quarta-feira, 8 de outubro de 2014

In memoriam

Tenho-me esforçado por encontrar a primeira memória que tenho de ti, querido Avô. São tantas, todas ligadas a momentos bons de infância, e também aos difíceis, onde te encontro sempre presente, que me vejo sem saber qual é exactamente a primeira... Talvez a minha memória ande a dar os mesmos sinais dos fios de barba brancos que tenho visto surgir. Talvez. Ou então talvez toda a minha vida seja uma memória tua e da Avó e, portanto, é difícil centrar-se numa só memória. Insiste, ainda assim, em vir-me à ideia uma imagem. Nós dois, a descer a nossa rua. Tu sempre bem-disposto, a boina ligeiramente ao lado, colónia de lavanda, uns sapatos engraxados, as calças de risca e a camisa branca de quadrados. O relógio de bolso muito bem posto no bolso. Não sei donde vínhamos. Íamos para casa e, à porta, estava o sorriso daqueles olhos verdes da minha Avó, à espera. Lembro-me de me sentir muito contente, inchado de orgulho do meu Avô. Aos meus olhos eras possante. Podias tudo; eras capaz de tudo. Parecias-me gigante, quando me apanhavas do chão e me punhas ao colo.
Lembro-me de pensar nisto muitas vezes durante a tua velhice. À medida que te via ficar cada vez mais pequeno; curvado, trôpego. Quando começaste a ter por companheiro inseparável o “castanho”, aquela bengala que tanto gostavas. Falava-te nisso e tu rias. “É mesmo assim”, dizias-me, sem qualquer mágoa ou tristeza. Aceitaste a doença, a velhice, os contratempos da vida, a perda da filha, a viuvez. Sempre levantaste a cabeça. Nunca te vi desistir. Contigo aprendi a determinação, mesmo que tantas vezes a não consiga ou saiba por em prática.
Contigo aprendi também uma grande parte do homem que hoje sou. Contigo e com a Avó. De ti aprendi o orgulho no trabalho. Estiveste sempre ao meu lado nas minhas decisões e opções, mesmo que não concordasses com elas. Foste o primeiro a dizer-me que a vida de padre não era para mim. Mas ainda assim, estiveste sempre do meu lado. Entendias que estudar não bastava: um homem que não saiba usar as mãos não é homem. E foi assim que contigo aprendi a usar um serrote; a entender uma árvore, a ajudá-la a frutificar mais, a cuidá-la; a manejar uma enxada, uma colher de pedreiro, um martelo... sei lá que mais. Contigo aprendi a satisfação de fazer coisas com o meu próprio trabalho e a orgulhar-me disso. Contigo aprendi a honra, a determinação, a força interior.
Nos últimos meses, trouxe-te o Túlio, o gato endiabrado que tu tanto estimavas e mimavas e que te arrancava gargalhadas. Guardo-as junto de tantas e boas memórias que fico de ti, querido Avô. Tive o privilégio de te ter presente na minha vida até agora. Nestes últimos tempos, foste descaindo. Tu também sentias. Foste ficando mais dependente. Foi honra minha cuidar de ti até ao fim. Velar por ti. Estar sempre presente. Atender aos teus caprichos, vontades e, sobretudo, necessidades. Uma pequenina parte do que sempre foste na minha vida: um exemplo, um refúgio, um enorme amparo mas, sobretudo, um amigo.
Vou sentir-te a falta. Não mais te verei descer a nossa rua, com o “castanho”. Não mais comentaremos as travessuras do Túlio; a política; as notícias. Não haverá conversas, a não ser em silêncio, de mim para ti. Partiste cedo demais, apesar da tua muita idade. Mas estarás sempre, até que a minha vida se acabe, junto de mim. Espero saber viver a minha vida com a mesma determinação, coragem e força interior com que viveste a tua. Descansa em paz, querido Avô.
                                                                                                                                6 de Outubro de 2014

