muito zangado. Comecei aos berros no café onde estava a ler o jornal, como se alguém que ali estava, tivesse alguma culpa. Depois revoltado. Agora triste.
Na verdade não me interessa nada se tudo aquilo que se diz no jornal é verdade. Se é mesmo assim, que a tua mãe não tem dinheiro; que deve €4,65; que não te mudaram o escalão por causa dum papel que a Segurança Social parece que só vai emitir em Janeiro; que não te deram de comer porque não tinhas 73 cêntimos... Não me interessa. O que me interessa é a partida que a vida te está a pregar, por um lado, e o ver-te exposto às complicações dos adultos, por outro. Não sei se as compreenderás e, sobretudo, se saberás lidar com elas e com o estigma que elas costumam trazer. Perdoa-me escrever de forma tão adulta. Bem sei que os teus nove anos pediam que me esforçasse por uma linguagem mais direccionada para a tua idade. Mas porque alimento, lá no fundo, uma centelhazinha de esperança de que alguém ao ler isto se indigne tanto como eu me indigno e, melhor do que eu, esteja em posição de fazer alguma coisa concreta e útil por ti, permite-me gladiar neste palavreado por ti, mesmo que o não entendas.
Não sei quantos Rui haverá. Ouvi nas notícias que serão para cima de 12 mil. Doze mil! Eu próprio Rui me confesso. A razão pela qual me indignei tanto é por ter sido eu mesmo, a dada altura, Rui. E, por causa disso, lágrimas. Verdade que há aqui um certo egoísmo meu, porque acabei por me ver espelhado numa situação que pensava já não ver, ou pelo menos, não ver mais no meu País. Na casa que é o meu País. Certa vez, ia a caminho da escola, bem mais pequeno do que tu, e era inverno. Começou a chover, e eu levava calçados uns sapatos de sola, que estavam rotos. As meias brancas – naquela altura era o que se usava, caro amigo – depressa ficaram ensopadas e os pés encharcados. Comecei a ouvir um choc-choc, que era o eco dos meus passos molhados. Passaram por mim uns colegas, que começaram a a rir. Não sabiam duas coisas: a primeira que eu usava sapatos de sola, apesar da chuva, porque não podia usar solas de borracha ou plástico, que me feriam os pés. A segunda é que, mesmo que pudesse, não havia dinheiro para comprar outros. Senti a cara molhada, e até hoje não sei se era da chuva, se de que era. É muito fácil fazer gozo na ignorância. Bem vês, entendo muito bem a tua cara escondida no colo da tua mãe. Mas deixemos isso. Não é de mim que falamos. Antes que alguém com muito jeito para análises leia isto e comece a inventar neste episódio que te contei laivos de recalcamentos e traumas, voltemos ao assunto. Falemos de ti. Do facto de conheceres a fome e, por ela, a vergonha. De saberes o que é um dedo apontado ou um risinho escarnecido. Vou dizer-te que não acredito que não quiseste ir à escola por te sentires fraco. Sentirias, por certo. Não duvido. Mas a verdadeira razão de não quereres ir, acho que era a vergonha. Não faz mal. Não é vergonha ter vergonha. Não te envergonhes da vergonha. Nem da fome. Dias virão, acredito, em que perceberás que te moldaram de alguma forma. Espero que de uma forma que te fez mais íntegro, mais digno, mais humano e menos conformado. Lamentavelmente, não há forma de fazermos voltar atrás o tempo, esse extraordinário curandeiro, de modo a que não tivesses de passar por esta experiência. Acontece que passaste. E isso, não mudará. O que ela te fará, está também um pouco nas tuas mãos. E na altura devida, compreenderás.
