segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A blusa cor-de-rosa

À minha frente no metro sentou-se uma senhora, toda ela muito cor-de-rosa, agarrada a uma mala enorme, da qual foram saindo bolsas e bolsinhas, todas elas também muito cor-de-rosa, enquanto a senhora ia passando em revista a diversa parafernália que a acompanhava. Os telemóveis, o mp3 e outro aparelho que nem percebi o que era, todos eles muito embrulhados em bolsinhas, cor-de-rosa com bonecos.
Depois passou outra senhora, para o lugar da janela, muito sóbria, que puxou de um livro e se pôs a ler, de pernas muito juntas e costas bem direitas, como convém às senhoras muito sóbrias. Tive pena de não conseguir perceber o que lia. Gosto de ver o que os outros lêem.
A senhora cor-se-rosa foi passando os apetrechos em revista, a senhora sóbria as páginas, e eu os pensamentos. A viagem chegou ao fim para mim e não cheguei a saber se os aparelhos estavam ou não em condições ou se o livro era interessante. Saí do metro ainda com os pensamentos. Vinha assolado com as notícias da tragédia nacional que foi a suspensão do jornal de sexta-feira da TVI. Quando me disseram até pensei que tivesse havido uma catástrofe, que tivessem assassinado alguém importante ou que tivesse sido um terramoto… Ouvi os telemóveis todos a tocar e as pessoas todas a dizer “ a sério?”; “tens a certeza?”, “que grande bronca”… etc. E eu pensei: “uma calamidade!”
Era mesmo a sério, com toda a certeza e foi uma bronca. Suspenderam, assim, sem mais, o jornal de sexta-feira. Como será possível a este país sobreviver sem aquele verdadeiro espaço informativo tão sabiamente conduzido pelo ícone, agora martirizado, do jornalismo português? Como poderemos olhar para a TVI e ver na sexta-feira um noticiário que não é o Jornal de Sexta? É como se se atingisse a alma lusa naquilo que ela tem de mais seu! Como se se abanassem todos os pilares da democracia! Como se estivessem periclitantes, quase a ruir, os próprios fundamentos do País!
Depois disse de mim para comigo: Espera. Mas qual catástrofe? É só um formato televisivo?... Ou não?
Pois claro que não. Tive logo a resposta na catadupa de entrevistas e comentários e notícias na TV: era a liberdade de imprensa! Era ela que tinha sido ultrajada. “Ah”, disse eu. A liberdade de imprensa. Será?!...
Mas de quem é a culpa afinal? Do governo, pois claro. E foi ouvir um ror de gente a dizer que o Sócrates é que tinha a culpa… Como se não fosse de esperar que assim que o marido da protagonista saísse da TVI, arranjassem uma maneira de arrumar também a senhora… Como se a administração espanhola não tivesse já antes – muito antes do agora célebre arrufo entre o Senhor Primeiro Ministro e a Senhora Moura Guedes – afastado a aclamada pivot dos ecráns… Como se não fosse um verdadeiro espectáculo triste aquele formato de noticiário… Como se não tivesse bastado o Senhor Bastonário ter perdido as estribeiras e destratado a senhora em directo e ao vivo e a cores… Pois se ela