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Da visita

Caro Jean-Claude,

Perdoará esta intimidade. Bem sei que não é de bon ton tratar um desconhecido pelo nome de baptismo, tanto mais a uma pessoa insigne, quase egrégia, tal o número de ordens, comendas e prémios que, julgo saber, têm sido agraciados a V. Exª. Já vê, o seu sobrenome, notável, por certo, soa-me terrivelmente parecido a esquentadores e eu não consigo falar para esquentadores. Mais uma falha que confio ao seu perdão. Fosse eu um S. António e falaria com esquentadores como quem fala com peixes. Mas não, lamentavelmente, sou apenas um desconhecido e desempregado cidadão português. Não faça, pois, caso destas minhas incapacidades. Escrevo para lhe agradecer a amável visita. Soube, pela imprensa, que esteve por cá a mostrar apoio ao seu correligionário Passos e aos seus fidelérrimos aliados da AP (a ápê, assim carinhosamente designada pelo Prof. Marcelo, outro ilustre, que não pára de lhe fazer elogios a si). Naturalmente, enquanto apoia Passos por cá, ele apoiará o Jean-Claude por lá, porque estas coisas de apoios são mesmo assim, bem sei. E não está mal pensado. Espero que tenha gostado de ver a fábrica das massas, coisa que por cá pouco abunda, graças ao sucesso do programa de ajustamento, que o Jean-Claude tão sorridentemente aplaude. E que lhe tenham enchido as vistas os tomates em Mafra, se bem que também não foi nada de bon ton que ninguém lhe tivesse dito (estas coisas requerem uma certa preparação mental) que não haveria políticos de fato azul, mas uma miscelânea, desde os saltos altos da também sua camarada de ideias Cristas, ao panamá e camisa aos quadrados do também correligionário Portas. Foi simpático ouvi-lo dizer que se sente em Portugal como em casa, numa referência à quantidade de lusos que vão para o seu país. E que sente o cheiro de pastéis de Belém pela manhã. Pareceu uma coisa idílica. Mas deu uma nota de boa disposição e proximidade. Foi muito bom para a sua imagem juntos de nós, portugueses, Jean-Claude, embora um tudo nada piroso... Aqui pergunto-me se não terá sobreposto a sua própria campanha à dos seus amigos. Aliás o Prof. Marcelo disse logo que ia votar na ápê porque queria votar em si... Mas nada de grave. O que importa é que haja fotografias de gente sorridente e bem-disposta, se possível com champanhe. Os rapazes que veio apoiar têm o champanhe em grande conta. Lamento, contudo, Jean-Claude, e com pesar, que não lhe tenham mostrado o país real. Bem vê, veio visitar um país e apresentaram-lhe outro, cheio de nuisances e coisas de um pitoresco notável, muito ao estilo dos jogos de férias que a nossa elite se dedica a fazer na Comporta, durante o estio da silly season. Nome mais apropriado, não concorda? Tenho pena que não lhe tenham falado, sem demagogia, claro, dos cerca de 340 mil portugueses que abandonaram o país desde 2011 por não terem como encontrar um emprego, muito incentivados numa primeira fase do mandato pelo seu amigo Passos, que depois foi deixando cair a coisa, porque percebeu que as pessoas tinham levado a mal aquilo de os mandar imigrar (100 mil em 2011; 120 mil em 2012 e estima-se que outros tantos no ano passado. Números redondos, bem entendido)... Que não o tenham levado a ver as filas das pessoas que esperam à porta das instituições por uma refeição. Que não lhe tenham explicado, do ponto de vista cristão que tanto estima no campo político, as consequências nefastas que esta situação provoca nas crianças que acompanham os pais nestas filas; o estigma; a vergonha disfarçada... Imaginará, psicologicamente, o efeito nessas cabecinhas? E nas cabecinhas dos pais, que não têm forma de sustentar os seus filhos? Que não lhe tenham exposto um outro retrato do nosso Portugal, de quem se sente tão próximo e que é este: a enorme percentagem de pessoas que, trabalhando, não conseguem sustentar-se com o seu salário, por ser demasiado baixo. Que não lhe tenham explicado como vive uma família com o ordenado mínimo... Bom, aqui reconheço que seria difícil. Na verdade, seria propriamente impossível, visto que nenhum dos seus camaradas partidários faz a mais pequena ideia de como se faz para viver assim. Nem dos seus camaradas, nem de outros quadrantes políticos. Mas seria bom tentarem. Explicaria muito e resolveria outro tanto. Também lamento que não lhe tenham falado dos jovens que apesar dos seus vinte e tantos não