Outras coisas há que não estão nas tuas mãos. Infelizmente nem nas minhas, pois se estivessem, este meu palavreado todo era escusado. Arrepiávamos caminho. Mas não. Está nas mãos de muita gente, e como tudo o que está nas mãos de muita gente, dá muitas voltas, a maior parte das vezes para ficar no mesmo sítio. Talvez por isso, voltemos hoje a falar de fome, e de miséria e de carências alimentares, e de falta de dinheiro... De programas PÊRA (de quem terá sido a luminosa ideia de dar o nome duma fruta a um programa de combate à fome?...) Tantas coisas más de que não devíamos estar a falar. Soube também que mais de metade da população activa, quer dizer, daquelas pessoas que no nosso País têm idade e condição para trabalhar, ou são desempregados ou estão em situação de emprego precário. Mais de metade! E penso que não consigo perceber para onde vamos. Parece-me tudo um desnorte. Não há caminhos apontados; não há estímulos para os caminhantes; não há metas; não há timoneiros de mãos firmes no leme; não há chefes que andem á frente e agarrem nos que caem pelo caminho. Vejo a desesperança; as crianças e os adolescentes com fome; os jovens sem perspectivas e desempregados; as famílias sem dinheiro; os velhos na miséria. E falta-me saber o mais importante: para quê?
Podia continuar a atirar números. Do desemprego, do endividamento, do défice, do número de pobres... De nada serve. O que serve é a vontade de querer fazer melhor. O que serve é reconhecer o erro. E a vontade de o corrigir. O que serve é perceber que, em cada decisão que se toma, em cada medida que aceita, há rostos; há caras que se escondem em colos ou só nas mãos; há histórias de vida de pessoas reais, que existem, que passam por nós e vão baixando os braços, desistindo aos poucos, como se passassem pela vida sem ser já o seu tempo.
Meu caro Rui, não tenho solução. Tenho palavras. E a esperança de que toquem em alguém que, pegando nelas, dê o primeiro passo para mudar o que é preciso mudar. Mormente consciências. E valores. Tantos valores perdidos... Onde irá parar um País que não honra a memória; que não é brioso; que deixa de celebrar a sua Independência... Falta-me mesmo o para quê.
Faço votos de poder saber de ti, daqui a alguns anos, talvez dez ou quinze, quando já fores homem feito, e poder saber-te bem. Poder saber-te um Homem íntegro e um Cidadão competente.

                                                                                 Teu muito amigo.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O fim do mundo e outros mitos


O título vi-o hoje num jornal. Gostei. Não era bem assim, mas foi assim que me soou, mal lhe pus os olhos em cima. Era a propósito de um congresso qualquer acerca de diversos mitos, desde o fim do mundo a 21 de Dezembro ao local de nascimento do Viriato. Parece que não foi na Serra da Estrela. A mim pouco me importa. O Viriato, como os grandes homens, não era duma terra só. Era Luso, e isso basta. Também já aqui me debrucei sobre o 21 de Dezembro. Mas não é isso que me importa hoje. Nem sequer se o mundo acaba ou não para Dezembro. Que me importa isso?
Podia ficar aqui a discutir a importância dos mitos. Ou a sua não importância. Mas também não é isso que me interessa. É-me suficiente dizer que à sombra dos mitos o mundo avançou. Outras vezes enganou-se. Mas conhecer faz-se de enganos também.
O que me importa é este fim do mundo a que assisto, eu, aqui sentado, olhando para a caneta, velha amiga, mas preferindo as teclas do computador, onde as pontas dos meus dedos vão escrevendo sem tinta. Está a acabar-se o mundo. O hoje amanhã será passado, como em todas as eras. Com ou sem mitos. Acaba-se a cada dia. E mesmo assim, há uma ânsia por um fim. Talvez seja da natureza humana querer ver o fim, como se nele houvesse respostas. Não sei. Mas cada dia traz um fim. Não percebo porque se há-de querer outro. Bem a propósito, enquanto escrevo, pus-me a ouvir música portuguesa do século XVI, que encontrei no youtube. De repente, dei por mim a cantar a "Porque me não ues Joana", uma cantiga de amigo que eu também cantava na faculdade, no coro a capella a que pertencia. Dei um sorriso involuntário, ante aquela lembrança, mas também isso já é passado. Fim. É bom recordar. Mas não penso voltar a vivê-lo. Para fim, basta-me um só. Sobretudo, quando a cada dia vejo o fim de mais qualquer coisa nesta lusa terra, tão amada por tantos e por mim também , bem antes do Viriato. Mas cada dia, algo fenece. Vejo nas ruas olhos vazios, de gente que anda para cá e para lá, mas não sabe para onde. Vejo governos sem alternativas, sem soluções, sem brio de servir… Possivelmente nem saberão o que isso é. Mas não creio que alguém, algum dia, mo pergunte. Vejo velhos de ombros caídos. Vejo crianças ainda inocentes, desconhecedoras de que o seu tempo já acabou, mesmo antes de ter começado. Temo bem, que o fim que está para chegar seja o da esperança.