tira a paciência a um santo, quanto mais ao engenheiro, somente homem, que era, claramente, alvo primário e primeiro? Goste-se ou não do homem, aquilo era demais… Goste-se ou não do homem, a par da liberdade de imprensa acautelou-se o respeito institucional pelo cargo do homem?...Qual rigor informativo… Qual mostrar as coisas como são na realidade… Deixemo-nos de aforismos. Num dos últimos programas que vi, antes das férias – que eu honestamente, já adivinhava serem permanentes – o jornal da sexta elegeu o Primeiro-Ministro para tema todas as notícias – todas – durante aproximadamente 40 minutos… está tudo dito. Depois era ver o rigor informativo a induzir o espectador nesta ou naquela interpretação, utilizando deliberadamente esta ou aquela expressão que ligava inequivocamente o que se estava a dizer ao senhor engenheiro. Isto também tem um nome. E não é rigor… Gostava de ver noticiários em que os jornalistas se inibissem de opinar. Mostrar a notícia, ela mesma. E não embrulhá-la em bolsas cor-de-rosa ou de outras cores, conforme o que se goste. É difícil, sim. Mas por isso é que é um trabalho para o qual nem todos estão talhados. Assim escusava de ter visto o repórter de campo da TVI tão empenhado em implicar o Primeiro-ministro na decisão da empresa que deixou escapar duas frases absolutamente inadmissíveis, do meu ponto de vista: “José Socratés a tentar justificar que não teve nada a ver”… “ a virar a questão exactamente ao contrário”… Pergunta: é ao repórter que cabe interpretar o sentido? Ou ao espectador? O repórter reporta ou comenta?...
Enfim. Depois os políticos… Nada como um pseudo-escândalo para animar uma campanha eleitoral… Voltei a pensar na senhora cor-de-rosa. E pensei na parafernália das bolsas. Somos um país pequeno. Ou “piqueno”, como agora soi dizer-se, por mercê doutra senhora, também ela muito sóbria. E de gente pequena também. E estreita de pensamento. Então o país está mergulhado no caos quase completo; sem perspectivas de futuro para grande parte das pessoas da minha idade (eu incluído); sem emprego; com salários que nos fazem depender dos pais e dos avós e dos antepassados até à quinta geração; com problemas de segurança, de imigração, de justiça e de mentalidades – sobretudo de mentalidades – e os políticos entretém-se, até à exaustão, até ao cúmulo do humanamente aceitável, com um programa de televisão? Mas que é isto?
Senhores!... Que é isto?
Qual liberdade de imprensa qual carapuça… Mas quando é que se vai prestar atenção ao fundamental em vez de mascarar as coisas com o acessório?
Ponham-se lá todos direitos, muito sentadinhos como convém, em vez de andarem aí na beijoquice nas feiras, a embrulhar as pessoas em bolsas, e comecem a ver se os vossos aparelhos funcionam. E decidam lá de cor vai ser a blusa. E parem de mandar recados uns aos outros… Não vos enoja isso?...
Quem me dera saber o que ia a ler a senhora sóbria. E parar de ouvir disparates.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