trabalham nem estudam, porque não conseguem: estudar não podem; trabalho não têm. E que também não tenham perdido uns minutos a falar-lhe dos reformados, espoliados em nome de algo a que chamaram repartição equatitária de sacrifícios. Se há coisa em que os seus amigos são bons é a dar nomes complicados às coisas. Complicados mas, por vezes, muito claros quando à ideologia que os preside. Veja o Jean-Claude um pequeno exemplo, apenas, para não me alongar: Rendimento Social de Inserção. Já se chamou várias coisas. Julgo que começou por ser Rendimento Mínimo Garantido. Peço desculpa se o engano, mas julgo que foi este o primeiro nome. Os seus correligionários, uma vez governantes, decidiram que haveria de ser um rendimento de inserção, o que está muito certo, porque todo aquele que, não sendo capaz de arranjar trabalho para se sustentar e não podendo pedir subsídio de desemprego, e não tenha outro remédio senão recorrer a uma pequena ajuda do Estado, mendigando-a quase, precisa de uma reinserção. Está desfasado da sociedade, evidentemente. Há aqui um tanto de cinismo, não acha?... Do cinismo dos cínicos, da filosofia: quer-se mesmo um desapego, muito além do essencial. Um despojamento. Mas isso são outras conversas... Estou a divagar. Perdão, egrégio visitante. Teria sido interessante uma volta pelos supermercados, assim de surpresa, sem portos de honra nem nada, apenas para ver o que aquelas pessoas mais atingidas pelo ajustamento colocam nos seus cestos de compras. Que olhasse bem para a cara das pessoas nas ruas... Enfim. Teria sido outra visita. O Jean-Claude já deve ter percebido que estou descontente. Bem vê, o meu problema é fazer parte duma geração enrascada, que a sua geração pôs à rasca. Compreende, portanto, a minha má vontade para com o homo politicus. Aproveito também para lhe dizer que, muito embora tenha apreciado a sua visita, não lhe encontro beneficio. Compreenda: políticos a passear temos a rodos. Mais uma vez sou levado a pensar que terá também vindo a proveito próprio... Já que veio, uma penada sobre o seu prestígio e a sua campanha para a Comissão Europeia. Pois claro. Fez bem, que o tempo não está para inutilidades. Mas veja, algo me preocupa. Não gostei de o ver a embarcar nas coisas comezinhas da campanha que cá se faz. Estamos no fim e não conheço uma única ideia dos seus correligionários (ou doutros, diga-se de verdade) acerca do projecto que levam para a Europa. Naturalmente, levam-se a si próprios, até porque o ordenado não é mesmo nada mau. Mas ideias... Isso é que não sabemos. O que se ouve é, da direita, dizer mal da esquerda. Da esquerda, dizer mal da direita. De outros quadrantes (não sei bem como por isto, porque há listas e candidaturas que não são de quadrante nenhum) dizer mal de tudo ou simplesmente fazer festa e bater palmas. Fiquei triste, portanto, de o ver também neste registo, a dar uns recados aos bons portugueses, que são gente que acata tão bem as ridículas enormidades que as cabeças na Europa vão destilando a nosso respeito. Veja bem: vir cá dizer que os sacrifícios não acabaram; que não se pode voltar ao mesmo; que não queremos outra vez passar pelo mesmo, é ensinar o pai-nosso ao vigário. Fica-lhe mal. Já viu se eu fosse ao Luxemburgo dizer aos luxemburgueses que é um bocado aborrecido eles ganharem tanto... Ou, pior ainda, que é chato que se achem no direito de vir cá por e dispôr, como se fossem alemães... Certamente não gostaria. Até porque os seus conterrâneos também já se fartaram um pouco de si, apesar do ror de anos que esteve como primeiro ministro do ducado... Mas houve depois aquele problemazito com o espião e o relógio que não caiu bem... Mas não se preocupe. Fale no caso ao Passos. Por cá tivemos uma coisa semelhante e nada aconteceu. Nem um belisco. Ele há-de aconselhá-lo, até porque o caro Jean-Claude está mesmo convencido que ganha. Vai precisar de toda a ajuda, com ou sem relógios. Mas aceite o meu conselho: deixe de lado os discursos mais paternalistas. Não lhe convêm. Um último conselho, se me permite: se realmente quer ser Presidente da Comissão Europeia, não torne a comparar as pessoas aos bens e ao capital. Dizer que “as pessoas para mim são tão importantes como bens ou capital” é um perfeito disparate. Parece até estranho, vindo duma pessoa tão bem formada. Francamente, Jean-Claude!
Até à próxima.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Dos pobres