Atormenta-me a ideia da pobreza. Um pobre, o que é? Se perguntar a um banqueiro, dir-me-á que é alguém sem crédito. Se perguntar a um empresário poderá dizer que é alguém sem trabalho. Se perguntar a um governante, talvez diga que é alguém que recebe subsídios. Se perguntar a um padre, provavelmente dir-me-á que é alguém sem pão nem fé. A um trabalhador, e dirá que é o pedinte na rua, ou no metro, ou no comboio… Um pobre é muitas coisas. Porque a pobreza vem em muitas formas. E todas destroem. Todas matam. Todas ditam o fim. Um fim para o sem crédito, para o desempregado, para o subsidiado, para o néscio, para o esfomeado, para o maltrapilho. E, sobretudo, um fim para o desesperado. Nada quebra tanto o Homem como perder a esperança. Não me resigno a que haja pobres para sempre. Não posso resignar-me. Que homem serei, senão um pouco homem, ou mesmo um homem morto, se parar de lutar pela justeza da Humanidade toda inteira onde todos caibam? Pouco homem, de verdade.
Não se perca a esperança, e talvez não venha o fim do mundo.
Happy Halloween.
Feliz dia de Santos.

sábado, 20 de outubro de 2012

Coitados deles


Dentre as espécies de pessoas que não suporto, os untuosos ocupam lugar especial. Os falsos, sim, também. Essa corja, que faz da perfídia uma coisa de trazer por casa e a usa com a mesma displicência e facilidade com que se muda de camisa ou se calça outro par de meias. Mas os untuosos... Há qualquer coisa neles de simplesmente odiável. Não sei se é aquela atitude submissa, enquanto empenham a sua inteligência e astúcia em tentativas de agradar a todo aquele que, mesmo remotamente, possa ser uma mais-valia. E num país de doutores...pfff, já se vê. Não, o negócio da graxa não pode ir mal. Haverá outros que sim. Os restaurantes, as lojas, os vendedores de toda a espécie, mesmo os que vendem coisas que não servem para nada mas que habilmente as vendem, porque criaram nos consumidores a ilusão de que são necessárias... Todos eles se veêm apertados pelo recuo do consumo.
Agora penso que o recuo do consumo pode não ser totalmente mau, se ajudar a que nos livremos das ilusões do consumo excessivo. Mas claro, é sempre mau porque resulta do empobrecimento forçado e não da livre vontade. Desde que nos convencemos de que comprar é necessário para viver, lançámo-nos num caminho que dificilmente acabará bem. E aqui reside o problema. Mas os untuosos. Coitados deles. Passam pela vida esquecendo-se dela, tão ocupados estão com a vontade de agradar. E no jogo de xadrez não passam de meros peões, jogados como os outros, uma casa de cada vez, embora convencidos de poderem a bel-prazer atravessar o tabuleiro inteiro. Haverá sempre alguém, cuidam, que dará o jeitinho. E por entre sorrisos tortuosos, lançam-se. Coitados deles. Como se a graxa com que se besuntam, a si e aos outros, os fizesse escapar por entre as gotas da chuva, os grãos de poeira dos caminhos. Ou se os cabelos das suas cabeças pudessem parar de cair ou passar pela vida sempre fazendo de outros bengalas, nunca pondo, eles próprios, os pés no chão. Mas o caminho, como se faz, se não se caminhar? São como corvos que sonham ser águias. Coitados deles. Detesto-os de verdade. Um homem que espezinha outro é ignóbil. Um homem que usa outro é parasita. Parasitas todos eles, cheios de mesuras, de vénias, de sorrisos falsos, de palmadinhas amigáveis, de conversas de ocasião… Para no momento certo fazerem dos vaidosos presas.
