quarta-feira, 11 de maio de 2016

Chuva, rostos e exoplanetas

Saí para a rua apesar da chuva. Apetecia-me ver gente. Gente. Apressados, para cima e para baixo. Uma nuvem de guarda-chuvas, impermeáveis, corta-ventos. Tudo em passo ligeiro. Também me apressei, porque não tinha guarda-chuva. Entrei no metro. Na minha carruagem estavam quatro raparigas e um rapaz, com três gerberas na mão, galhofando. Não sei porque razão levavam as flores. Um grupo de alunos em praxes entrou de penico azul na cabeça, saudando “A Matemática deseja-lhe boa viagem”, e em cada paragem “A Matemática deseja-lhe um resto de bom dia”. À frente, uma senhora ria-se. Quando saí, o grupo das flores ainda ficou na galhofa... “Deseja-lhe um resto de bom dia”...
Na rua, apenas os locais parecem incomodados com o aguaceiro. Por todo o lado turistas passam descontraidamente, mapas nas mãos, máquinas fotográficas e olhares boquiabertos para aqui ou para acolá. Um sorriso, um dedo a apontar, também eles de impermeáveis de cores berrantes e chapéus na cabeça ou guarda-chuvas, prosseguindo o seu périplo. Sorri para mim mesmo: é assim que parecemos aos olhos dos outros?
A mim apetecia-me a luz da cidade, a bater nas gentes, nas ruas, nos turistas e nos guarda-chuvas... Finalmente, lá acabaram por vir uns raios de sol, num breve período sem água. Iluminou-se a rua e senti-me bem, apesar de andar na cidade. O ar acabado de lavar pela chuva encheu-me os pulmões.
Subitamente, no infindável conjunto de rostos em permanente movimento pelas ruas, caras conhecidas do facebook ou doutras aplicações. Qual a possibilidade disto, pensei. Cumprimentei com um sorriso, ante uma cara estupefacta. Não me reconheceram. Não admira. Não nos conhecemos, nem sei nada deles, a não ser toda a sua vida exposta nas redes sociais, acompanhando as suas partilhas. Sinto-me desta maneira ou daquela; estou aqui ou acolá; a fazer isto ou aquilo... E eu vou acompanhando aquilo, fazendo scroll-down, scroll-down, scroll-down, numa leitura de fotonovela moderna, acabando por conhecer a vida das pessoas, sem as conhecer. Sei delas nada, a não ser tudo. Que coisa esquisita. Mas percebi que este reconhecimento não é mútuo, perante o espanto do meu cumprimento ou acenar de cabeça, e remeti-me novamente ao silêncio contemplativo da luz nas ruas e nos chapéus-de-chuva. Para essas caras eu sou um perfeito desconhecido. A solidão da minha vida estende-se também às redes sociais.
Depois disto fui ver a minha rede de “amigos”. Nada mal, para um solitário, pensei. Quando publico qualquer coisa há sempre uns likes, poucos é verdade, o que atribuo ao facto dos meus interesses serem peculiares e certamente muito diferentes dos da maioria das pessoas. Ainda assim, lá vão aparecendo alguns, seja quando desabafo qualquer coisa ou quando publico um texto qualquer no blog, sendo que desses poucos me pergunto quantos, realmente, lerão o que escrevo e se esses likes não serão apenas automatizações de simpatia vazia. Mas se não ligam nenhuma às coisas que gosto e digo, para que raio me seguem, pergunto-me eu?
Refugiei-me numa livraria, pequeno santuário, até porque, entretanto, começou novamente a pingar e me aborreci com as caras que só eu reconheço. Qual é a possibilidade disto acontecer, hã?, voltei a perguntar-me, enquanto o olhar deambulava pelas capas nos escaparates. Fugi rapidamente para uma secção onde pudesse haver algo que me interessasse. Acariciei dois ou três volumes, li umas sinopses e voltei assim reconfortado para à rua. Comprar nem pensar, porque não tenho dinheiro. Tenho de me contentar só a ver. À saída, mais uma cara conhecida – mas que é isto? - a quem nem pó, nada de cumprimentos, e o olhar esbarrou-me num dos best-sellers actuais. Serviu para me irritar. Como é possível alguém que nem escreve assim tão bem vender tantos livros e eu nada! Oh, como eu queria poder viver da escrita. Quase me apetece chamar por Deus, como se ele me resolvesse alguma coisa. Não é um talento. Não tenho talento nenhum. Tenho é paciência para escrever, para deixar que as palavras que volteiam na minha mente levem tempo a quererem ser escritas. Mas viver disso?... Como?
Anda lá, publica o livro. Tens tanto jeito... - a pior coisa se pode dizer a um escritor é que tem jeito. Muito incentivo. Vai correr bem. E eu lá fui. Mendigar para arranjar o dinheiro necessário. Decidi-me por um ebook. Bravo, bravo! Parabéns. Que bom, que bom! Tão contente por ti que estamos. Like, like, like. Mas intimamente, uma tristeza, contrastante com o sol a iluminar as ruas: um exemplar vendido. Um. Apenas um. Uma carta simpática do editor, a dizer que, lamentavelmente, não há lugar a pagar-me nada e, abaixo, uma tabela de excel com resumo de vendas: uma linha. Um exemplar vendido. Bravo, bravo! Parabéns ao fiel leitor que tem um exemplar único. Fosse ele de papel, e eu assinaria a dedicatória: para o meu mais fiel e único leitor. E aquele fulano, abre a boca e vende 10 edições com livros de caca. Inveja, pois. E pena. Leiam, leiam enormidades criaturas ocas. Leiam. À conta de tanto ler, pode ser que aprendam. Há esperança. Muito obrigado a tanto incentivo.