As birras

Tenho um placard de cortiça no meu quarto. Nele vou afixando aquilo de que não me quero esquecer, as coisas engraçadas, as importantes… Nele afixei, há já que tempos, um pacote vazio de açúcar, onde se lê: “Um dia ponho a mochila às costas e vou conhecer o mundo”.
De vez em quando vejo-me peregrino, mesmo sem mochila.
Ou então um mochileiro de sandálias, caminho fora, em demanda.
No fundo, somos todos um bocadinho assim. Na vida, sempre se busca qualquer coisa. Há sempre um caminho qualquer que ainda não percorremos.
Gostava de um dia, sem olhar para trás, ir mundo fora.
Dei-me conta que o passar dos anos dá-nos mais do que idade. Traz amarras. Algumas doem, seja porque nos peam, seja porque se mantém inexoráveis, e não nos deixam ver mais além. Nem de nós próprios, nem para além delas.
Ir mundo fora sem olhar para trás deve doer. Deve não. Dói. Já me fui embora de muitos mundos.
Mas estou animado. Soube que uns cientistas britânicos fizeram um estudo sobre a dor. Descobriram que dizer palavrões alivia a dor e ajuda a resistir-lhe. Segundo o estudo, as pessoas que se voluntariaram para esta experiência resistiram em média mais quarenta segundos à dor de ter a mão dentro de água gelada a dizer asneiras do que aquelas que teceram considerações acerca de uma mesa… A mim, parece-me óbvio. Mas não sou cientista, nem percebo nada daquelas intricadas medições e infindáveis conjecturas que permitem no fim estas conclusões. Portanto, esta descoberta trouxe-me novo ânimo, para me por à aventura. Ir mundo fora, a dizer um chorrilho de disparates, na esperança que desfaça a dor de partir. Se bem que a partida não tenha de ser sempre dolorosa. Também já parti para me libertar. E é assim que eu quero ir conhecer o mundo. Com o sol a dar-me na cara, e o vento a dizer-me que tenho tudo à espera. Sem arrependimentos.
Por cá também está tudo à espera. Estamos na silly season, e agora nada acontece. Férias. Nem que desabe o mundo. Se doer, sempre se pode dizer umas asneiras, e esperar pela reentré, que já por aí anda.
Nos últimos dias tenho confirmado que percebo mesmo muito pouco de política. Tenho lido nos jornais várias notícias que dão conta de muita gente maldisposta, por causa dos lugares que lhes calharam nas listas eleitorais. Parece que é importante esta coisa dos lugares… E faz sentido, uma vez que, como é fácil perceber, há mais candidatos que lugares. E importa, naturalmente, que calhe um lugar elegível… Já agora…
O que já não me é tão fácil perceber é a razão desta corrida e destas birras eleitorais. Vejo que, afinal, á muita gente disposta a servir a causa pública. A ponto de fazer birra. E de achar que não está a ter a atenção que merece por parte do partido. Há qualquer coisa aqui que está mal.
Servir é, em grande medida, pôr-se a si próprio à disposição. Ora, isto implica humildade, que é uma qualidade pouco apreciada, porque muitas vezes confundida com deixar-se espezinhar… E comporta também um certo zelo, um brio… E uma disponibilidade, claro está. Vejo nos nossos candidatos quase todas estas coisas. Vejo o zelo e o brio. Só não vejo a humildade. Vejo egos feridos. Não vejo que a vontade de servir seja assim tão altruísta. E tenho pena em dizê-lo. Que causa será, na verdade verdadinha, que as pessoas querem servir?... Desde quando é que podemos levar a sério pessoas que fazem birras porque o lugar que o partido lhe deu nas listas não era o que esperavam?... E o partido, com que fito joga com os lugares, de modo a agradar mais ou a conseguir mais votos?... O objectivo do partido, é governar para servir ou conseguir votos? E ganhar com as pessoas certas ou com as pessoas que agradam?... Há qualquer coisa aqui que está mal. Muito mal e muitas coisas… Cheira tudo tão a mofo, tão a panelinha… tão a dejá vu
Claro, não se governa sem votos. E, portanto, visto que eleições não faltam este ano, está quase a abrir a época de caça aos votos. Vamos ouvir as mesmas coisas, ditas pelas mesmas pessoas, ditas já tantas vezes, mas cada um à sua maneira, como se fosse uma completa e nunca pensada novidade. No placard do meu quarto vou pendurar manifestos e programas eleitorais. Não há grande vantagem em tentar compará-los ou tentar perceber o que sugerem de verdadeiramente importante e benéfico. Ficarei, muito provavelmente, exactamente na mesma, como estou agora. Desencantado.
Seria bom que alguém, lá nos meandros do poder, levantasse o dedo, um dia, como que acordando e dissesse: “Isto não está a funcionar assim. Não presta!”
Não presta porque não serve. Servir, senhores. Servir mais que o umbigo.
Não vai acontecer. Há muitos umbigos expectantes. E muita gente de birra.
Continuo a querer ir mundo fora, sem amarras. Mas penso que não irei sózinho. Agora já sabemos que podemos gritar asneiras ao vento e isso torna-nos mais capazes de resistir à dor. Para uns, a de partir, para outros a de cotovelo. Para outros ainda a dor do ego ferido. É provável que veja muitos, caminho fora, aos berros. Já vejo, aliás. Verei mais, na campanha eleitoral, por entre mercados e festas, a berrar a plenos pulmões coisas sem nexo e sem conteúdo. Pura vox. Percebo mesmo muito pouco de política. Ao menos que aliviem as dores. E que eu consiga ir para longe deles. E conseguir ainda encantar-me pelo mundo.
Abençoado estudo.