Tenho andado aborrecido da escrita. Há tanto para escrever... Se ao menos os meus dedos se movessem à velocidade com que as palavras me chegam... Na minha mente, tudo está escrito. Olho para o papel e vejo-o já preenchido de tanto que quero e preciso escrever... Mas não tenho escrito. E quanto menos escrevo mais me aborreço, caindo num ciclo vicioso de angústia, porque a escrita se me apresenta como um imperativo e a consciência atormenta-me porque não ligo às palavras. Eu, mero veículo instruído delas, servidor apenas da vontade delas de serem escritas, capacitado somente para lhes dar sentido e conexão e sintaxe e forma... E, portanto, como as não escrevo, elas não se fraseiam. Ainda que para mim estejam escritas.
Alguém me disse que era mesmo assim, que era normal passar períodos sem escrever. Eu respondi que não, que não era mesmo nada normal, porque sentia como a escrita me impelia a escrevê-la e não podia, porque me aborrecia escrever. É assim que tem sido. Quero e não posso. Como em tanto na vida.
Hoje, por casualidade, como quase sempre me acontece com as coisas verdadeiramente importantes de serem escritas, tomei conhecimento de realidades inquietantes. Aterradoras mesmo, quando as tomamos como certas e reflectimos nelas. Um em cada cinco portugueses é pobre. Primeiro não tomei muita atenção. Depois li outra vez. Um em cada cinco. Sim, reflectir... Não fosse a estatística ser uma coisa de números, construída de médias e cálculos avultadíssimos, diria que, à vista disto, é impossível que cada um de nós não conheça um pobre. Claro, é fácil rebater isto, porque uma franja da sociedade não conhece nenhum pobre. Aliás, é profundamente desconhecedor desta realidade, nem sequer do conceito, quanto mais da realidade de um pobre (veja-se, v.g., o último post que aqui escrevi acerca das realidades da Comporta e outras similares). Acresce a isto que a pobreza entre nós já não é apenas estrutural (que coisa ridícula de se chamar à pobreza, mas parece que é assim que se designa nas coisas sérias que se escrevem. Aqui limito-me a tentar, por via da osmose, que essa seriedade de termos se pegue a estas minhas deambulações), ou seja, que a pobreza já não é apenas de excluídos, desamparados, sem-abrigo, toxicodependentes e de todos os grupos que nos habituámos a catalogar nesta realidade. A pobreza, hoje, que faz de Portugal um País de (muitos) pobres é a pobreza da ex-classe média (serei o único a achar que o início deste colapso em que estamos foi precisamente quando nos pusémos com esta coisa de dividir as pessoas em classes?...). Pessoas que já tiveram uma vida estável, confortável, desafogada até e hoje não têm nada. Houve falências, houve divórcios, houve desemprego, houve dívidas, houve cartões de créditos em cima de cartões crédito, houve o comprar de um sonho ludibriado, vendido anos a fio, ilusório, assente em erros graves de bom-senso e da mais elementar economia... Ou então pessoas ainda com emprego, altamente qualificadas, que ganham na ordem dos 400/600 euros mensais e que não conseguem pagar renda de casa, alimentação, despesas com filhos. E passam fome. Um em cada cinco. Parece também que os dois milhões de portugueses que mais ganham têm em Portugal, auferem 7 vezes mais do que os restantes. Não quero sequer pensar se esta conta fosse feita para os cem mil mais ricos, por exemplo... Ou para os dez mil... O argumento de que os ricos não têm culpa de serem ricos tem tanto de estúpido como de demagógico. Como não sou nem uma coisa nem outra, escuso-me de aqui comentar a questão da riqueza. É evidente que não têm culpa de serem ricos (a não ser em certas circunstâncias, morais primeiro e judiciais depois). Mas eu não quero escrever sobre a riqueza. Quero escrever sobre a pobreza.
Portugal é o País da União(?) Europeia onde o fosso entre ricos e pobres é mais acentuado. Sempre foi, na verdade. Basta algum conhecimento histórico para poder dizer isto sem grande dificuldade. Portugal foi sempre um País de muito poucos ricos e muitíssimos pobres. Houve alturas em que essa diferença se esbateu, pelo menos superficialmente, outras, como agora, em que ela se acentua. A pobreza sempre esteve na realidade portuguesa. E na minha vida também. Nasci pobre, com pais pobres e avós pobres. Nunca me incomodou, porque esse contacto sempre me ajudou a estabelecer prioridades e a olhar para a vida com uma certa frugalidade. Tive também contacto com o fausto. Desejei-o. Gostava de poder dizer que esse contacto com a pobreza me preparou para a vida. Não é verdade, porque quando nos sentimos privados de algo, aspiramos a tê-lo. E isso, embora não seja um mal em si mesmo, no que toca ao facilistismo da sociedade que temos, pode ser fatal. Esse é o drama da pobreza. Ao pensar nisto, voltei a lembrar-me da senhora com sacos de plástico nos pés a servir de sapatos; da velhinha cega a cantarolar com uma voz rouca e triste, sentada num banco à frente dum grande edifício luxuoso na Baixa de Lisboa; da mulher encostada a uma parede na estação de metro, sem dizer nada e apenas com uma caixinha desbotoada na mão estendida; do Rui que escondia a cara no colo da mãe por vergonha da fome... de outros Ruis e Marias e Joões e Antónios e Andreias espalhadas por esse País, que acompanham os pais, eles próprios desenquadrados e sem saber muito bem como esconder a vergonha, nas filas para a sopa... Todas cenas muito reais e verdadeiras da minha experiência de vida. E da vida do nosso País. Cruzei-me com todos. E penso neles... E em como poderia estar eu também numa fila à espera da sopa, ou no metro de caixa estendida... Todas aquelas pessoas já tiveram outra vida. Um em cada cinco anda de caixa estendida, de rosto escondido pela vergonha, corpo arqueado pela fome em filas à espera. Enquanto escrevo, lembrei-me também do fulano que vi na televisão, já há anos, entrevistado porque a casa dele era uma espécie de gruta perto da Boca do Inferno. Queria fazer-se um retrato da pobreza (estrutural essa?) às portas da Capital. Como se dentro dela não gritasse a pobreza em todas as ruas... A certa altura, perguntaram-lhe: “Então e amanhã?. Ele riu-se, numa boca sem dentes, e respondeu: “Amanhã, o mesmo que hoje. Nada”. E ficou-se com aquilo.
Um cada cinco, nada.
E só isto importa. Sim, apenas isto. Quero e não posso. Quero gritar que parem. Que andem pelas ruas. Que vejam três gerações perdidas: dos avós, que quiseram uma vida melhor para os filhos; dos filhos que quiserem uma vida ainda melhor para os seus próprios filhos e dos filhos, educados, diplomados, preparados e agora desempregados, desamparados e pobres. E com eles os pais e os avós, despejados de qualquer remedeio, de toda a poupança e, sobretudo, de toda a esperança. Um País não se quebra pela falta dinheiro. Quebra-se pela falta de esperança. Um em cada cinco. É isto que importa.
Não há quem se levante?