E de que vale? Pergunto-me a mim próprio de que vale. De que vale tanto unto? Porventura não virá, a seu tempo, reclamá-los a Morte? Claro, também poderia perguntar de que vale, afinal, seja o que for, com ou sem unto, porque a Morte a todos reclama. E sim, reclama. Talvez os untuosos tenham o seu consolo no seu unto. Nos seus esquemas, nos seus sonhos de voar alto… E talvez isso lhes baste, tal como à mulher em frente da Bershka talvez lhes bastassem os sacos de compras. Ou aos cães de loiça lhes baste estarem ali, no seu posto, muito afilados de olhos cor-de-laranja, enquanto o mundo e a vida passa  por eles. E, portanto, quando chega o seu tempo, nada mais esperam. Não sei. Não posso dizer. Sei que o unto a mim me enoja. E isso a mim basta-me. Preciso de olhar para as pessoas pessoas. De ver gente e sabê-las gente. Mesmo que não saiba o que esperam nem o que as consola. Nem tão pouco ao que aspiram. Mas que não seja ao unto. Espero que não.
Numa lógica tortuosa poderia dizer coitado de mim, porque os untuosos untam e sempre vingam. Há sempre maneira. E eu…Bem, eu… Nada. Não há lugar para as palavras. Às vezes nem em mim próprio. Vejo as ruas, cheias de gente, que passa, uns muito atarefados, outros, como eu, em passo de passeio, só vendo. Penso em quantas pessoas naquele momento pensam. Coitado de mim que penso, enquanto os untuosos untam e vingam. Aqueles risos serão talvez de escárnio. Não há lugar para pensadores. Muito menos para os pensadores pelintras.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

81 Veras Pereira

            Hoje, deambulando como costume pelas ruas, no meu passeio diário, companheiro precioso de ócio e da vida de desempregado, reparei numa mulher a berrar ao telemóvel qualquer coisa como “espero-te ao pé da Breshka”. Berrava muito alto, como que falando para longe e sendo necessário falar em tom que toda a gente ouça. Repetiu aquilo vezes sem fim. Não se deu conta, nem por um momento, que estava a dizer mal o nome da marca. Na verdade, acho que isso não a preocupava. É difícil preocuparmo-nos com o que não conhecemos. E ainda bem. Mas fiquei a pensar em como há coisas que entram tão facilmente na rotina e na forma de estar. Não foi preciso dizer “estou na rua tal, em frente a qualquer coisa”… Não. Bastou dizer “ao pé da Breshka”. Isso foi bastante para que o seu interlocutor soubesse precisamente onde deveria ir ter. Da mesma forma, há coisas que nos entram pela vida dentro e passam a fazer parte dela. De tal modo que já não precisamos de explicar. Todos sabem o que se quer dizer quando se diz determinada coisa. Uma espécie de linguagem mesmo. Sejam números, nomes, acontecimentos, pessoas… Toda a gente sabe a que se referem, sem ser preciso grandes explicações. Podemos falar, por exemplo, do Egas Moniz; de Abril; do 5 de Outubro; do Paiva Couceiro; do 1 de Dezembro; do Condestável; da Padeira; dos Jerónimos; de Camarate; do Titanic; do Holocausto; da Bershka, claro está… Enfim, uma miríade que podia referir. Umas coisas ficam na memória por boas razões. Puxam pelo brio, pelo orgulho… Outras pelas piores, lembrando-nos do que não devia ter acontecido e, sobretudo, não pode voltar acontecer. Depois procurei exemplos mais contemporâneos. Coisas a acontecer que se vão rapidamente tornar ícones desta forma de comunicação. Lembrei-me do número 81. E da Vera Pereira. Os 81, porque quando os salários diminuem no país, públicos e privados (basta ver as ofertas de emprego e verificar quais os salários oferecidos e fazer o exercício de comparação com, por exemplo, dois anos atrás), os digníssimos parlamentares conseguiram o feito de ter um aumento salarial que se traduz em 81 euros. 81 euros. Claro, no ordenado dum parlamentar, uma minudência. Quase nada. Mas a quem ganha o ordenado mínimo e corre o risco de o ver taxado no IRS, seria uma grande grande alegria. São estas as discrepâncias da nossa sociedade. E são elas que a fazem fracassar. Na verdade, estou convencido que a humanidade, enquanto projecto social, é um fracasso. Não apenas por isto. Mas também por isto.