 Sabes, gostava tanto de ler o teu livro... E eu lá vou dizendo: deixa estar que te mando um exemplar. Assim como assim, ninguém o compra. Automatizações de simpatia... “Deseja-lhe um resto de bom dia”... Não sei que mais posso fazer para poder viver da escrita. Nas ruas tanta gente... Reparei então que a infelicidade nos rostos condizia com a minha, por entre impermeáveis e raios de sol, havia quem risse, bem disposto, a falar ao telemóvel. Outros, sem olhar para onde iam, escreviam mensagens ou iam “chateando”. Outros, olhos nos chão ou olhos cravados em coisa nenhuma, distantes. Aqui e ali, uns sapatos pouco cuidados ou roupa gasta contrastava com os bem vestidos da roupa da moda, tudo muito estilizado, calças slim ou skinny ou outras que não consigo padronizar, botas ou sapatos a condizer, impermeável ou corta-vento de bom gosto e penteados actualíssimos. Tudo muito urban chiq. Senti-me deslocado. E cansado.
Enfiei-me no autocarro. Entrou também uma cigana com uma filha. Acabou-se o sossego, pensei. E não me enganei. Pegou no telemóvel e fez chamadas atrás de chamadas, pedindo a uns, cobrando a outros, voltando a chamar os primeiros, prometendo a outros ainda, com a filha a anuir e a dar opinião naquilo tudo. Em cada conversa, uma mentira e uma versão ligeiramente diferente da anterior. Um jogo de espelhos e enganos. Naqueles telefonemas, passou de mão em mão mais dinheiro do que eu ganhei no último ano a trabalhar. Tudo através das mãos dela. Pensei que deviam dar um cargo de gestão qualquer àquela mulher. Ou chamá-la para negociar com os nossos “parceiros”... Não deve haver expressão mais hipócrita do que chamar “parceiros” a credores e profissionais da dívida dos países. Outro telefonema e fiquei a saber que trazia umas coisas para vender. A filha também, que entretanto pegou no telefone e foi desfiando a quantidade de sapatos de fulana; as blusas de beltrana, o telemóvel de citrano... Mas ela nada. Tinha medo. Só umas coisitas para ela. Desta vez, nem os ténis, porque não havia o número dela, ante o olhar embevecido e algo orgulhoso da mãe, que lhe dizia que até sábado haveria de haver o número que ela queria. Há qualquer coisa de extraordinário no confinamento forçado de um autocarro, em que as pessoas tratam dos seus assuntos privados como se mais ninguém estivesse a ouvir. Fiquei com a certeza que a problemática associada aos ciganos não se vai resolver. Nem a xenofobia. Pode atenuar-se. Resolver-se não. E nem sequer lhes convém: vivendo num sistema social no qual não se integram mas do qual beneficiam e reivindicam direitos, sem nenhum compromisso pelos deveres e obrigações associados. Para eles, “os brancos” são um imenso mar de oportunidades de negócio. Uma sociedade paralela na qual se movem com mestria. A razão pela qual nada disto desaparecerá é porque até esta simples opinião minha contém, ela própria, algo de xenófobo.
A conversa entristeceu-me ainda mais, ao mesmo tempo que me mostrou duas coisas: o patético da minha vida e o cansaço de uma vida de nadas.
 Tenho saudades de Lisboa. Tantas saudades. E de uma vida. Tenho saudades de uma vida.
Cheguei cansado. As ruas escuras vazias, só de casas e luz de candeeiros, despidas de qualquer agitação. Enchi os pulmões do ar quase bento de tão lavado. O coaxar das rãs encheu-me os ouvidos, apagando por completo a balbúrdia das gentes, dos impermeáveis e dos guarda-chuvas.
 “A Matemática deseja-lhe um resto de bom dia”.
Se houver um like, apenas um, seja de alguém que realmente leu. Leu e percebeu a solidão de um escritor. Não sei se quero likes de automatizações simpáticas. Nem sequer sei se quero continuar a encontrar caras conhecidas de redes sociais ou outras aplicações. A ironia é que vou continuar a tê-las, porque ninguém lê patavina do escrevo. Seria a minha sina, se acreditasse nela ou fosse fadista.
Entretanto, a NASA anunciou que se encontraram mais de 1200 exoplanetas e que alguns poderão ter vida. O maior achado da história, li ontem em qualquer notícia. Talvez seja. Pela minha parte, vou continuar a escrever e descrever as idiossincrasias que tecem este mundo. É o único que conheço. Ainda que hoje esteja algo desiludido com ele. Não com o mundo, como é óbvio. Com o meu mundo. A infinidade de mundos dentro do mundo também deveria espantar os cientistas da NASA. Fico a desejar que não percam a capacidade de se admirar com o que está à frente dos olhos. Quando se olha muito para longe, pode perder-se a capacidade de ver o que está perto.
Entretanto, lá fora continua a chover. Talvez seja bom para as gerberas. De sede, não hão-de morrer.
Tantas saudades de Lisboa. E de uma vida.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Da ingratidão e outras coisas

Deveria, talvez, agradecer a todas aquelas criaturas que, passando pela minha vida, a fizeram negra. Deveria mesmo. Aos que me magoaram; aos que me traíram; àqueles que me enganaram; aos que se aproveitaram da minha boa vontade; aos que estendi a mão uma e outra vez e me voltaram costas quando já não era preciso ou então quando eu próprio precisei duma mão. Aos que perdoei para voltar a ser enganado novamente. Aos que fingiram ser meus amigos. Aos que fingiram gostar de mim, sei lá com que propósito. Deveria, certamente, agradecer a todas essas criaturas. Sim, o meu muito obrigado. Foi graças a todos vós que me tornei a pessoa que sou hoje. Continuo, talvez ainda, demasiado crente na bondade do género humano. Terei de dar razão ao senhor Hobbes que, por ser inglês, como comentou certa vez um amigo, nunca se fiou muito nessa conversa dos franceses acerca da bondade natural do homem. Este comentário faz-me sempre rir. Por eu próprio, muito embora não em demasia, também crer qualquer coisa na bondade natural do homem. Ao menos, pela esperança no género humano. Homo homini lupus. Apesar dessa minha ainda pequena crença, quase já só uma centelha, sou hoje muito mais cauteloso, desconfiado e cínico, quanto às intenções dos outros. Muito obrigado pelo vosso excelso contributo.