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

As melgas, a Comporta e a Manta Rota

De entre as hordas de insectos e criaturas várias que assolam este mundo, e que muito embora tenham o seu papel bem definido na complexidade da Natureza, ainda que pareçam existir somente para nos aborrecer, não haverá porventura uma que seja mais chata e aborrecida e inconveniente e nefasta do que a melga. E se uma melga tem o verdadeiro poder de tirar a paciência a um santo, o que fará uma quantidade delas, atacando em bando incautos e despreocupados transeuntes. Parece ter sido este o fenómeno mais marcante do verão. Uma verdadeira calamidade, a forma como as melgas enxamearam (enxameam?) as pessoas. Foi-o seguramente para a vítimas, perseguidas impiedosamente por essas sanguinárias criaturas. Felizmente foi um problema contido. Não se estendeu de norte a sul. Ficou ali por Loulé ou coisa que o valha, para grande lamento de quem lá decidiu ir a banhos ou de quem queria ver mitigada a magreza dos seus negócios. Não prejudicou, felizmente, as férias na Manta Rota ou outras de similar importância, nem tão pouco interferiu nas brincadeiras na Comporta, onde a moda parece ser brincar aos pobrezinhos. Seria, na verdade, trágico que houvesse melgas, uma que fosse, que achasse bem ir imiscuir-se nesses campos de férias. Não seria de bon ton, ali onde as pessoas se entretiveram com banhos e tardes preguiçosas, idas ao mercado, sestas em telheiros ou em casinhas de telhados de colmo e coisas assim. Melgas não. Mosquitos, infelizmente, parece que houve. Nada é perfeito, nem no mundo hippie-chique.
Foi divertido podermos ter estes episódios para nos divertir durante a silly season. Para nos distrair da nossa vida, dos problemas, das avaliações da Troika, do segundo resgate, do conflito na Síria, do País a arder, da morte dos bombeiros... De tudo aquilo que parece ficar suspenso da existência durante estes diazinhos.
Setembro, porém, faz-nos entrar em choque com a realidade. Seria óptimo podermos continuar entretidos com o conjunto de disparates que encheu os noticiários de agosto. Até os comentadores se viram na necessidade de fazer longos tratados acerca dos inconvenientes das melgas; das férias dos membros do governo; dos lapsus linguae das madames na Comporta ou das extravagâncias de certas festas de aniversário e subsequente entrevista em horário nobre. Tudo da maior importância, como facilmente se percebe. Mas não, não pode ser. Setembro mal começou e já só se fala da iminência da guerra na Síria, que pode muito bem ser o rastilho para uma coisa de maior monta, mas para o qual ninguém parece importar-se muito; das avaliações da Troika, que ninguém sabe muito bem o que chegam a ser; do segundo resgate, mais do que provável; da desgraça e do rasto de morte e sacrifício dos bombeiros; de tantos outros episódios que não cabem aqui.
Ah, que saudades das tardes preguiçosas de agosto, onde parece não chegar a mundanidade. Parece que foi à muito tempo... Setembro tem esta característica de nos trazer de volta à vida de todos os dias. Sem direito a mais episódios revigorantes nas estâncias balneares. Já se consegue sentir a azáfama das escolas, lentamente a retomar o ritmo, enquanto os pais fazem contas. Já se retoma a lida de todos os dias, levantar e ir para o emprego e correr, para depois regressar à tarde ou à noite, para no dia seguinte voltar ao mesmo. Até os campos, cansados do calor, querem já umas gotas de chuva. E a noite é já mais quieta, mais silenciosa, à espera da queda das folhas, de passos miudinhos na chuva, da brisa mais fresca...
Uma coisa nos pode confortar: não poderemos, porventura, entreter-nos mais em brincadeiras. Isso decerto que não. Aliás, parece-me que andamos a brincar à muito tempo, não apenas no verão. Não pode mesmo ser mais. Mas as melgas hão-de começar a desaparecer. Resta saber até quando.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Cavaleiros da Triste Figura