            A Vera Pereira, porque estando desempregada conseguiu a proeza não apenas de arranjar emprego através do Centro de Emprego, coisa só por si rara, como ver-se nomeada para o dito emprego. Ficará inesquecível a frase “só a admitir a Vera Pereira”. A explicação oficial é que é perfeitamente normal ter acontecido, uma vez que a vaga em questão foi preenchida ao abrigo dum programa que permite ao futuro empregador indicar uma possível candidata. Tudo muito certo. A minha questão é só uma: qual a legitimidade de haver programas financiados pelo Estado, no âmbito de incentivos à empregabilidade, em que o empregador, privado, pretende contratar, com apoio estatal, note-se, uma determinada pessoa? Ora se os programas são públicos, financiados com dinheiro público, não deveria ser admitido o/a candidato/a mais capaz? Qualquer que fosse? A mim parece-me que sim. Pois se o distinto empregador queria contratar aquela agora famosa pessoa, porque não a contratou sem estar à espera de mais um subsídiozinho do Estado? De um jeitinho?... Naturalmente, não há apenas uma Vera Pereira. Nem tão pouco apenas 81 Veras Pereira. Haverá muitas mais. Este episódio foi, na verdade, um vislumbre de como funcionam as coisas. De como tudo se processa. Estamos no país dos jeitinhos, ora pois. Claro está, tudo devidamente justificado. Nada de malandrices. Aliás, já esta semana, uma distinta figura do aparelho judicial se apressou a descansar as pessoas de bem, garantindo que em Portugal não há políticos corruptos. O problema é sempre a mulher de César… O meu Avô costuma dizer que quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele.
            Perguntei-me se a pessoa que contratou a Vera Pereira dorme à noite. E se a pessoa que autorizou o aumento salarial dos parlamentares tem insónias… Depois olhei para trás. A mulher ainda estava “ao pé da Breshka”. Não sei se conhece a Vera Pereira, nem se a incomodam os 81 euros. Talvez o seu mundo se centre mais em sacos de compras.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

A queda dum Anjo no País dos jeitinhos

Calisto Elói, morgado da Agra de Freimas, ficará para sempre como o modelar exemplo de como o poder corrompe. E de como os eleitos para a causa pública se deixam enredar tantas vezes no ridículo. Às vezes até de si mesmos. O protagonista do romance célebre, que devia ser de leitura obrigatória para todo aquele que aspira ao serviço parlamentar, com tanta ou mais importância que as lições de colar cartazes e animar comícios, deixa de ser o homem íntegro, amante das letras e zeloso dos costumes do antigamente, para rapidamente perceber que o poder requer outros modos, que a vida dum representante da Nação não se compagina com polainas nem costas dobradas por horas a fio de nariz enfiado nos clássicos, que antes quer chapéu alto e fatiota de bom corte. Ele que vai para se impôr contra a corrupção dos costumes, vê-se rapidamente nos braços duma bela senhora que não a sua própria esposa, enquanto esta, sozinha e ouvindo novas do que se passa por Lisboa também não se fica atrás...