Claro, há um reverso desta moeda. É a natureza das coisas. Há sempre um reverso. Tornei-me igualmente frio, insensível (não tanto) e mordaz. Profundamente pragmático. O preço que pago, diariamente, por este status quo é estar sozinho. E com gosto. Obviamente que há uma parte pessoal, só minha, a contribuir para isto. Somos sempre nós e a nossa circunstância (meu Deus, que saudades da boa Filosofia). E eu não sou excepção. Vós, a circunstância (ou parte dela). Eu, a minha parte. Ambos fizémo-nos a mim próprio.
Estar sozinho é, já o disse muitas vezes, uma escolha (consciente e muito pensada) e um privilégio. Tenho a subida honra de estar comigo próprio e não impingir o tamanho do meu Ego a mais ninguém. Porventura, seria penoso para os circunstanceantes. Tornei o meu Eu uma fortaleza. Não é fácil afrontar-se a isso. Assim, sigo sozinho, moldado por traições, desilusões, desapontamentos, quebras de confiança, ingratidão (ah, tanta!) e também, ainda, por sonhos, aspirações e desejos que me pro-jectam.
Sou Eu. Eu e a minha circustância. Perdoarão os meus reduzidíssimos leitores, a matiz tão profundamente filosófica de hoje. Anima-me, contudo, saber que o número de pessoas que lerá estas palavras é tão pouca, que muito poucos consternará. Lamento, mas é assim. Seria um Leviathan, propriamente, não fosse enfiar este meu Eu num espartilho de bom-senso e usos e costumes e padrões e convenções sociais e legais mais ou menos estabelecidas. Pois ainda bem que os há. Seríamos todos uns monstros de proporções animalescas não fosse assim. Eu em confronto perene, bellum omnium contra omnes. Talvez por isso me pergunte: se Eu, moldado por tanta desilusão provocada por tanto safardana que me tem passado na vida, sou capaz da contenção própria do viver em sociedade, uns com os outros (goste-se ou não), como não são os outros submetidos a estes jugos tão imponentes? Como pode aceitar-se a violência gratuita e malvada entre adolescentes, no que agora se chama bullying?...
Há tanta coisa que eu poderia descrever agora... E há tanta coisa que eu queria ver metida nestas cintas sociais que nos permitem viver em sociedade. Mas falo só nesta. Se agora, que ainda sois tão pequeninos, e em que tudo vos é entregue em bandeja de prata, tudo facilidades na vida, sem qualquer espécie de contrariedade, ocupais o vosso bendito tempo a humilhar os outros, a molestá-los e a violentá-los, quando mais tarde vos aparecerem pela frente as criaturas que vos hão-de fazer a vida num inferno, que fareis? Matá-los todos? Pois sim. Talvez seja.
E depois?
Homo homini lupus.
Obrigado aos ingratos pela inspiração por estas palavrinhas.
Obrigado aos pacientes, que foram gentis o suficiente para me lerem hoje.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O outro lado dum estalo

Foi divulgado hoje mais um vídeo de bullying. Ao que parece, já aconteceu há cerca de um ano, a gravação de treze longos minutos onde se vê um adolescente a ser agredido sobretudo por duas raparigas, também adolescentes (vou escusar-me a comentar os trajes das pequenas) e rodeados por mais uns quantos espectadores, participantes em maior ou menor grau, desde risos idiotas a comentários estúpidos, ao acto de segurar as mãos do agredido, não esquecendo, claro está, o extraordinário operador de câmara, que fez a fineza de registar em imagens tudo aquilo. É impossível não ficar chocado. Ou não se sentir ultrajado, compelido quase a desejar dar uns bons tabefes, mormente às duas autoras/incitadoras. É sempre assim no calor das reacções. Pela minha parte, quase desejei uma boa aplicação da Lei de Tabelião... Impõe o bom-senso (além da maturidade e da civilidade, já não falado do sentido de justiça), contudo, que a reacção tenha de ser outra. Que se tente compreender os porquês, as razões, as circunstâncias... Que não se façam juízos sumários nem arremedos de linchamentos. Visionar o vídeo permite perceber que terá havido qualquer atitude ou acto por parte do agredido que as raparigas e o seu grupo não gostaram. Não sei se houve, se não. É estranho também a falta de reacção do jovem... Medo?... uma iniciação qualquer?... um castigo?... Não se percebe. Para mim são estranhos também os diálogos entre o agredido e uma das agressoras, sobretudo, entre as séries de estalos e murros... Também me custa compreender o porquê de a certa altura um outro rapaz achar que era preciso segurar as mãos ao agredido, impedindo-o de se defender... É aí a primeira vez que o agredido reage. Há, portanto, um conjunto de circunstâncias pouco perceptíveis. Fiquei sem compreender a razão das agressões, pelo que me parece que se tratou de violência gratuita. Também não sei se sim, se não. Isto ou alguma coisa do que acabei de descrever. Poderia continuar a descrever outras coisas que para mim são pouco claras. Mas para