Dou por mim a pensar porque será que é tão difícil reconhecer que a razão pela qual estamos permanentemente em “crise” é apenas porque os modelos em que nos baseamos estão gastos. O modelo económico, social, financeiro e julgo mesmo que até político, pura e simplesmente chegaram ao limite do que podem oferecer. Não respondem mais.
Para mim isto é evidente. Salta à vista, com a mesma facilidade com que o sol se põe ou levanta; com que as marés se alternam ou as estações se sucedem. Por que razão então é tão difícil abandonar estes sistemas gastos e vazios de opções e respostas e procurar outros?
A resposta é simples também: não só não há outros que presentemente sejam viáveis e realmente capazes de novos rumos (pelo menos ainda não experimentados ou que em algum momento ou lugar tenham já falhado), como estes continuam, apesar de falidos, a servir determinados interesses. Quando assim é, à resistência natural à mudança, alia-se um certo desnorte, num espectáculo sôfrego de tentar, a todo o custo, suster o impossível. Penso nisto e vem-me logo à ideia aquela conhecida frase de Churchill sobre a democracia ser o pior dos regimes, exceptuando todos os outros...
Receio bem ser este o espectáculo a assistimos. Não é apenas uma crise económica ou financeira ou todas estas e mais social. É a falência da sociedade como um todo, enquanto estrutura organizada e baseada em determinados modelos. A razão pela qual penso isto não é por ser mais clarividente que as cabeças iluminadas que nos governam, dotadas de uma extraordinária incapacidade para verem além de si mesmos e dos seus próprios interesses. É tão só por ser evidente. E porque a ausência de simpatias políticas me permite pensar e, sobretudo, dizer ou escrever sem medo ou sem qualquer outra sanção que não seja aquela da minha própria consciência aquilo que realmente penso.
Poderíamos tentar fazer o exercício intelectual (intelectual apenas, uma vez que a questão não interessa realmente a quem tem neste campo responsabilidades. Terá qualquer coisa a ver com as vantagens do status quo...) de tentar perceber de onde vem esta crise, quer dizer, esta ruptura. De onde nasceu esta falência. Porque razão se esgotaram os modelos que têm guiado, orientado e moldado a sociedade?
Serão, por certo, diversas as respostas ou as opiniões sobre o assunto. A minha é a de que a razão de tudo isto é de fundo, de fundamentos mesmo, e tem a ver com os valores. Ou com a falta deles. Tudo isto que vemos, como espectadores mais ou menos interessados ou então como actores na história que se está a fazer diante de nós, radica na mudança civilizacional que levou à extinção ou ao não reconhecimento de certos valores, que atá há bem pouco tempo guiavam e norteavam a vida em sociedade.
Aceito que esta explicação não seja clara. Mas estou absolutamente convencido dela. Que não seja claro de que modo os valores se relacionam com a enfadonha medianidade no campo político; com o crescendo de problemas sociais; com a crise económica; com o facto de na política ser mais importante a reacção dos mercados financeiros do que a vida das pessoas concretas; com a indescritível incapacidade de afirmação dos líderes; com a escassez de cabeças verdadeiramente pensantes, não devedoras de vénias a interesses; enfim, com a estúpida insensatez com que somos governados e nos deixamos governar.
Os valores funcionam como uma espécie de grelha. Uma trama onde assenta o fio que tece o tecido social. Sempre que se deixa de considerar ou se rejeita um determinado valor é absolutamente necessário substitui-lo por outro, sob pena de se desmoronar o tecido social. Ora o que acontece, nesta nossa Era do Vazio é precisamente o esvaziamento de valores, sem que outros tomem o seu lugar. Aparentemente, nada daqui decorre que possa de algum modo fazer colapsar a sociedade em que vivemos. Mas da mesma forma que é impossível tecer algo sem a trama, também um modelo social não consegue subsistir sem valores de fundo. A questão não é que se tenham deixado de considerar válidos ou actuais determinados valores. A questão é que se deixaram de levar em conta esses valores sem que outros tomassem o seu lugar. Resulta daqui um grave deficit ético, sem que haja uma régua de valores a nortear a vida e o comportamento social. Não quero fazer juízos de valor sobre os valores que estão em falta. Para mim serão mais importantes ou fundamentais certos valores. Para outras pessoas, talvez outros. A questão de fundo é mesmo a falta deles. As consequências desta deturpação do tecido social estão à vista. Foram subreptícias, lentas e nada sonantes. Foram-se fazendo sentir aos poucos, e continua a ser necessário estar atento e preocupado para as ver. Mas é essencial, vital mesmo, que se tome novo rumo. Que se aceite a falência destes modelos agora em vigor, procurando outros, mais robustos do ponto de vista ético-moral, de modo que a vida das pessoas possa encontrar o tecido para se realizar. Convençamos-nos disto: sem pessoas, não há sociedade. O mesmo é dizer que aniquilar o indivíduo, sacrificando-o a modelos falidos de modo a espremer qualquer réstia de vida lucrativa que ainda possam conter para alimentar a máquina que bombeia esses modelos, levará inevitavelmente ao aniquilamento da sociedade. Estará, então, aberto o caminho ao desastre não apenas económico-social, mas à destruição mesmo. Se nada for feito para inverter este caminho, ouviremos doravante falar mais em guerra... Uma guerra nasce de uma de duas coisas: da procura de realização de certos interesses (pessoais, políticos, raciais, económicos...) ou então da falência dos modelos sociais sem outros tomem o seu lugar atempadamente.
Por cá, ainda não atingimos esta maturidade de pensamento. Pelo menos não aparenta haver. Mas faria falta que ela chegasse. Continuamos entretidos entre seasons. A silly season permite, enfim, depois da maçada e do aborrecimento nulo que se tornou a cena política, um descanso na praia, para quem pode evidentemente. Os restantes, como reais despojados de guerra ou então como vítimas colaterais dos jogos de quem governa, limitam-se a dar graça por estar vivos. Entretêm-se a olhar boquiabertos para estes Cavaleiros da Triste Figura, mais ou menos embrenhados nos seus gigantes de moinhos de vento, completamente ignaros do estado do País e da vida das pessoas (essas que são o tecido da sociedade e que, em teoria, representam, governando em seu nome e não em nome deles próprios); perfeitamente desconhecedores de como se faz para comer todos os dias quando falta o trabalho e não há fontes de rendimento em famílias inteiras, marcadas pelo desemprego, pela fome, pelo estigma e pela vergonha; inteiramente alheados da realidade concreta que os rodeia, ou então fazendo esforços por ignorar essas evidentes evidências, fazendo aqui e ali pequenas alterações ou publicando um outro despacho ou regulamento ou portaria, que permita evitar o aborrecimento que é a contestação. Na verdade, estes Paladinos da Triste Figura sentem-se injustiçados. Consideram que lhe falta a justa e devida bajulação do Povo, essa coisa amorfa, sem rosto, que na verdade não existe, a não ser em época de eleições. A essa enorme massa (as pessoas) resta-lhes, na verdade, entreterem-se com as nulidades vazias debitadas pela TV, cumprindo verdadeiramente o seu papel, na medida em que, em vez de iluminar mentes as estupidifíca, com o genérico aplauso tanto dos Cavaleiros como das pessoas governadas. Bem certo é que não há nada que seja mais assustador para a Cavalaria da Triste Figura do que a cultura e o papel que ela tem nas mentes das pessoas. Pudéssemos nós regalarmo-nos com idas às Selvagens a ver cagarras e anilhar espécimens indígenas, ou ao menos às Berlengas ver gaivotas. Mas nada mais resta, para uma grande franja da sociedade senão embasbacar-se frente à TV. Felizmente temos as prazenteiras notícias das viagens presidenciais, do bebé real, das férias do Cristiano e da langerie da Irina. Agora que o Big Brother se foi, que há-de ser de nós?

sábado, 8 de junho de 2013

E se nos levantássemos?