Ainda me atormenta esta ideia da era do ridículo. Não que duvide que vivemos nela. Ou que me angustie fazer parte desta idade. Para mim, é apenas lógico que ao vazio se siga o ridículo. O que atormenta é a forma escancarada como se se vive esta época. Como se entranha e parece tomar tudo, às claras, sem reservas... Ao escrever não posso deixar de pensar nos tristes episódios que quase diariamente as notícias nos dão conta. Dentre eles, nenhum outro me tenha talvez feito rir tanto como a moda das equivalências. Rir, sim. A era do ridículo é para isto que serve. Não apenas, mas também para rir. Assim que ouvi as notícias sobre o estranho caso das equivalências (não digo da licenciatura, porque casos desses já temos vários), pensei imediatamente no Calisto Elói. Não sei bem porquê. Mas veio-me imediatamente à imaginação o homem que, na casa de Alfama, a ler o livro do Mendes de Vasconcelos sobre as águas das fontes de Lisboa e, tomando-o à letra, se viu a braços com uma valente caganeira. Pensei nessa imagem por causa da quase seráfica ingenuidade com que Calisto Elói se crê nos livros, mesmo quando eles falam duma época que nada já tem a ver com a realidade das coisas. E a realidade das coisas é esta: embevece ver a ingenuidade com que se fazem trafulhices e depois se aparece com a cara mais inócua possível, como se tudo não fosse senão uma confabulação contra os bons costumes. Os Calistos Elóis de hoje já não são provincianos de polainas, conhecedores dos clássicos, de voz levantada contra a corrupção dos bons costumes. São, não obstante, para espanto meu, ainda ingénuos, crentes numa certa forma de estar na vida a que, por melhor designação, se costuma chamar “o jeitinho”. E assim, sem a erudição de Calisto Elói, mas usando das mesmas premissas e do mesmo vigor, lá vão seguindo, muito ao estilo do “rei vai nú”. E enquanto passam, nesse cortejo decrépito, reflexo duma época que já não existe, crentes ainda num respeito e num estatuto de que já não gozam (o ridículo atropela tudo, até os estatutos), vão atropelando também a valia das instituições, e a reputação e o trabalho de quem, porventura sério, se esforça por conseguir um grau, um trabalho, um negócio, um modo de vida, seja o que for, sem “o jeitinho”. Muito difícil, confesso. Talvez por isso Calisto Elói se tenha entregue aos prazeres da carne, depois de ter descoberto os de andar de costas direitas...
O estio avança, na pasmaceira habitual. Não sei ainda o que o verão reserva no domínio do ridículo. Não sei se virão ainda mais notícias de negócios escondidos, de documentos que desaparecem ou de lideranças bicéfalas... Não sei. Sei que na China, as senhoras optam por ir à praia com uma máscara de nylon, para evitar os raios ultravioletas e os malefícios do sol. Esperemos que a essa moda não juntem a máscara anti-fumos e anti-cheiros e anti-micróbios e anti-tudo tão querida aos seus vizinhos nipónicos. Ainda assim, esse exagero protector, sempre seria melhor do que certas caras-de-pau. Faria bem que se encomendassem uma quantas para quando se retomarem os trabalhos parlamentares.
Soube também que, a par do Bosão, a ciência avançou também nas previsões do futuro. Para além dos mistérios da Vida, desvendam-se agora também, ainda que o futuro que é possível prever seja ainda a curto prazo, os mistérios do Inenarrável. Já vejo romagens a este novo Oráculo. Mas para isto não preciso de saber prever com exactidão o futuro. Contento-me com a imagem do Calisto Elói, eloquentemente vociferando na assembleia contra a corrupção dos costumes e Teodora, sua desprezada esposa, a caminho de Lisboa, como um furação. Prevejo que nem a máscara de nylon lhe vai valer. Nem essa nem outra qualquer equivalente.