mim, há dois outros pontos muito mais importantes: o facto da principal agressora estar, efectivamente, a tirar gozo da situação, ou seja, a gostar do que estava a fazer, com o conluio e a conivência dos restantes, e a reacção, apática primeiro, de medo a seguir, do jovem agredido. Esta última entendo muito bem. Qualquer vítima de bullying o entende. A primeira é que me assusta. Assusta-me saber que raparigas adolescentes (talvez 15 ou 16 anos?...) e rapazes gostem, efectivamente, de humilhar outros. Claro, sempre houve rixas de rapazes e até de raparigas. As redes sociais potenciam, porventura, este fenómeno. E, honestamente, acho que as rixas de anteriormente não podem ser comparados ao grau de violência desta (ou destas porque este é apenas um, o comentado no momento, dos episódios de bullying por esse país e mundo fora), por ser gratuita e condutora de um grau de satisfação tão grande para os agressores. Entretanto, publicou-se o vídeo feito há um ano. Como terá sido a vida deste jovem (o agredido) no último ano? Com que sequelas tem vivido? Como têm sido os seus silêncios?... Como tem encarado a suas agressoras? Quantos mais socos terá levado (ou já tinha levado antes)?... Porque será que tenho uma impressão que aquela não foi a primeira vez?... Quantas vezes reviveu ele aqueles estalos e socos? Há o outro lado. O dos agressores. Estranho publicar-se uma coisa destas nas redes sociais. E esperar um ano... Porquê? Porque razão agora? A mais evidente prova de que o raciocínio é algo que se constrói e não está todavia plenamente em funções na adolescência. Parece também que a polícia (entretanto apresentaram-se queixas) já conseguiu identificar oito agressores. Os psicólogos alertam que também os agressores estão em sofrimento. E estão certamente. Por muitas razões, pessoais, mas algumas que posso adivinhar: terem sido identificados pela polícia, a quantidade de mensagens desagradáveis nas redes sociais, os dedos apontados... O desconhecer ainda das consequências do que fizeram (têm feito?...) Nem todo o sofrimento é mau. Sobretudo se isso implicar o assumir das consequências dos seus actos, cobardes, execráveis e indignos da condição humana. Nem tudo é claro no vídeo de treze minutos. Ficam-me dúvidas. Tenho, porém, uma certeza: nunca é bom descobrir-se o outro lado de um estado.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

A creche parlamentar, as subvenções e o chocolate

Vivemos tempos conturbados. Terríveis mesmo. Fiquei em pânico com a notícia de que o chocolate, consumido ao ritmo actual, se extinguiria... Evidentemente, quando se está em pânico, não se pensa nas incongruências do que se lê ou ouve... Como poderia o chocolate extinguir-se?... O que ele será, e muito em breve, é um bem de luxo, devidamente taxado e reservado a um número muitíssimo menor de carteiras. Haverá, depois, um sucedâneo qualquer do bom chocolate para nós, gente simples e pequena. O verdadeiro, esse, haverá por certo de estar reservado aos donos disto tudo... Se os houver entretanto. Disto, não tenho agora qualquer dúvida. Qual extinção, qual quê. O que há é um interesse em fazer dele uma coisa pouco acessível, um prazer esquivo, um deleite de elites. O resto, contente-se com o sucedâneo. Sou capaz até de pensar numa grande fábrica de sucedâneos para a gente miúda. Outra, muito mais distinta, muito asséptica, cheia de Oompa-loompas, atarefadamente guardando e apurando o Chocolate. Nós teremos apenas acesso a aparas medíocres; ou a pequeníssimas porções tiradas em rifas ou ganhas em lotarias ou euromilhões. No limite, far-se-á dele, do néctar de Quetzalcóatl, o próprio euromilhões, transacionando-se não moedas mas barras do precioso material, guardando a Fazenda, como convém, vinte por cento dele.
Médicos e terapeutas desvelar-se-ão na defesa e apregoamento das qualidades do Chocolate; dos seus benefícios; do paladar libertador de emoções. Os programas das manhãs e das tardes hão-de ser interrompidos para se publicitarem aqueles magníficos quadradinhos, em vez de comprimidos de cálcio, cogumelos, vitaminas e toda a espécie de coisas irrelevantes que agora fazem crer às pessoas serem milagrosas. As Chocolaterie tornar-se-ão todas gourmet e a ASAE velará pela qualidade com ferocidade canina. Padrões altíssimos de fineza, textura e cremosidade rivalizarão com as tabletes da Vaca lilás. A própria Vaca lilás será vigiada noite e dia para evitar o contrabando. E, enfim, os banqueiros, hão-de controlar os spreads e as taxas de juro desse bem escasso, distinto e de elite, que só a poucos, donos disto (quase) tudo a ele poderão aceder. Comer um quadradinho será tão sublime que um êxtase o não poderá descrever. Haverá, por certo, experiências místicas.
Bem diferentes, seguramente, daquelas que por estes dias vamos tendo. Nada místicas.