Os sofás. As cadeiras. Essas peças de mobiliário a que nos habituámos e que sobre nós exercem um certo tipo de atracção que quase nos faz depender delas e nos faz ansiar pelo momento de nos refastelarmos nelas.
Um dos meus maiores amigos tem o dom de dizer as coisas mais banais com um ar grave, de tal forma que quem o não conhece acha que aquele assunto é de suprema importância, mesmo que seja a coisa mais corriqueira do mundo. Não raro, são momentos que nos proporcionam boas gargalhadas. “As cadeiras. São as cadeiras, caríssimo... O problema são as cadeiras”... Quase que consigo ouvi-lo.
Despertei para esta problemática das cadeiras e dos sofás e da atracção que exercem em nós – um verdadeiro poder – por intermédio dum anúncio publicitário que passa vezes sem conta na televisão, juntamente com todos os outros de cremes de veneno de cobra, baba de caracol, sumos de frutos de que nunca ninguém ouviu falar, mas verdadeiramente milagrosos, remédios para unhas, colchões especialíssimos e robots de cozinha verdadeiramente inteligentes.
Vi o réclame, como dantes se dizia, mas que agora é um francesismo desusado, quase deselegante, apesar das raízes francesas, e logo pensei que, realmente, as cadeiras têm o poder. São elas, e todas as outras peças que servem para sentar, que realmente nos aturam. E nos puxam. Muito mais que uma compulsão ao ócio, é uma verdadeira estratégia de poder, de forma a enredar nelas, nos seus braços, nos seus assentos, todos os traseiros que possam, ainda que remotamente, ter qualquer espécie de poder, decisório ou executório. E nelas se concentra assim todo o poder que rege este mundo.Extraordinária coisa. Quase maquiavélica, fossem elas capazes de ler "O Príncipe" ou capazes de qualquer conjectura.
Mas, e se nos levantássemos?
Se negássemos a essas peças de mobiliário responsáveis por tanta maquinação e estratagema, a sua fonte de poder? Talvez os pés e as pernas se começassem a queixar do excesso de esforço, ou os traseiros sentissem falta dum bocadinho desse descanso ou o corpo suplicasse por uns minutinhos de refastelamento no sofá... Não sei. Quem sabe até uma rebelião corporal contra a cabeça que congeminou esta ideia de se negar às cadeiras... Nada fácil dirimir estas questões de contentar pés e pernas, fazendo a vontade ao corpo e ouvindo a cabeça. Um horror. Aliás, discorro, que deve ter sido assim que nasceu a política, desta necessidade de contentar partes desavindas, de atender a vontades diversas, de conciliar opiniões e, enfim, não chegar absolutamente a parte nenhuma. Poderia até pensar no papel que teve a cadeira neste parto...
Se nos levantássemos certamente haveria manifestações contra. Desde logo das cadeiras, privadas da sua fonte de poder... Mas quem as ouviria, se ninguém se lá sentasse?
Ou nos levantamos, mesmo que o corpo se manifeste, ou permanecemos sentados e as cadeiras continuarão a ser senhoras dos destinos que regem o mundo de loucos que construimos.
“As cadeiras, caríssimo... O problema são as cadeiras”, diz ele enfaticamente. Eu por mim penso que o problema das cadeiras talvez se possa resolver com quem se senta nelas. Quem nelas se senta e quem nelas pomos sentados.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