domingo, 23 de agosto de 2009

O grilo

Havia um grilo na Gare do Oriente. Hoje não o ouvi. Mas durante uma semana, lá esteve, sempre a cantar. Nunca o vi. Seria giro ver a cara das pessoas se me vissem andar à procura dum grilo por ali… Mas não. Só o ouvi cantar, todos os dias, ao subir do metro ou sair do autocarro.
Regressei há pouco de férias, e o grilo encheu-me os ouvidos do mesmo som que todas as fins de tarde e noites me fizeram companhia. Melancolia. Senti falta dos grilos, dos cheiros. Da brisa balsâmica da tarde, depois do dia cálido.
Fiquei a pensar no grilo solitário. No som ininterrupto de chamamento por companhia. Nele, um imperativo da natureza. Por isso não o poderia calar. Na verdade, nós também não… Passamos a vida a tentar mitigar a solidão. Pode estar-se rodeado de gente e ainda assim na mais completa solidão… Sem uma mão amiga ou uma palavra de consolo ou sem alguém que entenda, mesmo sem nunca o dizer.
Voltei às lembranças de infância, como no gafanhoto. Juntei-lhe umas novas. Há dias, alguém me perguntou: “isto são grilos a cantar?”. “Não”, respondi, “são cigarras”. Eram cigarras. Deu-me vontade de rir, mais pela inocência da pergunta do que outra coisa. Confundir cigarras e grilos é possível, sobretudo quando se nasceu na cidade. E pus-me a pensar que tenho muitas vezes confundido cigarras com grilos. Que penso que ouço grilos, e são cigarras. A vida, mesmo quando a achamos injusta ou não gostamos da forma como ela nos trata ou nos corre, não pára de nos surpreender. E de nos ensinar. A mim ensinou-me que apesar de adulto, o caminho não está feito. Faz-se a caminhar, e ás vezes esqueço-me disso. E que as pessoas podem ser sempre um desencanto. E isto gostava que não me tivesse lembrado. O desencanto por alguém é mais triste que o canto solitário do grilo. E também não se cala.

domingo, 19 de julho de 2009

O feno

Ia no expresso para o Alentejo e reparei nos campos, depois do Porto Alto.
Foi já Alentejo.
Vinha a pensar na vida enquanto olhava para o feno já enfardado. Pensei também nos armazéns, todos chineses por ali…Um sinal dos tempos e da globalização, essa onda que varre tudo à frente.
O feno encheu-me de lembranças, apenas ouvidas, de ceifas e de ranchos de homens e mulheres, por entre os quais vejo os meus avós e tias, agora velhinhas, todos com tantas estórias… Ao longe ouço os gritos do feitor, bradando instruções, à medida que se acumulam os feixes de feno, enquanto se vai ceifando a passo, num ritmo cadenceado, parando-se apenas para enxotar uma serpente ou ver um raposo, para limpar o suor que escorre testa abaixo, sob um sol que não se descreve, e se saúda com alegria e alívio a caneca do aguadeiro.
Imagino-me a par com eles, não neto nem sobrinho, mas de foice em punho, sem nunca a ter aprendido a usar, ceifando também a passo, sentido os calos nas mãos, trabalhando e gastando-me para expiar uma culpa recôndita.
Ninguém que não tenha nascido no Alentejo compreende a melancolia que se sente quando se olha para os montes. E se vê os amarelos e os castanhos… O conforto triste da música que o vento faz, e que não se ouve senão na alma. E apetece-me ficar assim, eternamente, com o vento dos fenos e os sobreiros, robustos e atarracados, como se a mão divina os amachucasse de cima, senhores da terra que sombreiam, testemunhas de trabalhos e suor, de conversas e riso e choros, que se gravaram na cortiça dos seus troncos. Além umas azinheiras, redondas, quase femininas, imóveis como os senhores sobreiros de copas enormes. Depois um campo de oliveiras, redondinhas, pequeninas, moldadas à mão e à paciência de artífices de cara queimada do sol.
Quis ir a correr para a sombra e ficar lá, quieto, só a escutar. Gosto muito dos sobreiros. Quem sabe se ficar ali muito tempo, tempo suficiente, e fechar os olhos, a vida dê a volta e se torne mansa, como o borreguinho que além vejo correr para a mãe, enquanto as vacas, cá mais longe, ruminam espantadas com os balidos.
Assim que pus um pé na minha terra a minha alergia deu sinais de si… E enquanto os cheiros me enchem os pulmões e a alma, a febre dos fenos aperta-mos. Mas vale a pena.
Já não me lembrava de ter visto as estrelas.
Vale a pena.