Das coisas mais extraordinárias nesta tipologia social que construímos e na qual vivemos (a importância de dizer isto é para que se perceba que a culpa do que está bem ou mal é dos intervenientes – como o direito de antena - e não doutros: somos nós que fazemos a sociedade; ora se está mal, de quem será a culpa?) é a efemeridade. Parece estranho. Mas assim é: a característica mais vincadamente distintiva da nossa sociedade é o ser efémero. Há outras, evidentemente. Mas gosto desta. Veja-se, por exemplo, a comédia parlamentar. Perdão: a vida parlamentar. Um theatrum, no verdadeiro sentido latino da palavra. Ali se põe e contrapõe; se diz e desdiz; se aprova para logo depois se desaprovar; se governa para melhor desgovernar. E neste jogo, vulgarmente conhecido por política, se vai mexendo na vida daqueles que é suposto representar, mas que, evidentemente, não representa. Será, por ventura, essa a falácia do nosso sistema democrático, cuja única representação é a dos partidos que lá têm assento. De vez em quando, porém, este jogo de cavalheiros azeda. A questão é simples: todos opositores e, no entanto, todos cooperadores... Do sistema; das suas falhas e lacunas; das suas incongruências... Quase todas bem conhecidas e estudadas e cirurgicamente mantidas. A razão de ser disto é a extraordinária dificuldade na absoluta rectidão e na recusa peremptória e completa de qualquer benesse. Lamentavelmente, precisaríamos de santos na casa do parlamento. Ainda assim, há um mínimo de entendimento cavalheiresco para que as coisas possam ter uma aparência de funcionalidade. Que acontece, então, quando há um desacerto nesta bem oleada engrenagem de aparências? Uma das coisas é problemas de microfones, numa cena digna de qualquer cresce por este país fora. É em momentos destes que me pergunto quanto tempo mais viveremos apática e comodamente incapazes de dizer basta... Ou então, aos meus olhos mais plausível, quanto mais tempo até pequeníssimas coisas serem alteradas de modo a limitar a liberdade de ver cenas daquelas... E continuarmos, cegamente (e aí já pateticamente) a crer na bondade de um sistema altamente permeável à corrupção e das pessoas que nós, bons votantes (e fiéis) lá colocámos... Digo colocámos porque virá o tempo, talvez quando o Chocolate for controlado pela finança e for transformado num bem de luxo e retirado à pequenez comum (até de espírito) em que vivemos, em que seremos dispensados deste aborrecimento que é votar e ter de escolher pessoas novas, quando as que lá estão servem perfeitamente. Despoticamente nos será dito; servilmente nos parecerá certo. Nascem assim as coisas déspotas. Um pouco como a mística do Chocolate. E em vez de deputados serão Oompa-loompas atarefados a legislar na nação, apenas, eles próprios, para servir fielmente aqueles iluminados que, enfim, escolhidos pelo seu superior chico-espertismo, nos levarão à mais absurda porém alegre miséria. É aqui que entra a efemeridade: esse pequeno número de luzeiros há-de continuar a espremer este modelo social de tal forma que irão caindo, em redor, as vítimas. Será, então, a única forma de manter as massas obedientes e conformes: dar-lhes bodes expiatórios. Fazer-se servir de alguns mais afoitos, que se acham comensais na chico-espertice; sugá-los até ao tutano e usá-los para serem eles os maus da fita. Serão então lançados às vociferações mundanas das massas. Muito raramente, porém, cairá em descrédito um verdadeiro mau da fita. A razão disso é porque, dentro daquele pequeno círculo, há-de haver sempre o pecado da inveja. E o que este faz é querer apoderar-se do bem do outro. Então, desprovido da sua aura de poder, cairá em desgraça. Com ele arrastará outros. Cortar-se-ão cabeças para contentar as miudezas, gritar-se-ão escândalos; agitar-se-ão os ânimos para amainar os pequenos e tudo seguirá igual.
Tudo começa, por estranho que pareça, com uma guerra de microfones; deputados que se portam como crianças e problemas de subvenções a ex-deputados. Junte-se uma boa multidão de gente inerte e pouco atenta e, não tarda, os países estarão a ser novamente governados por ditaduras e o chocolate estará a ser controlado pelas agências de rating, que são, na verdade, quem governa os países, como se sabe. Quem não sabe, que abra os olhos. Se queres comer chocolate, abre a pestana.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

In memoriam

Tenho-me esforçado por encontrar a primeira memória que tenho de ti, querido Avô. São tantas, todas ligadas a momentos bons de infância, e também aos difíceis, onde te encontro sempre presente, que me vejo sem saber qual é exactamente a primeira... Talvez a minha memória ande a dar os mesmos sinais dos fios de barba brancos que tenho visto surgir. Talvez. Ou então talvez toda a minha vida seja uma memória tua e da Avó e, portanto, é difícil centrar-se numa só memória. Insiste, ainda assim, em vir-me à ideia uma imagem. Nós dois, a descer a nossa rua. Tu sempre bem-disposto, a boina ligeiramente ao lado, colónia de lavanda, uns sapatos engraxados, as calças de risca e a camisa branca de quadrados. O relógio de bolso muito bem posto no bolso. Não sei donde vínhamos. Íamos para casa e, à porta, estava o sorriso daqueles olhos verdes da minha Avó, à espera. Lembro-me de me sentir muito contente, inchado de orgulho do meu Avô. Aos meus olhos eras possante. Podias tudo; eras capaz de tudo. Parecias-me gigante, quando me apanhavas do chão e me punhas ao colo.
Lembro-me de pensar nisto muitas vezes durante a tua velhice. À medida que te via ficar cada vez mais pequeno; curvado, trôpego. Quando começaste a ter por companheiro inseparável o “castanho”, aquela bengala que tanto gostavas. Falava-te nisso e tu rias. “É mesmo assim”, dizias-me, sem qualquer mágoa ou tristeza. Aceitaste a doença, a velhice, os contratempos da vida, a perda da filha, a viuvez. Sempre levantaste a cabeça. Nunca te vi desistir. Contigo aprendi a determinação, mesmo que tantas vezes a não consiga ou saiba por em prática.
Contigo aprendi também uma grande parte do homem que hoje sou. Contigo e com a Avó. De ti aprendi o orgulho no trabalho. Estiveste sempre ao meu lado nas minhas decisões e opções, mesmo que não concordasses com elas. Foste o primeiro a dizer-me que a vida de padre não era para mim. Mas ainda assim, estiveste sempre do meu lado. Entendias que estudar não bastava: um homem que não saiba usar as mãos não é homem. E foi assim que contigo aprendi a usar um serrote; a entender uma árvore, a ajudá-la a frutificar mais, a cuidá-la; a manejar uma enxada, uma colher de pedreiro, um martelo... sei lá que mais. Contigo aprendi a satisfação de fazer coisas com o meu próprio trabalho e a orgulhar-me disso. Contigo aprendi a honra, a determinação, a força interior.