O triunfo dos cromos

Em todas as sociedades, de uma forma ou de outra, acaba por se desenvolver a necessidade de criar heróis, figuras mais ou menos míticas, mais ou menos fantasiosas, em maior ou menor grau imaginadas, capazes de aglomerar em si mesmas as expectativas e os desejos dos indivíduos, tornados modelo, guia, alvo a atingir. São como uma espécie de criaturas idealizadas nas quais se faz encarnar o perfeito, o melhor, o ideal de cada ser humano e para o qual cada um deve olhar e aspirar.
Não devemos confundir este fenómeno com a religião ou com a necessidade de Deus. A necessidade de Deus é uma coisa íntima, se quisermos entender assim e se formos capazes de o entender assim. A necessidade dos heróis é de outra ordem. Da ordem do aspirar, da ordem do motivar, do incentivar ao melhor, de serem força de erguer quando a sociedade se deixa abater. Deus também, é verdade. Mas um herói imaginado não me consegue compreender no íntimo. Deus, sim. Claro, esta é uma interpretação pessoal. Haverá outras, tão ou mais competentes e válidas como esta. A minha é esta mesmo. Na verdade, entendo que nenhuma sociedade subsistiria sem os seus heróis. Certamente, nenhum regime político.
A par com este fenómeno interessantíssimo, digno só por si de muitos estudos aprofundados, e não somente destes devaneios, surge um outro, porventura tão ou mais interessante: os cromos.
Os cromos são aquelas figuras sem as quais, a par dos heróis, nenhuma sociedade floresce. São muito mais do que anti-heróis. Enquanto que os heróis aglomeram em si os aspectos de perfeição a seguir, os cromos representam o risível, o caricato, o ridículo. E quanto maior é a lata como se apresentam a si mesmos modelos para os demais, maior é o seu impacto enquanto cromos e/ou profissionais do ser cromo. Depois há aqueles que, sendo cromos, se apercebem de formas de fazer uso dessa sua qualidade, atropelando socialmente os demais, dando de si mesmos uma imagem de perfeição (que apenas existe para eles mesmos) e tentando fazer com que essa imagem de perfeição se sobreponha ao ser cromo, um pouco à maneira do corvo que queria ser águia. Quando eu era pequeo, contavam-me a história dum corvo que tinha de si mesmo a ideia de ser tão grande, em tamanho e importância, como uma águia. Estava mesmo convencido de que era uma águia. E, por isso, lançava-se, tal como ás águias, sobre o gado que pastava, mormente sobre os borregos, sem nunca, claro está, conseguir levantar nenhum do chão.
Diria que este é uma espécie de cromo que está convencido que é herói. E age como tal. E reclama para si as honras e os aplausos de ser herói. E nem sequer tem vergonha de se apresentar e dizer de si mesmo ser um modelo a seguir. Um devoto do bem da sociedade, pela qual tudo sacrifica e pela qual trabalha incansavelmente. Claro está que o cromo-corvo, não sendo herói, não elevará nunca nem a sociedade, nem os cidadãos, nem a moral, nem os ânimos. Pode, no entanto, ter um papel até importante, enquanto bobo. Vem de longe o reconhecimento e a importância dos bobos, muito antes de haver cromos, ou de a sociedade ter tido a necessidade de criar estas figuras ímpares. Foram eles os precursores do riso, do gozo, que tanto ajuda ao aliviar de tensões e põe as pessoas mais dispostas e mais capazes de aturar certos desmandos. Na verdade, simpatizo muito mais com os bobos do que com os cromos. Os bobos são autênticos, parvos com orgulho de o ser, nada dissimulados e sem necessidade de esconder aquilo que são. Já um cromo pode parecer um herói respeitável. E por vergonha de assumir a sua função no seio da sociedade que o criou e lhe deu fôlego, disfarçar-se do que não é. O que acontece nesta circunstância é que, quando cai no riso dos demais acaba por se apresentar como um mártir, que é outra das categorias de figuras, também esta muito interessante.
O corolário da vida de um cromo-corvo é quando finalmente se consegue apresentar como um cromo-mártir, lamentando-se da sua desgraça, mas sobretudo, lamentando-se de como as suas ideias não são bem interpretadas e de como os seus esforços e acções são mal compreendidas. É como se o corvo se lamentasse do peso dos cordeiros e do facto de a natureza o ter feito corvo e não águia. Ele bem sabe que era águia. Mas aos olhos de todos não passa de corvo.
Outros há, que não sendo nem corvos nem águias, são borregos, que descobriram que conseguem pôr-se de pé e, gritando pelos corvos, embarcam também na aventura de serem cromos, apresentando-se aos outros borregos como o modelo capaz de os fazer subir além do seu ser de borregos, para grande gaúdio dos corvos, que na ausência das águias, esfregam as penas ante a visão de tanta carne fresca. Estes borregos, servindo um interesse próprio, servem também o interesse dos corvos, mas não vão além do ser cromo. São umas figuras patéticas, andantes bípedes num mundo quadrícipede, desfiando meia dúzia de anglicanismos e esbracejando muito. Muito mais que borregos, estes cromos, escolhidos entre os seus pares para os convencer que aos borregos convém o andar bípede e não as quatro patas, são para mim muito mais parecidos com certo pregador, falho de argumentos, mas bom conhecedor de como retirar impacto das palavras, e que em certa ocasião, ao ter de falar acerca de um assunto sobre o qual não era versado (coisa comum entre os cromos), escreveu a letrinhas pequeninas na sua cábula “aqui gritar, que o argumento é fraco”.
Inevitavelmente, o cromo-borrego chega à mesma conclusão que o cromo-corvo: é fraco argumento querer ser como as águias e querer que os borregos andem de pé. E, claro, o desconsolo de ver a sua argumentação cair por terra, apesar de tanto esbracejar e dizer barbaridades em inglês, como se aquelas palavrinhas estrangeiras fossem fórmulas mágicas, atira o cromo-borrego também para a tristeza de se sentir incompreendido. Ele bem sabe como fazer para andar de pé. Mas ninguém o ouve, e os borregos andam em quatro patas. É a realidade que não ajuda os cromos.
Ainda assim, eles parecem florescer. Diria mesmo que, desde que mergulhámos neste mal-fadado estado de coisas, o número de cromos subiu exponencialmente.Mais do que heróis, hoje triunfam os cromos.