domingo, 5 de julho de 2009

O gafanhoto

Gosto muito de Lisboa vazia. Ao fim de semana, sem ninguém. Em que se podem ver as ruas e olhar para elas, sem nos preocuparmos se vamos tropeçar em alguém, sem que alguém esbarre em nós sem sequer olhar para trás e sem miríades de buzinas e carros.
Não gosto de cidades. Sou e serei sempre um homem da “província”, como cá gostam de dizer (como se não tivessem sido os provincianos a tecer a malha dos que hoje são lisboetas, mas adiante). Quem me tira o Alentejo, tira-me tudo. O cheiro da terra, o céu, o sol, os sons do vento nos sobreiros… O silêncio dos montes, o sossego das fontes.
Mas gosto de Lisboa. Quando está assim, vazia de sábado à tarde. Talvez seja da luz, ou das cores, ou de uma certa acalmia, não sei dizer. Gosto.
Fui passear. Tomar café, ler o jornal e pôr-me a pé pelas ruas.
Vi um gafanhoto.
Primeiro não percebi bem o que era. Só via qualquer coisa a saltitar à frente dos meus sapatos. Depois olhei melhor e vi que era um gafanhoto. Um daqueles pequeninos, amarelados, com que eu brincava quando era criança. “Um gafanhoto… Aqui!”… Deixei-me rir para mim mesmo, atulhado de lembranças, já a correr pela tapada em frente de casa, com uma caixa de fósforos vazia, a atirar-me para cima das ervas secas, de punho bem fechado, até o sentir saltitar dentro da mão. E logo gargalhadas e contagem de gafanhotos, a ver quem tinha apanhado mais. Era assim que eu brincava quando era pequeno, no meu querido Alentejo. Nessa altura tudo era simples, e a vida parecia cheia de promessas, ali, ainda à espera que eu pudesse pega-lhe.
Ri-me do gafanhoto. E de mim, de estar a rir-me no meio da rua.
Depois, perdi-o de vista. Fui à minha vida e ele à dele.
Esta semana o país parou para ver o senhor Ministro da Economia e um deputado tomarem-se de razões. Correu mundo (eu, atónito!) o gesto malandro do senhor Ministro. E desde então, não se falou de outra coisa. Um ror de análises e comentários e pareceres, de gente especializada e dos mais variados sectores fez-se logo ouvir e escrever. O senhor Ministro fez um gesto de chifres a um deputado.
Gostaria de perguntar de porta em porta, por esse Portugal fora e por esse mundo além (parece que, para meu espanto, o gesto tornou-se um acontecimento mundial, só comparável à chegada de Bo à Casa Branca – não, não me canso de gozar com isto) se alguém sabe, ou porventura se lembra, de qual era o contexto em que o episódio aconteceu. Por outras palavras, gostaria de saber se alguém faz ideia do que é que se estava a passar no Plenário. Qual era o assunto que ocupava os digníssimos representantes da Nação.
Estou em crer que as respostas seriam bem poucas. As certas, naturalmente. Porque, como em tudo, são as pequenas coisas e os episódios caricatos que marcam e que ficam na memória. O nome do senhor Ministro ficará para sempre ligado àquele gesto, enquanto o debate sobre o Estado da Nação permanecerá esquecido. Digo permanecerá porque dele ninguém se lembrou. Só se noticiou o gesto. Naturalmente que não é preciso um grande debate para se apurar qual é o Estado da Nação. Mas isso é outra história.
O gesto não foi bonito. Concordo. Perder a calma nunca é bonito. Mas também aceito que seja necessária uma paciência de Job para aturar as tricas, os esquemas, as insinuações, as meias palavras, o jogo político-partidário tão grandemente difundido e posto em prática por cá. E as coisas têm, como é sabido, a importância que se lhes dá…
Talvez se devesse pensar se o erro foi apenas do Ministro. Talvez se devesse pensar se não será necessária uma reforma na forma como se faz a política. Como ela se constrói, se pratica e, sobretudo, como ela deveria servir o País em vez de o envergonhar. Talvez se devesse perder menos tempo nas discussões infindas, inúteis, demagógicas, tautológicas e insípidas com que se ocupam os deputados. Talvez se devesse deixar entrar ar fresco. Cheira a bafio de lá. Talvez faça falta mais ponderação, mais seriedade, menos interesse pessoal e partidário… Mais luz, mais cor, mais genica. Mais simplicidade.
Quem sabe um dia ainda vou ver um gafanhoto no Plenário. E quem sabe se algum deputado não brincou também com gafanhotos em criança, quando tudo era mais puro e cheio de sonhos e promessas. Quem sabe não se lembra. Não reencontra os ideais e os desejos. E não se ri de si mesmo. De se rir com coisa nenhuma e brincar com gafanhotos. E abrir a caixa de fósforos, para soltar a vontade de ser mais e melhor.
Vêm aí as eleições, estas sim para o Governo. Quem sabe não se reencontram a si próprios a tempo? E se enchem das recordações dos porquês que os levaram à política?
Quem dera ver mais gafanhotos por Lisboa.