Nos últimos meses, trouxe-te o Túlio, o gato endiabrado que tu tanto estimavas e mimavas e que te arrancava gargalhadas. Guardo-as junto de tantas e boas memórias que fico de ti, querido Avô. Tive o privilégio de te ter presente na minha vida até agora. Nestes últimos tempos, foste descaindo. Tu também sentias. Foste ficando mais dependente. Foi honra minha cuidar de ti até ao fim. Velar por ti. Estar sempre presente. Atender aos teus caprichos, vontades e, sobretudo, necessidades. Uma pequenina parte do que sempre foste na minha vida: um exemplo, um refúgio, um enorme amparo mas, sobretudo, um amigo.
Vou sentir-te a falta. Não mais te verei descer a nossa rua, com o “castanho”. Não mais comentaremos as travessuras do Túlio; a política; as notícias. Não haverá conversas, a não ser em silêncio, de mim para ti. Partiste cedo demais, apesar da tua muita idade. Mas estarás sempre, até que a minha vida se acabe, junto de mim. Espero saber viver a minha vida com a mesma determinação, coragem e força interior com que viveste a tua. Descansa em paz, querido Avô.
                                                                                                                                6 de Outubro de 2014

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Da visita

Caro Jean-Claude,

Perdoará esta intimidade. Bem sei que não é de bon ton tratar um desconhecido pelo nome de baptismo, tanto mais a uma pessoa insigne, quase egrégia, tal o número de ordens, comendas e prémios que, julgo saber, têm sido agraciados a V. Exª. Já vê, o seu sobrenome, notável, por certo, soa-me terrivelmente parecido a esquentadores e eu não consigo falar para esquentadores. Mais uma falha que confio ao seu perdão. Fosse eu um S. António e falaria com esquentadores como quem fala com peixes. Mas não, lamentavelmente, sou apenas um desconhecido e desempregado cidadão português. Não faça, pois, caso destas minhas incapacidades. Escrevo para lhe agradecer a amável visita. Soube, pela imprensa, que esteve por cá a mostrar apoio ao seu correligionário Passos e aos seus fidelérrimos aliados da AP (a ápê, assim carinhosamente designada pelo Prof. Marcelo, outro ilustre, que não pára de lhe fazer elogios a si). Naturalmente, enquanto apoia Passos por cá, ele apoiará o Jean-Claude por lá, porque estas coisas de apoios são mesmo assim, bem sei. E não está mal pensado. Espero que tenha gostado de ver a fábrica das massas, coisa que por cá pouco abunda, graças ao sucesso do programa de ajustamento, que o Jean-Claude tão sorridentemente aplaude. E que lhe tenham enchido as vistas os tomates em Mafra, se bem que também não foi nada de bon ton que ninguém lhe tivesse dito (estas coisas requerem uma certa preparação mental) que não haveria políticos de fato azul, mas uma miscelânea, desde os saltos altos da também sua camarada de ideias Cristas, ao panamá e camisa aos quadrados do também correligionário Portas. Foi simpático ouvi-lo dizer que se sente em Portugal como em casa, numa referência à quantidade de lusos que vão para o seu país. E que sente o cheiro de pastéis de Belém pela manhã. Pareceu uma coisa idílica. Mas deu uma nota de boa disposição e proximidade. Foi muito bom para a sua imagem juntos de nós, portugueses, Jean-Claude, embora um tudo nada piroso... Aqui pergunto-me se não terá sobreposto a sua própria campanha à dos seus amigos. Aliás o Prof. Marcelo disse logo que ia votar na ápê porque queria votar em si... Mas nada de grave. O que importa é que haja fotografias de gente sorridente e bem-disposta, se possível com champanhe. Os rapazes que veio apoiar têm o champanhe em grande conta. Lamento, contudo, Jean-Claude, e com pesar, que não lhe tenham mostrado o país real. Bem vê, veio visitar um país e apresentaram-lhe outro, cheio de nuisances e coisas de um pitoresco notável, muito ao estilo dos jogos de férias que a nossa elite se dedica a fazer na Comporta, durante o estio da silly season. Nome mais apropriado, não concorda? Tenho pena que não lhe tenham falado, sem demagogia, claro, dos cerca de 340 mil portugueses que abandonaram o país desde 2011 por não terem como encontrar um emprego, muito incentivados numa primeira fase do mandato pelo seu amigo Passos, que depois foi deixando cair a coisa, porque percebeu que as pessoas tinham levado a mal aquilo de os mandar imigrar (100 mil em 2011; 120 mil em 2012 e estima-se que outros tantos no ano passado. Números redondos, bem entendido)... Que não o tenham levado a ver as filas das pessoas que esperam à porta das instituições por uma refeição. Que não lhe tenham explicado, do ponto de vista cristão que tanto estima no campo político, as consequências nefastas que esta situação provoca nas crianças que acompanham os pais nestas filas; o estigma; a vergonha disfarçada... Imaginará, psicologicamente, o efeito nessas cabecinhas? E nas cabecinhas dos pais, que não têm forma de sustentar os seus filhos? Que não lhe tenham exposto um outro retrato do nosso Portugal, de quem se sente tão próximo e que é este: a enorme percentagem de pessoas que, trabalhando, não conseguem sustentar-se com o seu salário, por ser demasiado baixo. Que não lhe tenham explicado como vive uma família com o ordenado mínimo... Bom, aqui reconheço que seria difícil. Na verdade, seria propriamente impossível, visto que nenhum dos seus camaradas partidários faz a mais pequena ideia de como se faz para viver assim. Nem dos seus camaradas, nem de outros quadrantes políticos. Mas seria bom tentarem. Explicaria muito e resolveria outro tanto. Também lamento que não lhe tenham falado dos jovens que apesar dos seus vinte e tantos não trabalham nem estudam, porque não conseguem: estudar não podem; trabalho não têm. E que também não tenham perdido uns minutos a falar-lhe dos reformados, espoliados em nome de algo a que chamaram repartição equatitária de sacrifícios. Se há coisa em que os seus amigos são bons é a dar nomes complicados às coisas. Complicados mas, por vezes, muito claros quando à ideologia que os preside. Veja o Jean-Claude um pequeno exemplo, apenas, para não me alongar: Rendimento Social de Inserção. Já se chamou várias coisas. Julgo que começou por ser Rendimento Mínimo Garantido. Peço desculpa se o engano, mas julgo que foi este o primeiro nome. Os seus correligionários, uma vez governantes, decidiram que haveria de ser um rendimento de inserção, o que está muito certo, porque todo aquele que, não sendo capaz de arranjar trabalho para se sustentar e não podendo pedir subsídio de desemprego, e não tenha outro remédio senão recorrer a uma pequena ajuda do Estado, mendigando-a quase, precisa de uma reinserção. Está desfasado da sociedade, evidentemente. Há aqui um tanto de cinismo, não acha?... Do cinismo dos cínicos, da filosofia: quer-se mesmo um desapego, muito além do essencial. Um despojamento. Mas isso são outras conversas... Estou a divagar. Perdão, egrégio visitante. Teria sido interessante uma volta pelos supermercados, assim de surpresa, sem portos de honra nem nada, apenas para ver o que aquelas pessoas mais atingidas pelo ajustamento colocam nos seus cestos de compras. Que olhasse bem para a cara das pessoas nas ruas... Enfim. Teria sido outra visita. O Jean-Claude já deve ter percebido que estou descontente. Bem vê, o meu problema é fazer parte duma geração enrascada, que a sua geração pôs à rasca. Compreende, portanto, a minha má vontade para com o homo politicus. Aproveito também para lhe dizer que, muito embora tenha apreciado a sua visita, não lhe encontro beneficio. Compreenda: políticos a passear temos a rodos. Mais uma vez sou levado a pensar que terá também vindo a proveito próprio... Já que veio, uma penada sobre o seu prestígio e a sua campanha para a Comissão Europeia. Pois claro. Fez bem, que o tempo não está para inutilidades. Mas veja, algo me preocupa. Não gostei de o ver a embarcar nas coisas comezinhas da campanha que cá se faz. Estamos no fim e não conheço uma única ideia dos seus correligionários (ou doutros, diga-se de verdade) acerca do projecto que levam para a Europa. Naturalmente, levam-se a si próprios, até porque o ordenado não é mesmo nada mau. Mas ideias... Isso é que não sabemos. O que se ouve é, da direita, dizer mal da esquerda. Da esquerda, dizer mal da direita. De outros quadrantes (não sei bem como por isto, porque há listas e candidaturas que não são de quadrante nenhum) dizer mal de tudo ou simplesmente fazer festa e bater palmas. Fiquei triste, portanto, de o ver também neste registo, a dar uns recados aos bons portugueses, que são gente que acata tão bem as ridículas enormidades que as cabeças na Europa vão destilando a nosso respeito. Veja bem: vir cá dizer que os sacrifícios não acabaram; que não se pode voltar ao mesmo; que não queremos outra vez passar pelo mesmo, é ensinar o pai-nosso ao vigário. Fica-lhe mal. Já viu se eu fosse ao Luxemburgo dizer aos luxemburgueses que é um bocado aborrecido eles ganharem tanto... Ou, pior ainda, que é chato que se achem no direito de vir cá por e dispôr, como se fossem alemães... Certamente não gostaria. Até porque os seus conterrâneos também já se fartaram um pouco de si, apesar do ror de anos que esteve como primeiro ministro do ducado... Mas houve depois aquele problemazito com o espião e o relógio que não caiu bem... Mas não se preocupe. Fale no caso ao Passos. Por cá tivemos uma coisa semelhante e nada aconteceu. Nem um belisco. Ele há-de aconselhá-lo, até porque o caro Jean-Claude está mesmo convencido que ganha. Vai precisar de toda a ajuda, com ou sem relógios. Mas aceite o meu conselho: deixe de lado os discursos mais paternalistas. Não lhe convêm. Um último conselho, se me permite: se realmente quer ser Presidente da Comissão Europeia, não torne a comparar as pessoas aos bens e ao capital. Dizer que “as pessoas para mim são tão importantes como bens ou capital” é um perfeito disparate. Parece até estranho, vindo duma pessoa tão bem formada. Francamente, Jean-Claude!
Até à próxima.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Dos pobres

Tenho andado aborrecido da escrita. Há tanto para escrever... Se ao menos os meus dedos se movessem à velocidade com que as palavras me chegam... Na minha mente, tudo está escrito. Olho para o papel e vejo-o já preenchido de tanto que quero e preciso escrever... Mas não tenho escrito. E quanto menos escrevo mais me aborreço, caindo num ciclo vicioso de angústia, porque a escrita se me apresenta como um imperativo e a consciência atormenta-me porque não ligo às palavras. Eu, mero veículo instruído delas, servidor apenas da vontade delas de serem escritas, capacitado somente para lhes dar sentido e conexão e sintaxe e forma... E, portanto, como as não escrevo, elas não se fraseiam. Ainda que para mim estejam escritas.
Alguém me disse que era mesmo assim, que era normal passar períodos sem escrever. Eu respondi que não, que não era mesmo nada normal, porque sentia como a escrita me impelia a escrevê-la e não podia, porque me aborrecia escrever. É assim que tem sido. Quero e não posso. Como em tanto na vida.