domingo, 28 de junho de 2009

A Mosca

O Presidente Obama matou uma mosca. Uma mosca! Numa entrevista.
A mosca andava ali de roda, enquanto ele ia satisfazendo a curiosidade do jornalista acerca das questões americanas e mundiais que o ocupam. E o Presidente não esteve com meias medidas. Matou-a. E o mundo pasmou, porque o senhor Presidente dos Estados Unidos matou uma mosca em público. “O Presidente Obama quebrou hoje mais uma barreira”, introduziu o jornalista que teve o gosto de apresentar à Nação Lusa este episódio.
Estou convencido que aquilo é a inspiração advinda do convívio com Bo, ilustríssimo cão-de-água presidencial. Não que Obama precise de se inspirar no seu companheiro de quatro patas. Mas o convívio com aquele exemplar, não português, mas de ascendência portuguesa, que há-de ainda colher alguma da garra e do desembaraço com que nós por cá lidamos com moscas, certamente não foi inócuo. Claro que a garra é nossa. E o desembaraço. Não dos cães. Não quero que alguém pense que desmereço o sangue luso que me vai nas veias. Mas que diabo, se o cão era nosso, quer dizer, neto de um nosso, então há-de ter aprendido alguma coisa… E a um presidente com a estatura e a coragem de Obama só pode convir um cão à altura.
O mundo pasma-se com a desenvoltura de Obama. Faz acreditar de novo que nem tudo está perdido. Mas parece-me que começamos a cair no ridículo com a parafernália de notícias à roda do Presidente…
Que me importa a mim, ou ao mundo, que o Presidente mate moscas?... Talvez ainda se arrisque a uma manifestação aos portões da Casa Branca… Nós por cá gostamos tanto de manifestações e barafustar por tudo e por nada… Pergunto-me se por lá também será assim. Se perdem tempo e energia (todo o tempo) a discutir e a manifestar-se e a reclamar e a trocar galhardetes sobre culpas (políticos e não políticos. Parece ser uma espécie de característica nacional)… Se por lá também discutem, discutem, discutem e depois ficam todos contentes e inchados a dar grandes entrevistas sobre como deram bordoada no governo. E depois, toca a ir para casa, no carrito topo de gama, a fazer contas ao ordenadinho chorudo que o país lhes paga para não fazer nada e só discutir, discutir, discutir.
Há tanta mosca por cá… Custa-me é a ver a garra. E o desembaraço. A não ser que haja um qualquer envolvimento pessoal, que toque na carteira ou no interesse… Aí, somos como leões lançados a cordeiros.
As eleições europeias já foram à quase um mês. Confesso que não dei atenção à campanha eleitoral, a não ser àqueles episódios caricatos que toda a gente viu. Nem eu, nem ninguém. Senão a abstenção não teria sido tão alta…
Mas não entendo. Não gosto de política. Tudo aquilo cheira a azedo, a terrivelmente desadequado, a panelinha, a jogo de comadres… Tudo aquilo me tira a paciência. Mas, ainda assim, é o que temos. Não entendo a atitude de querer ficar quieto. De fora. Como se não fosse nada connosco. E quanto mais se ignora, mais se alimenta o status quo… E assim vamos alimentando as moscas.
É engraçado ver a azáfama dos partidos a colocar cartazes e a distribuir panfletos. É giro vê-los a dizer sempre as mesmas coisas, embrulhadas em “ideias” novas. “Queremos mais! Mais votos, mais lugares, mais deputados, mais filiados, mais povo português do nosso lado”. Mais votos quer dizer mais subsídios para o partido… Quando pensamos na lógica da coisa, não é difícil perceber onde está o verdadeiro interesse. E “onde está o teu tesouro, aí está o teu coração”… Tantas moscas…
Apesar de já ter passado quase um mês, as ruas, pelo país fora, continuam cheias de cartazes de propaganda. Gostava de ver a azáfama dos partidos a retirar os cartazes, com o mesmo empenho e brio com k andaram ai a espalhá-los… “Ah, não, isso já não é da nossa responsabilidade”… E será que ainda se lembram do programa eleitoral? Das ideias pelas quais se vão bater em Bruxelas?...
“Bem, o governo…” Mas qual governo? Eu perguntei das europeias, não do governo… “Ah… as europeias”…
Pois, ninguém sabe. Eu fui votar. Mas também não sei. Foi um descargo de consciência cívica. Esperemos que os ilustres deputados saibam, já que nós por cá, ficamos completamente às escuras. Ou teremos que chamar o Presidente para matar as moscas?
Garra, senhores. Garra. E desembaraço.