Hoje, por casualidade, como quase sempre me acontece com as coisas verdadeiramente importantes de serem escritas, tomei conhecimento de realidades inquietantes. Aterradoras mesmo, quando as tomamos como certas e reflectimos nelas. Um em cada cinco portugueses é pobre. Primeiro não tomei muita atenção. Depois li outra vez. Um em cada cinco. Sim, reflectir... Não fosse a estatística ser uma coisa de números, construída de médias e cálculos avultadíssimos, diria que, à vista disto, é impossível que cada um de nós não conheça um pobre. Claro, é fácil rebater isto, porque uma franja da sociedade não conhece nenhum pobre. Aliás, é profundamente desconhecedor desta realidade, nem sequer do conceito, quanto mais da realidade de um pobre (veja-se, v.g., o último post que aqui escrevi acerca das realidades da Comporta e outras similares). Acresce a isto que a pobreza entre nós já não é apenas estrutural (que coisa ridícula de se chamar à pobreza, mas parece que é assim que se designa nas coisas sérias que se escrevem. Aqui limito-me a tentar, por via da osmose, que essa seriedade de termos se pegue a estas minhas deambulações), ou seja, que a pobreza já não é apenas de excluídos, desamparados, sem-abrigo, toxicodependentes e de todos os grupos que nos habituámos a catalogar nesta realidade. A pobreza, hoje, que faz de Portugal um País de (muitos) pobres é a pobreza da ex-classe média (serei o único a achar que o início deste colapso em que estamos foi precisamente quando nos pusémos com esta coisa de dividir as pessoas em classes?...). Pessoas que já tiveram uma vida estável, confortável, desafogada até e hoje não têm nada. Houve falências, houve divórcios, houve desemprego, houve dívidas, houve cartões de créditos em cima de cartões crédito, houve o comprar de um sonho ludibriado, vendido anos a fio, ilusório, assente em erros graves de bom-senso e da mais elementar economia... Ou então pessoas ainda com emprego, altamente qualificadas, que ganham na ordem dos 400/600 euros mensais e que não conseguem pagar renda de casa, alimentação, despesas com filhos. E passam fome. Um em cada cinco. Parece também que os dois milhões de portugueses que mais ganham têm em Portugal, auferem 7 vezes mais do que os restantes. Não quero sequer pensar se esta conta fosse feita para os cem mil mais ricos, por exemplo... Ou para os dez mil... O argumento de que os ricos não têm culpa de serem ricos tem tanto de estúpido como de demagógico. Como não sou nem uma coisa nem outra, escuso-me de aqui comentar a questão da riqueza. É evidente que não têm culpa de serem ricos (a não ser em certas circunstâncias, morais primeiro e judiciais depois). Mas eu não quero escrever sobre a riqueza. Quero escrever sobre a pobreza.
Portugal é o País da União(?) Europeia onde o fosso entre ricos e pobres é mais acentuado. Sempre foi, na verdade. Basta algum conhecimento histórico para poder dizer isto sem grande dificuldade. Portugal foi sempre um País de muito poucos ricos e muitíssimos pobres. Houve alturas em que essa diferença se esbateu, pelo menos superficialmente, outras, como agora, em que ela se acentua. A pobreza sempre esteve na realidade portuguesa. E na minha vida também. Nasci pobre, com pais pobres e avós pobres. Nunca me incomodou, porque esse contacto sempre me ajudou a estabelecer prioridades e a olhar para a vida com uma certa frugalidade. Tive também contacto com o fausto. Desejei-o. Gostava de poder dizer que esse contacto com a pobreza me preparou para a vida. Não é verdade, porque quando nos sentimos privados de algo, aspiramos a tê-lo. E isso, embora não seja um mal em si mesmo, no que toca ao facilistismo da sociedade que temos, pode ser fatal. Esse é o drama da pobreza. Ao pensar nisto, voltei a lembrar-me da senhora com sacos de plástico nos pés a servir de sapatos; da velhinha cega a cantarolar com uma voz rouca e triste, sentada num banco à frente dum grande edifício luxuoso na Baixa de Lisboa; da mulher encostada a uma parede na estação de metro, sem dizer nada e apenas com uma caixinha desbotoada na mão estendida; do Rui que escondia a cara no colo da mãe por vergonha da fome... de outros Ruis e Marias e Joões e Antónios e Andreias espalhadas por esse País, que acompanham os pais, eles próprios desenquadrados e sem saber muito bem como esconder a vergonha, nas filas para a sopa... Todas cenas muito reais e verdadeiras da minha experiência de vida. E da vida do nosso País. Cruzei-me com todos. E penso neles... E em como poderia estar eu também numa fila à espera da sopa, ou no metro de caixa estendida... Todas aquelas pessoas já tiveram outra vida. Um em cada cinco anda de caixa estendida, de rosto escondido pela vergonha, corpo arqueado pela fome em filas à espera. Enquanto escrevo, lembrei-me também do fulano que vi na televisão, já há anos, entrevistado porque a casa dele era uma espécie de gruta perto da Boca do Inferno. Queria fazer-se um retrato da pobreza (estrutural essa?) às portas da Capital. Como se dentro dela não gritasse a pobreza em todas as ruas... A certa altura, perguntaram-lhe: “Então e amanhã?. Ele riu-se, numa boca sem dentes, e respondeu: “Amanhã, o mesmo que hoje. Nada”. E ficou-se com aquilo.
Um cada cinco, nada.
E só isto importa. Sim, apenas isto. Quero e não posso. Quero gritar que parem. Que andem pelas ruas. Que vejam três gerações perdidas: dos avós, que quiseram uma vida melhor para os filhos; dos filhos que quiserem uma vida ainda melhor para os seus próprios filhos e dos filhos, educados, diplomados, preparados e agora desempregados, desamparados e pobres. E com eles os pais e os avós, despejados de qualquer remedeio, de toda a poupança e, sobretudo, de toda a esperança. Um País não se quebra pela falta dinheiro. Quebra-se pela falta de esperança. Um em cada cinco. É isto que importa.
Não há quem se levante?