sábado, 30 de maio de 2009

Patés "ao vapor"

Descuramos muito a contribuição da imprensa cor-de-rosa para a felicidade no mundo. O seu papel na forma como nos pomos ao corrente das mexeriquices do dia-a-dia e da vida alheia e tomamos consciência dos passos dados e nãos dados de famosos, pseudo-famosos, quase famosos e afins. Foi nas leituras diárias do espaço cor-de-rosa dos jornais gratuitos, dos quais sou firme adepto (tanto mais que não tenho dinheiro para comprar um jornal todos os dias), que eu fiquei ao corrente de coisas tão importantes como o facto da protaganista do filme “Marley e eu” se dar ao luxo de mandar vir de propósito o seu cabeleireiro para o local das filmagens para tratar do seu cabelo, gastando mais num mês destas viagens do que eu provavelmente ganharei em toda a vida a trabalhar num call-center; que a cantora Beyoncé faz exercício físico a olhar para um poster dum óscar e que uma marca de comida para gatos decidiu lançar uma linha exclusiva de patés “ao vapor”...
Poderia desfiar um ror de notícias absolutamente fundamentais para nos fazerem sentir melhor. Claro, muita gente dirá que o objectivo destas notícias é precisamente tornar a vida menos feia, menos dura, com mais glamour e tal... E eu digo: a vida não é menos feia e dura por bisbilhotarmos a vida dos outros. Aliás, creio que a bisbilhotice é um rápido caminho para o boato e, portanto, para se meter o nariz onde se não é chamado. Já para não falar na questão da futilidade. Não entendo como sonhar com uma vida em que o cabelereiro anda de trás para frente para fazer as vontades pode ser um exemplo. Naturalmente, as pessoas são mais do que isso, e este é apenas um exemplo (triste), de um aspecto particular, da vida da pessoa. Há outros aspectos, mais importantes, que fazem desta actriz ou de outra qualquer pessoa visada nestas notícias sociais, pessoas únicas e irrepetíveis. Exactamente os mesmos que fazem de nós, cada um de nós, seres únicos e irrepetíveis. Mas então porque não nos concentramos nisso? No que é fundamental?... Porque preferimos o acessório ao fundamental? Andamos todos a precisar de patés ao vapor. Quem sabe assim começamos a depurar mais o paladar, como os gatos. E ficamos mais alerta para aprendermos a escapar a essa terrível tentação de meter o nariz na vida dos outros. Era bom não era? Patés ao vapor para todos.